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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

E AGORA, O QUE SERÁ DE MIM? CAPÍTULO 90


Ao chegar na UTI, ele parou por alguns instantes para dar uma respirada funda e controlar tudo o que tinha se esfarelado dentro dele havia poucas horas. Entrou devagar e falou com uma das enfermeiras que lhe deu as últimas informações sobre a sua esposa em termos médicos e depois finalizou a conversa assim:

Doutor, estamos todos torcendo para que ela reaja e saia dessa o quanto antes... por enquanto, nenhuma mudança, infelizmente... E o senhor sabe como as coisas são incertas nesses casos...

Sim... eu sei sim... Esse é o meu maior problema... eu sei muito bem que pra ela agora, só um “milagre” mesmo...

 A enfermeira tocou de leve o seu ombro num gesto de simpatia e disse pra ele ficar à vontade para ver a esposa.

Ele se aproximou para vê-la mais de perto. Era tão triste não poder falar com ela, não ouvir sua voz e nem mesmo saber se ela ainda acordaria, um dia, pra falar qualquer coisa que fosse... Sentia que tinha tanta coisa ainda pra dizer, coisas que gostaria de ter dito antes, coisas que gostaria de ter feito para ela antes, promessas, tantos planos e sonhos que ainda ficaram por se cumprir... 


Ficou por muito tempo ali, sentado ao lado da cama, segurando a mão dela e tentando orar, do fundo do coração, com toda a fé que conseguiu reunir como a Zezé tinha aconselhado. Depois de um bom tempo, levantou-se e saiu para ver a filha. Quando estava na porta, ouviu aquele “bip” de alerta e olhou, horrorizado, o gráfico cardíaco da esposa.


Da porta mesmo avisou uma enfermeira que passava para que mandasse vir a equipe de plantão na UTI, que estava ali bem perto, imediatamente! E voltou correndo para dentro, tentando agir da melhor maneira possível e de forma profissional, porém, acabou gritando mesmo; angustiado com aquela certeza. Sua Laura estava partindo...


*PCR (Parada Cardiorrespiratória)
*ASSISTOLIA (A total ausência de atividade ventricular contrátil associada à inatividade cardíaca)

Em poucos segundos estavam todos ao redor da Drª Laura, acompanhados da Drª Eunice e agindo com muita rapidez e precisão. Alguém retirou o Dr. Àlvaro dali, arrastado, e a última palavra que ele ouviu da boca da médica foi: “Epinefrina!”... E os sons foram ficando cada vez mais distantes enquanto ele era puxado para fora e se jogava em uma cadeira a alguns metros dali, em outra sala, acompanhado por um médico conhecido dele que falava o tempo todo tentando acalmá-lo, embora ele não ouvisse nada do que o outro dizia. 

Tudo lhe parecia vago e irreal e ele mal tinha certeza se estava acordado ou passando por um pesadelo horrível. Uma das auxiliares do setor trouxe uma xícara de café e entregou para o colega do Dr. Álvaro e saiu rapidamente.


Enquanto isso, na UTI, as coisas caminhavam em ritmo muito acelerado com esforços enormes e concentração máxima de toda a equipe para reverter a situação. Mas, os minutos iam passando e nada mudava, tudo parecia inútil, tudo o que era possível naquele caso foi tentado, mas, nem os medicamentos estavam fazendo o efeito que deveriam fazer. Como havia um protocolo a seguir, a médica e a equipe continuaram tentando até se passarem vinte e cinco minutos. Sem resposta... Hora de desistir...


A Doutora Eunice saiu com a pesada incumbência de dar a notícia ao Dr. Álvaro. Os outros ficaram para cuidar dos detalhes finais e necessários nesses casos. Todos envolvidos por uma nuvem escura e pesada, todos amavam a Drª Laura e o Dr. Álvaro naquele hospital.

