As meninas foram com a Zezé para o
quarto/camping delas e a Mannu não parava de falar, empolgada com a conversa
que tiveram com os pais. A Zezé precisou colocar a tampa no poço de palavras
dela à força, senão, as duas não conseguiriam dormir.
A Lívia já estava caindo de sono e
a Mannu ainda falando. Zezé tentava acalmar os ânimos da menina.
―
Zezé! E Lívia também, vocês acham que eu falei certo para o papai poder entender
as coisas do “Livrão”?
―
Falou sim, meu amor, agora, esqueça essas coisas senão o soninho vai embora tá?
A Lívia se manifestou também, meio
dormindo, meio acordada.
―
Você falou tudo bem certinho Mannu ― disse ela ―
tão certo que você nem errou a tua palavra...
―
A minha palavra?? Qual?
―
“Esfuziada”... você nem falou esfuziada, você falou “esfuziante” que a Zezé
disse que existe mesmo...
―
É mesmo Mannu, a Lívia está certa, eu notei isso também... você estava
certíssima essa noite, não se preocupe, o papai vai entender corretamente tudo
o que você falou, ok? Deus vai ajudar tá? Agora tentem dormir, já é tarde.
O dia amanheceu com chuva e isso
dificultou um bocado o trabalho da Zezé para acordar as meninas, que pareciam
ter mergulhado em um sono muito profundo, daqueles que amarram a gente na cama.
Também, com o barulhinho da chuva, hum, que delícia!!
―
Bom dia!!!! Quem dormiu bem? Disse a Zezé logo que entrou no quarto.
Nenhuma resposta...
―
Bom diaaaaa!!! Insistiu ela e foi abrindo a cortina.
O problema é que o seu amigo de
todos os dias, o sol, não estava ali para ajudá-la na tarefa. As meninas nem se
moveram na cama.
Zezé olhou para o tempo lá fora e
olhou para as meninas na cama.
Ficou com pena de tirar as duas daquele sono tão
gostoso. Fechou a cortina e voltou, pé ante pé, para a copa onde os pais da
Mannu esperavam para o café da manhã.
―
Dra. Laura, com licença, eu não tive coragem de arrancar as meninas da cama.
Elas estão dormindo profundamente e nem sequer se moveram quando falei com
elas, devo insistir?
―
Não... não Zezé... deixe que elas durmam mesmo. Elas precisam descansar, e essa
chuvinha está uma maravilha para dormir. Quem me dera poder ficar na cama até o
raiar do “meio dia” hoje.
―
E eu então ―
disse o Dr. Álvaro ―
daria metade do meu salário desse mês pra poder ficar na cama até o meio dia
hoje.
―
Se o senhor quiser me dar a metade do seu salário desse mês, eu posso ir trabalhar
no seu lugar Dr. Daí o senhor fica dormindo sossegado aqui... Disse a Zezé
espirituosa.
―
Hum hum, kkkkkkkk! Essa é uma troca meio arriscada Zezé, não vou poder “dormir
sossegado” com isso, afinal, eu não sei usar as tuas ferramentas na cozinha...
―
KKKKKKK! É... agora imagine eu usando as suas “ferramentas” no cérebro de
alguém lá no hospital... Eu hein?!!!
―
É... melhor deixar como está né Zezé? Você nos seus quitutes maravilhosos aqui
e eu na minha “lambança” toda lá...
―
Verdade Doutor, cada um na sua...
Dizendo isso, a Zezé foi para a
cozinha conversar com a Nina sobre o que fariam para o almoço naquele dia.
Durante o café da manhã o Dr Álvaro
e a Dra. Laura comentaram a conversa da noite anterior, pois quando foram
dormir não tiveram ânimo e nem coragem para isso.
―
E então, o que você achou da conversa de ontem? Não estou certa quando digo
que, às vezes, nossa filha parece ter mais de 16 anos, e não 6?
―
É... fiquei muito impressionado... e preocupado também. Não quero que a Zezé
coloque coisas irreais na cabeça dela e crie um mundo impossível dentro da
mente da menina. Você sabe como é a Mannu, ela leva tudo muito a sério.
―
É... eu também ando preocupada com isso... Será que tudo isso é ilusão mesmo?
Quero dizer... não seremos nós, de repente, os “iludidos” aqui?
―
Que é isso querida? Está com alguma “pane mental” agora? Nem fale uma coisa
dessas! Já basta o André, com a história maluca dele lá...
―
André? Quem, o médico?
―
É, ele mesmo... você não tem ideia o que eu fiquei sabendo pela boca das
enfermeiras lá do HUF.
―
Não tenho ideia mesmo, diga!
