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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

E AGORA, O QUE SERÁ DE MIM? CAPÍTULO 90


Ao chegar na UTI, ele parou por alguns instantes para dar uma respirada funda e controlar tudo o que tinha se esfarelado dentro dele havia poucas horas. Entrou devagar e falou com uma das enfermeiras que lhe deu as últimas informações sobre a sua esposa em termos médicos e depois finalizou a conversa assim:

Doutor, estamos todos torcendo para que ela reaja e saia dessa o quanto antes... por enquanto, nenhuma mudança, infelizmente... E o senhor sabe como as coisas são incertas nesses casos...

Sim... eu sei sim... Esse é o meu maior problema... eu sei muito bem que pra ela agora, só um “milagre” mesmo...

 A enfermeira tocou de leve o seu ombro num gesto de simpatia e disse pra ele ficar à vontade para ver a esposa.

Ele se aproximou para vê-la mais de perto. Era tão triste não poder falar com ela, não ouvir sua voz e nem mesmo saber se ela ainda acordaria, um dia, pra falar qualquer coisa que fosse... Sentia que tinha tanta coisa ainda pra dizer, coisas que gostaria de ter dito antes, coisas que gostaria de ter feito para ela antes, promessas, tantos planos e sonhos que ainda ficaram por se cumprir... 


Ficou por muito tempo ali, sentado ao lado da cama, segurando a mão dela e tentando orar, do fundo do coração, com toda a fé que conseguiu reunir como a Zezé tinha aconselhado. Depois de um bom tempo, levantou-se e saiu para ver a filha. Quando estava na porta, ouviu aquele “bip” de alerta e olhou, horrorizado, o gráfico cardíaco da esposa.


Da porta mesmo avisou uma enfermeira que passava para que mandasse vir a equipe de plantão na UTI, que estava ali bem perto, imediatamente! E voltou correndo para dentro, tentando agir da melhor maneira possível e de forma profissional, porém, acabou gritando mesmo; angustiado com aquela certeza. Sua Laura estava partindo...


*PCR (Parada Cardiorrespiratória)
*ASSISTOLIA (A total ausência de atividade ventricular contrátil associada à inatividade cardíaca)

Em poucos segundos estavam todos ao redor da Drª Laura, acompanhados da Drª Eunice e agindo com muita rapidez e precisão. Alguém retirou o Dr. Àlvaro dali, arrastado, e a última palavra que ele ouviu da boca da médica foi: “Epinefrina!”... E os sons foram ficando cada vez mais distantes enquanto ele era puxado para fora e se jogava em uma cadeira a alguns metros dali, em outra sala, acompanhado por um médico conhecido dele que falava o tempo todo tentando acalmá-lo, embora ele não ouvisse nada do que o outro dizia. 

Tudo lhe parecia vago e irreal e ele mal tinha certeza se estava acordado ou passando por um pesadelo horrível. Uma das auxiliares do setor trouxe uma xícara de café e entregou para o colega do Dr. Álvaro e saiu rapidamente.


Enquanto isso, na UTI, as coisas caminhavam em ritmo muito acelerado com esforços enormes e concentração máxima de toda a equipe para reverter a situação. Mas, os minutos iam passando e nada mudava, tudo parecia inútil, tudo o que era possível naquele caso foi tentado, mas, nem os medicamentos estavam fazendo o efeito que deveriam fazer. Como havia um protocolo a seguir, a médica e a equipe continuaram tentando até se passarem vinte e cinco minutos. Sem resposta... Hora de desistir...


A Doutora Eunice saiu com a pesada incumbência de dar a notícia ao Dr. Álvaro. Os outros ficaram para cuidar dos detalhes finais e necessários nesses casos. Todos envolvidos por uma nuvem escura e pesada, todos amavam a Drª Laura e o Dr. Álvaro naquele hospital.

Em outra dimensão, paralela ao nosso mundo físico, as coisas aconteciam assim: No momento em que a equipe entrou correndo para socorrê-la e seu marido era arrastado para fora da sala, a Drª Laura viu-se repentinamente consciente, do lado de fora do seu corpo, vendo as pessoas no ambiente movendo-se freneticamente obedecendo aos comandos da Drª Eunice.


Ela ouvia o que eles diziam e podia ver o seu próprio corpo na cama, mas, estranhamente, não sentia medo, nem dor, apenas uma certa confusão. Afinal, por que é que ninguém escutava o que ela dizia tentando chamar a atenção das pessoas ali para informar que estava se sentindo bem melhor agora? E como assim? Por que ela estava vendo o seu próprio corpo ali como se fosse outra pessoa? Ela não conseguia entender mesmo, pensou que seria um sonho, mas, em seguida sentiu-se flutuando acima das pessoas, vendo a cena toda se desenrolando ali embaixo. Queria chamar as pessoas mas não conseguia.

