Ao
chegar na UTI, ele parou por alguns instantes para dar uma respirada funda e
controlar tudo o que tinha se esfarelado dentro dele havia poucas horas. Entrou
devagar e falou com uma das enfermeiras que lhe deu as últimas informações
sobre a sua esposa em termos médicos e depois finalizou a conversa assim:
― Doutor,
estamos todos torcendo para que ela reaja e saia dessa o quanto antes... por
enquanto, nenhuma mudança, infelizmente... E o senhor sabe como as coisas são
incertas nesses casos...
―
Sim... eu sei sim... Esse é o meu maior problema... eu sei muito bem que pra
ela agora, só um “milagre” mesmo...
A enfermeira tocou de leve o seu ombro num
gesto de simpatia e disse pra ele ficar à vontade para ver a esposa.
Ele
se aproximou para vê-la mais de perto. Era tão triste não poder falar com ela,
não ouvir sua voz e nem mesmo saber se ela ainda acordaria, um dia, pra falar
qualquer coisa que fosse... Sentia que tinha tanta coisa ainda pra dizer,
coisas que gostaria de ter dito antes, coisas que gostaria de ter feito para
ela antes, promessas, tantos planos e sonhos que ainda ficaram por se
cumprir...
Ficou
por muito tempo ali, sentado ao lado da cama, segurando a mão dela e tentando
orar, do fundo do coração, com toda a fé que conseguiu reunir como a Zezé tinha
aconselhado. Depois de um bom tempo, levantou-se e saiu para ver a filha.
Quando estava na porta, ouviu aquele “bip” de alerta e olhou, horrorizado, o
gráfico cardíaco da esposa.
Da
porta mesmo avisou uma enfermeira que passava para que mandasse vir a equipe de
plantão na UTI, que estava ali bem perto, imediatamente! E voltou correndo para
dentro, tentando agir da melhor maneira possível e de forma profissional,
porém, acabou gritando mesmo; angustiado com aquela certeza. Sua Laura estava
partindo...
*PCR
(Parada Cardiorrespiratória)
*ASSISTOLIA
(A total ausência de atividade ventricular contrátil associada à inatividade
cardíaca)
Em poucos
segundos estavam todos ao redor da Drª Laura, acompanhados da Drª Eunice e
agindo com muita rapidez e precisão. Alguém retirou o Dr. Àlvaro dali,
arrastado, e a última palavra que ele ouviu da boca da médica foi:
“Epinefrina!”... E os sons foram ficando cada vez mais distantes enquanto ele era
puxado para fora e se jogava em uma cadeira a alguns metros dali, em outra
sala, acompanhado por um médico conhecido dele que falava o tempo todo tentando
acalmá-lo, embora ele não ouvisse nada do que o outro dizia.
Tudo lhe parecia vago
e irreal e ele mal tinha certeza se estava acordado ou passando por um pesadelo
horrível. Uma das auxiliares do setor trouxe uma xícara de café e entregou para
o colega do Dr. Álvaro e saiu rapidamente.
Enquanto
isso, na UTI, as coisas caminhavam em ritmo muito acelerado com esforços
enormes e concentração máxima de toda a equipe para reverter a situação. Mas, os
minutos iam passando e nada mudava, tudo parecia inútil, tudo o que era
possível naquele caso foi tentado, mas, nem os medicamentos estavam fazendo o
efeito que deveriam fazer. Como havia um protocolo a seguir, a médica e a
equipe continuaram tentando até se passarem vinte e cinco minutos. Sem
resposta... Hora de desistir...
A
Doutora Eunice saiu com a pesada incumbência de dar a notícia ao Dr. Álvaro. Os
outros ficaram para cuidar dos detalhes finais e necessários nesses casos. Todos
envolvidos por uma nuvem escura e pesada, todos amavam a Drª Laura e o Dr.
Álvaro naquele hospital.
Em
outra dimensão, paralela ao nosso mundo físico, as coisas aconteciam assim: No
momento em que a equipe entrou correndo para socorrê-la e seu marido era
arrastado para fora da sala, a Drª Laura viu-se repentinamente consciente, do
lado de fora do seu corpo, vendo as pessoas no ambiente movendo-se freneticamente obedecendo aos comandos da Drª Eunice.
Ela
ouvia o que eles diziam e podia ver o seu próprio corpo na cama, mas,
estranhamente, não sentia medo, nem dor, apenas uma certa confusão. Afinal, por que é
que ninguém escutava o que ela dizia tentando chamar a atenção das pessoas ali
para informar que estava se sentindo bem melhor agora? E como assim? Por que ela
estava vendo o seu próprio corpo ali como se fosse outra pessoa? Ela não
conseguia entender mesmo, pensou que seria um sonho, mas, em seguida sentiu-se
flutuando acima das pessoas, vendo a cena toda se desenrolando ali embaixo.
