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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O ALMOÇO DECISIVO - CAPÍTULO 11


Os pais da Mannu, felizmente, conseguiram mesmo vir almoçar em casa naquele dia. Fizeram mil arranjos no hospital para poderem cumprir a promessa qua haviam feito para a filha.

Mannu estava muito animada, só pelo fato de poder ver os pais na hora do almoço, coisa que muito raramente acontece. Comeu direitinho, tudo, verduras, legumes, peixe assado, que ela gosta muito, suflê de batata com queijo que a Zezé faz especialmente pra ela. Por ter comido a comida toda, direitinho, ganhou a sobremesa preferida dela;  uma taça, enorme é claro,  de sorvete com frutas, que ela aaaaaama!


Depois dessa delícia toda, o papai foi com ela para o escritório para que ela pudesse contar direito toda a história das meninas, e para conversarem sobre o que seria preciso fazer para resolverem esse problema, que tanto incomodava a Mannu.

Enquanto isso, a Zezé, com o estômago encolhido de preocupação, foi conversar com a Dra. Laura no escritório dela, onde na noite anterior tinham começado a conversa sobre a Mannu e o “Papai do céu”.

Quem começou a falar foi a Dra. Laura:



Olha, primeiramente, eu gostaria de dizer que, realmente, acho até bonito você ter essa fé. Acho importante para você se sentir mais segura em sua vida. 
Sempre que passamos por problemas tão tristes e inimagináveis como o que você enfrentou, achamos necessário buscar auxílio em algo sobrenatural, mesmo que seja algo que não seja real, ou melhor (corrigiu ela imediatamente) que... que não conseguimos explicar e nem ver ou perceber, não é mesmo Zezé?

Verdade Doutora. É... de fato, eu não vejo Deus, mas eu consigo “perceber”, sim, a presença d’Ele...

Dra. Laura nem respondeu, não achou palavras no momento.

Zezé continuou falando com calma e muito cuidado para não agredir a confiança e o respeito que sempre houve entre as duas.

Sabe, Doutora, eu sempre soube da existência de um Deus, mas nem sempre senti a presença d’Ele de maneira tão real como depois de toda aquela... tragédia... que me aconteceu. Parece que depois de tudo aquilo, quando eu pensei que deixaria de acreditar totalmente em um Deus de amor, aí mesmo é que Ele se revelou dessa forma na minha vida acredita?

Não! – Foi a resposta quase impetuosa da patroa− Olha Zezé, se eu trouxer à memória aqueles dias que você enfrentou, com certeza, ficará muito mais difícil de responder afirmativamente a essa sua pergunta.

Nesse momento, Zezé baixou a cabeça e lutou muito para não cair no choro de novo, como tantas vezes, durante anos precisou fazer, escondida em seu quarto. Isso acontecia, principalmente, depois de colocar a Mannu na cama, contar as histórias preferidas dela e ver a menina lutando contra o sono só para ficar ouvindo a voz dela ao seu lado na cama. Logo o sono ganhava a batalha e a menina adormecia. Zezé ficava olhando aquele rostinho de anjo adormecido por um tempo até que algo invadia sua mente trazendo lembranças tão doloridas que ela saía quase correndo para o seu quarto, para buscar alívio nas suas lágrimas e no seu Deus.

A Dra. Laura conhecia bem a história que lhe foi contada antes ainda de admitir a babá no emprego. Zezé não gostava de falar no assunto, por isso ela não trouxe nada à tona. Ao contrário, tentou ser compreensiva com a mulher, achando que lhe prestaria um grande favor não prolongando ou complicando aquela conversa. E estava certa.

Zezé, minha querida, eu não vou exigir que você não comente nada sobre suas crenças com a Mannu... Se isso te faz bem e, principalmente, não tem feito mal a ela, como eu tenho notado, creio que não será nenhum problema você ensinar certas coisas que te fizeram bem na vida para Mannu. Uma oração de vez em quando sempre faz bem para as emoções. Eu penso assim, mal não vai fazer. Só não quero que você fique doutrinando a menina e enchendo a cabeça dela com coisas radicais, porque você mesma sabe o quanto isso é perigoso.

Zezé ficou mesmo surpresa com essa reação súbita da patroa. Não esperava isso, muito pelo contrário, estivera se preparando com muitos argumentos teológicos e racionais também para um combate intenso com uma pessoa que ela bem sabia ser muito competitiva e também inteligente, além de muito mais culta do que ela.

Doutora, que bom! Quer dizer que eu posso continuar ensinando a Mannu a orar?


Sim, eu creio que isso não trará nenhum “dano cerebral” ou psicológico para ela. Como eu disse, apenas quero ser informada das coisas que você tem passado para minha filha; o tipo de oração, as conversas sobre fé, e tudo mais. Até porque Zezé, v ocê sempre me surpreendeu, tanto pela coerência em tudo quanto pela força que você demonstrou diante de situações que, sinceramente, se acontecessem a mim, não sei se eu sobreviveria.

Zezé sentiu-se muito grata, na verdade, mais que isso, sentiu-se compensada, renovada e profundamente aliviada pelo desfecho da conversa. Interiormente, em seu espírito, agradeceu a ajuda que sabia ter vindo do Alto. Não se tratava apenas de misericórdia da patroa pela sua condição emocional, pois muitas outras vezes, no tempo do sofrimento maior, tentara falar sobre isso com a Doutora, mas ela tinha sempre se mostrado fechada.

Doutora, sinceramente, nem sei como lhe agradecer pela compreensão e por não me demitir, pois até nisso cheguei a pensar. Mas, quero lhe garantir que a senhora nunca vai se arrepender disso. Eu amo demais essa menina e jamais traria algo pra vida dela que pudesse prejudicá-la de alguma forma. 
 
Obrigada Zezé, no fundo eu sei disso... Você sempre me passou muita segurança, confio muito em você Zezé. Seus valores e suas atitudes diante da vida, seu cuidado sempre amoroso e fiel com a Mannu,  são os argumentos mais convincentes que eu conheço.

Neste momento, Mannu e o papai já vinham conversando no corredor. Zezé olhou o relógio e quase pulou do sofá.

Doutora! A senhora não imagina a hora!! Vamos ter que “voar”, para a Mannu não chegar atrasada na Escola.

Voar, mas só aqui dentro né Zezé, porque no carro, na rua, hã, hã! Ok?

Claro Doutora, claro! É que, na verdade, eu pensei que essa nossa conversa seria depois que eu levasse a Mannu para a Escola.

É que não seria possível esperar Zezé, você sabe a batalha que é para podermos sair do hospital nesse horário...

É Doutora, eu sei... Obrigada mais uma vez, pela compreensão sobre o assunto da Mannu.

Na verdade, Zezé, quem deve lhe agradecer sou eu...

Nesse momento, a Dra. Laura disse algo que a Zezé JAMAIS imaginou que ouviria da boca da sua patroa.

Sabe Zezé, muitas vezes já me passou pela cabeça se estamos mesmo certos em impedir que a Mannu tenha acesso a essa fé que você vive. Noto realmente que isto te torna uma pessoa diferente... eu diria, até, melhor do que muitas pessoas que eu já conheci, mais preparada para as lutas.

Obrigada pela confiança Doutora... mas, na realidade não sou melhor do que ninguém, apenas deixo Alguém que é Superior em tudo guiar minha vida.

Pois é... chego a sentir uma ponta de inveja de você, por conseguir acreditar dessa forma... Eu, realmente, não consigo.

Levantaram-se as duas e saíram, cada uma com um peso a menos nos ombros.




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