Assim que saíram do hospital, a
Zezé tratou de conversar sobre qualquer coisa, menos aquilo tudo que as meninas
tinham acabado de ver. Ela perguntou quem queria ir comer no “Cabana” porque lá
tem uma pizza muito gostosa e o melhor sorvete da cidade. Todo mundo concordou
imediatamente! O EBAAAAAA foi geral de novo.
―
Está bem Mannuzinha! Então senta aí e coloca esse cinto, já ok??
Ela obedeceu logo e foram atrás do
Cabana que não era muito distante dali.
Chegaram e comeram tudo o que tinham direito e
até mais. A Zezé permitiu que elas comprassem até guloseimas para levar junto
com as frutas no lanche da escola.
―
É... vamos ver como voltam as lancheiras de hoje depois da aula. Frutas
intactas e docinhos... só o papel, né?
―
Não!!! ―
garantiu a Mannu ―
eu vou comer as frutas E os docinhos...
―
Eu não garanto nada ―
disse a Lívia.
―
Eu também não ―
reforçou a Camila.
A Zezé não perdeu tempo. Fez um
discurso bem elaborado sobre a importância das frutas para a saúde das crianças
e elogiou muito a Mannu porque ela gosta muito de frutas. O resultado foi “quase
bom”...
―
É... eu sei Zezé, porque a minha mãe sempre fala isso também ― disse a Camila concordando em
“tentar’ comer as frutas primeiro e depois os docinhos, como sobremesa.
―
Se a Camila comer eu também tento ―disse a Lívia.
―
Vocês têm que ser muito espertas. Disse a Mannu "professora". A gente tem que comer as frutas primeiro
poque daí elas continuam doces. Mas, se vocês comerem os doces primeiro, eles
vão tirar o gosto de açúcar das frutas e a boca de vocês vai dizer que a fruta
não é gostosa como os doces... Eu sei porque já fiz isso para “exprimentar”.
―
ExPE rimentar, corrigiu naturalmente a Zezé.
―
Isso... disse a Mannu, continuando com a sábia explanação ― Eu sempre como primeiro o que não
é tão doce, e depois o que é muito doce, e assim eu sinto todo o doce de tudo!
― Ótimo!
― disse a Zezé ― Então, devorem logo esse sorvete
aí, porque precisamos ir sabe? Estamos em cima da hora para a escola.
Terminaram o sorvete, muito
animadas e saíram. No carro a conversa girou em torno da grande possibilidade
de se comer as frutas antes dos docinhos que a Zezé tinha comprado para elas
levarem no lanche. A Mannu acabou convencendo as duas de que era perfeitamente
possível sobreviver comendo as frutas primeiro. Então, as três fizeram um pacto
solene de tomarem o lanche juntas e começarem pelas frutas.
A Zezé só ria escutando as falas
da Mannu, tão empolgada como sempre, que até esqueceu de por o cinto. Não pode,
D. Mannu!!!
Ao chegarem em casa foram direto
pro banho para vestirem o uniforme da escola. Durante os arranjos, com os
cabelos e as escovas caindo e os pentes sumindo, a Dona Mannu começou a fazer
uma reclamação que há muito tempo a Zezé vinha tentando controlar.
―
Ai... eu não gosto nada desse meu cabelo!!
―
Por quê? Perguntou a Lívia com espanto. ―Eu sempre quis ter o cabelo igualzinho o teu sabia?
―
Sério???? Não acredito nadinha! Meu cabelo é vermelho!!!
― Por isso que é bonito, confirmou a Lívia. Um dia eu pedi para a minha mãe deixar eu
pintar para ficar igual o teu, mas ela não deixou...
A Camila também entrou na conversa
com uma afirmação que causou muita alegria na Mannu.
―
Eu também acho lindo o teu cabelo Mannu, ele não é vermelho, a minha mãe disse
que é “ruivo” e que isso é raro.
―
E o que significa “raro”?
―
A minha mãe disse que é algo que não é todo mundo que tem... Respondeu a
Camila.
―
Huuuummmm... disse a Mannu pensativa.
Em seguida a Camila perguntou:
―
Você fica brava comigo se eu quiser cortar o cabelo igual o teu?
―
Claro que não!!! Gritou a Mannu empolgada. ― Corta, corta! Corta!!!! Daí você vai ser de verdade minha
irmã, igual a Ju e a Duda, que andam sempre iguaizinhas.
―
Eu vou pedir para a minha mãe então... se ela deixar eu corto... Você quer
cortar também Lívia?
―
É Lívia... daí a Zezé leva a gente no salão da minha mãe pra cortar com a Lu,
que foi quem cortou o meu sabe?
―
Acho que cortar não... ―
disse a Lívia ― a
minha mãe sempre diz que gosta muito do meu cabelo comprido... eu queria
pintar...
A Zezé, dentro do banheiro para
controlar um pouco a bagunça, ouvia admirada toda aquela conversa de adultas,
pensando em pintar o cabelo, cortar etc... e ela ria consigo mesma pensando em
como a criança tem essa capacidade de passar de um problema tão sério para
outros mais amenos com a mesma intensidade. Diferente dos adultos para quem
algumas coisas não têm um valor assim tão grande, para as crianças essas mesmas
coisas podem se transformar num universo de alegria ou de tristeza.
Tudo o que
as crianças vivem é com muita intensidade e sinceridade. É preciso muito
cuidado para transitar no universo desses seres...
Terminaram a arrumação toda e
correram para a escola, já estavam quase atrasadas. No caminho foram reforçando
o pacto das frutas e também o do cabelo. Ficou decidido que a Camila teria que
cortar o cabelo igual ao da Mannu. A Lívia ficou livre, porque dependia de
conversar com a mãe para saber se ela permitia isso. E, caso ela não quisesse
cortar, tudo bem, poderia tentar “pintar” de ruivo, mas só mesmo se a mamãe
permitisse.
A Zezé deixou as meninas na escola
e elas entraram animadas. Zezé voltou muito aliviada, pois poderia respirar um
pouco agora, até que o “trio” voltasse no fim da tarde. Ela voltou pensando no quanto foi importante a Mannu ter feito as pazes com a Lívia, justamente
naquele momento, pois a menina estaria completamente desamparada, sem amigas
para enfrentar aquele turbilhão que envolveu a vida dela repentinamente. Zezé
agradeceu a Deus pela sensibilidade da Mannu e também pelo reforço que chegou
com a entrada da Camila nessa confusão toda, que agora parecia estar se
acalmando já.
Só precisamos ver o que vai dar quando a Cássia souber da “estreita”
amizade que rola agora entre a Lívia, Mannu e Camila.





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