Os pais da Mannu, felizmente,
conseguiram mesmo vir almoçar em casa naquele dia. Fizeram mil arranjos no
hospital para poderem cumprir a promessa qua haviam feito para a filha.
Mannu estava muito animada, só
pelo fato de poder ver os pais na hora do almoço, coisa que muito raramente
acontece. Comeu direitinho, tudo, verduras, legumes, peixe assado, que ela
gosta muito, suflê de batata com queijo que a Zezé faz especialmente pra ela.
Por ter comido a comida toda, direitinho, ganhou a sobremesa preferida dela; uma taça, enorme é claro, de sorvete com frutas, que ela aaaaaama!
Depois dessa delícia toda, o papai
foi com ela para o escritório para que ela pudesse contar direito toda a
história das meninas, e para conversarem sobre o que seria preciso fazer para
resolverem esse problema, que tanto incomodava a Mannu.
Enquanto isso, a Zezé, com o
estômago encolhido de preocupação, foi conversar com a Dra. Laura no escritório
dela, onde na noite anterior tinham começado a conversa sobre a Mannu e o
“Papai do céu”.
Quem começou a falar foi a Dra.
Laura:
―
Olha, primeiramente, eu gostaria de dizer que, realmente, acho até bonito você
ter essa fé. Acho importante para você se sentir mais segura em sua vida.
Sempre que passamos por problemas tão tristes e inimagináveis como o que você
enfrentou, achamos necessário buscar auxílio em algo sobrenatural, mesmo que
seja algo que não seja real, ou melhor (corrigiu ela imediatamente) que... que não conseguimos explicar e
nem ver ou perceber, não é mesmo Zezé?
― Verdade
Doutora. É... de fato, eu não vejo Deus, mas eu consigo “perceber”, sim, a
presença d’Ele...
Dra. Laura nem respondeu, não
achou palavras no momento.
Zezé continuou falando com calma e
muito cuidado para não agredir a confiança e o respeito que sempre houve entre
as duas.
―
Sabe, Doutora, eu sempre soube da existência de um Deus, mas nem sempre senti a
presença d’Ele de maneira tão real como depois de toda aquela... tragédia...
que me aconteceu. Parece que depois de tudo aquilo, quando eu pensei que
deixaria de acreditar totalmente em um Deus de amor, aí mesmo é que Ele se
revelou dessa forma na minha vida acredita?
―
Não! – Foi a resposta quase impetuosa da patroa− Olha Zezé, se eu trouxer à
memória aqueles dias que você enfrentou, com certeza, ficará muito mais difícil
de responder afirmativamente a essa sua pergunta.
Nesse momento, Zezé baixou a
cabeça e lutou muito para não cair no choro de novo, como tantas vezes, durante
anos precisou fazer, escondida em seu quarto. Isso acontecia, principalmente,
depois de colocar a Mannu na cama, contar as histórias preferidas dela e ver a
menina lutando contra o sono só para ficar ouvindo a voz dela ao seu lado na
cama. Logo o sono ganhava a batalha e a menina adormecia. Zezé ficava olhando
aquele rostinho de anjo adormecido por um tempo até que algo invadia sua mente trazendo
lembranças tão doloridas que ela saía quase correndo para o seu quarto, para
buscar alívio nas suas lágrimas e no seu Deus.
A Dra. Laura conhecia bem a
história que lhe foi contada antes ainda de admitir a babá no emprego. Zezé não
gostava de falar no assunto, por isso ela não trouxe nada à tona. Ao contrário,
tentou ser compreensiva com a mulher, achando que lhe prestaria um grande favor
não prolongando ou complicando aquela conversa. E estava certa.
―
Zezé, minha querida, eu não vou exigir que você não comente nada sobre suas
crenças com a Mannu... Se isso te faz bem e, principalmente, não tem feito mal a
ela, como eu tenho notado, creio que não será nenhum problema você ensinar
certas coisas que te fizeram bem na vida para Mannu. Uma oração de vez em
quando sempre faz bem para as emoções. Eu penso assim, mal não vai fazer. Só
não quero que você fique doutrinando a menina e enchendo a cabeça dela com
coisas radicais, porque você mesma sabe o quanto isso é perigoso.
