Assim que terminaram a tarefa da
escola, as meninas foram correndo avisar a Dra. Laura que estavam prontas para
saírem. A Lívia estava mesmo muito ansiosa para rever a mãe e ter certeza que
ela estava só dormindo mesmo.
― Ótimo minha filha!!Estão todas lindas!
A Dra. Laura interrompeu o que estava
fazendo e chamou a Zezé.
―
Zezé, é bom irmos em dois carros, porque de lá já vou para o hospital, e você
traz as meninas ok?
―
Certo doutora...
Saíram todos e em pouco tempo
estavam entrando naquele corredor frio de hospital com aquele cheiro
característico que costuma fazer mal ao estômago dos mais sensíveis. Foi exatamente isso que começou a acontecer com a Lívia. Estava pálida e se
queixando de enjoo.
A Dra. Laura segurou a mão da
menina e foi conversando com ela na intenção de distrair sua atenção. Funcionou
um pouco, pois a menina se concentrava no que ela estava dizendo para poder
responder as perguntas que a médica fazia e esquecia, momentaneamente, onde
estava e por que estava ali.
Quando chegaram à UTI, a Doutora
avisou as meninas para não se assustarem com os tubos e fios em volta dos
pacientes pois era tudo normal, para que eles se sentissem melhor e sem dor. Ela
não sabia até que ponto as outras duas meninas eram acostumadas a ver esse tipo
de parafernália. Sua filha já tinha visto, então não se assustaria tão fácil.
Ela pediu para a Zezé ficar do
lado de fora dessa vez, pois seria melhor entrarem só elas para não ficar muita
gente, já eram quatro pessoas o que não é normal. A Zezé entendeu
perfeitamente.
Ao entrarem, a médica falou com a
enfermeira que indicou onde estava a senhora recém operada. Quando a Lívia viu
a mãe toda envolta em fios e com um tubo na garganta, ela ficou paralisada. Não
tinha coragem de se aproximar do leito. Começou a dizer que aquela não era a
sua mãe e que ela não estava vendo a mãe dela ali em lugar nenhum. Foi com um
pouco de insistência que a Dra. Laura conseguiu fazer a menina se aproximar da
mãe. Ela olhava e não dizia nada, apenas balançava a cabeça se negando a
acreditar que aquela era sua mãe.
―
Mas, tia... ela está com esse pano branco esquisito enrolado na cabeça... a
minha mãe não gosta de lenço na cabeça. Essa não é a minha mãe. Não parece
ela...
―
Eu sei querida... você nunca viu sua mãe doente e...
principalmente depois de
uma cirurgia pesada dessas, então, eu sei que não parece ser ela, mas é...
filha... Ela está muito abatida e diferente, mas é ela.
A menina começou a chorar e a
médica continuou tentando acalmá-la e tentando fazer com que ela entendesse aquela
situação, que nada tinha de familiar para a criança. Sua mãe sempre esteve em
pé, trabalhando e cuidando de tudo sozinha. Isso era uma situação completamente
incomum para a menina. E além de tudo a mãe nem abria os olhos...
―
Amanhã ela vai estar melhor querida, vamos esperar alguns dias e você vai ver
que tudo isso vai passar viu?
Nesse instante a Mannu, sempre tão
falante, mas silenciosa desde que tinham visto a mulher daquele jeito, foi
buscar lá no seu poço de palavras alguma coisa animadora pra dizer para a nova
amiga.
―
Lívia... é... eu não tenho muita coisa no meu poço de palavras
sobre esse
assunto sabe? Mas eu estou me lembrando de uma coisa que é mais importante do
que todos esses fios aí e esse lenço esquisito na cabeça da sua mãe...
A Lívia parou de chorar um pouco e
olhou para a Mannu esperando que ela continuasse a conversa.
―
Sabe o que que é mais importante?
―
Não... disse a Lívia.
―
É que tem muitos fios e essas coisas todas aí em volta dela, mas não tem nenhuma flor...
Nem a Camila entendeu essa ― E o que é que tem isso Mannu? ―
perguntou a amiga intrigada, ao mesmo tempo que a Dra. Laura olhava com espanto,
de novo, para a filha.