Em outra dimensão, paralela ao nosso mundo físico, as coisas aconteciam assim: No momento em que a equipe entrou correndo para socorrê-la e seu marido era arrastado para fora da sala, a Drª Laura viu-se repentinamente consciente, do lado de fora do seu corpo, vendo as pessoas no ambiente movendo-se freneticamente obedecendo aos comandos da Drª Eunice.


Ela ouvia o que eles diziam e podia ver o seu próprio corpo na cama, mas, estranhamente, não sentia medo, nem dor, apenas uma certa confusão. Afinal, por que é que ninguém escutava o que ela dizia tentando chamar a atenção das pessoas ali para informar que estava se sentindo bem melhor agora? E como assim? Por que ela estava vendo o seu próprio corpo ali como se fosse outra pessoa? Ela não conseguia entender mesmo, pensou que seria um sonho, mas, em seguida sentiu-se flutuando acima das pessoas, vendo a cena toda se desenrolando ali embaixo. Queria chamar as pessoas mas não conseguia.

De repente, viu-se fora do hospital, como se tivesse saído pelo teto, via a cidade conhecida sua como se estivesse voando acima dela. Em seguida, sentiu-se puxada fortemente para dentro de uma abertura que ficava acima dela, no ar. Era como se ela fosse de metal e um ímã gigante atraísse seu corpo para dentro daquilo e ela não conseguia resistir nem se firmar em nada.
 

O dia estava começando a clarear e havia algumas estrelas ainda visíveis no céu. A cidade começava a despertar lá embaixo...

Ela foi subindo cada vez mais, atraída para dentro daquela passagem no ar e, inesperadamente, tudo se tornou completamente escuro. Era como se ela tivesse entrado em um túnel muito escuro. Nesse instante, ela sentiu temor. Um grande temor! Não sabia para onde estava sendo levada e muito menos conseguia impedir o fato.


Lembrou-se da filha e do marido e quis chamar por eles, mas não conseguiu, parecia que a lembrança deles ia se diluindo dentro dela, como se eles fossem apenas um sonho bom guardado dentro dela em um tempo que se tornava cada vez mais distante, à medida que ela viajava em uma velocidade inacreditável que ela apenas conseguia sentir,  mas não tinha nenhuma referência visual, pois ela não via absolutamente nada das paredes do túnel. Era como se ela estivesse viajando em um buraco negro.

Começou a sentir um medo muito real, diferente da paz que tinha sentido quando se viu fora do seu corpo naquela UTI. O que estaria acontecendo? Ela sentia que tudo aquilo era mais real ainda do que tudo o que já tinha experimentado na vida da qual ela ainda se lembrava. Tinha uma noção de si mesma mais forte do que nunca. Sentia de forma muito vívida que estava prestes a encontrar-se em um mundo diferente, mas bem real, e sentia, principalmente, que alguém esperava por ela. Como assim? Quem seria? O que ela teria pra dizer? O que seria perguntado a ela?


Sobretudo, sentia que os seus pensamentos eram muito vivos também e sua memória lhe trazia todos eles em fração de segundos, como se fosse um alerta de que muitos deles não tinham sido aprovados e teria que dar explicações. Tentou racionalizar, como sempre fazia, para justificar para si mesma sua maneira de pensar de sempre, mas, sua “mente” parecia se comportar de maneira diferente agora. Afinal, será que sua mente e suas faculdades de raciocinar vieram junto com ela? Parecia que não... Será que tinham ficado lá no cérebro danificado dela? Será que ela estaria neste momento usando apenas uma consciência espiritual? Talvez...

Enquanto viajava no túnel escuro, não tinha noção alguma de tempo e espaço, só conseguia sentir que estava em movimento e em altíssima velocidade. Como seria isso se ela nem tinha noção do espaço ao seu redor? Desistiu de tentar entender. Sentiu-se muito limitada para isso.

