Quando terminou a aula naquela
tarde complicada quando as meninas recusaram o convite da Mannu para passarem o
sábado na casa dela, a Zezé chegou um pouquinho mais tarde para buscar a Mannu.
Quando ela chegou, encontrou a menina triste, conversando com a coordenadora
perto do portão da Escola e esperando pela babá.
Imediatamente a Zezé percebeu que
as coisas não tinham saído como o esperado. Aproximou-se rapidamente,
desculpando-se com a cooordenadora e com a Mannu pelo pequeno atraso, e ao
mesmo tempo perguntando:
― Que
carinha é essa Mannu? As coisas não andaram bem hoje por aqui?
A coordenadora apressou-se em
explicar o que tinha acontecido, pois sabia que a disposição da menina para
repetir a história toda outra vez estava no nível mais baixo possível naquele
momento.
Zezé ouviu tudo e, como já conhecia
bem a Mannu, nem tentou prolongar a conversa naquele instante, sabia que ela
precisava de um “descanso”. Despediu-se da coordenadora e pegou a menina pela
mão para correrem para casa.
Ao entrarem no carro, a própria
Mannu tirou a tampa do poço de palavras novamente.
―
Sabe Zezé, acho que eu nunca mais vou falar com elas mesmo. A Ju é que tem
razão, eu sou é boba...
―
Não, meu amor, você não é boba. Você fez o que podia e o que precisava para se
aproximar delas. Se elas não quiseram, bobas são elas! Elas que vão lamber
sabão!!
Dizendo isso, a babá ficou
repensando se não havia plantado alguma “erva daninha” no coração da criança.
Afinal, ressentimento e desprezo crescem em qualquer terreno e ela conhecia
muito bem o solo daquele coraçãozinho, uma terrinha fofa em que tudo o que
fosse semeado brotaria, criaria raízes e se tornaria uma planta forte com
chances de se tornar, mais tarde, uma árvore das mais frondosas.
Zezé pensou por uns instantes,
conversou com Deus lá no seu interior e por fim falou:
―
Mannu, sabe de uma coisa, essa história ainda não acabou... Não sei por que,
mas eu sinto que elas vão pensar em casa e vão descobrir elas mesmas que foram
bobas de não aceitar teu convite. Você nem vai precisar ir atrás delas outra
vez, elas virão procurar você, sabia?
―
Ah é? Pois se elas vierem eu vou fazer como a Ju disse, não vou querer nem
olhar pra cara delas, e vou ser bem “osfentiva” com elas dessa vez.
―
Você quer dizer “ofensiva” né?
―
É... é bem isso mesmo. Porque o que eu falei hoje não adiantou de nada, e AHHHH
Zezé!! Eu não sabia que aquilo que você me ensinou pra dizer pra elas quando
elas me “osfen...tissem” era francês...
Zezé se calou por alguns
instantes, com o pensamento longe no tempo e no espaço.
―Zezéé?
Por que você não me contou que você sabia falar francês? E a professora disse
que aquilo não era nenhuma palavra feia...
―
Mas é claro, meu amor, você acha que eu iria ensinar alguma palavra feia pra
você que é tão bonita? Pra quê? Pra você ficar feia junto com as palavras feias
na sua boca?
―
Eu não quero ficar feia... mas eu queria dizer uma coisa que também fosse
“osfent... osfensiva”
―
O-FEN-SI-VA ...
―Isso...
pra aquelas duas chatas.
―
Bom, se você quiser fazer a mesma coisa que elas fazem, você vai ser igual a
elas, você quer? Você gosta do jeito delas?
―
Ecaaaa! Não! Não gosto mesmo...
―
Então, não queira ser igual a elas, faça coisas diferentes...
―
Mas Zezé, eu já fiz muita coisa diferente. Eu já respondi e já “desrespondi”
também e nenhuma coisa funcionou...
―
Quando você diz que “desrespondeu” você quer dizer que NÃO respondeu? É isso? Que
você deixou de responder?
―
É, Zezé! Claro! Quando você “liga” o carro, você não “desliga” também? É isso
que eu to falando...
Dizendo isso, a Mannu cruzou os
braços numa atitude de impaciência. Afinal, como é que a Zezé sabia falar
“francês” e não sabia o que era “desresponder”.
A Zezé percebeu imediatamente o
cansaço da menina e nem continuou com a conversa para evitar a irritação que
chega sempre quando o cansaço dá as caras.
―
Certo, então deixa eu te contar uma coisa. Sabe o que a Zezé fez pra você no
jantar hoje? Uma coisa que eu sei que você gosta muito...
Demorou um pouco até a Mannu ter
vontade de responder.
― MMM...
Panqueca...
―
Não... só mais uma chance...
―
Pizza? Lazanha? Quibe assado? Eu gosto disso tudo...
―
Não, “escondidinho de camarão”
―
Ebaaaaa!!!!
―
E de sobremesa, “cartola”...
―
De novo EBAAAAA!!!
Chegaram em casa e em primeiro
lugar, aquele banho quentinho para tirar o cansaço e tudo mais que um dia
desses derruba em cima da gente.
Mas, antes do banho, a Mannu
lembrou-se de perguntar pela mamãe e pelo papai, pois a Zezé já estava
colocando a mesa só pra elas, e ficou sabendo que os dois não viriam jantar com
elas aquela noite. Lá vem o beiço de novo:
Meu amor, você não vai ficar
chateada com eles também né? Você se lembra que hoje eles vieram almoçar com
você?
―
Eu sei, mas eu queria contar pro papai o que as minhas inimigas fizeram... e
queria também dizer pra ele que elas são minhas inimigas pra sempre agora...
―
Meu anjo, venha, vamos tomar aquele banhinho gostoso, colocar um pijaminha
macio e depois a Zezé vai falar com você sobre essa história tá? Depois do
jantar. Só depois do jantar...




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