Depois de prontas, as meninas
foram para a copa com a Zezé, tomaram o café da manhã direitinho, comeram bem,
e em seguida, a Camila chegou. Hoje é dia de tarefa na casa da Mannu, chova ou
faça sol, e hoje está chovendo um bocado. A Camila chegou com cara de sono
também, mas estavam prontas para “derrotar” todas as tarefas da escola.
A Zezé sugeriu que elas fizessem a
tarefa tranquilas, almoçassem primeiro e só depois iriam, já prontas para a escola, visitar a mãe da
Lívia. De lá já iam direto para a aula. Elas concordaram e assim foi. Fizeram
todas as tarefas, e foram para o hospital.
Chegando lá, uma boa surpresa
aguardava a Lívia, aliás “duas” boas surpresas.
A Lívia conhecia por foto, o tio
Fábio, mas fazia muito tempo que não se viam, pois o padrasto, que agora tinha
desaparecido, não permitia. Ela tinha uma vaga lembrança, de uma pessoa muito
carinhosa com ela, e por isso, quando o viu, sua reação foi contida mas,
agradável. Ele lhe passava boas sensações. A mãe falava bem dele, apesar dos
entraves que tiveram no passado.
Ele era um empresário do ramo de
tecidos e estava muito bem financeiramente. Quando soube do que tinha
acontecido com a irmã, procurou
informações na Escola da Lívia, único elo que eles tinham. Lá, a coordenadora
passou todas as informações que ele precisava. Ele não apareceu antes porque
estava viajando e só tinha retornado havia dois dias.
― Isso mesmo querida! Ainda se
lembra do tio Fábio?
― Lembro sim mamãe! E eu via sempre
fotos dele lembra? Você vivia me mostrando escondido do Seu Aurélio...pra ele
não brigar com a gente...
― É minha filha... Agora que ele
não está por perto podemos aproveitar a conversar bastante com tio Fábio né?
― Que bom que você não me esqueceu
completamente minha querida!! Venha cá me dar um abraço, vem!! Corre!!! Disse o
tio, querendo compensar o quanto antes sua ausência nesta fase tão difícil que
ele nem sonhava que as duas estavam passando.
A menina deu um abraço meio tímido
no tio, que parecia não querer mais soltar a criança.
Com certeza, sua
consciência pesava muito por lembrar que não tinha apoiado a irmã durante a
gravidez daquela menina que agora retribuía com um sorriso tímido e um abraço
rápido, mas carinhoso.
Ele fez um carinho no cabelo dela e falou com a voz bem
embargada:
― Querida, titio quer muito que
vocês vão lá para a minha casa ouviu? Eu não vou deixar mais ninguém separar
sua mãe, você e eu, já basta!
A menina ficou muda, olhando para
o tio que tinha lágrimas nos olhos. Sem saber o que dizer, ela olhou para a mãe em
busca de palavras, mas a mãe também estava lutando contra o choro que por tanto
tempo tinha segurado.
Quem resolveu o problema da falta
de palavras do momento foi a Mannu, é claro, com o poço transbordante que ela
tinha, logo achou o que falar de maneira bem espontânea e empolgada:
― Gente! Isso é tão lindo que
parece que eu ouvi um monte de aplausos aqui... Será que são os anjos que estão
comemorando?
Acabaram todos rindo da empolgação
da Mannu que continuava insistindo que aquilo era uma coisa que o céu comemora
muito. E sabe? Acho que ela tem razão mesmo.
― Olha, eu to falando sério! Lá no
céu tem um monte de anjos cantando!! E acho também que estão aplaudindo. Lá
essas coisas de perdão e de amor são muito importantes!! Eu sei... Disse a
Mannu para arrematar suas considerações sobrenaturais.
E ninguém ousou contradizer a sua
alegria genuína. A mãe da Lívia, enxugando o rosto, olhou para a Mannu e disse:
― Olha, que tem anjo aqui, eu não
tenho nenhuma dúvida! Estou olhando pra quatro deles, agora mesmo! Eu nem sei como
agradecer tudo o que vocês fizeram pela Lívia e por mim. Já estou sabendo que
quem me operou foi o seu pai Mannu, e eu nunca vou ter como pagar tudo isso.