De repente, lembrou-se das coisas que a Mannu falava sobre Deus e que lhe soavam tão sem fundamento, no entanto, agora, tinha uma sensação muito forte de que tudo era real e que ela em breve teria de constatar isso por si mesma. E pior... ela havia perdido a chance de acreditar enquanto estava na dimensão física. E agora?... Como faria se a Zezé vivia dizendo que as pessoas só tinham chance de ser salvas pela fé, e “fé”, só era possível no plano físico. Na realidade onde ela estava sendo introduzida agora, a fé de nada adiantaria; pois ela estaria diante da Verdade Absoluta, não precisaria da fé para ter conhecimento da Verdade, isso ela deveria ter usado na dimensão física. Acontece que ela estava saindo daquela dimensão física e entrando na dimensão espiritual e sentia isso agora com absoluta certeza.

Enquanto o medo crescia, ela avistou um ponto minúsculo na distância... Seria uma luz? Seria o fim do túnel? E agora? O que aconteceria com ela?



Sentiu um medo indescritível! Tinha plena consciência de estar em completa desarmonia com aquela realidade. Era como se a sua incredulidade no tempo de vida que lhe fora concedido no mundo físico a tornasse indigna de estar ali. E por que nunca sentira nada disso antes? Fechou os olhos para não ver nada, mas, surpresa! Mesmo de olhos fechados, ela continuava vendo o ponto de luz que se aproximava cada vez mais  rápido. Não poderia fugir de forma nenhuma, teria que encarar o seu destino final...

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CONVERSA DIFÍCIL - CAPÍTULO 89


Exatamente às 4:00h daquela madrugada, o Dr. Salviano pedia que alguém chamasse o Dr.Álvaro porque os dois precisavam conversar. Todos estavam na expectativa de saber da Drª Laura, então, imediatamente, algumas enfermeiras, aquelas que ajudaram a cuidar da Mannu e sabiam onde ele estava, se dispuseram a chamá-lo na ala pediátrica.

O Dr. Salviano estranhou não ver o colega e amigo ali por perto, aguardando o final da cirurgia, pois sabia o quanto ele era ligado à esposa e, principalmente, o quanto ele tinha dificuldade em relaxar antes de saber o resultado de qualquer procedimento quando se tratava de alguém do seu círculo de conhecimento, ainda mais se tratando de alguém da sua família.

Estava muito cansado e recostou em uma poltrona para descansar enquanto esperava e se preparava para a conversa.


Enfim, ficou ali aguardando  o amigo e imaginando que ele só poderia mesmo estar com a filha naquele momento, afinal, seria uma ansiedade muito grande para ele ter que esperar, ali, sozinho, por um resultado sobre aquela situação que eles bem sabiam que não estava nada boa, já antes da cirurgia.

Quando as enfermeiras chegaram ao quarto onde estava a Mannu, elas abriram a porta com cuidado, imaginando que a criança poderia estar dormindo. Só não imaginavam a cena que teriam diante dos olhos. Esperavam uma criança dormindo no colo de um pai nervoso e ansioso  por notícias conheciam muito bem o Dr. Álvaro mas, o que viram foi um bocado diferente.


Aproximaram-se em silêncio e acordaram apenas o médico, com muito cuidado para que ele não fizesse um movimento brusco. Ele abriu os olhos devagar, e imediatamente entrou em alerta, mas conteve-se quando viu a filha dormindo ali bem junto dele.

Saiu da cama com cuidado para não acordar a Mannu. Então, olhando para as duas, nem precisou que elas falassem.

Terminou né? Vou pra lá imediatamente! Fiquem aqui por favor, as duas, ou então, uma de vocês, caso ela acorde...

E saiu, sem esperar qualquer outra palavra das enfermeiras, disparando para o centro cirúrgico com o coração aos pulos.

Ao chegar, encontrou o Dr. Salviano recostado na cadeira com os olhos fechados. Sua aparência era tão abatida que ele não pode evitar um mau pressentimento; como se o aspecto do amigo médico já indicasse que não haveria boas notícias. Parou por alguns segundos na frente dele sem coragem de dizer nada.


Mas a sua presença não passou despercebida por mais de alguns segundos. O outro abriu os olhos e olhou para o amigo que esperava com ansiedade alguma notícia. Mandou que ele se sentasse ali mesmo ao seu lado para poderem conversar. O frio no estômago do Dr. Álvaro só aumentava... ele não conseguia dizer nada, apenas obedeceu sentando-se rapidamente.

