Quando os pais da Mannu chegaram,
ela correu para pular no colo do papai e contar as novidades do seu dia na
escola. A mamãe deu um beijo nela e pediu para ela esperar um pouco até que
todos estivessem sentados para jantar e então ela poderia contar tudo para os
dois.
À mesa do jantar, estava difícil
fazer a Mannu comer, porque ela só queria falar, falar e falar, o tempo
inteiro. A tampa do seu poço de palavras tinha “sumido” e ela nem sabia onde
estava para colocar de volta.
Quando ela terminou de contar a
história do lanche tumultuado, seu pai perguntou:
―
Mas por que você acha que essa menina tentou derrubar teu lanche, ela pode
mesmo ter enroscado a mão sem querer na tua lancheira.
A Mannu olhou para ele com
desapontamento e disse:
―
Papai, faz tempo que eu reclamo dessas duas meninas pra você e pra mamãe, e
você nem lembra disso. Eu já contei que elas sempre fazem isso, derrubam meus
cadernos, me empurram pra eu cair e ficam me chamando de “barata sonsa”. E tem
mais coisas ainda que elas fazem e eu nem contei...
―Ah
é minha filha? Mas então você precisa contar tudo isso para a professora na
hora que acontecer
.
―
Eu até já falei uma vez, mas ela só falou para a Lívia juntar meu caderno e
pedir desculpas. Daí a Lívia juntou o caderno e colocou de volta na minha
carteira, mas não pediu desculpas e ainda me mostrou a língua fazendo uma
careta muito feia!
―
Sim, e a professora não viu isso?
― Não
papai, porque ela estava de costas pra professora e olhando pra mim...
A mamãe da Mannu entrou na conversa
dizendo:
―
Filhinha, eu já disse pra você não se importar com essas coisinhas, senão não
vai haver escola no mundo onde você possa estudar. Isso acontece em todo lugar.
―
Mamãe, isso não é uma “coisinha” pra mim... eu fico triste sempre que elas
implicam comigo, eu já tentei falar isso pra senhora...
Nesse instante, a Zezé que estava
na cozinha próxima da copa, pensou:
De fato, ela tem razão, muitos
adultos não percebem o quanto certas coisas têm importância para a formação da
personalidade de uma criança. Não percebem também que certas coisas, que para
os adultos não têm a mínima importância, na mente infantil, ao contrário, podem
funcionar como uma bomba relógio.
Quando já estavam terminando o
jantar, o telefone do Dr. Alvaro tocou, interrompendo o que a Mannu estava
começando a contar sobre o quanto aquilo tudo a incomodava. Estavam precisando
dele no hospital novamente. Ele levantou-se imediatamente, deu um rápido beijo
na esposa e na filha e saiu apressado.
Mannu ficou com a boca aberta
começando uma sílaba que não conseguiu terminar. Colocou um pedaço de pudim na
boca e falou meio mastigando e meio resmungando:
―
Desse jeito meu "poço de palavras" vai secar...
Sua mãe lhe disse para engolir
primeiro e depois falar, mas ela respondeu de uma maneira que causou espanto na
Dra. Laura e também em Zezé que estava atenta à conversação.
―
Não tenho mais nada pra falar porque já engoli todas as palavras junto com o
pudim!
Nesse momento, Dra. Laura olhou espantada
para Zezé que tinha acabado de surgir na porta de entrada para a copa, também
com os olhos arregalados pela natureza da resposta da menina, tão séria e tão
madura para sua pouca idade.
Um tanto surpresa e meio sem jeito
com a reação da filha a Dra. Laura tentou justificar a saída do pai justamente
naquele momento. Um momento que só agora ela compreendia o quanto era
importante para Mannu.
―
Zezé, essa menina diz cada uma não?
Zezé respondeu admirada : ― Verdade Dra... a Mannu é muito
inteligente!
―
É mesmo Zezé... mas é por isso que ela precisa entender que quando chamam o
papai, ele precisa ir, porque tem gente precisando dele no hospital, entende
filhinha?
Mannu não respondeu de imediato.
Terminou o pudim e pediu para a mamãe se já podia ir para o quarto porque ela
não queria ler o “Pequeno príncipe” aquela noite pois estava muito cansada.
A mamãe respondeu que tudo bem, até
aliviada, pois estava também muito cansada do longo dia no hospital.
―
Claro filhinha, tudo bem, pode ir com a Zezé... antes me dá um beijo e um
abraço de pelo menos um minuto tá?
Mannu obedeceu e deu um abraço bem
demorado na mamãe. Quando já estava saindo com a Zezé, virou-se para
a mãe e disse:
―
Mamãe, eu sei que muita gente precisa do papai, mas eu também preciso e parece
que essas pessoas sempre precisam dele muito mais do que eu, a toda hora, não
sobra nenhum minutinho pra mim!
De novo a Dra. Laura arregalou os
olhos, surpresa com a maturidade da queixa da criança. Olhou para Zezé, sem
saber bem o que dizer. Zezé foi quem preencheu o silêncio tentando socorrer a
filha e a mãe.
―
Verdade, meu amor, que coisa não?! Mas você vai ver que antes ainda de você
dormir o papai já está de volta e vocês podem até terminar a conversa, não é?
Mannu respondeu: ― Zezé, você sabe que não é assim,
o papai só vai chegar quando eu estiver sonhando já...
―
Vamos ver se vai ser assim hoje também certo? Vamos lá que a Zezé vai te contar
uma história daquelas que você gosta até você dormir.
Dizendo isso, Zezé olhou para a
Dra. Laura ainda sentada à mesa e perguntou:
―
Dra... eu gostaria de falar com a senhora depois, pode ser?
―
Claro Zezé, se não for uma conversa muito demorada, porque o dia hoje foi
puxado lá no hospital, estou acabada!
Saíram as duas deixando a Dra.
Laura sozinha e pensativa.







Nenhum comentário:
Postar um comentário