Entraram no edifício Belmonte e encontraram a
mãe da Camila no elevador. Só assim para a Camila ir direto para a casa dela,
senão ela iria direto para a casa da Mannu.
―
Oi mamãe!! Que surpresa legal!!! Você já está aqui também!! Disse a Camila
quando entraram no elevador.
―
Oi Filhota! Até que enfim encontrei você né? Agora mudou-se pra casa da Mannu e
nem liga pra mamãe mais!
―
Ai mamãe! Não fala isso! Claro que eu ligo pra você, hoje por exemplo eu acho
que eu vou dormir aqui com você, porque a Lívia já está bem mais alegre, sabia
? A mamãe dela não está mais dormindo!
―
Hãããã!! Que coisa boa!! Lívia, graças a Deus né?
―
É sim tia Mel! Eu fiquei “esfuziada” de alegria sabe?
― “Esfuziada”??
Disse a mãe da Camila com cara de espanto misturada com a cara de quem procura
algo na memória. Será que a palavra existia e ela tinha esquecido? Parecia uma
palavra convincente mesmo...
As três meninas começaram a rir,
enquanto a Zezé tratava de explicar para a Mel o significado de “esfuziada”.
Parece que a palavra seria encorporada no vocabulário das meninas, mesmo não
existindo, pois afinal, expressava tão bem o sentimento delas naquele momento.
Antes de saírem do elevador, a
Camila lembrou-se do “trato do cabelo” e não perdeu tempo!
―
Mamãe, nós tínhamos combinado de eu cortar o cabelo igual o da Mannu, você deixa??
E a Lívia vai pedir pra mãe dela se ela pode pintar o cabelo da cor do dela...
―
Como é? A Lívia vai “pintar” o cabelo da cor do dela? Por quê???
―
É porque eu acho linda a cor do cabelo dela, e eu queria muito que fosse igual,
tia.
―
Bom... respondeu a Melissa ―
A Camila cortar, até poderia, se ela gosta do corte e se ficar bem pra ela...
Mas acho que pintar é arriscado, você não acha Lívia? Já pensou se depois de
pintado você não gosta da cor em você?
―
Bom... eu nem tinha pensado nisso... Disse a Lívia já temerosa.
―
Mas não é só isso... Além de tudo, pintura é uma coisa forte, você é muito
novinha para começar a estragar o seu cabelinho que é tão bonito também. Eu
gosto da cor do seu cabelo!
Não deu mais tempo de terminar a
conversa pois o elevador chegou no andar das duas. A Camila e a mãe desceram se
despedindo rapidamente. Combinaram de ir fazer a tarefa no dia seguinte na casa
da Camila, para a Zezé ter um pouco mais de folga.
Chegando no andar delas, que era
um acima do andar da Camila, a Mannu e a Lívia correram para o ritual do banho e
depois, vieram as maçãs picadinhas com um pouco de sal e limão para aguentarem esperar
a chegada do papai e da mamãe da Mannu, que hoje viriam jantar com elas.
Quando os pais dela chegaram foram todos para
a mesa do jantar, porque o pai da Mannu
falou que se ele demorasse mais cinco minutos para comer alguma coisa ele
cairia desfalecido no chão.
A Mannu arregalou os olhos e
perguntou.
―
Como assim papai? Se você está “desfalecido” não quer dizer que você não
está falecido? Por que, então, que você iria cair... não entendi! Você ia cair
só se você estivesse “falecido” que é o mesmo que morto não?
Os adultos riram e trataram de
resolver a dúvida dela.
―
Meu amor, disse o pai, nem sempre “des” significa o oposto ou a negação de uma
palavra. Nesse caso, “desfalecido” significa, desmaiado, inconsciente, sabe?
―
Ah... Disse a Mannu. Pois então é por isso que eu “crio’ algumas palavras estranhas,
porque eu pensei que só precisava colocar um “des” na palavra pra ela virar o
contrário... Por ex: Virar- desvirar; ligar-desligar; armar- desarmar, então
não é, né?
―
Não, meu anjo, existem outras palavras que já carregam um “des” com elas, mas
não quer dizer o contrário... Por ex: Matar é um verbo e significa tirar a vida
de algo ou alguém. Só que “desmatar” é outro verbo bem diferente e não significa o contrário de "matar", até porque,
você nunca consegue “desmatar” alguém, ou algo, um animal, por ex. Se algo
morreu, nunca mais volta a viver, e se você foi quem matou, você não pode “desmatar”... Isso não existe , entende? Não sei se eu fui claro filha...
―
É... mais ou menos papai... mas eu entendi. Então, existem palavras com ‘des”
que não significam o contrário né? O “des” ali é delas mesmo né?
