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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DIA CHEIO - CAPÍTULO 55



Depois de prontas, as meninas foram para a copa com a Zezé, tomaram o café da manhã direitinho, comeram bem, e em seguida, a Camila chegou. Hoje é dia de tarefa na casa da Mannu, chova ou faça sol, e hoje está chovendo um bocado. A Camila chegou com cara de sono também, mas estavam prontas para “derrotar” todas as tarefas da escola.

A Zezé sugeriu que elas fizessem a tarefa tranquilas, almoçassem primeiro e só depois iriam,  já prontas para a escola, visitar a mãe da Lívia. De lá já iam direto para a aula. Elas concordaram e assim foi. Fizeram todas as tarefas, e foram para o hospital.

Chegando lá, uma boa surpresa aguardava a Lívia, aliás “duas” boas surpresas.


A Lívia conhecia por foto, o tio Fábio, mas fazia muito tempo que não se viam, pois o padrasto, que agora tinha desaparecido, não permitia. Ela tinha uma vaga lembrança, de uma pessoa muito carinhosa com ela, e por isso, quando o viu, sua reação foi contida mas, agradável. Ele lhe passava boas sensações. A mãe falava bem dele, apesar dos entraves que tiveram no passado.

Ele era um empresário do ramo de tecidos e estava muito bem financeiramente. Quando soube do que tinha acontecido  com a irmã, procurou informações na Escola da Lívia, único elo que eles tinham. Lá, a coordenadora passou todas as informações que ele precisava. Ele não apareceu antes porque estava viajando e só tinha retornado havia dois dias.



Isso mesmo querida! Ainda se lembra do tio Fábio?

Lembro sim mamãe! E eu via sempre fotos dele lembra? Você vivia me mostrando escondido do Seu Aurélio...pra ele não brigar com a gente...

É minha filha... Agora que ele não está por perto podemos aproveitar a conversar bastante com tio Fábio né?

Que bom que você não me esqueceu completamente minha querida!! Venha cá me dar um abraço, vem!! Corre!!! Disse o tio, querendo compensar o quanto antes sua ausência nesta fase tão difícil que ele nem sonhava que as duas estavam passando.

 A menina deu um abraço meio tímido no tio, que parecia não querer mais soltar a criança.
Com certeza, sua consciência pesava muito por lembrar que não tinha apoiado a irmã durante a gravidez daquela menina que agora retribuía com um sorriso tímido e um abraço rápido, mas carinhoso. 

Ele fez um carinho no cabelo dela e falou com a voz bem embargada:

Querida, titio quer muito que vocês vão lá para a minha casa ouviu? Eu não vou deixar mais ninguém separar sua mãe, você e eu, já basta!

A menina ficou muda, olhando para o tio que tinha lágrimas nos olhos. Sem saber o que dizer, ela olhou para a mãe em busca de palavras, mas a mãe também estava lutando contra o choro que por tanto tempo tinha segurado.

Quem resolveu o problema da falta de palavras do momento foi a Mannu, é claro, com o poço transbordante que ela tinha, logo achou o que falar de maneira bem espontânea e empolgada:

Gente! Isso é tão lindo que parece que eu ouvi um monte de aplausos aqui... Será que são os anjos que estão comemorando?




Acabaram todos rindo da empolgação da Mannu que continuava insistindo que aquilo era uma coisa que o céu comemora muito. E sabe? Acho que ela tem razão mesmo.

Olha, eu to falando sério! Lá no céu tem um monte de anjos cantando!! E acho também que estão aplaudindo. Lá essas coisas de perdão e de amor são muito importantes!! Eu sei... Disse a Mannu para arrematar suas considerações sobrenaturais.

E ninguém ousou contradizer a sua alegria genuína. A mãe da Lívia, enxugando o rosto, olhou para a Mannu e disse:

Olha, que tem anjo aqui, eu não tenho nenhuma dúvida! Estou olhando pra quatro deles, agora mesmo! Eu nem sei como agradecer tudo o que vocês fizeram pela Lívia e por mim. Já estou sabendo que quem me operou foi o seu pai Mannu, e eu nunca vou ter como pagar tudo isso. Vou pedir muito lá para o dono do céu abençoar a sua família viu?

O irmão, tio Fábio, aproveitou para sossegar a D. Irene sobre o assunto.

Não se preocupe “Nêne” esse era um apelido de infância dela. Era como ele a chamava desde que eram crianças Já conversei com o Dr.Álvaro e já acertamos tudo. Está tudo devidamente pago. Era o mínimo que eu poderia fazer. Seu pai foi um herói para nós mocinha! Disse ele, olhando para a Mannu que abriu um sorriso orgulhosa do pai.
 
