Dentro da salinha com o Dr. André,
a Zezé sentou-se e foi logo avisando:
―
Doutor, eu gostaria de pedir que o senhor fosse bem rápido sobre o assunto, me desculpe, mas é porque eu tenho que levar aquele trio de meninas para almoçar e ir para a
escola, estamos quase atrasadas já.
―
Bom D. Maria José, agora já estou mais calmo mesmo e analisando as coisas com
mais frieza... enfim, o assunto seria coisa de umas três horas, no mínimo, de
discussão e mesmo assim, tenho certeza que eu ainda não sairia daqui muito
convencido de que não vi o que eu vi...
―
Como Doutor? Mas... o que é que o senhor viu de tão complicado assim? Foi só
porque a mulher se recuperou um pouco mais rápido do que o normal para esses
casos?
―
Hum... se fosse só isso seria simples de entender, mas...
O homem parou por alguns instantes
e ficou olhando para Zezé, como se estivesse medindo a capacidade dela de
assimilar o que ele estava pra lhe contar.
Zezé ficou um pouco sem graça por isso e
perguntou:
―
Alguma coisa errada Doutor? Eu disse alguma coisa...
Novamente o agitado médico
interrompeu a Zezé tentando se explicar da melhor maneira possível.
―
Não, não D. Maria José... acontece que o que eu tenho pra falar com a senhora,
eu nem sei bem se deveria ser com a senhora... mas, como a senhora foi a
primeira que apareceu aqui hoje, ligada a essa mulher... Eu até já liguei pro Dr. Álvaro, sabe? Mas ele me disse que tão cedo não poderá vir, então eu preciso
comentar isso com alguém.
―
Pois fale, Doutor, se eu puder ajudar em alguma coisa...
―
Veja, é até difícil para mim, pois eu sou bem metódico e sei que não foi engano
meu nem dos outros dois médicos que me acompanhavam, mas... olha, eu quero
dizer que eles são todos muito responsáveis e sérios... e pediram para eu não
falar o nome deles. Eu é que fiquei muito intrigado com essa história, então,
resolvi comentar com alguém... só não sei mesmo se deveria ser a senhora...
enfim, vamos lá, o que eu quero é colocar isso pra fora e esquecer esse
episódio de uma vez...
A Zezé já estava ficando inquieta com a
enrolação do médico e principalmente, por causa da hora que voava e ela sabia
que tinham que ir logo. Ela olhou para o relógio e disse:
―
Doutor, não se ofenda, mas... o senhor se importa de ir direto ao assunto?
―
Direto? Ao assunto? Bem... não tem como D. Maria José... Olha, eu não costumo
andar vendo coisas por aí...
― Vendo coisas? Como assim Doutor?...
―
D. Maria José, a D. Irene, que a senhora viu ali sentada, muito bem disposta
depois de ter tomado um bom café da manhã, com um apetite incomum para quem
estava... à beira da morte....A senhora sabe como estava a D. Irene mai s ou menos uma hora antes de vocês
chegarem?
― Pois é... aí é que começa a complicação. Quando eu entrei na UTI com os outros
dois médicos residentes que me acompanhavam, ela estava passando por uma
massagem e outros processos usados nessas circunstâncias, pois ela tinha sofrido uma parada cardíaca e o médico do plantão da noite
e duas enfermeiras estavam tentando reanimá-la quando nós chegamos...
―
Aí é que está ... eles NÃO conseguiram. Ela já tinha sofrido uma parada
cardíaca lá pelas 3:10 da madrugada e eles a reanimaram. Só que desta vez, na segunda
parada, agora de manhã, eles desistiram, fazia já um bom tempo que estavam ali
tentando e nada dos sinais vitais voltarem... então, eles olharam para nós e
apenas registraram a hora do óbito.
A Zezé simplesmente não sabia como
fechar a boca. Mil pensamentos rodavam pela sua cabeça a uma velocidade descontrolada
e parecia que seu cérebro tinha se esquecido de coisas primordiais tais como:
que músculos eu uso para fechar a boca? Será que é hora de dizer OHHHH!!! Ou
HÂÂÂÂ???? De uma boca aberta se espera algum som, mas no caso da Zezé, nada
acontecia, só depois de alguns segundos a mais ela achou o que falar...
―
Sim doutor... mas... então, é... eles resolveram voltar a massagear o coração
e...
―
Não... eles saíram enquanto eu me preparava para mostrar algumas coisas nos
procedimentos da nossa UTI aos residentes depois de uma fatalidade dessas...
― Mas
então...
―
Então... foi aí que eu vi... e os outros viram também, só pediram para ficarem
de fora disso porque... estão começando a carreira etc...
―
D. Maria José, eu sei que a senhora pode estar pensando que eu enlouqueci, mas,
eu posso garantir pra senhora que eu nunca estive tão lúcido na minha vida!!
Eu...
― Dr...
eu não estou pensando nada, aliás, eu estou pensando tanto! Quero dizer, tem
tanto pensamento rodopiando aqui na minha cabeça que eu jamais conseguiria
colocar todos para fora...