―
É... pode-se dizer assim...
―
Mas papai, depois eu quero saber o que é “desmatar” então. Mas... Só que eu preciso
dizer uma coisa primeiro: Eu conheço uma pessoa que “morreu” e depois “desmorreu”...
Nesse instante a Zezé correu para
tentar amenizar as coisas, porque sabia que uma conversa daquelas antes do
jantar seria o “desastre” da noite.
―
É... hã hã hã... ―
riu a Zezé, meio desconcertada ― Nem
se espante com isso Dr. Álvaro! A Mannu está falando de algumas “histórias” que
ela escutou e que depois ela explica, não é mesmo Mannuzinha? É melhor vocês
começarem a comer logo, porque senão a comida vai ficar fria, e aí, todo mundo
vai reclamar.
―
É isso mesmo!! Disse o Dr. Álvaro, para o alívio da Zezé...
― Eu estou morrendo de fome, isso
sim! Disse a mãe da Mannu ―
Vamos lá meninas! Depois você nos conta a história da pessoa que “desmorreu”
tá minha filha?
―
Tá mamãe, eu quero mesmo contar, porque é bem bonita a história, a Zezé que me
contou...
A Dra Laura só olhou para a Zezé,
imaginando que aquilo, com certeza, só poderia ser coisa mesmo da Zezé com as
suas crenças.
A Zezé, por sua vez, saiu de fininho, esperando
que a conversa não progredisse, e não progrediu mesmo, porque estavam todos com
fome e a comida estava bem apetitosa!
Depois do jantar, foram todos para
a sala de TV e o Dr. Álvaro falou uma coisa que nem a Mannu sabia ainda:
―
Lívia, eu soube que sua mãe está bem melhor e eu fico muito feliz com isso,
porque fui eu mesmo que fiz a cirurgia dela, então isso é um alívio também para
mim. O caso dela tem sido muito comentado lá no hospital, pois a recuperação
dela foi uma coisa quase inexplicável, muito rápida!
Tanto a Lívia quanto a Mannu ainda
não sabiam quem tinha operado a D. Irene, então foi uma surpresa para as duas.
―
Pode me chamar de “tio” querida, eu não me incomodo não!
―
Pois então, é... “Tio”, eu queria dizer muito! Muito! Muito! Obrigada mesmo!!!
Porque se não fosse o senhor, acho que a minha mamãe não estaria viva agora!
Dr. Álvaro ficou comovido com a
expressão de gratidão tão sincera que ele viu no rosto da menina. Ficou até
meio embaraçado com a limpidez do olhar carinhoso que ele recebeu naquele
momento.
―
Que é isso querida! Nem precisa agradecer. Qualquer outro médico teria feito o
mesmo pela sua mãe. Ela é que é muito forte e resistiu bem!
―
Ela é mesmo bem forte, mas eu sei,... tio... ela ainda ficava constrangida de
chamar o médico de “tio” ―
na verdade, eu sei que se fosse outro médico talvez não fosse se importar assim
com a minha mãe...
Ele se espantou com a noção clara
que a menina tinha de como certas coisas corriam no meio da classe médica. Ele
mesmo tinha ouvido colegas dizendo que nem perderiam tempo operando uma mulher
como aquela, que não tinha quase nada de chances de sobreviver e muito menos de
pagar por tudo o que seria necessário para o seu restabelecimento completo.
Ficou envergonhado e triste por
ter que admitir que a menina estava certa. Ele sabia como as coisas aconteciam no seu mundo. Mas sabia também de tantos outros que, como ele, ainda fariam até
sacrifícios para salvar a vida de uma pessoa carente, como era o caso da mãe da
Lívia.
A Mannu correu para dar um abraço
no pai; agradecida e orgulhosa pelo que ele havia feito.
A menina não perdeu tempo, correu também e abraçou o médico com muito carinho e gratidão, pois era exatamente o que ela estava querendo fazer também!
A Dra. Laura, que
estava ali ao lado, ficou com os olhos cheios de lágrimas, mas disfarçou muito
bem, não era acostumada a demonstrar sentimentos tão facilmente.
Ela tratou logo de enxugar as lágrimas teimosas para disfarçar. Em seguida, olhou para os três no sofá e sentiu
muita ternura pela cena que ela estava presenciando, pois sabia que o marido
era um bom pai, carinhoso e muito paciente. Sabia também que eles não poderiam mais ter outros filhos para
fazerem companhia para a Mannu. Isto, na verdade, era um motivo de tristeza que ela
guardava apenas consigo mesma.








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