Mas... o senhor sabe que não foi só o meu pai daqui que cuidou dela né? disse a Mannu olhando para o tio da Lívia que não entendeu muito bem o que ela disse.

Ah... sim! Eu sei que muitos outros, as enfermeiras e auxiliares, o Dr. André também, todos ajudaram. Mas...

Não Seu Fábio! Mas não é isso que eu tô falando não... É que eu tenho dois pais. Um aqui e outro lá, disse ela apontando para cima. 

E os dois cuidaram dela, sabe?







É que eu tenho o meu pai daqui que é o Dr Álvaro e que operou a D. Irene. E eu tenho mais um pai lá em cima, no céu, que é Deus, e que é muuuuito Poderoso. Ele sabe mais até do que o meu pai daqui da Terra, sabia? E nós pedimos pra Ele ajudar na cura da mãe da Lívia, não foi Lívia?








 Nesse momento a Lívia também se empolgou para comentar isso. Ela disse algo que impressionou muito a todos ali, principalmente a sua mãe.

É verdade tio Fábio!! Eu lembrei agora que eu acordei chorando de madrugada, com medo de... perder a minha mamãe... e a Mannu orou pra pedir pro “Papai do céu” pra Ele cuidar da minha mãe e de mim. E sabe? Eu agora sei que Ele também quer ser meu “Pai”, e já que eu não tenho nenhum, eu achei ótimo... Eu pedi pra ele ser meu pai também... né Mannu?

É sim... nós falamos com Ele e agora Ele é também “Pai” da Lívia, porque ela acredita que Ele existe de verdade e que gosta dela... É só isso que precisa pra Ele querer ser seu pai, sabia?

Nem a Zezé escapou da cara de surpresa, com toda essa conversa.


A Zezé ficou meio perdida porque percebeu que o tio e a mãe da Lívia estavam até assustados com isso. Então, ela tratou de avisar as meninas que estava na hora de irem para a Escola.

O tio perdeu a cara de espanto e lembrou-se de avisar a Lívia que no final do dia ele mesmo iria buscá-la na Escola, pois sua mãe já teria recebido alta lá pelo meio da tarde e ele ia levá-la para a casa dele. A partir daquele dia elas teriam uma nova casa porque ele não poderia deixar a irmã sozinha depois de uma cirurgia daquele porte. E lá, em sua casa, ela teria assistência total, o dia todo, com empregados à sua disposição, incluindo uma enfermeira.

A Lívia arregalou os olhos e olhava para a amiguinha Mannu sem acreditar naquilo tudo. A Mannu, ficou feliz e triste ao mesmo tempo, ela disse:

Lívia, isso é muito mais do que lindo!! Você vai ter uma família agora!! Você não vai mais precisar ficar com medo do Seu Aurélio!! E sua mãe vai estar lá, com você! Deus é muito lindo não é??  Mas... eu vou sentir falta de você lá em casa...


Bastou esse comentário da Camila para todas começarem a rir e dizer que a hora era de alegria sim!!! Afinal, ninguém ia se separar, elas só iam cada uma para sua casa, para se verem no outro dia!! E, além de tudo, a Camila morava bem pertinho da Mannu, ela não estaria longe, só no andar de baixo!! Ai que alegria!!! As três se abraçaram e começaram a pular... ooops hora de sair mesmo!!


Despediram-se da D.Irene, do tio da Lívia e saíram “faiscantes” como sempre, deixando os dois sorrindo no quarto do hospital.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

UMA SEXTA FEIRA CHUVOSA! CAPÍTULO 54


As meninas foram com a Zezé para o quarto/camping delas e a Mannu não parava de falar, empolgada com a conversa que tiveram com os pais. A Zezé precisou colocar a tampa no poço de palavras dela à força, senão, as duas não conseguiriam dormir.

A Lívia já estava caindo de sono e a Mannu ainda falando. Zezé tentava acalmar os ânimos da menina.

Zezé! E Lívia também, vocês acham que eu falei certo para o papai poder entender as coisas do “Livrão”?

Falou sim, meu amor, agora, esqueça essas coisas senão o soninho vai embora tá?

A Lívia se manifestou também, meio dormindo, meio acordada.

Você falou tudo bem certinho Mannu disse ela tão certo que você nem errou a tua palavra...

A minha palavra?? Qual?

