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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SENSAÇÃO DE ABANDONO - CAPÍTULO 87


Enquanto caminhava, apressadamente, em direção ao centro cirúrgico, o Dr. Álvaro sentiu crescer dentro dele aquela sensação horrível de estar sozinho em meio a uma multidão. Passou por muitas pessoas no seu trajeto, todos falaram com ele o hospital todo parecia estar sabendo do acidente – mas ele não conseguia responder ninguém, apenas fazia um movimento com a cabeça, só para indicar que ouviu a pessoa. Queria, na verdade, correr; e foi o que acabou fazendo. Nunca aquele centro cirúrgico parecera tão longe.

Ao entrar, ouviu alguém chamando. Era a Drª Eunice; aquela que tinha ido até a sua sala para avisá-lo da chegada da mulher e da filha ao hospital.

  
Do lado de fora da sala, o Dr. Salviano, neurocirurgião também e da mais alta confiança do Dr. Álvaro, aguardava para informá-lo do quadro e seguir com os procedimentos. A conversa foi muito rápida pois não havia tempo a perder e o Dr Salviano ainda precisava fazer todos os preparativos para entrar na sala de cirurgia. 


Essa era a hora mais difícil que ele enfrentava em toda sua vida. Nunca havia sentido aquela sensação de estar “impedido de agir”. O fato de ficar do lado de fora da sala tendo que aguardar notícias era muito pior do que ele poderia imaginar... Ele só podia esperar, confiar, e, quem sabe... orar... Talvez fosse a hora pra isso, pensou com o coração pesando toneladas dentro do peito.

Mas... será que Deus ouviria qualquer pedido da sua parte? Afinal, ele nunca acreditou “muito” nesse Ser Superior que alguns tratavam como o Dono da vida e do Universo. Mesmo assim, ele sentia uma necessidade muito forte de pedir socorro a alguém, e quem? Além do Dr. Salviano, ele só poderia falar com alguém em quem confiasse mais do que confiava no colega e sua equipe. 
Alguém que ele tivesse certeza que existia e aceitaria qualquer pedido seu... Caso contrário, seria jogar conversa fora e perder tempo, gritava a mais pura racionalidade dentro dele.

Lembrou-se da filha e resolveu voltar correndo para a ala pediátrica. Tinha prometido que não demoraria a dar notícias da mãe.
 

Ele tentou falar a verdade sem alarmar a filha e percebeu que isso também era uma coisa que pesava muito! Parecia que a sua mente não encontrava as palavras certas para usar nesse caso. Começou meio gaguejante, coisa que a filha logo percebeu.

É... pois então filhinha... eu... eu vi a sua mãe, ou melhor, eu nem vi, porque o Dr. Salviano disse que ela já estava pronta pra ... pra ... eu nem pude entrar...

Papai!!! Interrompeu a Mannu que estava muito mais do que atenta e ansiosa para saber alguma coisa da mamãe que ela só tinha visto colocarem no “carrão grande” (ambulância) enquanto ela era examinada por outra pessoa no local do acidente. Ela estava muito tonta naquele momento, mas percebeu que eles levaram a mãe dela primeiro e também percebeu que saíram muito rápido, enquanto ela veio em outro carro menor com outras pessoas depois de ser examinada. Tudo na cabeça dela mostrava que a situação não era boa.

Mas o pior é que, ninguém dizia direito para onde estavam levando a mamãe com tanta pressa assim, pensava ela enquanto era examinada. Ficavam todos respondendo com “aquelas coisas” que todo mundo fala pra crianças bem pequenininhas. Ela era uma “gente grande” e não precisava que ninguém falasse com ela na “língua dos bebês”... porque nada daquilo estava convencendo a sua imaginação que era bem fértil. Da mesma forma ela se sentiu quando viu o pai gaguejando na explicação.

Papai, você nunca fica “torpeçando” em cada palavrinha pra falar comigo, então fale logo que eu tô ficando de novo com vontade de chorar!

O médico dispensou as meninas agradecendo muito pela atenção que elas haviam dado à filha dele até aquele momento.

Meninas, vocês podem ir agora... Vou ficar aqui com ela um bom tempo e... vamos conversar. Muito obrigado pelo carinho de vocês com ela! Obrigado mesmo!!

Elas saíram dizendo que ele poderia chamar qualquer uma delas no momento em que precisasse.

Quando se viu sozinho com a filha, disse em pensamento para si mesmo que não esconderia nada dela e tentaria ser o mais claro possível.


