Logo que a Mannu dormiu, a Zezé
voltou para a copa procurando a Dra. Laura para conversar. Ela não estava mais
na copa, tinha ido para o escritório dela. Zezé bateu na porta com cautela,
meio nervosa, antecipando o resultado da conversa.
―
Pode entrar Zezé...
―
Com licença Doutora...
―
Claro Zezé, entre e vamos conversar um pouco. Você viu só as ideias da Mannu?
―
Pois é Doutora, é sobre isso mesmo que eu queria falar...
―
E ela só tem seis anos Zezé! Que é que eu faço com essa menina? Parece
adulta!... Sei que as crianças de hoje são assim mesmo, mas quando você nota
isso na sua casa é um susto!
― É
verdade Doutora...
Vamos sentar ali no sofá, naquele
cantinho do escritório, é melhor, assim você pode se sentar também.
―Está
certo Doutora, sei que a senhora está cansada, mas acho importante contar
algumas coisas que andam acontecendo e que ainda não tive ocasião para comentar
com a senhora.
―
Não tem importância, estava aguardando você antes de ir tomar meu banho para
descansar, pode falar Zezé.
―Vou
tentar ser rápida... o problema é que não é muito fácil. Estou um pouco nervosa...
―Zezé,
assim você está me assustando, aconteceu algo sério?
―
Não, quer dizer, sim, mas depende do ponto de vista...
― Como
assim Zezé?
―
Bom Doutora, é que depende do que a senhora pensa sobre certos assuntos, eu não
sei bem por onde começar.
―Zezé,
fala logo criatura, que você já está me deixando nervosa, aconteceu alguma
coisa com a Mannu?
―
Calma Doutora, também não é assim. É que eu fico preocupada com o que a senhora
vai pensar de mim porque... Eu... é... nem sei se devia...
―
Fala de uma vez Zezé!!! Por favor!
―
Bom Dra Laura, a Mannu vinha sofrendo faz tempo com esse problema das meninas
na Escola. Então, uma noite dessas ela estava muito tristinha e me disse que
não estava querendo ir para a Escola no dia seguinte. Então, é... eu...
―
Então o quê Zezé?
―
Bom, eu percebi que a senhora não estava com tempo, e nem o Doutor, para ouvir
as histórias dela, então, eu disse que ela podia, bem,... podia contar tudo isso
para o ...
― O
???? ... Quem Zezé? Fala!!
― O... Papai lá do céu... ― Disse a Zezé, tão rápido quanto
conseguiu.
― Quem
mesmo? Papai de onde?
―
A senhora sabe Doutora, Deus, Aquele... que mora lá... em cima, sabe?
―
Em cima? Em cima do quê Zezé? Do Monte Olimpo?? Zezé, olha... eu não ligo que
você acredite nessas coisas, mas, realmente, nós aqui não temos costume de nos
preocuparmos com essas crendices e eu não sei em que isso poderia ajudar a
Mannu. A não ser trazendo mais confusão ainda pra cabecinha dela.
―
Doutora, era esse o meu medo, que a senhora não compreendesse, não aceitasse e
pusesse tudo a perder...
―Perder?
Perder tudo o quê Zezé? Que “tudo” é esse a que você se refere? Por acaso você
já levou a Mannu ao Monte Olimpo encontrar esse “papai” que você fala? Ele deu
alguma coisa pra ela que você não quer que ela perca?!
― Sente-se
de novo Zezé, vamos continuar essa conversa, explica isso direitinho, por
favor!
―
Certo, Doutora... Eu vou explicar desde o início.
Zezé sentou-se e decidiu ser a
mais verdadeira e clara possível. Começou de longe... desde quando ela chegou
para trabalhar na casa da Dra. Laura.
―
Doutora, a senhora lembra quando eu apareci aqui procurando pelo emprego de
babá, não lembra?
―
Claro, lembro muito bem, há seis anos... Chequei suas referências,
soube que você morou fora do Brasil por muito tempo e que era excelente como
pessoa e funcionária. Nunca tive qualquer queixa sobre os teus serviços Zezé,
só que...
―Desculpe
Doutora, mas eu preciso lembrá-la de uma coisa também; no dia em que eu comecei
a trabalhar aqui eu comentei com a senhora que eu tinha minha fé e que precisava
pelo menos do domingo para cuidar da minha vida espiritual.
― Sim Zezé, eu me lembro muito bem
disso. Não vi mal nenhum, tanto que concordei de imediato, não foi? O domingo
pertence a você até agora, não é assim?
―Perfeitamente
Dra. Laura. A senhora pediu que eu morasse aqui, me ofereceu um salário muito
bom, compensador, e ainda teria o domingo livre, o que para mim foi muito bom,
porque eu tinha acabado de voltar e não tinha, ainda, onde morar. Aos domingos
vou sempre para a casa da minha irmã.
―
Então Zezé, nunca tivemos problemas com essas coisas... Mas agora, parece que
algo está mudando, não?
―
Como eu disse Doutora, depende do ponto de vista de cada um. Para mim as coisas
estão mudando para melhor. Não sei se a senhora notou como a Mannu tem andado
diferente nesses últimos dias, mais alegre, mais falante... inclusive comendo
melhor...
―É...
isso eu notei mesmo... Até brinquei esses dias que ela tinha tomado alguma
coisa diferente à noite, pois acordou muito animadinha...
―Pois
então Doutora, a única coisa que aconteceu foi que quando ela estava quase
dormindo naquela noite, ela me pareceu muito triste e disse que não queria ir
para a Escola de manhã. Então, eu sugeri que ela contasse o problema com as
meninas para o “Papai do Céu”, sabe, Deus...
―Ah...
E como é que ela fez isso Zezé, mandou uma cartinha como as crianças mandam
para o Papai Noel?
Dizendo isso, Dra. Laura deu uma
risada um tanto debochada, mas logo conteve a brincadeira ao notar a expressão
séria da Zezé.
―Você
sabe Zezé, que nem mesmo Papai Noel nós permitimos que engane a cabeça da
Mannu. Ela sabe muito bem de onde vêm seus presentes de Natal.
Nesse instante, o Dr Alvaro
chegou, chamando pela esposa e perguntado pela filha, etc...
―Zezé,
não poderemos continuar essa conversa agora. Amanhã, sem falta, quero terminar
esse assunto com você está certo?
―Certo
Doutora... só peço que a senhora não comente nada com o Doutor, por enquanto,
pode ser?
―Nem
era preciso me pedir isso Zezé, porque não vou comentar mesmo! Nem sei qual
seria a reação dele...
Dizendo isso, foi logo saindo ao
encontro do marido.
―Boa
noite Zezé, amanhã continuamos essa conversa, sem falta!
―Boa
noite Doutora, durma bem...
Zezé foi para o seu quarto muito
preocupada com as consequências que teria essa conversa e que, por sinal, ela
teria que aguardar até o dia seguinte para descobrir. Foi dormir tão preocupada
que passou quase metade da noite falando com o “Papai do céu” também.





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