“Esfuziada”... você nem falou esfuziada, você falou “esfuziante” que a Zezé disse que existe mesmo...

É mesmo Mannu, a Lívia está certa, eu notei isso também... você estava certíssima essa noite, não se preocupe, o papai vai entender corretamente tudo o que você falou, ok? Deus vai ajudar tá? Agora tentem dormir, já é tarde.


O dia amanheceu com chuva e isso dificultou um bocado o trabalho da Zezé para acordar as meninas, que pareciam ter mergulhado em um sono muito profundo, daqueles que amarram a gente na cama. Também, com o barulhinho da chuva, hum, que delícia!!

Bom dia!!!! Quem dormiu bem? Disse a Zezé logo que entrou no quarto.

Nenhuma resposta...

Bom diaaaaa!!! Insistiu ela e foi abrindo a cortina.

O problema é que o seu amigo de todos os dias, o sol, não estava ali para ajudá-la na tarefa. As meninas nem se moveram na cama.


 Zezé olhou para o tempo lá fora e olhou para as meninas na cama. 


Ficou com pena de tirar as duas daquele sono tão gostoso. Fechou a cortina e voltou, pé ante pé, para a copa onde os pais da Mannu esperavam para o café da manhã.

Dra. Laura, com licença, eu não tive coragem de arrancar as meninas da cama. Elas estão dormindo profundamente e nem sequer se moveram quando falei com elas, devo insistir?

Não... não Zezé... deixe que elas durmam mesmo. Elas precisam descansar, e essa chuvinha está uma maravilha para dormir. Quem me dera poder ficar na cama até o raiar do “meio dia” hoje.

E eu então disse o Dr. Álvaro daria metade do meu salário desse mês pra poder ficar na cama até o meio dia hoje.


Se o senhor quiser me dar a metade do seu salário desse mês, eu posso ir trabalhar no seu lugar Dr. Daí o senhor fica dormindo sossegado aqui... Disse a Zezé espirituosa.

Hum hum, kkkkkkkk! Essa é uma troca meio arriscada Zezé, não vou poder “dormir sossegado” com isso, afinal, eu não sei usar as tuas ferramentas na cozinha...

KKKKKKK! É... agora imagine eu usando as suas “ferramentas” no cérebro de alguém lá no hospital... Eu hein?!!!

É... melhor deixar como está né Zezé? Você nos seus quitutes maravilhosos aqui e eu na minha “lambança” toda lá...

Verdade Doutor, cada um na sua...

Dizendo isso, a Zezé foi para a cozinha conversar com a Nina sobre o que fariam para o almoço naquele dia.



Durante o café da manhã o Dr Álvaro e a Dra. Laura comentaram a conversa da noite anterior, pois quando foram dormir não tiveram ânimo e nem coragem para isso.

E então, o que você achou da conversa de ontem? Não estou certa quando digo que, às vezes, nossa filha parece ter mais de 16 anos, e não  6?

É... fiquei muito impressionado... e preocupado também. Não quero que a Zezé coloque coisas irreais na cabeça dela e crie um mundo impossível dentro da mente da menina. Você sabe como é a Mannu, ela leva tudo muito a sério.

É... eu também ando preocupada com isso... Será que tudo isso é ilusão mesmo? Quero dizer... não seremos nós, de repente, os “iludidos” aqui?

Que é isso querida? Está com alguma “pane mental” agora? Nem fale uma coisa dessas! Já basta o André, com a história maluca dele lá...

André? Quem, o médico?

É, ele mesmo... você não tem ideia o que eu fiquei sabendo pela boca das enfermeiras lá do HUF.

Não tenho ideia mesmo, diga!

Bem, é uma história complicada... o problema é que os dois residentes que estavam com ele confirmam a coisa, então só posso pensar em uma espécie de “alucinação coletiva”.

Como assim amor? Que história é essa?

Disseram que a mãe da menina tinha sofrido outra parada cardíaca, a segunda daquela madrugada. Quando ele chegou lá, era bem cedo e eles estavam tentando há um bom tempo reanimá-la, mas sem sucesso. Então desistiram. Saíram para providenciar a remoção dela etc... e enquanto isso o André ficou ali , com os dois residentes para explicar umas coisas da UTI que seriam mudadas neste mês.

Nisso... dizem... que surgiu uma “luz” diferente e bem intensa que foi se espalhando pelo corpo da mulher e, de repente, os sinais vitais voltaram e, está lá a mulher, se recuperando de uma cirurgia daquelas como se fosse de uma gripezinha qualquer. Dá pra entender?