Queria chamar as pessoas mas não conseguia.
De
repente, viu-se fora do hospital, como se tivesse saído pelo teto, via a cidade
conhecida sua como se estivesse voando acima dela. Em seguida, sentiu-se puxada
fortemente para dentro de uma abertura que ficava acima dela, no ar. Era como
se ela fosse de metal e um ímã gigante atraísse seu corpo para dentro daquilo e
ela não conseguia resistir nem se firmar em nada.
O dia
estava começando a clarear e havia algumas estrelas ainda visíveis no céu. A cidade começava a despertar lá embaixo...
Ela
foi subindo cada vez mais, atraída para dentro daquela passagem no ar e,
inesperadamente, tudo se tornou completamente escuro. Era como se ela tivesse
entrado em um túnel muito escuro. Nesse instante, ela sentiu temor. Um grande temor! Não sabia
para onde estava sendo levada e muito menos conseguia impedir o fato.
Lembrou-se
da filha e do marido e quis chamar por eles, mas não conseguiu, parecia que a
lembrança deles ia se diluindo dentro dela, como se eles fossem apenas um sonho
bom guardado dentro dela em um tempo que se tornava cada vez mais distante, à
medida que ela viajava em uma velocidade inacreditável que ela apenas conseguia
sentir, mas não tinha nenhuma referência
visual, pois ela não via absolutamente nada das paredes do túnel. Era como se
ela estivesse viajando em um buraco negro.
Começou
a sentir um medo muito real, diferente da paz que tinha sentido quando se viu
fora do seu corpo naquela UTI. O que estaria acontecendo? Ela sentia que tudo
aquilo era mais real ainda do que tudo o que já tinha experimentado na vida da
qual ela ainda se lembrava. Tinha uma noção de si mesma mais forte do que
nunca. Sentia de forma muito vívida que estava prestes a encontrar-se em um
mundo diferente, mas bem real, e sentia, principalmente, que alguém esperava por
ela. Como assim? Quem seria? O que ela teria pra dizer? O que seria perguntado
a ela?
Sobretudo,
sentia que os seus pensamentos eram muito vivos também e sua memória lhe trazia
todos eles em fração de segundos, como se fosse um alerta de que muitos deles
não tinham sido aprovados e teria que dar explicações. Tentou racionalizar,
como sempre fazia, para justificar para si mesma sua maneira de pensar de
sempre, mas, sua “mente” parecia se comportar de maneira diferente agora.
Afinal, será que sua mente e suas faculdades de raciocinar vieram junto com
ela? Parecia que não... Será que tinham ficado lá no cérebro danificado dela? Será
que ela estaria neste momento usando apenas uma consciência espiritual?
Talvez...
Enquanto
viajava no túnel escuro, não tinha noção alguma de tempo e espaço, só conseguia
sentir que estava em movimento e em altíssima velocidade. Como seria isso se
ela nem tinha noção do espaço ao seu redor? Desistiu de tentar entender. Sentiu-se
muito limitada para isso.
De
repente, lembrou-se das coisas que a Mannu falava sobre Deus e que lhe soavam
tão sem fundamento, no entanto, agora, tinha uma sensação muito forte de que
tudo era real e que ela em breve teria de constatar isso por si mesma. E
pior... ela havia perdido a chance de acreditar enquanto estava na dimensão
física. E agora?... Como faria se a Zezé vivia dizendo que as pessoas só tinham
chance de ser salvas pela fé, e “fé”, só era possível no plano físico. Na
realidade onde ela estava sendo introduzida agora, a fé de nada adiantaria;
pois ela estaria diante da Verdade Absoluta, não precisaria da fé para ter
conhecimento da Verdade, isso ela deveria ter usado na dimensão física. Acontece
que ela estava saindo daquela dimensão física e entrando na dimensão espiritual
e sentia isso agora com absoluta certeza.
Enquanto
o medo crescia, ela avistou um ponto minúsculo na distância... Seria uma luz?
Seria o fim do túnel? E agora? O que aconteceria com ela?
Sentiu
um medo indescritível! Tinha plena consciência de estar em completa desarmonia
com aquela realidade. Era como se a sua incredulidade no tempo de vida que lhe
fora concedido no mundo físico a tornasse indigna de estar ali. E por que nunca
sentira nada disso antes? Fechou os olhos para não ver nada, mas, surpresa!
Mesmo de olhos fechados, ela continuava vendo o ponto de luz que se aproximava
cada vez mais rápido. Não poderia fugir
de forma nenhuma, teria que encarar o seu destino final...






















