A
Mannu foi dormir fazendo beiço e demorou muito a pegar no sono, pois a
curiosidade sobre o que tinha acontecido com o marido da D. Lídia e o sujeito
estranho que ele trouxe para casa aquela noite era demais. Ela não entendia a
atitude da mãe em não permitir que a empregada terminasse a história, afinal
aquilo era tão importante, poderia até mesmo ajudar sua mãe a entender quem era Deus, o Papai que ela tanto falava
ultimamente .
Drª
Laura também não conseguiu pegar no sono tão cedo; estava tão preocupada com o
rumo que as coisas “espirituais” iam tomando na vida da filha, que o sono
desapareceu completamente. Ela não tirava da cabeça que era sua culpa o fato da
menina não ter recebido nenhuma orientação segura sobre essa questão. Bem, pelo
menos era o que ela achava, segundo a sua própria interpretação desses
assuntos, que, na verdade, nunca foram uma prioridade para ela, no entanto,
depois que percebeu que outra pessoa tinha suprido essa necessidade na vida da
sua filha, ela sentia-se frustrada, como mãe e protetora da filha em todos os
sentidos. Quase como se ela tivesse dormido no ponto e outra pessoa tivesse
tomado uma área importante do relacionamento dela com a filha. Sentia-se, mãe
“pela metade” mais ou menos.
Para
ela, essa conversa de Deus já estava indo longe demais e ela não sabia como
interromper o progresso da história, e, ao mesmo tempo, sentia-se meio perdida,
pois, de vez em quando, passava por sua cabeça que a “desinformada” ali era ela
mesma, que nem sempre conseguia responder as perguntas da filha e também ficava
muito admirada com as considerações que a Mannu fazia sobre certas coisas.
Parecia que a menina tinha descoberto uma sabedoria que estava acima de muita
coisa que ela conseguia explicar.
O dia
seguinte surgiu com um sol brilhando forte lá fora e uma Mannu mais “brilhante”
ainda; ela estava radiante e mal podia esperar para a mãe acordar e ela poder
contar o que tinha acontecido durante a sua noite agoniada de curiosidade.
Assim
que ouviu um barulhinho mínimo na cozinha, a menina disparou para baixo sabendo
que já encontraria a Lídia preparando o café da manhã delas.
Invadiu
a cozinha, como era de costume, já falando alto e sem se preocupar com o tom da
voz; com intenção mesmo de “acordar” todo o mundo à sua volta. Afinal, era
muito importante o que ela tinha para compartilhar naquela manhã.
―
Huummm!!! Bom dia minha criança!! Respondeu a empregada, alegre por ver a
animação da menina.
― Bom
dia mesmo D. Lídia! Porque eu tenho uma coisa muito “esfuziante” pra contar pra
vocês hoje de manhã!!
― É
“mesm”? respondeu a empregada no mineirês de sempre. ― Mas... antes me diga o que é “esfuziante” num
intendi...
―
Bom... é uma coisa assim... muito maravilhosa que faz a gente ficar “esfuziada”
sabe ?
Embora
não tenha entendido o que a Mannu tentou explicar, a empregada fingiu que
estava tudo bem e apenas perguntou se ela queria tomar alguma coisa ou queria
esperar pela mãe.
A menina disse que seria melhor esperar a mamãe porque ela
queria contar uma coisa muito legal para as duas, ao mesmo tempo.
Quando
a impaciência da Mannu já estava vencendo e ela ia dizer para a D. Lídia que
seria melhor chamar a mamãe, a Drª Laura apareceu na porta da cozinha admirada
pelo fato da filha já estar ali, vestida e na mais empolgada conversação com a
empregada.
― Oi
mamãe!! Bom dia!! Eu não estava no meu quarto desde bem cedinho... quando eu vi
o sol nascendo lá depois do lago, eu já desci.
― É,
estou vendo que você madrugou hoje. O que foi que aconteceu, você acordou antes
das 6:00...