Depois, no caminho  eu te conto mais uns detalhes, mas essa é a conversa da semana lá no HUF.

Os dois terminaram o café da manhã avisaram a Zezé que estavam de saída e foram para mais um dia de lutas e imprevistos. No caminho, ele recontou a história misteriosa da D. Irene e também lembrou-se de contar algo importante para a esposa.

Ah! Querida! Não falei ontem porque, francamente, aquela história toda do Emanuel da Mannu bagunçou tanto a minha cabeça que eu até esqueci... Lembra do telefonema, que eu atendi na hora da conversa com ela?

Sim, lembro, claro...

Então... o sujeito se identificou como um tal de Fábio, tio da Lívia. Pediu pra falar com a menina, mas eu preferi dizer que ela já estava dormindo... primeiro porque eu quero averiguar essa história, saber se é verdade mesmo... Segundo, porque se eu chamasse a menina iria interromper, de novo, a tal da história da Mannu e a culpa ia acabar sendo minha, então...

 Claro... acho que você fez bem mesmo, até porque não se sabe se é mesmo tio dela ou aquele “padrasto” louco que a Zezé comentou. Irmão da D. Irene então... isso seria muito bom! Pelo menos ela não estaria completamente sozinha depois de tudo isso.

Sim, isso seria bom mesmo. Ele disse que quer falar comigo, vai ao Hospital hoje e pediu para ver a irmã etc. Disse, inclusive, que qualquer despesa dela ele vai pagar direitinho etc... Será? Bom, pague ou não pague, a mulher está viva né?!

É amor... que bom! Isso é o que importa de fato.

Em casa, as duas acabavam de acordar e chamaram a Zezé para saber porque estava ainda escuro.

É porque está uma chuva e tanto lá fora! Se vocês quiserem dormir mais um pouquinho, aproveitem!

HUUUUUMMMM... se espreguiçou a Mannu...

A Lívia, preocupada em ver a mãe, não quis saber de dormir mais.

Eu acho que eu vou “acordar”, porque eu tenho que  fazer tarefa, e ir ver a mamãe ainda...



Lívia, você não “vai acordar,” porque você já está “acordada”... você está até falando... Disse a Mannu, se espreguiçando de novo pra ter coragem de sair da cama.

É... é mesmo... então, eu vou “levantar”...

Você vai levantar o quê? O colchão? Perguntou a Zezé aproveitando a provocação da Mannu.

Como assim Zezé? perguntaram as duas ao mesmo tempo...

A Zezé riu e disse que estava só brincando com a Lívia, porque, na verdade, ela tinha usado um verbo “acidentalmente” pronominal, só que sem o pronome.

Ih... não entendi Zezé... Disse a Lívia

Nem eu, disse a Mannu fazendo uma careta. A aula já começou é? Nós nem tomamos café ainda... reclamou ela.

Zezé riu e falou:

Não minhas princesas! Ninguém merece acordar com gramática nos ouvidos né? 

Mas acho que vou explicar assim mesmo tá? Basta vocês saberem que esse tipo de verbo vem, às vezes,  junto com um pronome. No caso dela, seria “me levantar”, porque ela está falando dela mesma. Se ela disser só “levantar” fica faltando alguma coisa... ela vai levantar o quê? Nesse caso, é ela mesma, então ela deve dizer: Vou “me” levantar... Entenderam?

Hummm... mais ou menos Zezé! Mas eu não tô querendo entender agora... Quero ir comer isso sim. Disse a Mannu com a completa concordância da Lívia.


Tem razão Mannu! Nada de gramática de manhã e com o estômago vazio! HUMPF !!!! Ninguém merece mesmo!!!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

ESTÁ ESCRITO! - CAPÍTULO 53


Zezé voltou para o escritório onde todos a aguardavam e entregou o “livrão” nas mãos do médico que olhou, meio perdido, para a Bíblia sabendo que não poderia nem mesmo imaginar onde estaria o tal livro que a filha tinha mencionado. Nunca havia aberto esse livro e agora mal sabia por onde começar. Não tinha a mínima ideia de como encontrar o tal do texto que a filha tinha falado.



 Entregou-o de volta para a Zezé e,  reconhecendo sua ignorância diante de algo que nunca tivera interess e em conhecer, pediu, em um tom mais ameno, que ela encontrasse o texto para ele.

