Exatamente
às 4:00h daquela madrugada, o Dr. Salviano pedia que alguém chamasse o
Dr.Álvaro porque os dois precisavam conversar. Todos estavam na expectativa de
saber da Drª Laura, então, imediatamente, algumas enfermeiras, aquelas que
ajudaram a cuidar da Mannu e sabiam onde ele estava, se dispuseram a chamá-lo
na ala pediátrica.
O Dr.
Salviano estranhou não ver o colega e amigo ali por perto, aguardando o final
da cirurgia, pois sabia o quanto ele era ligado à esposa e, principalmente, o
quanto ele tinha dificuldade em relaxar antes de saber o resultado de qualquer
procedimento quando se tratava de alguém do seu círculo de conhecimento, ainda
mais se tratando de alguém da sua família.
Estava
muito cansado e recostou em uma poltrona para descansar enquanto esperava e se
preparava para a conversa.
Enfim,
ficou ali aguardando o amigo e
imaginando que ele só poderia mesmo estar com a filha naquele momento, afinal,
seria uma ansiedade muito grande para ele ter que esperar, ali, sozinho, por um
resultado sobre aquela situação que eles bem sabiam que não estava nada boa, já
antes da cirurgia.
Quando
as enfermeiras chegaram ao quarto onde estava a Mannu, elas abriram a porta com
cuidado, imaginando que a criança poderia estar dormindo. Só não imaginavam a
cena que teriam diante dos olhos. Esperavam uma criança dormindo no colo de um
pai nervoso e ansioso por notícias ― conheciam muito bem o Dr. Álvaro ― mas, o que viram foi um bocado diferente.
Aproximaram-se
em silêncio e acordaram apenas o médico, com muito cuidado para que ele não
fizesse um movimento brusco. Ele abriu os olhos devagar, e imediatamente entrou
em alerta, mas conteve-se quando viu a filha dormindo ali bem junto dele.
Saiu
da cama com cuidado para não acordar a Mannu. Então, olhando para as duas, nem
precisou que elas falassem.
―
Terminou né? Vou pra lá imediatamente! Fiquem aqui por favor, as duas, ou então,
uma de vocês, caso ela acorde...
E
saiu, sem esperar qualquer outra palavra das enfermeiras, disparando para o
centro cirúrgico com o coração aos pulos.
Ao
chegar, encontrou o Dr. Salviano recostado na cadeira com os olhos fechados. Sua
aparência era tão abatida que ele não pode evitar um mau pressentimento; como
se o aspecto do amigo médico já indicasse que não haveria boas notícias. Parou
por alguns segundos na frente dele sem coragem de dizer nada.
Mas a
sua presença não passou despercebida por mais de alguns segundos. O outro abriu
os olhos e olhou para o amigo que esperava com ansiedade alguma notícia. Mandou
que ele se sentasse ali mesmo ao seu lado para poderem conversar. O frio no
estômago do Dr. Álvaro só aumentava... ele não conseguia dizer nada, apenas
obedeceu sentando-se rapidamente.
― Bem
meu amigo, como é que eu vou te dizer isso... a cirurgia terminou e você já
sabia que a situação não era boa, não é mesmo?
―
Salviano, por favor! Dispense qualquer enrolação... vá direto ao assunto... Ela
está viva ainda?
― Ela
já está na UTI... está sedada e, por enquanto, a PIC (pressão intracraniana)
está em níveis aceitáveis. Conseguimos aspirar todo o hematoma e detectar a fonte,
tudo sob controle. Mas, você sabe muito bem como funcionam essas coisas, não
teremos certeza de nada em menos de 48 horas... Ela chegou inconsciente, você
sabe, e com pontuação 7 na Glasgow, isso não é moleza... você sabe disso também...
(Glasgow: escala variando de 3-15; usada para
medir o nível de consciência em caso de lesão cerebral).
O
médico colocou a cabeça entre as mãos e foi obrigado a concordar com o colega e
amigo.
―
Certo... tá! Tá certo... Eu sei... sei bem como isso funciona... Mas... como é
difícil cara!! Nunca imaginei enfrentar isso na minha vida...
― E
quem é que consegue imaginar uma coisa dessas? É terrível mesmo!... Tente se
lembrar que ela é relativamente jovem... e saudável... então, vamos aguardar...
Vamos esperar que o organismo dela consiga reagir...
― É... vou tentar... é só o que me resta mesmo... e também vou orar, cara! Aprendi com a minha filha e vou
ter que praticar agora...
― Isso
aí!! Nunca é demais meu amigo! Oração só pode te fazer bem...
―
Verdade... Agora vá... vá pra casa descansar...
O Dr.
Salviano não podia fazer mais nada a não ser colocar a mão no ombro do amigo e
encorajá-lo a esperar.