― É
que eu estava muito curiosa para saber o resto da história da D. Lídia que você
não deixou ela contar ontem. Mas, não foi só isso; eu também estou muito "esfuziada" para contar um outro sonho que eu tive pra vocês duas. Ainda bem que
você já “saiu de dentro do teu sono” porque eu já estava cansando de esperar e
estava pensando em ir te acordar mamãe...
―
Espero que você não tenha contado ainda o restante da história pra ela Lídia!
― Não “sinhór”,
não contei “nadim” prela inda não... Ela disse que queria esperar a “sinhór”...
― Ah,
ótimo! Muito bem minha filha!
A
empregada logo serviu o café da manhã para as duas, curiosa para que a Mannu
começasse logo a contar o tal do sonho.
A mãe
não gostou muito da ideia porque sabia que a menina ia “falar” muito mais do
que comer! Mas, conhecendo a ansiedade da filha, já sabia que seria melhor
permitir que ela falasse e ao mesmo tempo ajudar para que ela não esquecesse de
comer empolgada com seu poço de palavras.
―
Certo filha, então você conta o sonho, mas não pode falar 10 minutos e comer 2
minutos ok?
― Tá
mamãe... eu “pometro”
Nesse
instante a D. Lídia postou-se atrás das duas para que a patroa nem se lembrasse
dela ali e assim não inventasse de pedir pra ela fazer alguma outra coisa
quando ela estava mesmo era ansiosa pra saber o que a menina tinha sonhado.
Embora
a médica fingisse que aquilo não a incomodava muito, ela já sabia que teria que
ouvir coisas que não seria capaz de entender bem e muito menos de esclarecer
para a filha de um ponto de vista humano e que ela considerava mais aceitável.
Tentou progredir na conversa de maneira bem normal.
― Ah é
filha? Aquele que você chama de Emanuel?
― É
mamãe, eu só tenho esse irmão lembra?
―
Humm... respondeu a médica um tanto espantada com a aparente ironia nas
palavras da filha.
― Pois
então, mamãe, lembra que eu fui dormir muito chateada porque eu queria saber o
resto da história da D. Lídia?
―
Lembro filha, mas eu gostaria que você entendesse que eu só não permiti porque tudo
tem um tempo certo... e talvez não fosse uma boa hora pra você ouvir aquela
história que eu nem sei como termina. Aliás, é isso que eu vou perguntar para a
Lídia antes de permitir que ela conte o resto da história pra você sabe?
A
empregada, que estava se fazendo de invisível atrás das duas, acabou se
manifestando bem depressa para explicar as coisas.
― Drª
Laura, a “sinhór não pricissipreocupá não”, a história acaba muito bem sim
“sinhór”... só tem uns “pedacim mei istranho”, mas “nadimais não”...
A
patroa virou-se e viu a empregada de braços cruzados ali atrás, quietinha, e
logo entendeu que o interesse era ouvir o sonho da Mannu. Deu um sorriso e
disse:
―
Lídia, você estava aí? não tinha percebido... Se quiser ouvir a história,
sente-se aqui conosco, não tem problema não!
―
“Quiéiss dotôra”!! Num pricisa não! Eu escuto daqui mesm!! “Podi cunversá como
sieu nem tivesspuraqui...”
A
médica olhou para a filha e deu uma piscadinha para a menina sorrindo
abertamente e incentivando a filha a continuar o sonho. A Mannu, muito
empolgada, foi logo dizendo:
―
Mamãe! Que coisa mais incrível! Você sabe que você acabou de me dizer uma coisa
que o meu irmão também me disse neste sonho??
A
médica mal podia esperar para ouvir o que tinha acontecido nesse sonho. Ao
invés de incentivar a filha a comer, ela também parou com o seu café e começou
a fazer perguntas insistindo para que a Mannu andasse logo com aquela história.