 Zezé encontrou o texto que a Mannu tinha comentado e entregou para o médico que, desta vez, relutou em pegá-lo da mão dela. Por fim, pediu que ela mesma lesse, em voz alta, para ele entender do que se tratava. Zezé, para fazer sentido e dar um pouco do contexto para o médico entender, começou a  ler do verso 9 até o verso que a filha tinha mencionado:


 “...Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina todos os homens.
Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus...”

João 1:9-12

Quando ela terminou a leitura, o médico olhou para ela, ainda sem saber o que dizer. Seu alívio para a tensão do momento veio pela boca da sua filha.

Tá vendo papai? Está bem claro, escrito ali, que quem crer no seu nome se torna filho de Deus. Isso é sinal que não é todo mundo que é filho de Deus, mesmo que Ele tenha criado todo mundo, quem não acredita n’Ele, não é filho d’Ele, é só criatura d’Ele ainda...

O médico pegou a Bíblia da mão da Zezé e releu o texto começando do verso 1. Ele não leu em voz alta, fez apenas um reconhecimento do terreno em que estava pisando. Não sabia por que, mas sentia-se infantil e sem palavras para explicar o que lia. Disfarçou um pouco, e disse qualquer coisa só para não dar a impressão que tinha sido impactado por aquelas palavras. Na verdade, o texto lhe parecia claro mesmo, e não oferecia outra possibilidade de interpretação como ele imaginara.

Sua filha cresceu de repente diante dos seus olhos e ele se sentiu impotente diante do olhar confiante e límpido da criança, que o encarava sem reservas e sem acusação também. Porém, ele se sentia acusado, sem saber ao certo de quê. Como se alguém invisível o estivesse confrontando, e não era sua filha, ele sabia disso.

É... disse ele está escrito isso aqui, sim, mas temos que ler muitas vezes para pegar bem o sentido de tudo entende filha?

Entendo sim, papai, eu já li muitas vezes com a Zezé, né Zezé?

É... lemos mesmo, e pedimos ajuda de Deus para entender bem... Disse a Zezé tentando se justificar diante do que o médico tinha dito antes sobre as pessoas não serem capazes de interpretar aquilo que leem corretamente, muitas vezes.


  É como eu disse Doutora, eu entendo porque estudo desde criança, mas não é só isso. Eu sempre peço orientação do Espírito de Deus, para eu não entender só com a minha mente, senão eu estrago tudo aí...

A Dra. Laura achou essa resposta muito impressionante e notou que o marido não tirava os olhos do Livro.

É... pois é... um texto bonito mesmo... poético até, fala que as trevas não conseguem derrotar a luz, lógico, mas a luz também só brilha onde há trevas né, senão ninguém poderia ver a luz... Disse o médico, tentando preencher o silêncio que se fazia na sala sem demonstrar o quanto tinha sido tocado por aquelas palavras que lhe pareciam até meio “incoerentes”, já que ele não acreditava que o mundo tinha sido criado pela Palavra de Deus, como mostrava o texto. No entanto, ao mesmo tempo, tudo aquilo lhe parecia tão mais profundo do que ele estava conseguindo assimilar.

Mais uma vez, a filha serviu de luz para sua ignorância.

Papai, essa luz que você falou que brilha nas trevas é bem o Príncipe que eu tô falando pra vocês... é o Emanuel  que é o Filho de Deus e que apareceu no meu sonho também. Ele é que veio aqui pra o nosso planeta pra brilhar pras pessoas enxergarem as coisas direito entende?
 




Olha papai, as pessoas, muitas delas, não enxergam que elas precisam de Deus... então, eu acho que tem alguma escuridão em cima delas sim, talvez na alma delas onde a gente não vê, e não no corpo que a gente vê... Nem elas conseguem ver isso por causa dessa escuridão que está em cima delas... ou dentro, não sei...

O médico olhou, pasmo, para a filha, e, novamente sentiu-se como um analfabeto, espiritualmente falando. Sentia que devia medir muito bem as palavras, pois não estava lidando com uma coisa qualquer. As crianças são meio inexplicáveis de vez em quando...


Olhou para a esposa que estava, igualmente estupefata, com as palavras que ouviu da boca da filha. Parecia que ela não tinha apenas seis anos, falava com uma sabedoria desconhecida por ela e pelo marido.

Filha disse ele pense um pouco comigo. Você diz que esse Emanuel é o Filho de Deus, mas eu já ouvi falar que Jesus é o filho de Deus, ou então Cristo que é o outro nome de Jesus. Que Emanuel é esse afinal? Acho que sua cabecinha ficou meio confusa com tudo isso não?