Bem meu amigo, como é que eu vou te dizer isso... a cirurgia terminou e você já sabia que a situação não era boa, não é mesmo?

Salviano, por favor! Dispense qualquer enrolação... vá direto ao assunto... Ela está viva ainda?

Ela já está na UTI... está sedada e, por enquanto, a PIC (pressão intracraniana) está em níveis aceitáveis. Conseguimos aspirar todo o hematoma e detectar a fonte, tudo sob controle. Mas, você sabe muito bem como funcionam essas coisas, não teremos certeza de nada em menos de 48 horas... Ela chegou inconsciente, você sabe, e com pontuação 7 na Glasgow, isso não é moleza... você sabe disso também...
 (Glasgow: escala variando de 3-15; usada para medir o nível de consciência em caso de lesão cerebral).


O médico colocou a cabeça entre as mãos e foi obrigado a concordar com o colega e amigo.

Certo... tá! Tá certo... Eu sei... sei bem como isso funciona... Mas... como é difícil cara!! Nunca imaginei enfrentar isso na minha vida...

E quem é que consegue imaginar uma coisa dessas? É terrível mesmo!... Tente se lembrar que ela é relativamente jovem... e saudável... então, vamos aguardar... Vamos esperar que o organismo dela consiga reagir...

É... vou tentar... é só o que me resta mesmo... e também vou orar, cara! Aprendi com a minha filha e vou ter que praticar agora...

Isso aí!! Nunca é demais meu amigo! Oração só pode te fazer bem...

Verdade... Agora vá... vá pra casa descansar... 

O Dr. Salviano não podia fazer mais nada a não ser colocar a mão no ombro do amigo e encorajá-lo a esperar.


Ele saiu deixando o Dr Álvaro sozinho. Todos tinham sido advertidos para não ficarem fazendo perguntas desnecessárias.

Logo que o Dr Salviano saiu, ele lembrou-se que não tinha falado nada para a Zezé. Ficou muito desconfortável por isso. Tinha sido uma correria tão grande e tão tensa que ele havia esquecido totalmente que a Zezé esperava que as duas chegassem na noite passada. Olhou pela primeira vez o celular e viu inúmeras mensagens da Zezé, preocupada com eles e também ligações perdidas e recados na caixa postal que ele nem sequer tinha ouvido.

Eram quase cinco da manhã e ele achou que não poderia mais esperar para ligar mesmo que a Zezé ainda estivesse dormindo.
Assim que soou o primeiro toque a empregada atendeu:

Dr. Álvaro!!!

Oi Zezé... desculpe se eu te acordei, mas...

Me acordou??? E como é que eu ia dormir, não preguei o olho até agora! Estava aqui orando, agoniada Doutor!!

Perdão Zezé... mas aconteceu uma... Imediatamente ela interrompeu.

Eu já sei Doutor! Já sei... assim que desisti de esperar sua resposta e da Doutora, liguei para o hospital. Me informaram de tudo, sei que a Mannu está bem, mas estou angustiada pela Drª Laura... O senhor pode me dizer alguma coisa? Ninguém sabia informar nada por aí, só diziam que ela estava em cirurgia, por horas a fio, só ouvi isso...

Pois então, Zezé... por enquanto nem eu posso te dizer nada de concreto. A cirurgia foi bem, na medida do possível, mas temos que aguardar essas primeiras 48 horas e ir monitorando as reações todas. Ela está sedada, entubada, e... bem, é mais ou menos isso...

Mais ou menos isso? Como assim? Não existe uma expectativa? Nada?

Por enquanto só podemos monitorar tudo o que se relaciona ao organismo dela e esperar que ela reaja... É basicamente isso...

Quarenta e oito horas assim?

No mínimo Zezé! No mínimo... pode levar dias até termos alguma reação considerável.

Houve um período de silêncio do outro lado.

Alô... Zezé?

