Enquanto
caminhava, apressadamente, em direção ao centro cirúrgico, o Dr. Álvaro sentiu
crescer dentro dele aquela sensação horrível de estar sozinho em meio a uma
multidão. Passou por muitas pessoas no seu trajeto, todos falaram com ele ― o hospital todo parecia estar sabendo do acidente –
mas ele não conseguia responder ninguém, apenas fazia um movimento com a
cabeça, só para indicar que ouviu a pessoa. Queria, na verdade, correr; e foi o
que acabou fazendo. Nunca aquele centro cirúrgico parecera tão longe.
Ao
entrar, ouviu alguém chamando. Era a Drª Eunice; aquela que tinha ido até a sua
sala para avisá-lo da chegada da mulher e da filha ao hospital.
Do
lado de fora da sala, o Dr. Salviano, neurocirurgião também e da mais alta
confiança do Dr. Álvaro, aguardava para informá-lo do quadro e seguir com os
procedimentos. A conversa foi muito rápida pois não havia tempo a perder e o Dr
Salviano ainda precisava fazer todos os preparativos para entrar na sala de
cirurgia.
Essa
era a hora mais difícil que ele enfrentava em toda sua vida. Nunca havia sentido
aquela sensação de estar “impedido de agir”. O fato de ficar do lado de fora da
sala tendo que aguardar notícias era muito pior do que ele poderia imaginar...
Ele só podia esperar, confiar, e, quem sabe... orar... Talvez fosse a hora pra
isso, pensou com o coração pesando toneladas dentro do peito.
Mas...
será que Deus ouviria qualquer pedido da sua parte? Afinal, ele nunca acreditou
“muito” nesse Ser Superior que alguns tratavam como o Dono da vida e do
Universo. Mesmo assim, ele sentia uma necessidade muito forte de pedir socorro
a alguém, e quem? Além do Dr. Salviano, ele só poderia falar com alguém em quem
confiasse mais do que confiava no colega e sua equipe.
Alguém que ele tivesse
certeza que existia e aceitaria qualquer pedido seu... Caso contrário, seria
jogar conversa fora e perder tempo, gritava a mais pura racionalidade dentro
dele.
Lembrou-se
da filha e resolveu voltar correndo para a ala pediátrica. Tinha prometido que
não demoraria a dar notícias da mãe.
Ele
tentou falar a verdade sem alarmar a filha e percebeu que isso também era uma
coisa que pesava muito! Parecia que a sua mente não encontrava as palavras
certas para usar nesse caso. Começou meio gaguejante, coisa que a filha logo
percebeu.
― É...
pois então filhinha... eu... eu vi a sua mãe, ou melhor, eu nem vi, porque o
Dr. Salviano disse que ela já estava pronta pra ... pra ... eu nem pude
entrar...
―
Papai!!! Interrompeu a Mannu que estava muito mais do que atenta e ansiosa para
saber alguma coisa da mamãe que ela só tinha visto colocarem no “carrão grande”
(ambulância) enquanto ela era examinada por outra pessoa no local do acidente.
Ela estava muito tonta naquele momento, mas percebeu que eles levaram a mãe
dela primeiro e também percebeu que saíram muito rápido, enquanto ela veio em
outro carro menor com outras pessoas depois de ser examinada. Tudo na cabeça
dela mostrava que a situação não era boa.
Mas o
pior é que, ninguém dizia direito para onde estavam levando a mamãe com tanta
pressa assim, pensava ela enquanto era examinada. Ficavam todos respondendo com
“aquelas coisas” que todo mundo fala pra crianças bem pequenininhas. Ela era
uma “gente grande” e não precisava que ninguém falasse com ela na “língua dos
bebês”... porque nada daquilo estava convencendo a sua imaginação que era bem
fértil. Da mesma forma ela se sentiu quando viu o pai gaguejando na explicação.
―
Papai, você nunca fica “torpeçando” em cada palavrinha pra falar comigo, então
fale logo que eu tô ficando de novo com vontade de chorar!
O
médico dispensou as meninas agradecendo muito pela atenção que elas haviam dado
à filha dele até aquele momento.
―
Meninas, vocês podem ir agora... Vou ficar aqui com ela um bom tempo e... vamos
conversar. Muito obrigado pelo carinho de vocês com ela! Obrigado mesmo!!
Elas
saíram dizendo que ele poderia chamar qualquer uma delas no momento em que
precisasse.
Quando
se viu sozinho com a filha, disse em pensamento para si mesmo que não
esconderia nada dela e tentaria ser o mais claro possível.
― É
que aconteceu o seguinte: a mamãe bateu a cabeça com muita força no para-brisa do carro e por isso ela ficou “dormindo” como você diz minha filha. E, o Dr.