De repente, viu-se fora do hospital, como se tivesse saído pelo teto, via a cidade conhecida sua como se estivesse voando acima dela. Em seguida, sentiu-se puxada fortemente para dentro de uma abertura que ficava acima dela, no ar. Era como se ela fosse de metal e um ímã gigante atraísse seu corpo para dentro daquilo e ela não conseguia resistir nem se firmar em nada.
 

O dia estava começando a clarear e havia algumas estrelas ainda visíveis no céu. A cidade começava a despertar lá embaixo...

Ela foi subindo cada vez mais, atraída para dentro daquela passagem no ar e, inesperadamente, tudo se tornou completamente escuro. Era como se ela tivesse entrado em um túnel muito escuro. Nesse instante, ela sentiu temor. Um grande temor! Não sabia para onde estava sendo levada e muito menos conseguia impedir o fato.


Lembrou-se da filha e do marido e quis chamar por eles, mas não conseguiu, parecia que a lembrança deles ia se diluindo dentro dela, como se eles fossem apenas um sonho bom guardado dentro dela em um tempo que se tornava cada vez mais distante, à medida que ela viajava em uma velocidade inacreditável que ela apenas conseguia sentir,  mas não tinha nenhuma referência visual, pois ela não via absolutamente nada das paredes do túnel. Era como se ela estivesse viajando em um buraco negro.

Começou a sentir um medo muito real, diferente da paz que tinha sentido quando se viu fora do seu corpo naquela UTI. O que estaria acontecendo? Ela sentia que tudo aquilo era mais real ainda do que tudo o que já tinha experimentado na vida da qual ela ainda se lembrava. Tinha uma noção de si mesma mais forte do que nunca. Sentia de forma muito vívida que estava prestes a encontrar-se em um mundo diferente, mas bem real, e sentia, principalmente, que alguém esperava por ela. Como assim? Quem seria? O que ela teria pra dizer? O que seria perguntado a ela?


Sobretudo, sentia que os seus pensamentos eram muito vivos também e sua memória lhe trazia todos eles em fração de segundos, como se fosse um alerta de que muitos deles não tinham sido aprovados e teria que dar explicações. Tentou racionalizar, como sempre fazia, para justificar para si mesma sua maneira de pensar de sempre, mas, sua “mente” parecia se comportar de maneira diferente agora. Afinal, será que sua mente e suas faculdades de raciocinar vieram junto com ela? Parecia que não... Será que tinham ficado lá no cérebro danificado dela? Será que ela estaria neste momento usando apenas uma consciência espiritual? Talvez...

Enquanto viajava no túnel escuro, não tinha noção alguma de tempo e espaço, só conseguia sentir que estava em movimento e em altíssima velocidade. Como seria isso se ela nem tinha noção do espaço ao seu redor? Desistiu de tentar entender. Sentiu-se muito limitada para isso.

De repente, lembrou-se das coisas que a Mannu falava sobre Deus e que lhe soavam tão sem fundamento, no entanto, agora, tinha uma sensação muito forte de que tudo era real e que ela em breve teria de constatar isso por si mesma. E pior... ela havia perdido a chance de acreditar enquanto estava na dimensão física. E agora?... Como faria se a Zezé vivia dizendo que as pessoas só tinham chance de ser salvas pela fé, e “fé”, só era possível no plano físico. Na realidade onde ela estava sendo introduzida agora, a fé de nada adiantaria; pois ela estaria diante da Verdade Absoluta, não precisaria da fé para ter conhecimento da Verdade, isso ela deveria ter usado na dimensão física. Acontece que ela estava saindo daquela dimensão física e entrando na dimensão espiritual e sentia isso agora com absoluta certeza.

Enquanto o medo crescia, ela avistou um ponto minúsculo na distância... Seria uma luz? Seria o fim do túnel? E agora? O que aconteceria com ela?



Sentiu um medo indescritível! Tinha plena consciência de estar em completa desarmonia com aquela realidade. Era como se a sua incredulidade no tempo de vida que lhe fora concedido no mundo físico a tornasse indigna de estar ali. E por que nunca sentira nada disso antes? Fechou os olhos para não ver nada, mas, surpresa! Mesmo de olhos fechados, ela continuava vendo o ponto de luz que se aproximava cada vez mais  rápido. Não poderia fugir de forma nenhuma, teria que encarar o seu destino final...

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