Ele
saiu deixando o Dr Álvaro sozinho. Todos tinham sido advertidos para não
ficarem fazendo perguntas desnecessárias.
Logo
que o Dr Salviano saiu, ele lembrou-se que não tinha falado nada para a Zezé.
Ficou muito desconfortável por isso. Tinha sido uma correria tão grande e tão
tensa que ele havia esquecido totalmente que a Zezé esperava que as duas
chegassem na noite passada. Olhou pela primeira vez o celular e viu inúmeras
mensagens da Zezé, preocupada com eles e também ligações perdidas e recados na
caixa postal que ele nem sequer tinha ouvido.
Eram quase cinco da manhã e ele achou que não poderia mais esperar para ligar mesmo que a Zezé ainda estivesse dormindo.
Assim
que soou o primeiro toque a empregada atendeu:
― Dr.
Álvaro!!!
― Oi
Zezé... desculpe se eu te acordei, mas...
― Me
acordou??? E como é que eu ia dormir, não preguei o olho até agora! Estava aqui
orando, agoniada Doutor!!
―
Perdão Zezé... mas aconteceu uma... Imediatamente ela interrompeu.
― Eu
já sei Doutor! Já sei... assim que desisti de esperar sua resposta e da
Doutora, liguei para o hospital. Me informaram de tudo, sei que a Mannu está
bem, mas estou angustiada pela Drª Laura... O senhor pode me dizer alguma
coisa? Ninguém sabia informar nada por aí, só diziam que ela estava em
cirurgia, por horas a fio, só ouvi isso...
― Pois
então, Zezé... por enquanto nem eu posso te dizer nada de concreto. A cirurgia
foi bem, na medida do possível, mas temos que aguardar essas primeiras 48 horas
e ir monitorando as reações todas. Ela está sedada, entubada, e... bem, é mais
ou menos isso...
― Mais
ou menos isso? Como assim? Não existe uma expectativa? Nada?
― Por
enquanto só podemos monitorar tudo o que se relaciona ao organismo dela e
esperar que ela reaja... É basicamente isso...
―
Quarenta e oito horas assim?
― No
mínimo Zezé! No mínimo... pode levar dias até termos alguma reação
considerável.
Houve
um período de silêncio do outro lado.
―
Alô... Zezé?
― Oi
Doutor... estou aqui... Só quero dizer uma coisa para o senhor, posso?
―
Claro Zezé... diga...
― Hora
de orar Doutor... Com toda a fé que o senhor conseguir reunir. Eu estou aqui,
orando desde que soube de tudo...
O
médico sentiu um nó na garganta e, pela primeira vez, desejou profundamente que
aquela mulher estivesse ali, perto dele, para orar com ele e contagiá-lo com a
sua fé pura e forte. Sentia falta de ouvir o que ela dizia, tão confiantemente,
sobre o Deus dela, que parecia mesmo impossível não ser verdade aquilo tudo. Só
agora ele conseguia ver as coisas assim... Será que o sofrimento abria algum
compartimento bloqueado na alma das pessoas? Pensou ele antes de responder a
empregada.
― Bem
Zezé... eu devo te dizer que eu já fiz isso nessa madrugada... com a Mannu.
― Que
bom Doutor! Que bom! Continue, porque isso vai mudar a sua realidade... O
senhor vai entrar em outra dimensão.
― Já
tive um pequeno vislumbre disso Zezé... Quando a minha filha orou, lá no quarto
comigo, foi como se alguém tivesse tirado um peso enorme do meu ombro. Senti
tanta paz, que consegui até dormir um pouco.
Do
outro lado, a Zezé começava de novo a gastar as suas preciosas lágrimas. Era
muito bom ouvir aquilo!
― Ok
Zezé! Ore mesmo!! Disse o médico, aliviado por saber que ela estava lá
invadindo o céu com a fé dela e intercedendo por eles. Despediu-se dela e
mandou que ela fosse descansar agora, já que nem tinha dormido também.
Ela
disse que ia, depois de orar mais uma vez. Em seguida pediu que ele avisasse a
Mannu que logo mais, naquela manhã, ela iria para o hospital, e levaria umas
“coisas gostosas” para a menina.
― Ela
pode comer qualquer coisa Doutor?
―
Pode, pode sim... ela está bem Zezé, graças a Deus! Mas precisa ficar mais um
pouquinho aqui, por garantia.
― Ok,
Doutor! Fiz um bolo de laranja com cobertura de chocolate que ela vai amar!!
―
Hummm... acho que até eu vou gostar... disse ele já mais esperançoso e mais
encorajado.
Foi
ver a esposa na UTI, sabendo de antemão a cena desagradável que veria. Enquanto caminhava, tinha a forte sensação que alguém caminhava ao seu lado. Não conseguia explicar aquilo também.






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