―
É... eu sei, agora imagine para mim! Como é que estão os meus pensamentos aqui,
por exemplo do ponto de vista médico... Eu estou completamente... bem, o que eu
posso dizer é que já pensei várias vezes hoje, por que foi que eu desisti de
fazer Engenharia Nuclear? Por que mesmo eu decidi fazer Medicina? Eu poderia
estar bem concentrado agora em outros problemas... feliz da vida... e não com
uma “bomba” dessas na mão...
―
Bem, doutor, e porque o senhor não trata de me dizer LOGO o que foi que o
senhor viu??
―
É... tem razão... afinal isso é comum mesmo, acontece quase sempre. Disse o
médico, querendo colocar um pouco de humor nas coisas que ele mesmo estava
relutando para admitir.
―
Bem, nós estávamos já saindo de perto do leito dela para seguir adiante quando
eu olhei para cima da cabeça dela e vi uma espécie de facho de luz branca que
começou pequeno e foi crescendo até cobrir o leito todo dela...
― Fiquei
ali, uns instantes, olhando para aquilo e tentando me convencer de que não
estava vendo nada daquilo. Nesse instante, um dos médicos perguntou:
―
De onde vem aquela luz ali, Doutor?
―
Então, olhei espantado para ele, e a outra médica, bem jovem também comentou:
―
Pois é... para que serve a luz ali agora?
―
Foi só então que eu percebi que não era apenas eu quem estava vendo a tal da
luz...
― D. Maria José, nem em um filme de ficção das mais
improváveis eu poderia imaginar uma cena tão surreal como essa que eu vi em
seguida... Aquela luz cresceu e cobriu o corpo todo dela e aí...
― E aí? Resmungou a Zezé, ainda
pasma...
―E
aí, os sinais vitais dela voltaram todos, muito normais, ela acordou e pediu,
com as mãos, para tirarem aquele tubo da
garganta dela.
― Fizemos
isso e ela começou a perguntar onde é que ela estava, quem era eu, disse que
ali estava muito frio, essas coisas...
―
Sei doutor... então o senhor teve que explicar tudo pra ela não é?
―
Exato! Respirei fundo e fiz de conta que meu coração estava batendo
normalmente, afinal, hoje em dia se vê de tudo por aí, o que seria mais esse
“fenômeno” para eu resolver. Ela estava se sentindo bem perdida mesmo, não
tinha a mínima ideia de onde estava, claro, e o que tinha acontecido desde que
ela começou a sentir as fortes dores na cabeça antes de ser internada, essas
coisas todas...
A Zezé ficou olhando com um meio sorriso
para o médico que estava muito sério. Analisando a expressão dela, o médico
tirou suas próprias conclusões.
―
É... eu sei D. Maria José, sei bem que não dá pra acreditar, mas foi exatamente
o que aconteceu... não estou doido não!
A Zezé sorriu abertamente e com
uma sinceridade bem convincente falou para o médico atônito: ― Não, Doutor, o senhor nem imagina
o quanto o senhor está lúcido! Talvez mais do que sempre esteve...
―
Eu acredito no que o senhor viu e tenho até explicação para isso, só que o
senhor não vai poder ouvir hoje, está muito tarde e eu tenho que ir... Só uma
coisinha mais Doutor. Depois disso ela se recuperou rapidamente não é?
―
Rapidamente?? Eu diria “assombrosamente”! Não parece nem de longe, nem de
perto, uma paciente que enfrentou esse tipo de cirurgia e as paradas cardíacas
durante a operação e na UTI.
―
Bem Doutor, agora eu preciso mesmo ir, tenho que arrumar as meninas para a
Escola.
―
Sim, claro, D. Maria José, eu entendo... só queria perguntar uma coisa:
Conhecendo o Dr. Álvaro como a senhora conhece, a senhora acha que eu “devo”
comentar esse ocorrido com ele?
Zezé pensou por uns instantes e
depois falou com convicção:
―
O senhor deve sim Doutor, assim, se os outros chegarem a falar alguma coisa o
senhor já contou sua versão. Só peço licença ao senhor para lhe sugerir uma
coisa...
―
Pois não...
―
Conte com exatidão o que o senhor viu...
O médico olhou para a Zezé como se
quisesse conversar mais sobre tudo aquilo, mas, por fim respondeu.
―
Claro, eu nem poderia fazer outra coisa. Na verdade, quero alguém que me ajude
a entender isso, mas tenho medo que o Dr. Álvaro não acredite nisso tudo...
―
Bem, ele vai dar a “sua” própria explicação da história, com certeza, mas ele vai respeitar o que o
senhor contar, pode ficar tranquilo Dr. André.
Dizendo isso, Zezé se levantou,
despediu-se do médico que agradeceu, aliviado, pelo fato de ter contado o
estranho episódio para alguém.








Amei esse episódio!! Ainda mais quando você teve que mudar o enredo já depois de pronto. Você é fantástica e Deus é mesmo especialista em milagres!!
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