Salviano deu um remédio pra ela que vai fazer ela dormir mais um tempão
ainda... Ela vai dormir até amanhã, então nós poderíamos dormir um pouco
também, porque você precisa descansar também, sabia?
― Ah
papai, mas eu não quero dormir ainda. Por que o Dr. Salviano teve que por a
mamãe pra dormir até amanhã? Ele podia deixar ela falar comigo primeiro e
depois ela dormia mais, entendeu?
― Não
filha... é... é que a mamãe... ela não tinha acordado ainda... sozinha... desde
que ela chegou aqui, entendeu? E o Dr. Salviano tem que procurar o que
aconteceu com ela enquanto ela dorme, porque assim, ela não vai sentir dor
nenhuma quando ele tiver que mexer na cabeça dela, por exemplo.
―
Ah... entendi... então ele não quis acordar a mamãe pra ela não sentir nenhuma
dor né? Porque eu estou com dor na minha cabeça, desde a hora que eu bati ela
no banco. E ainda teve esse caco de vidro que cortou a minha testa, tá vendo
aqui papai, o meu dodói?
Ele
olhou para a testa da filha e respondeu:
― Sim,
meu amor, é verdade, estou vendo que tem um curativo bem bonitinho aí, isso vai
ajudar a sarar bem depressa você já sabe disso né?
― É
papai... eu sei... Mas... papai, eu quero perguntar uma coisa...
― Sim,
meu amor... pergunte.
Ele
engoliu em seco e demorou um pouco para conseguir responder.
―
Filha... disse ele com cuidado, escolhendo as palavras. ― Na verdade, a mamãe deve ter tido um “trincadinho” bem
pequeno na cabeça sabe?... por isso, o Dr Salviano vai procurar, com bastante cuidado,
pra ver se não tem nenhum problema lá dentro da cabeça dela ...
―
Papai, o que é “trincadinho”?
―
Ah... é... assim quando uma coisa quebra bem pouquinho... ou então quase quebra,
mas não chega a quebrar de verdade, sabe?
―
Hum... acho que sei papai... é quando fica aquele sinalzinho, igual no vidro,
mas não abre...
Ela
pensou um pouquinho e em seguida mostrou o que andava rodando em sua mente.
― Meu
Deus, filha!!! Não!!! A mamãe não vai virar estrelinha coisa nenhuma! Disse ele
com tanta ênfase que ele mesmo percebeu que dizia aquilo tentando convencer
também a si mesmo.
Nesse instante, a Mannu olhou para o pai, como
se tivesse descoberto um tesouro ali mesmo, no quarto, e em seguida, desceu do
colo dele e se colocou na sua frente, em pé, falando com a empolgação que o pai
bem conhecia.
Dizendo
isso, ela foi puxando o pai pela mão e fazendo com que ele se ajoelhasse na
beirada da cama junto com ela. Ele não teve nem mesmo dois segundos para pensar
em recusar aquela “santa imposição”. E, olhando bem para dentro de si, ele
achava que não queria mesmo recusar.
Depois
de prontos ela logo avisou:
―
Papai, você tem que orar a mesma coisa que eu vou orar tá bom? Por que a Zezé
disse que quando a gente pede a mesma coisa pro Papai do céu, junto com outra
pessoa, Ele sempre atende. Só não atende se, por acaso, Ele tiver um plano
melhor, que é d’Ele mesmo e a gente não sabe, entendeu?
― Acho
que sim filha... mas... então como eu faço? Eu repito tudo o que você for
dizendo?
― Não
papai, não precisa... porque a Zezé falou que Jesus não gosta muito que a gente
fique repetindo as coisas na oração igual o Lôlo fazia... lembra do Lôlo? O meu
papagaio que fugiu de casa lá na Fazenda?
―
Lembro... lembro sim filha...
―
Então, papai, o que precisa mesmo é você escutar e pensar igual o que eu vou
falar pra Deus. Quer dizer... daí você vai ser um papagaio do mesmo jeito né
papai? Só que um papagaio pensador... Sabe o que, papai? Eu acho que Jesus quis
dizer que você tem que querer também a mesma coisa que eu estou pedindo na
oração e não só repetir. Então, acho que você pode até pedir do mesmo jeito que
eu vou pedir, só que “querendo” entendeu papai? Porque daí você não vai falar
as coisas “otomaticamente” só...
―
“Automaticamente”... é isso filhinha?
― Isso... como o papagaio faz... ele só repete o que escuta mas nem sabe o que
está dizendo e por isso não pode querer o que ele está falando.
―
Hum... certo... acho que entendi.
Não
perca no próximo capítulo a primeira oração do Dr. Álvaro. Será que Deus
ouviria alguém como ele?








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