―
Bom... isso quer dizer que ela está mesmo viva! Senão ia ter aquele monte de
flores em volta dela sabia?
A Lívia e a Camila se olharam e
depois olharam para a Dra. Laura, que acabou reforçando o pensamento da filha
pra ver se pelo menos aquilo funcionaria para acalmar a Lívia.
―
É... é sim...―
disse ela meio gaguejante ―
é isso mesmo, ela está bem... bem viva.
A Lívia parou de chorar e se
aproximou um pouco mais da mulher sedada. Passou a mão pelo dedo da mão esquerda
da mãe e falou:
―
É... acho que é isso mesmo, e acho também que é mesmo a minha mãe... porque ela
tem um sinal no dedo igual a esse aqui... Mas... ela não é tão branca assim
como ela está...
―
Então ―
disse a Mannu, já em pleno controle da situação ― eu disse pra você que ela não ia logo morar no céu, senão
vai ficar difícil pra você ver ela... ela vai ficar aqui até acordar e parar de
ficar branca assim... Você pode ver a sua mãe todos os dias antes de ir pra
aula sabe? Até ela voltar pra casa com você...
―
Isso é verdade tia?... aliás... Dra. Laura?
―
É, querida, podemos ver essa possibilidade... você passa uns minutinhos aqui
com ela e depois vai pra aula ok?
Dizendo isso a Dra. Laura falou
para as meninas dizerem tchau, bem baixinho para a mulher porque elas
precisavam sair para a mãe da Lívia descansar mais um pouco.
―
Mas... ela vai escutar tia?
―
Talvez... mas mesmo que ela não escute você pode falar assim mesmo... você pode
falar o que você quiser pra ela Lívia. Disse a médica tentando dar mais um
consolo para a criança.
―
É verdade Lívia ―
repetiu a confiante Mannu ―
Pode ser que ela não escute na mente dela, mas tudo vai ficar guardado lá no
espírito dela que a Zezé disse que fica mais no fundo da gente, pra frente
ainda do poço de memória ...
―
Tá... disse a Lívia olhando fixamente pro rosto da mãe inconsciente sem notar a
cara de espanto total que tomava conta da mãe da Mannu ao ouvir tudo aquilo da
boca da filha.
―
Tchau mamãe... eu vou agora porque você precisa dormir mais, a Doutora falou...
Mas eu volto ver você amanhã tá? ― Disse a Lívia já mais calma.
―
Tchau Dona mamãe da Lívia... disse a Mannu.
―
O nome dela é Irene, minha filha, disse a doutora.
―
É... é isso mesmo, completou a Lívia.
―
Então tchau Dona Irene, repetiu a Mannu ― Tchau Dona Irene, disse também a Camila. Amanhã nós voltamos
com a Lívia tá?
―
Isso... agora vamos meninas...
Saíram olhando várias vezes para
trás e para os lados onde havia mais pessoas com tubos e fios.
Encontraram a Zezé lá fora e a
Dra. Laura avisou que as meninas já tinham visto a mamãe dodói da Lívia e que
já podiam ir embora para se arrumar para a aula. Antes de saírem, a Dra. Laura
chamou a Zezé de lado e disse:
―
Zezé, não vá para casa fazer almoço ainda, leve as meninas para comer pizza,
que eu quase não permito, e depois ainda dê um enorme sorvete pra cada uma,
elas estão precisando.
―
Poxa!!! A Mannu vai gritar em pleno hospital, então só vou contar lá fora...
Dra. Laura e riu e comentou:
―
Acho que as três vão gritar... rsrsrs!
A Mannu deu uma coleção de beijos
na mãe e todas se despediram dela para ir para casa com a Zezé. Antes de sair,
a Lívia se lembrou de dizer pra a Dra. Laura.
―
Tia... eu to muito mais alegre agora, porque eu vi a minha mãe e também porque
eu pude dormir na sua casa com a Mannu e eu queria dizer muito obrigada por
essas coisas.
―
Por nada minha querida ―
disse a médica impressionada com a gratidão da criança.
Lá fora, mais ou menos longe do
hospital, a Zezé contou dos planos para o almoço. De fato, a gritaria foi
geral!








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