A Zezé não pode mais ficar calada e manifestou-se antes ainda da resposta da Mannu, que já estava abrindo a boca para explicar as coisas para o pai. Sim! Ela tinha explicação para isso.

Dr. Álvaro, me desculpe, eu posso responder isso por ela? Porque eu não quero que vocês pensem que eu confundi as coisas na cabeça da Mannu. Tudo é explicável aqui.

Pois então fale Zezé, acho melhor ouvir o que você tem a dizer também, afinal é por sua causa que ela está nesse estado...

É verdade, antecipou a Mannu, antes ainda da Zezé se explicar. É mesmo por causa da Zezé que eu estou nesse estado... “ESFUZIANTE”!!! Disse ela com um grande sorriso para o pai, que ficou mais desconcertado ainda.



 Pois bem Doutor, o nome do Filho de Deus é mais conhecido como Jesus, realmente, mas, Cristo não é um “outro” nome dele, ou até o “sobrenome” dele como muitos pensam. Cristo é um título, que significa “MESSIAS”. Por isso é que muitos falam Jesus O CRISTO, ou seja, Jesus O MESSIAS.  

O médico não tinha conhecimento de nada disso e, ficou admirado que a Zezé soubesse dessas coisas.

Bem, Zezé, quem mexe com essas coisas espirituais é você, não eu... Então você deve estar certa, acho... Disse ele desconcertado.

Tenho certeza que estou Doutor... Estudo isso desde criança.


Então me explique também sobre o nome Emanuel... Por que a Mannu acha que esse também é um dos nomes do Filho de Deus? Se é que Ele tem mesmo um filho...

Sim, Doutor, Ele tem mesmo um Filho e esse Filho é aquele chamado de “Palavra”, aí no texto que o senhor leu em João 1. Pode conferir aí: “No princípio era aquele que é a Palavra, Ele estava com Deus, e era Deus. Primeiro verso que o senhor leu aí...

Hum... sim, mas... aqui não está dizendo que essa Palavra era filha, ou filho,  de Deus. Como você chegou a essa conclusão?

É preciso ter outros conhecimentos sobre a Bíblia para poder entender os textos em seus contextos Doutor.

Hummm... texto no seu contexto... repetiu o médico, admirado, olhando para a Zezé como se nunca tivesse visto aquela pessoa na sua frente.

Não vai ser com essa simples conversa de hoje que eu poderei explicar certas coisas desse livro para o senhor, Dr. Há muitos textos que eu precisaria juntar a esse para que o senhor possa compreender do que é que estamos falando.

Mais uma vez, o médico teve aquela sensação “desconfortável” de ignorância plena. Ele realmente, percebia que as coisas não eram tão simples assim como ele sempre pensara a respeito da Bíblia. Mas agora, algo lhe dizia que ele era um analfabeto nessa questão, e que jamais conseguiria rebater os argumentos da sua própria empregada.


Então, resolveu no seu interior, que iria primeiro ler mais um pouco sobre tudo aquilo para depois querer entrar em conversações mais profundas com a Zezé, e mesmo com a filha, diante de quem sua sensação de “analfabetismo espiritual” parecia se sobressair mais ainda!

  Bem, disse ele, então, vamos ter que conversar mais sobre isso Zezé, porque eu estou preocupado com o que anda entrando na cabeça da minha filha. Quero que você me explique melhor essas coisas todas que ela anda falando ultimamente. Ouviu isso minha filha? Nós vamos fazer, sempre que der, uma reuniãozinha dessas com a Zezé, porque eu quero estar a par do que vocês andam conversando ok?

 Ebaaaaa! disse ela, ok papai!! ok mesmo, né Zezé??

Zezé, na verdade, achou isso maravilhoso. Sabia que, pelo menos teria chances de se explicar. Não seria mandada embora no dia seguinte...


Ótimo! Agora meninas, acho melhor deixarmos o restante para outro dia, porque estou vendo que a Lívia e você já estão com os olhos pequenos de novo, não acha minha filha?

Papai, mas eu nem cheguei na parte principal...

A Zezé socorreu a todos os sonolentos dali.

Verdade Mannu, mas nem vai dar para chegar hoje na parte principal... ainda temos muita coisa antes disso, para dizer ao seu pai, certo meu amor? Agora vamos pra caminha vocês duas.

Ela concordou dando um enorme bocejo e insistindo que não estava com sono ainda...

Distribuíram os beijos de boa noite e foram para o quarto, deixando para trás, um Doutor e uma Doutora muito encafifados!