Oi Doutor... estou aqui... Só quero dizer uma coisa para o senhor, posso?

Claro Zezé... diga...

Hora de orar Doutor... Com toda a fé que o senhor conseguir reunir. Eu estou aqui, orando desde que soube de tudo...

O médico sentiu um nó na garganta e, pela primeira vez, desejou profundamente que aquela mulher estivesse ali, perto dele, para orar com ele e contagiá-lo com a sua fé pura e forte. Sentia falta de ouvir o que ela dizia, tão confiantemente, sobre o Deus dela, que parecia mesmo impossível não ser verdade aquilo tudo. Só agora ele conseguia ver as coisas assim... Será que o sofrimento abria algum compartimento bloqueado na alma das pessoas? Pensou ele antes de responder a empregada.

Bem Zezé... eu devo te dizer que eu já fiz isso nessa madrugada... com a Mannu.

Que bom Doutor! Que bom! Continue, porque isso vai mudar a sua realidade... O senhor vai entrar em outra dimensão.

Já tive um pequeno vislumbre disso Zezé... Quando a minha filha orou, lá no quarto comigo, foi como se alguém tivesse tirado um peso enorme do meu ombro. Senti tanta paz, que consegui até dormir um pouco.

Do outro lado, a Zezé começava de novo a gastar as suas preciosas lágrimas. Era muito bom ouvir aquilo!


Ok Zezé! Ore mesmo!! Disse o médico, aliviado por saber que ela estava lá invadindo o céu com a fé dela e intercedendo por eles. Despediu-se dela e mandou que ela fosse descansar agora, já que nem tinha dormido também.

Ela disse que ia, depois de orar mais uma vez. Em seguida pediu que ele avisasse a Mannu que logo mais, naquela manhã, ela iria para o hospital, e levaria umas “coisas gostosas” para a menina.

Ela pode comer qualquer coisa Doutor?

Pode, pode sim... ela está bem Zezé, graças a Deus! Mas precisa ficar mais um pouquinho aqui, por garantia.

Ok, Doutor! Fiz um bolo de laranja com cobertura de chocolate que ela vai amar!!

Hummm... acho que até eu vou gostar... disse ele já mais esperançoso e mais encorajado.

Foi ver a esposa na UTI, sabendo de antemão a cena desagradável que veria. Enquanto caminhava, tinha a forte sensação que alguém caminhava ao seu lado. Não conseguia explicar aquilo também.




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

SERÁ QUE ELE OUVIU? – CAPÍTULO 88




Os dois estavam prontos, ajoelhados um ao lado do outro e a Mannu ainda dando as coordenadas para o pai que parecia completamente “fora do lugar”. Ele olhava tudo o que a filha fazia e apenas pensava, com vergonha de perguntar: “Será que eu tenho que fazer igual?”
A menina parecia ter ouvido o pensamento do pai quando disse.



Depois de alguns segundos, a menina começou com a pureza de sempre.

Querido Papai do céu, eu estou aqui com o meu pai, e nós dois estamos muito “estontiados”... talvez eu esteja um pouquinho mais “estontiada” do que ele, porque eu bati a minha cabeça no banco do carro hoje... foi muito ruim. Mas, o problema nem é esse... o problema é que a minha mãe bateu a cabeça dela, com toda força no vidro da frente do carro, e ela está “dormindo” até agora por causa disso. Eu... eu estou aqui com o meu estômago encolhido de novo, porque ele está "com frio", outra vez. Como acontecia quando as meninas brigavam comigo lá na Escola. O Senhor resolveu todo aquele problema que eu achava tão grande, mas agora, eu acho que essa coisa que aconteceu é muuuuuito, mas muuuuuuuuuuito pior do que aquilo sabe? Só que eu também sei que o Senhor sabe resolver tudo que é ruim de um jeito bom... porque eu li lá no “Livrão” que o Senhor faz as coisas  muito “mais boas” do que a gente pede... Depois eu explico pro papai onde está isso tá? Eu lembro onde está, mas não posso explicar agora... 