―
Bem, é uma história complicada... o problema é que os dois residentes que
estavam com ele confirmam a coisa, então só posso pensar em uma espécie de “alucinação
coletiva”.
―
Como assim amor? Que história é essa?
―
Disseram que a mãe da menina tinha sofrido outra parada cardíaca, a segunda
daquela madrugada. Quando ele chegou lá, era bem cedo e eles estavam tentando
há um bom tempo reanimá-la, mas sem sucesso. Então desistiram. Saíram para
providenciar a remoção dela etc... e enquanto isso o André ficou ali , com os
dois residentes para explicar umas coisas da UTI que seriam mudadas neste mês.
Nisso... dizem... que surgiu uma “luz”
diferente e bem intensa que foi se espalhando pelo corpo da mulher e, de
repente, os sinais vitais voltaram e, está lá a mulher, se recuperando de uma
cirurgia daquelas como se fosse de uma gripezinha qualquer. Dá pra entender?
―
Depois, no caminho eu te conto mais uns detalhes, mas essa é a conversa da semana
lá no HUF.
Os dois terminaram o café da manhã
avisaram a Zezé que estavam de saída e foram para mais um dia de lutas e
imprevistos. No caminho, ele recontou a história misteriosa da D. Irene e
também lembrou-se de contar algo importante para a esposa.
―
Ah! Querida! Não falei ontem porque, francamente, aquela história toda do
Emanuel da Mannu bagunçou tanto a minha cabeça que eu até esqueci... Lembra do
telefonema, que eu atendi na hora da conversa com ela?
―
Sim, lembro, claro...
―
Então... o sujeito se identificou como um tal de Fábio, tio da Lívia. Pediu pra
falar com a menina, mas eu preferi dizer que ela já estava dormindo... primeiro
porque eu quero averiguar essa história, saber se é verdade mesmo... Segundo,
porque se eu chamasse a menina iria interromper, de novo, a tal da história da
Mannu e a culpa ia acabar sendo minha, então...
― Claro... acho que você fez bem mesmo, até porque não se sabe se é mesmo tio dela
ou aquele “padrasto” louco que a Zezé comentou. Irmão da D. Irene então... isso seria muito bom! Pelo menos ela não estaria completamente sozinha depois de tudo isso.
―
Sim, isso seria bom mesmo. Ele disse que quer falar comigo, vai ao
Hospital hoje e pediu para ver a irmã etc. Disse, inclusive, que qualquer
despesa dela ele vai pagar direitinho etc... Será? Bom, pague ou não pague, a
mulher está viva né?!
―
É amor... que bom! Isso é o que importa de fato.
Em casa, as duas acabavam de
acordar e chamaram a Zezé para saber porque estava ainda escuro.
―
É porque está uma chuva e tanto lá fora! Se vocês quiserem dormir mais um
pouquinho, aproveitem!
―
HUUUUUMMMM... se espreguiçou a Mannu...
A Lívia, preocupada em ver a mãe,
não quis saber de dormir mais.
―
Eu acho que eu vou “acordar”, porque eu tenho que
fazer tarefa, e ir ver a mamãe
ainda...
―
Lívia, você não “vai acordar,” porque você já está “acordada”... você está até
falando... Disse a Mannu, se espreguiçando de novo pra ter coragem de sair da
cama.
―
É... é mesmo... então, eu vou “levantar”...
―
Você vai levantar o quê? O colchão? Perguntou a Zezé aproveitando a provocação
da Mannu.
―
Como assim Zezé? perguntaram as duas ao mesmo tempo...
A Zezé riu e disse que estava só
brincando com a Lívia, porque, na verdade, ela tinha usado um verbo “acidentalmente”
pronominal, só que sem o pronome.
―
Ih... não entendi Zezé... Disse a Lívia
―
Nem eu, disse a Mannu fazendo uma careta. ― A aula já começou é? Nós nem tomamos café ainda... reclamou
ela.
Zezé riu e falou:
― Não minhas princesas! Ninguém
merece acordar com gramática nos ouvidos né?
Mas acho que vou explicar assim
mesmo tá? Basta vocês saberem que esse tipo de verbo vem, às vezes, junto com um pronome. No caso dela, seria “me
levantar”, porque ela está falando dela mesma. Se ela disser só “levantar” fica
faltando alguma coisa... ela vai levantar o quê? Nesse caso, é ela mesma, então
ela deve dizer: Vou “me” levantar... Entenderam?
― Hummm... mais ou menos Zezé! Mas eu não tô querendo entender
agora... Quero ir comer isso sim. Disse a Mannu com a completa concordância da
Lívia.
Tem razão Mannu! Nada de gramática
de manhã e com o estômago vazio! HUMPF !!!! Ninguém merece mesmo!!!







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