Vou pedir muito lá para o dono do céu abençoar a sua família viu?
O irmão, tio Fábio, aproveitou
para sossegar a D. Irene sobre o assunto.
― Não se preocupe “Nêne” ― esse
era um apelido de infância dela. Era como ele a chamava desde que eram crianças
―
Já conversei com o Dr.Álvaro e já acertamos tudo. Está tudo devidamente pago. Era
o mínimo que eu poderia fazer. Seu pai foi um herói para nós mocinha! Disse
ele, olhando para a Mannu que abriu um sorriso orgulhosa do pai.
― Mas... o senhor sabe que não foi
só o meu pai daqui que cuidou dela né? ― disse a Mannu olhando para o tio
da Lívia que não entendeu muito bem o que ela disse.
― Ah... sim! Eu sei que muitos
outros, as enfermeiras e auxiliares, o Dr. André também, todos ajudaram. Mas...
― Não Seu Fábio! Mas não é isso que
eu tô falando não... É que eu tenho dois pais. Um aqui e outro lá, disse ela apontando para cima.
E os dois cuidaram dela, sabe?
― É que eu tenho o meu pai daqui que
é o Dr Álvaro e que operou a D. Irene. E eu tenho mais um pai lá em cima, no
céu, que é Deus, e que é muuuuito Poderoso. Ele sabe mais até do que o meu pai
daqui da Terra, sabia? E nós pedimos pra Ele ajudar na cura da mãe da Lívia,
não foi Lívia?
Nesse momento a Lívia também se
empolgou para comentar isso. Ela disse algo que impressionou muito a todos ali,
principalmente a sua mãe.
― É verdade tio Fábio!! Eu lembrei
agora que eu acordei chorando de madrugada, com medo de... perder a minha
mamãe... e a Mannu orou pra pedir pro “Papai do céu” pra Ele cuidar da minha
mãe e de mim. E sabe? Eu agora sei que Ele também quer ser meu “Pai”, e já que
eu não tenho nenhum, eu achei ótimo... Eu pedi pra ele ser meu pai também... né
Mannu?
― É sim... nós falamos com Ele e
agora Ele é também “Pai” da Lívia, porque ela acredita que Ele existe de verdade
e que gosta dela... É só isso que precisa pra Ele querer ser seu pai, sabia?
Nem a Zezé escapou da cara de
surpresa, com toda essa conversa.
A Zezé ficou meio perdida porque
percebeu que o tio e a mãe da Lívia estavam até assustados com isso. Então, ela
tratou de avisar as meninas que estava na hora de irem para a Escola.
O tio perdeu a cara de espanto e
lembrou-se de avisar a Lívia que no final do dia ele mesmo iria buscá-la na
Escola, pois sua mãe já teria recebido alta lá pelo meio da tarde e ele ia
levá-la para a casa dele. A partir daquele dia elas teriam uma nova casa porque
ele não poderia deixar a irmã sozinha depois de uma cirurgia daquele porte. E
lá, em sua casa, ela teria assistência total, o dia todo, com empregados à sua
disposição, incluindo uma enfermeira.
A Lívia arregalou os olhos e
olhava para a amiguinha Mannu sem acreditar naquilo tudo. A Mannu, ficou feliz
e triste ao mesmo tempo, ela disse:
― Lívia, isso é muito mais do que
lindo!! Você vai ter uma família agora!! Você não vai mais precisar ficar com
medo do Seu Aurélio!! E sua mãe vai estar lá, com você! Deus é muito lindo não
é?? Mas... eu vou sentir falta de você
lá em casa...
Bastou esse comentário da Camila
para todas começarem a rir e dizer que a hora era de alegria sim!!! Afinal,
ninguém ia se separar, elas só iam cada uma para sua casa, para se verem no outro
dia!! E, além de tudo, a Camila morava bem pertinho da Mannu, ela não estaria longe, só no andar de baixo!! Ai que alegria!!! As três se abraçaram e começaram a pular... ooops hora
de sair mesmo!!
Despediram-se da D.Irene, do tio
da Lívia e saíram “faiscantes” como sempre, deixando os dois sorrindo no quarto
do hospital.


























