Os
dois estavam prontos, ajoelhados um ao lado do outro e a Mannu ainda dando as
coordenadas para o pai que parecia completamente “fora do lugar”. Ele olhava
tudo o que a filha fazia e apenas pensava, com vergonha de perguntar: “Será que
eu tenho que fazer igual?”
A
menina parecia ter ouvido o pensamento do pai quando disse.
Depois
de alguns segundos, a menina começou com a pureza de sempre.
― Querido Papai do céu, eu estou aqui com o meu pai, e
nós dois estamos muito “estontiados”... talvez eu esteja um pouquinho mais “estontiada”
do que ele, porque eu bati a minha cabeça no banco do carro hoje... foi muito
ruim. Mas, o problema nem é esse... o problema é que a minha mãe bateu a cabeça
dela, com toda força no vidro da frente do carro, e ela está “dormindo” até
agora por causa disso. Eu... eu estou aqui com o meu estômago encolhido de novo,
porque ele está "com frio", outra vez. Como acontecia quando as meninas brigavam
comigo lá na Escola. O Senhor resolveu todo aquele problema que eu achava tão
grande, mas agora, eu acho que essa coisa que aconteceu é muuuuuito, mas
muuuuuuuuuuito pior do que aquilo sabe? Só que eu também sei que o Senhor sabe
resolver tudo que é ruim de um jeito bom... porque eu li lá no “Livrão” que o
Senhor faz as coisas muito “mais boas”
do que a gente pede... Depois eu explico pro papai onde está isso tá? Eu lembro
onde está, mas não posso explicar agora...
― Tá
bom papai... E ela se desligou novamente do “papai da Terra” pra voltar a falar
com o seu “Papai do céu”...
― Como eu estava dizendo Papai do céu, eu sei
que o Senhor pode fazer as coisas ruins virarem coisas muito “mais boas” do que
a gente pode imaginar... huumm... “mais boas” não... MELHORES, né? Então, eu
queria pedir que o Senhor ajudasse o Dr. Salviano a encontrar direitinho onde
foi que a cabeça da mamãe “desligou” quando ela bateu lá no carro. Depois,
quando ele encontrar, que o Senhor ajude ele a “ligar” de novo a cabeça da
mamãe, do jeito certo, porque senão ela vai ficar sempre dormindo, e ela não pode dormir pra
sempre, e também não pode ir morar aí com o Senhor ainda... porque eu sei que
ela não entendeu muito bem ainda como é que funciona essa história de fé... Ela
não pode “virar estrelinha” ainda Papai do céu... porque senão, ela não vai
poder ir brilhar aí no teu céu...
Ao
dizer isso, a voz da Mannu ficou “embargada”, daquele jeito que fica quando a
gente fala chorando ao mesmo tempo, mas ela não parou, continuou falando, sem
abrir os olhos e sem ver as lágrimas que corriam livremente no rosto do seu
pai, ao lado.
― Papai do céu... eu não queria chorar...
snif... mas é que a minha garganta tá até doendo... snif... com esse nó que eu
tô sentindo... então... eu só vou pedir mais uma coisinha... Não deixe a minha
mamãe sentir muita dor e ajude o meu papai aqui da Terra também... ele não
falou, mas eu sei que ele tá com o estômago dele encolhido e bem frio também... igual o meu...
Ajude nós dois Papai do céu! E ajude o meu papai a ver que o Senhor escutou
tudo isso que nós falamos agora. Por enquanto, é só o que eu vou falar porque eu estou com muita vontade de chorar de novo papai do céu... Snif...Em nome de Jesus... Amém!
Nenhuma
palavra poderia descrever o sentimento que invadiu o coração do Dr. Álvaro
naquele momento. Ele não saberia dizer se foi um sentimento da região das
emoções ou de um lugar além. Mas, o fato é que ele abraçou a filha, chorando
muito, deixando a tensão se dissolver naquele sentimento de paz que invadiu o ambiente e que ele
nunca saberia explicar, nem que procurasse os seus termos científicos mais
profundos. Era algo diferente, algo que excedia o seu entendimento... De onde
vinha isso? Do céu, será? Pensava ele sem entender, mas muito aliviado de toda
aquela pressão. Parecia que o ar tinha se transformado em uma nuvem quentinha e
“perfumada”... Que incrível!
Ficaram
os dois ali, abraçados por um tempo até que os soluços todos sumiram de ambas
as partes. Depois ele olhou pra filha e não sabia o que dizer. Tinha passado
por uma transformação e sentia isso, mas não sabia explicar.
Quem
começou a falar, como sempre, foi a própria Mannu.
―
Papai, eu tô me sentindo bem melhor agora... Não tô mais “estontiada” e a minha
dor de cabeça foi embora! Você também tá melhor?
― Será
que agora podemos ir ver a mamãe? Perguntou ela, já raciocinando dentro das suas
possibilidades infantis.