Tá bom papai... E ela se desligou novamente do “papai da Terra” pra voltar a falar com o seu “Papai do céu”...

Como eu estava dizendo Papai do céu, eu sei que o Senhor pode fazer as coisas ruins virarem coisas muito “mais boas” do que a gente pode imaginar... huumm... “mais boas” não... MELHORES, né? Então, eu queria pedir que o Senhor ajudasse o Dr. Salviano a encontrar direitinho onde foi que a cabeça da mamãe “desligou” quando ela bateu lá no carro. Depois, quando ele encontrar, que o Senhor ajude ele a “ligar” de novo a cabeça da mamãe, do jeito certo, porque senão ela vai ficar sempre dormindo, e ela não pode dormir pra sempre, e também não pode ir morar aí com o Senhor ainda... porque eu sei que ela não entendeu muito bem ainda como é que funciona essa história de fé... Ela não pode “virar estrelinha” ainda Papai do céu... porque senão, ela não vai poder ir brilhar aí no teu céu...

Ao dizer isso, a voz da Mannu ficou “embargada”, daquele jeito que fica quando a gente fala chorando ao mesmo tempo, mas ela não parou, continuou falando, sem abrir os olhos e sem ver as lágrimas que corriam livremente no rosto do seu pai, ao lado.
  

Papai do céu... eu não queria chorar... snif... mas é que a minha garganta tá até doendo... snif... com esse nó que eu tô sentindo... então... eu só vou pedir mais uma coisinha... Não deixe a minha mamãe sentir muita dor e ajude o meu papai aqui da Terra também... ele não falou, mas eu sei que ele tá com o estômago dele encolhido e bem  frio também... igual o meu... Ajude nós dois Papai do céu! E ajude o meu papai a ver que o Senhor escutou tudo isso que nós falamos agora. Por enquanto, é só o que eu vou falar porque eu estou com muita vontade de chorar de novo papai do céu... Snif...Em nome de Jesus... Amém! 

Nenhuma palavra poderia descrever o sentimento que invadiu o coração do Dr. Álvaro naquele momento. Ele não saberia dizer se foi um sentimento da região das emoções ou de um lugar além. Mas, o fato é que ele abraçou a filha, chorando muito, deixando a tensão se dissolver naquele sentimento de paz que invadiu o ambiente e que ele nunca saberia explicar, nem que procurasse os seus termos científicos mais profundos. Era algo diferente, algo que excedia o seu entendimento... De onde vinha isso? Do céu, será? Pensava ele sem entender, mas muito aliviado de toda aquela pressão. Parecia que o ar tinha se transformado em uma nuvem quentinha e “perfumada”... Que incrível!

Ficaram os dois ali, abraçados por um tempo até que os soluços todos sumiram de ambas as partes. Depois ele olhou pra filha e não sabia o que dizer. Tinha passado por uma transformação e sentia isso, mas não sabia explicar.

Quem começou a falar, como sempre, foi a própria Mannu.

Papai, eu tô me sentindo bem melhor agora... Não tô mais “estontiada” e a minha dor de cabeça foi embora! Você também tá melhor?


Será que agora podemos ir ver a mamãe? Perguntou ela, já raciocinando dentro das suas possibilidades infantis.

Não, meu amor, com certeza não... O Dr. Salviano ainda vai levar um bom tempo lá com a mamãe... tenho certeza... mas agora, sabemos que ele vai encontrar tudo o que se desarrumou e vai arrumar tudo lá dentro né? Já que o Papai do céu está ajudando ele não é mesmo?

É sim papai! Disse ela sorrindo e completando com uma “lapada” bem inocente, que o Dr. Álvaro entendeu como um recado do céu pra ele.

Já que não deixaram você cuidar dela, né papai? Então, o Papai do céu teve que ir lá ajudar o Dr. Salviano... mas isso é até bom, sabia papai? Porque Deus sabe muito mais do que todos nós aqui... até mais do que o senhor, acredita numa coisa dessa papai? Veja só como ele é suuuuper, SUUUUPER inteligente!! Por isso que as “gentes” do mundo inteiro chamam Ele de Deus Todo Poderoso... É porque Ele tem todo o poder do Universo, só que Ele emprestou um pouco disso pra nós os humanos também... Entende, papai?


