Quando se reuniram todos, o médico
pediu para falar primeiro com o marido da paciente, em particular, e isso
deixou a Lívia muito assustada, embora o médico tenha explicado que era apenas
para ele assinar alguns papéis. Com os olhos arregalados, a Lívia ficava
falando consigo mesma e com as três ao mesmo tempo.
―
Uai, por que ele não quis falar aqui na nossa frente? Eu queria ouvir o que a
minha mãe tem... Será que ela piorou?
A tristeza voltou no rosto da
menina...
A Zezé tratou de ir acalmando a
menina, pois ninguém sabia nada ainda para entrarem em preocupações maiores.
―
Calma, minha filha, eles precisam mesmo que o seu padrasto assine alguns papéis
para internação e outras providências, isso é normal, sabe?
―
Tá bom Zezé... mas você não achou que o médico estava com uma cara muito feia?
― Feia?
Não...Eles são todos sérios, querida, não se assuste...
A Mannu e a Camila também tentavam
distrair a atenção da Lívia, embora as duas estivessem sentindo um frio na
barriga, tanto pelo fato de estarem em um hospital quanto pela situação toda
envolvendo a amiga.
―
Eu acho que ela já está bem, só que eles querem que ela durma aqui, porque daí
é mais fácil pra eles cuidarem dela não é Zezé? Disse a Mannu, como se
entendesse muito bem do assunto.
―
É meu amor, talvez seja isso mesmo...
Em seguida apareceu o padrasto,
com uma cara muito séria e olhava para as quatro sem dizer nada.
―
E então, Seu Aurélio... ela está melhor?
Ao ouvir isso a Lívia ficou branca
e as outras três ficaram sem fala por alguns instantes. Até que a Zezé, com
cautela, tentou fazer com que o “incrível” Sr Aurélio entendesse que era
preciso um pouco de tato pra falar na frente das crianças e principalmente da
Lívia.
―
Bem, Seu Aurélio ―
disse a Zezé ―
em um caso de doença, é claro que as coisas nunca estão muito boas mesmo né?
Mas, podem melhorar, não é mesmo??
A Zezé perguntava isso fazendo
sinais com o olhar e com a boca, para que ele entendesse o recado e ainda
apontando para a Lívia à sua frente.
Felizmente, em seguida, apareceu o
médico pedindo licença e falando em termos mais amenos com as quatro. Mal viu o
médico e o Seu Aurélio saiu apressado.
―
Com licença, eu sou o Dr. Samuel e estive examinando a sua mãe, não é mesmo
garota? Como é o nome dela? ― Perguntou
olhando para a Zezé e apontando para a Lívia.
―
É Lívia, Doutor...
―
Ah sim, Lívia, então mocinha... a sua mãe está com um problema realmente sério,
mas ela está melhor agora. Só que está dormindo, porque tomou um medicamento
bem forte, então, você ainda não vai poder falar com a sua mamãe, ok? Nós
precisamos tomar algumas decisões aqui, para que ela sare completamente, certo?
Ao ouvirem isso, o alívio foi
geral, a cor voltou no rosto da Lívia enquanto a Camila e a Mannu não deixaram
de registrar o seu “EEEEBAAA!!!!”
―
Tá vendo Lívia? Ela vai sarar sim! Amanhã ela já vai estar bem boa, você vai
ver! ―
Disse a Mannu com toda a segurança de uma filha de um neurocirurgião com seus
experientes seis anos de idade.
Enquanto as meninas conversavam
mais animadinhas ali, e já com disposição para brincar um pouquinho, o médico fez um sinal para a Zezé. Ela se
aproximou e ele disse baixo o suficiente para não atrair a atenção das meninas.
― A
senhora é parente dela também?
―
Não senhor, apenas conhecida, nem conhecida afinal, pois quem eu conheço da
família é a menina só, e, o padrasto, que vi apenas hoje.
― Ah,
entendo... ele é um tanto rude, com a criança; por isso fiz questão de vir
falar com vocês para explicar... bem, não expliquei tudo ainda. Estamos,
realmente, com um problema muito sério aqui.
―
Como? É mesmo Doutor? Mas... a mulher está... viva, não é?
― Por enquanto senhora. E não
sabemos até quando vai aguentar. O problema aqui é que, como a senhora deve ter
ouvido falar, a maioria dos médicos estão em greve. Nossos melhores cirurgiões
não estão aqui e nem virão. Essa mulher precisa de uma cirurgia cerebral
urgente, caso contrário... Precisamos transferir essa paciente para algum lugar
com condições de operá-la. Aqui vai ser impossível, infelizmente.
―
O pior é que o marido me parece um bocado despreparado e quando falei da
situação, ele simplesmente virou as costas e saiu dizendo: “ Se virem! Os
médicos são vocês, não eu...” Isso na “linguagem” própria lá, dele né, ele é
muito desinformado mesmo, o coitado, então, não posso discutir o assunto com
uma pessoa dessas.
― É...
sem contar que ele é bem grosseiro também...
―
Pois é, não quis assinar nenhum dos papeis que mostrei a ele... a senhora
conhece mais alguém da família?
―
Pior que não conheço mais ninguém doutor... Vou pensar aqui, no que poderíamos
fazer...
― Certo,
eu volto daqui a pouco para ver se conseguiram descobrir alguém. Posso encaminhá-la para outro hospital, mas
já adianto que ela vai precisar de um bom neurocirurgião. Existe um outro
hospital público não muito distante daqui, maior e bem equipado onde eles têm
um ótimo neuro que opera lá uma vez na semana, coincidentemente, amanhã. Se
acharem quem autorize podemos transferir a paciente. Caso não haja ninguém,
devido à seriedade do caso e o risco de morte da paciente, eu posso autorizar o
transporte. É só me dizerem que eu preparo o relatório dela e tudo mais
necessário.
Neste momento as meninas vieram em
sua direção querendo saber o que mais o médico tinha falado. A Zezé resolveu
não contar nada ainda sobre a seriedade do caso, pois seria outra sobrecarga em
cima da Lívia, que mal tinha acabado de se animar um pouquinho com a presença
das meninas.
―
Bem, o que ele disse foi... foi que o remédio que a sua mãe tomou é mesmo forte
Lívia, e que ela vai dormir até amanhã... e sabe, eu preciso dar um telefonema...
Vamos fazer o seguinte? Vamos naquela lanchonete que eu vi lá na frente do
hospital? A gente faz um lanchinho lá enquanto eu vou ligar pra sua mãe tá
Mannu? Aposto que você está com fome não Lívia? E vocês também meninas.
―
É... agora estou mesmo ―
disse a Lívia ― antes
eu só estava com um frio no estômago e então não queria comer nada... Cadê o...
Seu Aurélio, Zezé?
―
É... ele foi... providenciar algumas coisas para a sua mãe Lívia, ok? Vamos lá,
vamos comer alguma coisa gostosa!!
E saíram em direção à lanchonete
enquanto os pensamentos na cabeça da Zezé rodavam a mil, se ela tivesse hélices
na cabeça, ela poderia até levantar voo, como um helicóptero.






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