― Não,
meu amor, com certeza não... O Dr. Salviano ainda vai levar um bom tempo lá com
a mamãe... tenho certeza... mas agora, sabemos que ele vai encontrar tudo o que se desarrumou e
vai arrumar tudo lá dentro né? Já que o Papai do céu está ajudando ele não é
mesmo?
― É
sim papai! Disse ela sorrindo e completando com uma “lapada” bem inocente, que
o Dr. Álvaro entendeu como um recado do céu pra ele.
― Já
que não deixaram você cuidar dela, né papai? Então, o Papai do céu teve que ir lá
ajudar o Dr. Salviano... mas isso é até bom, sabia papai? Porque Deus sabe muito
mais do que todos nós aqui... até mais do que o senhor, acredita numa coisa
dessa papai? Veja só como ele é suuuuper, SUUUUPER inteligente!! Por isso que
as “gentes” do mundo inteiro chamam Ele de Deus Todo Poderoso... É porque Ele tem todo o poder
do Universo, só que Ele emprestou um pouco disso pra nós os humanos também...
Entende, papai?
Ele
sentia tranquilidade agora para esperar pelo resultado da cirurgia junto com a
filha. Não deixou de pensar no que estaria acontecendo dentro da sala em que
sua esposa estava sendo operada, mas, sentia que não podia fazer nada mais e
que tudo estava sob controle.
Não
sabia explicar como, mas sentia que, realmente, tinha que existir um Ser que
fosse Superior e que pudesse entender o sentido da vida de maneira completa,
coisa que o ser humano, até agora, não conseguiu. Para tanto, para entender tão
profundamente de uma coisa que a ciência ainda não explicava totalmente, só
poderia mesmo haver Alguém que conhecesse verdadeiramente a origem da vida e
que, por isso mesmo, fosse a Fonte de
tudo... caso contrário, como explicar que a medicina não tivesse, ainda, o
controle da vida em sua mãos?
Ninguém,
dentro de toda a sabedoria da Medicina, poderia garantir a ele que a sua esposa
estaria viva ao amanhecer. Estranhamente, isso não lhe parecia absurdo mais e,
principalmente, não lhe causava mais o mesmo “terror”. Sentia-se quase “protegido”
por uma Sabedoria maior, como se estivesse dividindo um fardo muito pesado de
carregar. Que bom que Alguém sabia mais do que ele, por isso mesmo havia
esperança.
Olhou
pra sua filha e teve vontade de agradecer pela sua insistência naquele assunto.
Como era boa essa sensação de estar sentindo segurança e a esperança de ver algo
além do que o prognóstico dentro da medicina poderia lhe dar.
Perguntou
se a filha tinha comido alguma coisa; se estivesse com fome ele poderia pedir
para alguém trazer um lanchinho leve para os dois. Ela concordou, porque agora
o seu estômago não estava mais “com frio”, então, ela já podia comer, além
disso ela não estava mais “estontiada” e a dor de cabeça tinha ido embora de
vez!
―
Ótimo, meu amor! Disse o médico, quase animado já. Perguntou se ela queria uma
sopinha de legumes cremosinha. Ela respondeu:
Depois
que tomaram cada um o seu lanche, o médico sugeriu que a Mannu dormisse um
pouquinho, já era muito tarde e ela só tinha conseguido chorar até pouco tempo atrás.
―
Papai, eu só vou dormir se você dormir também... senão eu quero ficar acordada
pra saber da mamãe quando o Dr. Salviano terminar tudo. Eu não vejo a hora de
poder falar com a mamãe sabe?
― Sei
filhinha... mas... eu acho que ainda vai demorar um pouco. Seria bom você
dormir um pouquinho para o seu organismo se recuperar mais depressa, você sabe
como essas coisas funcionam né? O papai já explicou pra você.
― Sei
sim papai... eu só quero que você durma um pouquinho também, aqui comigo, pra
você não ficar longe...
― Tá
bom querida, o papai vai deitar aqui do ladinho certo?
―
Certo papai... daí eu consigo dormir...
Ele pegou um dos travesseiros no armário e
colocou na cabeceira da cama, deitando-se, mal acomodado, na caminha. Fez a
filha deitar no travesseiro ao seu lado e perguntou se ela gostaria de ouvir
uma musiquinha que a mamãe costumava cantar pra ela dormir quando ela era bem
pequenininha. Ela respondeu que sim, já bocejando, o cansaço ia vencendo ...
Começou: “zum, zum, zum, ...zum, zum, zum... faz a abelhinha... zum, zum, zum... zum,
zum, zum... dando uma voltinha...
Em
poucos minutos a Mannu estava ressonando; esgotada pelo dia difícil. Ele também estava quase dormindo, aliás, quando começou a cantarolar a musiquinha achou que ia dormir primeiro que a filha... Apagaram os
dois, à espera do que lhes traria o novo dia que ainda estava escondido atrás
do escuro da noite lá fora...







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