Ele sentia tranquilidade agora para esperar pelo resultado da cirurgia junto com a filha. Não deixou de pensar no que estaria acontecendo dentro da sala em que sua esposa estava sendo operada, mas, sentia que não podia fazer nada mais e que tudo estava sob controle.

Não sabia explicar como, mas sentia que, realmente, tinha que existir um Ser que fosse Superior e que pudesse entender o sentido da vida de maneira completa, coisa que o ser humano, até agora, não conseguiu. Para tanto, para entender tão profundamente de uma coisa que a ciência ainda não explicava totalmente, só poderia mesmo haver Alguém que conhecesse verdadeiramente a origem da vida e que, por isso mesmo,  fosse a Fonte de tudo... caso contrário, como explicar que a medicina não tivesse, ainda, o controle da vida em sua mãos?

Ninguém, dentro de toda a sabedoria da Medicina, poderia garantir a ele que a sua esposa estaria viva ao amanhecer. Estranhamente, isso não lhe parecia absurdo mais e, principalmente, não lhe causava mais o mesmo “terror”. Sentia-se quase “protegido” por uma Sabedoria maior, como se estivesse dividindo um fardo muito pesado de carregar. Que bom que Alguém sabia mais do que ele, por isso mesmo havia esperança.

Olhou pra sua filha e teve vontade de agradecer pela sua insistência naquele assunto. Como era boa essa sensação de estar sentindo segurança e a esperança de ver algo além do que o prognóstico dentro da medicina poderia lhe dar.

Perguntou se a filha tinha comido alguma coisa; se estivesse com fome ele poderia pedir para alguém trazer um lanchinho leve para os dois. Ela concordou, porque agora o seu estômago não estava mais “com frio”, então, ela já podia comer, além disso ela não estava mais “estontiada” e a dor de cabeça tinha ido embora de vez!

Ótimo, meu amor! Disse o médico, quase animado já. Perguntou se ela queria uma sopinha de legumes cremosinha. Ela respondeu:
 

Depois que tomaram cada um o seu lanche, o médico sugeriu que a Mannu dormisse um pouquinho, já era muito tarde e ela só tinha conseguido chorar até pouco tempo atrás.

Papai, eu só vou dormir se você dormir também... senão eu quero ficar acordada pra saber da mamãe quando o Dr. Salviano terminar tudo. Eu não vejo a hora de poder falar com a mamãe sabe?

Sei filhinha... mas... eu acho que ainda vai demorar um pouco. Seria bom você dormir um pouquinho para o seu organismo se recuperar mais depressa, você sabe como essas coisas funcionam né? O papai já explicou pra você.

Sei sim papai... eu só quero que você durma um pouquinho também, aqui comigo, pra você não ficar longe...

Tá bom querida, o papai vai deitar aqui do ladinho certo?

Certo papai... daí eu consigo dormir...

 Ele pegou um dos travesseiros no armário e colocou na cabeceira da cama, deitando-se, mal acomodado, na caminha. Fez a filha deitar no travesseiro ao seu lado e perguntou se ela gostaria de ouvir uma musiquinha que a mamãe costumava cantar pra ela dormir quando ela era bem pequenininha. Ela respondeu que sim, já bocejando, o cansaço ia vencendo ...


Começou: “zum, zum, zum, ...zum, zum, zum... faz a abelhinha... zum, zum, zum... zum, zum, zum... dando uma voltinha...


Em poucos minutos a Mannu estava ressonando; esgotada pelo dia difícil. Ele também estava quase dormindo, aliás, quando começou a cantarolar a musiquinha achou que ia dormir primeiro que a filha... Apagaram os dois, à espera do que lhes traria o novo dia que ainda estava escondido atrás do escuro da noite lá fora...