É que aconteceu o seguinte: a mamãe bateu a cabeça com muita força no para-brisa do carro e por isso ela ficou “dormindo” como você diz minha filha. E, o Dr. Salviano deu um remédio pra ela que vai fazer ela dormir mais um tempão ainda... Ela vai dormir até amanhã, então nós poderíamos dormir um pouco também, porque você precisa descansar também, sabia?

Ah papai, mas eu não quero dormir ainda. Por que o Dr. Salviano teve que por a mamãe pra dormir até amanhã? Ele podia deixar ela falar comigo primeiro e depois ela dormia mais, entendeu?

Não filha... é... é que a mamãe... ela não tinha acordado ainda... sozinha... desde que ela chegou aqui, entendeu? E o Dr. Salviano tem que procurar o que aconteceu com ela enquanto ela dorme, porque assim, ela não vai sentir dor nenhuma quando ele tiver que mexer na cabeça dela, por exemplo.

Ah... entendi... então ele não quis acordar a mamãe pra ela não sentir nenhuma dor né? Porque eu estou com dor na minha cabeça, desde a hora que eu bati ela no banco. E ainda teve esse caco de vidro que cortou a minha testa, tá vendo aqui papai, o meu dodói?

Ele olhou para a testa da filha e respondeu:

Sim, meu amor, é verdade, estou vendo que tem um curativo bem bonitinho aí, isso vai ajudar a sarar bem depressa você já sabe disso né?

É papai... eu sei... Mas... papai, eu quero perguntar uma coisa...

Sim, meu amor... pergunte.


Ele engoliu em seco e demorou um pouco para conseguir responder.

Filha... disse ele com cuidado, escolhendo as palavras. Na verdade, a mamãe deve ter tido um “trincadinho” bem pequeno na cabeça sabe?... por isso, o Dr Salviano vai procurar, com bastante cuidado, pra ver se não tem nenhum problema lá dentro da cabeça dela ...

Papai, o que é “trincadinho”?

Ah... é... assim quando uma coisa quebra bem pouquinho... ou então quase quebra, mas não chega a quebrar de verdade, sabe?

Hum... acho que sei papai... é quando fica aquele sinalzinho, igual no vidro, mas não abre...

Ela pensou um pouquinho e em seguida mostrou o que andava rodando em sua mente.



Meu Deus, filha!!! Não!!! A mamãe não vai virar estrelinha coisa nenhuma! Disse ele com tanta ênfase que ele mesmo percebeu que dizia aquilo tentando convencer também a si mesmo.

 Nesse instante, a Mannu olhou para o pai, como se tivesse descoberto um tesouro ali mesmo, no quarto, e em seguida, desceu do colo dele e se colocou na sua frente, em pé, falando com a empolgação que o pai bem conhecia.


Dizendo isso, ela foi puxando o pai pela mão e fazendo com que ele se ajoelhasse na beirada da cama junto com ela. Ele não teve nem mesmo dois segundos para pensar em recusar aquela “santa imposição”. E, olhando bem para dentro de si, ele achava que não queria mesmo recusar.

Depois de prontos ela logo avisou:

Papai, você tem que orar a mesma coisa que eu vou orar tá bom? Por que a Zezé disse que quando a gente pede a mesma coisa pro Papai do céu, junto com outra pessoa, Ele sempre atende. Só não atende se, por acaso, Ele tiver um plano melhor, que é d’Ele mesmo e a gente não sabe, entendeu?

Acho que sim filha... mas... então como eu faço? Eu repito tudo o que você for dizendo?

Não papai, não precisa... porque a Zezé falou que Jesus não gosta muito que a gente fique repetindo as coisas na oração igual o Lôlo fazia... lembra do Lôlo? O meu papagaio que fugiu de casa lá na Fazenda?

Lembro... lembro sim filha...

Então, papai, o que precisa mesmo é você escutar e pensar igual o que eu vou falar pra Deus. Quer dizer... daí você vai ser um papagaio do mesmo jeito né papai? Só que um papagaio pensador... Sabe o que, papai? Eu acho que Jesus quis dizer que você tem que querer também a mesma coisa que eu estou pedindo na oração e não só repetir. Então, acho que você pode até pedir do mesmo jeito que eu vou pedir, só que “querendo” entendeu papai? Porque daí você não vai falar as coisas “otomaticamente” só...

“Automaticamente”... é isso filhinha?

 Isso... como o papagaio faz... ele só repete o que escuta mas nem sabe o que está dizendo e por isso não pode querer o que ele está falando.

Hum... certo... acho que entendi.


Não perca no próximo capítulo a primeira oração do Dr. Álvaro. Será que Deus ouviria alguém como ele?  

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