Zezé ficou mesmo surpresa com essa
reação súbita da patroa. Não esperava isso, muito pelo contrário, estivera se
preparando com muitos argumentos teológicos e racionais também para um combate
intenso com uma pessoa que ela bem sabia ser muito competitiva e também
inteligente, além de muito mais culta do que ela.
― Doutora,
que bom! Quer dizer que eu posso continuar ensinando a Mannu a orar?
― Sim,
eu creio que isso não trará nenhum “dano cerebral” ou psicológico para ela.
Como eu disse, apenas quero ser informada das coisas que você tem passado para
minha filha; o tipo de oração, as conversas sobre fé, e tudo mais. Até porque
Zezé, v ocê sempre me surpreendeu, tanto
pela coerência em tudo quanto pela força que você demonstrou diante de
situações que, sinceramente, se acontecessem a mim, não sei se eu sobreviveria.
Zezé sentiu-se muito grata, na
verdade, mais que isso, sentiu-se compensada, renovada e profundamente aliviada
pelo desfecho da conversa. Interiormente, em seu espírito, agradeceu a ajuda
que sabia ter vindo do Alto. Não se tratava apenas de misericórdia da patroa
pela sua condição emocional, pois muitas outras vezes, no tempo do sofrimento
maior, tentara falar sobre isso com a Doutora, mas ela tinha sempre se mostrado
fechada.
―
Doutora, sinceramente, nem sei como lhe agradecer pela compreensão e por não me
demitir, pois até nisso cheguei a pensar. Mas, quero lhe garantir que a senhora
nunca vai se arrepender disso. Eu amo demais essa menina e jamais traria algo
pra vida dela que pudesse prejudicá-la de alguma forma.
―
Obrigada Zezé, no fundo eu sei disso... Você sempre me passou muita segurança,
confio muito em você Zezé. Seus valores e suas atitudes diante da vida, seu
cuidado sempre amoroso e fiel com a Mannu, são os argumentos mais convincentes que eu
conheço.
Neste momento, Mannu e o papai já
vinham conversando no corredor. Zezé olhou o relógio e quase pulou do sofá.
―
Doutora! A senhora não imagina a hora!! Vamos ter que “voar”, para a Mannu não
chegar atrasada na Escola.
―
Voar, mas só aqui dentro né Zezé, porque no carro, na rua, hã, hã! Ok?
―
Claro Doutora, claro! É que, na verdade, eu pensei que essa nossa conversa
seria depois que eu levasse a Mannu para a Escola.
―
É que não seria possível esperar Zezé, você sabe a batalha que é para podermos
sair do hospital nesse horário...
―
É Doutora, eu sei... Obrigada mais uma vez, pela compreensão sobre o assunto da
Mannu.
― Na
verdade, Zezé, quem deve lhe agradecer sou eu...
Nesse momento, a Dra. Laura disse
algo que a Zezé JAMAIS imaginou que ouviria da boca da sua patroa.
―
Sabe Zezé, muitas vezes já me passou pela cabeça se estamos mesmo certos em impedir
que a Mannu tenha acesso a essa fé que você vive. Noto realmente que isto te
torna uma pessoa diferente... eu diria, até, melhor do que muitas pessoas que
eu já conheci, mais preparada para as lutas.
―
Obrigada pela confiança Doutora... mas, na realidade não sou melhor do que
ninguém, apenas deixo Alguém que é Superior em tudo guiar minha vida.
―
Pois é... chego a sentir uma ponta de inveja de você, por conseguir acreditar
dessa forma... Eu, realmente, não consigo.
Levantaram-se as duas e saíram, cada
uma com um peso a menos nos ombros.





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