― Pois
é mamãe... quando eu entrei dentro do sono... que demorou bastante, eu comecei
logo a sonhar. E no meu sonho, eu estava sentada lá na beira do lago, sozinha e
muuuuito triste, porque no meu pensamento estava passando uma coisa assim: A
minha mãe nunca vai entender essas coisas de Deus e do céu. Ela nem gosta de
ouvir falar sobre essas histórias, e eu acho tão importante e o meu coração
bate muito mais feliz quando eu converso sobre essas coisas... mas ela não
gosta disso, eu já percebi...
Neste momento, o coração da médica se contraiu
de uma forma tão forte, como ela nunca havia sentido antes. Ela ficou até
preocupada e começou a analisar, do seu ponto de vista, médico, é lógico, se
não estaria perto de ter uma síncope qualquer. Mas, logo se controlou e tentou
dizer algo para amenizar o que parecia ser um grande sofrimento para a filha
que ela amava tanto.
E sem perder tempo, a Mannu continuou com o
sonho:
― Aí
mamãe, quando eu estava bem triste assim, no meu sonho, o meu irmão Emanuel
veio andando na água do lago e me disse uma coisa muito legal...
―
Espera um pouco filha, andando “na água do lago”? Você quis dizer na “beira” do
lago né filha? Porque ninguém anda em cima da água...
― Não
mamãe, eu quis dizer em cima da água mesmo! Ninguém aqui dos “humanos” faz
isso, mas o meu irmão é bem acostumado a fazer essas coisas... ele sabe como
fazer isso, é só você ler na Bíblia que Ele já tinha feito isso uma vez, sabia?
A
médica olhou para trás para ver a reação da empregada que estava com um ar
completamente calmo, como se aquilo fosse uma coisa muito natural. Por via das
dúvidas, a doutora resolveu nem perguntar nada mais sobre esse assunto. Afinal,
aquilo era um sonho de uma criança, apenas...
― Sim,
filha, e daí... o que foi que o teu irmão falou então?
― Bem
mamãe. Ele primeiro saiu de cima da água e sentou bem pertinho de mim no
gramado. E, sabe mamãe? Eu já disse uma vez que Ele tem um cheirinho muito
gostoso, é um perfume muito bom, e eu fiquei com vontade de deitar no colo
dele pra descansar do meu pensamento chato que não ia embora nunca... E aí foi
que eu achei muito legal, porque eu não precisei usar o meu poço de palavras
pra falar isso pra Ele, eu só estava pensando aquilo dentro da minha cabeça e
Ele já respondeu: “Pode vir pro meu colo Mannu, estou aqui pra isso”.
Nesse
instante, a empregada já estava grudada na cadeira atrás das duas, prestando
muita atenção e sem nenhuma preocupação de não incomodar.
A
médica, estava com o olhar fixo no prato e a mente voando também, e a menina
continuou como se tudo fosse muito normal e assim devesse ser sempre.
―
Então ele me pegou no colo, bem como o papai faz quando eu estou triste ou
dodói. E só porque eu estava ali abraçada com Ele, eu já não sentia mais
nenhuma tristeza sabia mamãe. É um colo tão macio e “conforchegante”...
―
Hummm... você quer dizer confortável e aconchegante né? Corrigiu a mãe, só para
ter o que dizer...
― É
mamãe, é isso mesmo, é que o meu pensamento foi muito rápido e eu pensei as
duas palavras ao mesmo tempo mas só falei um pouco de cada, entende?
― Mas,
o mais legal ainda foi quando Ele me disse que eu não precisava ficar
“perocupada” com a mamãe, porque tudo tem um tempo “derteminado”, e que, por
enquanto ela estava só ouvindo as coisas, mas, logo ela ia começar a entender
direito. Lembra mamãe, que agora há pouco você me disse isso também, que tudo tem
um tempo certo, porque eu queria saber logo o final da história da D. Lídia?
