Quando Zezé foi levar a Mannu para a escola naquele
dia, parecia que a tampa do poço de palavras da Mannu tinha sido
colocada de novo. Mannu ia quietinha e pensativa...
Até que a Zezé perguntou:
Até que a Zezé perguntou:
─ Mannu, que aconteceu? Cansou de falar?
A menina pensou um pouquinho e respondeu:
─ Sabe o que é Zezé? É que quando eu estou chegando
na escola, eu começo a sentir uma coisa esquisita aqui no meu estômago, é como
se ele estivesse com frio...
Zezé entendeu imediatamente que a menina estava
sentindo medo de enfrentar a situação que já conhecia, embora, nem entendesse
bem isso. Então procurou falar com naturalidade para explicar aquela sensação
para Mannu.
─ Sabe o que é meu amor? É que quando a gente está
um pouco ansiosa com alguma coisa, o estômago se encolhe um pouquinho e dá essa
sensação de friozinho.
─ Pois é, dá impressão que hoje é um dia de aula de
Matemática, que eu não gosto muito... nem com aqueles joguinhos que a Tia Lucia faz, eu não consigo gostar de números e contas... Eu gosto muito mais de palavras... E eu fico assim quando é dia de números também.
─ Não se preocupe! Respondeu a Zezé.
─ Lembre-se apenas que você já conversou ontem com
o Papai lá do céu e Ele já está sabendo de toda a situação com as meninas.
Então, você não precisa mais se preocupar com isso. De hoje em diante, quem vai
cuidar de tudo é Ele, tá bom?
Mannu pensou mais um pouquinho e por fim respondeu:
─ Mas Zezé, como eu vou saber que Ele vai fazer
alguma coisa se Ele nem falou comigo. E se Ele não falou comigo, acho que não
vai falar com elas também... Eu acho que elas vão continuar me chamando de
“barata sonsa” e você sabe que eu não sou nada disso... E Zezé, mais uma coisa:
o que é “sonsa”?
─ Zezé respondeu com toda a clareza e naturalidade
que encontrou.
─ “Sonsa” é uma pessoa que se faz de boba, como se
não entendesse as coisas, ou finge não ouvir nada.
─ Então eu não sou isso também, porque eu não finjo
que não entendi o que elas me dizem. Eu só não quero responder porque eu não
sei nenhuma palavra feia pra dizer pra elas também. E eu fico com vontade de
chorar quando elas brigam comigo.
─ Muito bem, meu amor, você não precisa dizer
nenhuma palavra feia pra elas mesmo, senão você fica feia também. A única coisa
que você precisa fazer é lembrar que você tem um sorriso pra jogar em cima
delas. Elas não vão aguentar o peso.
─ KKKKKKK! Como assim Zezé? Eu tenho um sorriso de
ferro, bem pesado? Não!!! Acho que é de hipopótamo ou de elefante, ou de
baleia!!! Mas uma baleia bonitinha né?
E a Mannu riu muito dessa ideia esquisita da Zezé.
Até que a Zezé falou muito seriamente:
─ Olha, muitas vezes, quando as pessoas ficam provocando
a gente, é porque elas, na verdade, querem ser amigas, mas pensam que a gente é
muito chata ou muito diferente delas e não vai querer ser amiga delas. Então
quando você sorri, as coisas ficam mais fáceis pra outra pessoa tentar um jeito
diferente de falar com você.
─ Huuumm, não sei se isso vai dar certo Zezé. Elas
podem pensar que eu sou mesmo uma “sonsa” você não acha? Eu vou olhar pra elas e
ficar sorrindo?? Só isso?? Ihhhhhh, não gostei disso Zezé, que esquisito!
─ Então, além de sorrir vou te ensinar uma palavra bem
esquisita pra você dizer pra elas quando elas te incomodarem tá bom? Elas não
vão entender nada e vão ficar pensando no que você quis dizer com aquilo.
Mannu arregalou os olhos e falou:
─ Mas Zezé, a mamãe disse que eu não devo ficar
falando palavras feias porque é “osfentivo” para as pessoas.
─ Kkkkk, você quer dizer “ofensivo” né?
Então não se preocupe, não é uma palavra feia, é só diferente e elas não vão
entender isso que você vai dizer. Depois eu te conto o que significa e você
pode até contar pra elas também.
A Mannu ficou um pouco preocupada ainda, mas mesmo
assim, mais encorajada. Afinal, agora ela também teria uma palavra estranha
para dizer para as meninas.
A Zezé, sussurrou no ouvido da Mannu a “tal”
palavra, ou melhor, as “tais” palavras porque eram mais de uma. A Mannu fez uma
careta e disse: ─ “Hã???”
A Zezé repetiu no ouvido dela e ainda anotou num papel
para a Mannu não esquecer. Escrevia diferente de como falava, mas a Zezé escreveu
na frente como é que a Mannu devia falar as palavras.
Já estavam no portão da escola e a Zezé deu um
beijo na Mannu que entrou correndo e olhando para trás com um sorrisinho
confiante. O friozinho no estômago tinha ido embora.




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