Zezé voltou para o escritório onde todos a aguardavam e entregou o “livrão” nas mãos do médico que olhou, meio perdido, para a Bíblia sabendo que não poderia nem mesmo imaginar onde estaria o tal livro que a filha
tinha mencionado. Nunca havia aberto esse livro e agora mal sabia por onde
começar. Não tinha a mínima ideia de como encontrar o tal do texto que a filha
tinha falado.
Entregou-o de volta para a Zezé e, reconhecendo sua ignorância diante de algo
que nunca tivera interess e
em conhecer, pediu, em um tom mais ameno, que ela encontrasse o texto para ele.
Zezé encontrou o texto que a Mannu
tinha comentado e entregou para o médico que, desta vez, relutou em pegá-lo da
mão dela. Por fim, pediu que ela mesma lesse, em voz alta, para ele entender do
que se tratava. Zezé, para fazer sentido e dar um pouco do contexto para o
médico entender, começou a ler do verso
9 até o verso que a filha tinha mencionado:
“...Estava chegando ao mundo a verdadeira luz,
que ilumina todos os homens.
Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus...”
João 1:9-12
Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus...”
João 1:9-12
Quando ela terminou a leitura, o
médico olhou para ela, ainda sem saber o que dizer. Seu alívio para a tensão do
momento veio pela boca da sua filha.
―
Tá vendo papai? Está bem claro, escrito ali, que quem crer no seu nome se torna
filho de Deus. Isso é sinal que não é todo mundo que é filho de Deus, mesmo que
Ele tenha criado todo mundo, quem não acredita n’Ele, não é filho d’Ele, é só
criatura d’Ele ainda...
O médico pegou a Bíblia da mão da
Zezé e releu o texto começando do verso 1. Ele não leu em voz alta, fez apenas
um reconhecimento do terreno em que estava pisando. Não sabia por que, mas
sentia-se infantil e sem palavras para explicar o que lia. Disfarçou um pouco,
e disse qualquer coisa só para não dar a impressão que tinha sido impactado por
aquelas palavras. Na verdade, o texto lhe parecia claro mesmo, e não oferecia
outra possibilidade de interpretação como ele imaginara.
Sua filha cresceu de repente
diante dos seus olhos e ele se sentiu impotente diante do olhar confiante e
límpido da criança, que o encarava sem reservas e sem acusação também. Porém,
ele se sentia acusado, sem saber ao certo de quê. Como se alguém invisível o
estivesse confrontando, e não era sua filha, ele sabia disso.
―
É... disse ele ―
está escrito isso aqui, sim, mas temos que ler muitas vezes para pegar bem o sentido
de tudo entende filha?
―
Entendo sim, papai, eu já li muitas vezes com a Zezé, né Zezé?
―
É... lemos mesmo, e pedimos ajuda de Deus para entender bem... Disse a Zezé
tentando se justificar diante do que o médico tinha dito antes sobre as pessoas
não serem capazes de interpretar aquilo que leem corretamente, muitas vezes.
―
É como eu disse Doutora, eu entendo porque estudo desde criança, mas não é só
isso. Eu sempre peço orientação do Espírito de Deus, para eu não entender só
com a minha mente, senão eu estrago tudo aí...
A Dra. Laura achou essa resposta
muito impressionante e notou que o marido não tirava os olhos do Livro.
―
É... pois é... um texto bonito mesmo... poético até, fala que as trevas não
conseguem derrotar a luz, lógico, mas a luz também só brilha onde há trevas né,
senão ninguém poderia ver a luz... Disse o médico, tentando preencher o
silêncio que se fazia na sala sem demonstrar o quanto tinha sido tocado por
aquelas palavras que lhe pareciam até meio “incoerentes”, já que ele não
acreditava que o mundo tinha sido criado pela Palavra de Deus, como mostrava o
texto. No entanto, ao mesmo tempo, tudo aquilo lhe parecia tão mais profundo do
que ele estava conseguindo assimilar.
Mais uma vez, a filha serviu de
luz para sua ignorância.
―
Papai, essa luz que você falou que brilha nas trevas é bem o Príncipe que eu tô
falando pra vocês... é o Emanuel que é o
Filho de Deus e que apareceu no meu sonho também. Ele é que veio aqui pra o
nosso planeta pra brilhar pras pessoas enxergarem as coisas direito entende?
― Olha
papai, as pessoas, muitas delas, não enxergam que elas precisam de Deus... então,
eu acho que tem alguma escuridão em cima delas sim, talvez na alma delas onde a
gente não vê, e não no corpo que a gente vê... Nem elas conseguem ver isso por
causa dessa escuridão que está em cima delas... ou dentro, não sei...
O médico olhou, pasmo, para a
filha, e, novamente sentiu-se como um analfabeto, espiritualmente falando. Sentia
que devia medir muito bem as palavras, pois não estava lidando com uma coisa
qualquer. As crianças são meio inexplicáveis de vez em quando...
Olhou para a esposa que estava,
igualmente estupefata, com as palavras que ouviu da boca da filha. Parecia que
ela não tinha apenas seis anos, falava com uma sabedoria desconhecida por ela e
pelo marido.