Nesse
instante a médica lembrou-se que havia falado isso mesmo para a filha há poucos
minutos, quando ela estava ansiosa pra saber o resto da história da noite
anterior. A mulher não pode deixar de sentir algo diferente, como se alguém
mais estivesse por ali, de olho em toda aquela situação, mas não respondeu
nada. E a Mannu continuou empolgada.
―Eu
queria saber contar pra vocês como fica diferente o ar em volta da gente quando
o meu irmão está por perto. É muito lindo mamãe, porque a gente fica se
sentindo tão bem, e nada parece difícil, tudo é muito gostoso, o ar fica iluminado
e bem morninho... Ele me disse muita coisa bonita sobre o céu e eu nem consigo
lembrar tudo, mas uma coisa eu lembro: Ele disse pra eu não ficar triste porque
você mamãe, e o papai também, são dele. E logo vocês vão descobrir isso. Ele
falou isso porque Ele sabia que eu estava muito “perocupada” e queria muito que
você virasse criança logo, pra acreditar em Deus... Mas, Ele disse que você não
vai virar criança assim como eu penso, mas você vai “nascer de novo”. Essa
parte eu não entendi, mas eu nem quis perguntar porque se Ele falou é porque
vai ser bem assim mesmo...
A
empregada mal se aguentava de tanta alegria e só faltava pular e agarrar a
médica que, com certeza, ficaria muito assustada com esta reação, aliás, ela já
estava bem assustada com tudo o que tinha ouvido até ali e estava
muito séria, analisando como deveria entender essa história de nascer de
novo, que, logicamente, só poderia ser uma espécie de figura de linguagem.
Na
cabeça das três, rolavam sentimentos bem fortes!
A
médica, curiosa, perguntou se Ele, o irmão, tinha falado mais alguma coisa, e a
menina respondeu alegre:
― Mamãe,
Ele falou muita coisa, coisas importantes, e eu não estou conseguindo lembrar
tudo agora. Mas eu vou lembrando aos poucos e vou contando para vocês tá certo?
Por enquanto eu só lembro dessa parte e de como estava bom ficar no colo do meu
irmão conversando com Ele. Eu sentia uma alegria muito esfuziante dentro de
mim, eu nem sei como explicar isso mamãe! Só me lembro bem da cena quando Ele
veio andando pela água e de como eu levei um susto! Mas logo passou o medo
quando Ele chegou perto de mim porque eu reconheci Ele do meu outro sonho
lembra? Eu comecei a me sentir tão alegre e lembro bem que eu nem queria
acordar, pra não sair do meu sonho, porque estava muito bom ali...
―
Então você já teve outro sonho assim Mannu? Perguntou a D. Lídia curiosíssima!
― Já
sim, e eu já falei disso aqui também, logo que eu cheguei de férias...
A
médica continuava muda e a empregada com a língua bem solta.
― E
daí minha criança, “miconti”, a voz dele é qui nem trovão mesm??
―
Ah... eu não achei não D. Lídia... porque se fosse que nem trovão, talvez eu
ficasse com medo. Ele falou comigo com uma voz bem bonita, parecida com a do
papai, e era a mesma voz que eu ouvi no meu primeiro sonho com Ele.
Ela
parecia ter esquecido da história não terminada da D. Lídia. Mas, lembrou-se em
seguida e pediu para a mãe para saber o final. A mãe, ainda incerta, preferiu
pedir que ela continuasse a tentar lembrar o restante do sonho dela. Depois do
almoço elas poderiam continuar com a história da Lídia.
Neste
momento, o telefone da mãe tocou e era o papai da Mannu. Conversaram um pouco e
depois ela passou para a Mannu que estava ansiosa para conversar com o pai
também. O restante do sonho e o final da história da D. Lídia vão ficar para o
próximo capítulo também, já viu né?











Eu vou ter um troço!!
ResponderExcluirEu tbém kkkkkkkk
ResponderExcluirQue curiosidade, mas amei o sonho da Mannu, até me emocionei... como gostaria de ter sonhos assim!!