―
Filha ―
disse ele ― pense
um pouco comigo. Você diz que esse Emanuel é o Filho de Deus, mas eu já ouvi
falar que Jesus é o filho de Deus, ou então Cristo que é o outro nome de Jesus.
Que Emanuel é esse afinal? Acho que sua cabecinha ficou meio confusa com tudo
isso não?
A Zezé não pode mais ficar calada
e manifestou-se antes ainda da resposta da Mannu, que já estava abrindo a boca
para explicar as coisas para o pai. Sim! Ela tinha explicação para isso.
―
Dr. Álvaro, me desculpe, eu posso responder isso por ela? Porque eu não quero
que vocês pensem que eu confundi as coisas na cabeça da Mannu. Tudo é
explicável aqui.
―
Pois então fale Zezé, acho melhor ouvir o que você tem a dizer também, afinal é
por sua causa que ela está nesse estado...
―
É verdade, antecipou a Mannu, antes ainda da Zezé se explicar. ― É mesmo por causa da Zezé que eu
estou nesse estado... “ESFUZIANTE”!!! Disse ela com um grande sorriso para o
pai, que ficou mais desconcertado ainda.
― Pois bem Doutor, o nome do Filho de Deus é mais conhecido como Jesus, realmente, mas, Cristo não é um “outro” nome dele, ou até o “sobrenome” dele como muitos pensam. Cristo é um título, que significa “MESSIAS”. Por isso é que muitos falam Jesus O CRISTO, ou seja, Jesus O MESSIAS.
O médico não tinha conhecimento de
nada disso e, ficou admirado que a Zezé soubesse dessas coisas.
―
Bem, Zezé, quem mexe com essas coisas espirituais é você, não eu... Então você
deve estar certa, acho... Disse ele desconcertado.
―
Tenho certeza que estou Doutor... Estudo isso desde criança.
― Então
me explique também sobre o nome Emanuel... Por que a Mannu acha que esse também
é um dos nomes do Filho de Deus? Se é que Ele tem mesmo um filho...
―
Sim, Doutor, Ele tem mesmo um Filho e esse Filho é aquele chamado de “Palavra”,
aí no texto que o senhor leu em João 1. Pode conferir aí: “No princípio era
aquele que é a Palavra, Ele estava com Deus, e era Deus. Primeiro verso que o
senhor leu aí...
― Hum...
sim, mas... aqui não está dizendo que essa Palavra era filha, ou filho, de Deus. Como você chegou a essa conclusão?
―
É preciso ter outros conhecimentos sobre a Bíblia para poder entender os textos
em seus contextos Doutor.
―
Hummm... texto no seu contexto... repetiu o médico, admirado, olhando para a
Zezé como se nunca tivesse visto aquela pessoa na sua frente.
―
Não vai ser com essa simples conversa de hoje que eu poderei explicar certas
coisas desse livro para o senhor, Dr. Há muitos textos que eu precisaria juntar
a esse para que o senhor possa compreender do que é que estamos falando.
Mais uma vez, o médico teve aquela
sensação “desconfortável” de ignorância plena. Ele realmente, percebia que as
coisas não eram tão simples assim como ele sempre pensara a respeito da Bíblia.
Mas agora, algo lhe dizia que ele era um analfabeto nessa questão, e que jamais
conseguiria rebater os argumentos da sua própria empregada.
Então, resolveu no seu interior,
que iria primeiro ler mais um pouco sobre tudo aquilo para depois querer entrar
em conversações mais profundas com a Zezé, e mesmo com a filha, diante de quem
sua sensação de “analfabetismo espiritual” parecia se sobressair mais ainda!
― Bem, disse ele, então, vamos ter que conversar mais sobre
isso Zezé, porque eu estou preocupado com o que anda entrando na cabeça da
minha filha. Quero que você me explique melhor essas coisas todas que ela anda
falando ultimamente. Ouviu isso minha filha? Nós vamos fazer, sempre que der,
uma reuniãozinha dessas com a Zezé, porque eu quero estar a par do que vocês
andam conversando ok?
― Ebaaaaa! disse ela, ok papai!! ok mesmo, né Zezé??
Zezé, na verdade, achou isso
maravilhoso. Sabia que, pelo menos teria chances de se explicar. Não seria
mandada embora no dia seguinte...
―
Ótimo! Agora meninas, acho melhor deixarmos o restante para outro dia, porque
estou vendo que a Lívia e você já estão com os olhos pequenos de novo, não acha
minha filha?
―
Papai, mas eu nem cheguei na parte principal...
A Zezé socorreu a todos os
sonolentos dali.
―
Verdade Mannu, mas nem vai dar para chegar hoje na parte principal... ainda
temos muita coisa antes disso, para dizer ao seu pai, certo meu amor? Agora
vamos pra caminha vocês duas.
Ela concordou dando um enorme
bocejo e insistindo que não estava com sono ainda...
Distribuíram os beijos de boa
noite e foram para o quarto, deixando para trás, um Doutor e uma Doutora muito
encafifados!










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