No
jantar, a Drª Laura fez de tudo para desviar o assunto “filha da Zezé” toda vez
que a Mannu tentava trazê-lo de volta. Achava que não era hora e nem seria bom
continuarem aquela conversa triste pouco antes de irem dormir. Mas também fazia
isso por não se sentir preparada para responder a todos os questionamentos
surpreendentes que a filha fazia. Não sabia se podia contar com a ajuda de mais
uma das suas empregadas, a Lídia. Achava que não, porque a mulher nunca tinha
deixado transparecer nada sobre o assunto fé, e ela mesma nunca havia
perguntado para a empregada já que isso não fazia parte das suas preocupações.
―
Mamãe ― perguntou a Mannu quando já
estava quase no fim da sobremesa ―
Posso fazer uma perguntinha só, sobre a história da Zezé?
―
Huuummmmm... tem certeza que é importante Mannu? Porque já falamos muito sobre
isso hoje não?
― Mas
é que... sabe mamãe, eu estava aqui pensando... Será que Deus falou também pra
Zezé que a Juliette está muito feliz lá com Ele? Porque se Ele não falou eu
queria contar pra ela o que Deus me disse lá em cima quando eu estava chorando
no teu colo por causa dela, sabe?
―
Hum... mas o que foi que Ele disse mesmo?
―
Então mamãe, não lembra? Ele disse pra mim que eu não precisava mais chorar por
causa da Juliette, porque ela ganhou um poço de alegria que não tem fim, e
disse também que ela vive correndo pelos campos de flores que ela mais gosta de
lá, onde ela mora agora. Ela sempre amou as flores né?
― Sim,
filha... mas... como é que você sabe que isso é algo que Deus te disse? Por que
você pensa assim?
― É
porque quando eu pensei isso, eu sabia que não era eu que tinha ido buscar esse
pensamento lá no meu poço dos pensamentos escondidos. Ele subiu sozinho na
minha cabeça... é como se o meu pensamento estivesse conversando com o meu
pensamento, entende mamãe?
― Bom
mamãe, eu não sei explicar direito como é isso, mas, eu sei que têm pensamentos
que eu mesma penso, mas têm outros que eu não penso sozinha... alguém pensa
dentro da minha cabeça como se estivesse conversando comigo.
Nesse
instante, a Drª Laura parou de comer a sua fruta e olhou preocupadíssima para a
empregada que vinha entrando na cozinha, querendo discutir o assunto com
alguém, mas, sentindo-se completamente sozinha para comentar qualquer coisa.
Sabia que não deveria colocar a empregada nesse assunto, de nada adiantaria
mesmo.
― Já terminaram
Doutora? Posso guardar?
― É...
pode sim Lídia...
― Que
cara é essa Doutora? Ficou preocupada com alguma coisa?
― É,
na verdade fiquei sim Lídia.
Nesse
instante a Mannu terminou seu doce no prato e perguntou para a empregada.
― D.
Lídia, você acredita no Deus que vive lá no céu? Aquele que é o nosso outro
Papai?
A
empregada foi apanhada de surpresa, pensou um pouco e olhou direto para a
patroa antes de responder.
A
doutora, também apanhada de surpresa, gaguejou e apressou-se a permitir a
resposta da empregada, até porque, ela mesma estava muito curiosa pra saber o
que ela pensava sobre o assunto.
―
Hein? Bem... é... lógi... lógico Lídia! Pode responder sim, só não esconda a
verdade, pra não enrolar mais a cabeça da criança, entendeu?
―
Claro, Drª Laura! “Pódexá”comigo!
Diante
da resposta da empregada, a Doutora ficou completamente atordoada. Ela achava
que teria um reforço ali, mas, pelo jeito... A Mannu, pelo contrário, pulou no
colo dela abraçando-a e gritando feliz!
―
EEEEEBAAAAAA!!! Eu sabia!!! Você tem cara de quem conhece o Papai do céu!! Eu
to muito feliz D. Lídia, porque agora você pode me ajudar a ensinar a minha mãe
a ser um pouco mais “criança” de novo!
A
empregada ficou um pouco sem graça com o que a Mannu tinha falado e tentou
“arrumar” as coisas para a patroa.
― Bom
Mannuzinha... a sua mãe não precisa que a gente ensine nada pra ela não! Ela já
sabe tudim!! Estudou foi muito, “num” é, Doutora??
A
médica nem respondeu, preocupada em analisar sua desvantagem ali. Mas, a Mannu,
essa sim, tinha uma resposta na ponta da língua!
― É,
ela estudou tanto que a mente dela cansou e agora ela não consegue mais
aprender o que é mais importante pra vida “das gentes” que ela cuida... Ela vai
ter que “desaprender” umas coisas pra aprender outras sabe D. Lídia?
―
Ah... é??? Disse a mulher, completamente sem graça e procurando evitar que as coisas
piorassem para a patroa. A Drª Laura, por sua vez, sentiu-se na obrigação de dizer alguma coisa para que
ninguém pensasse que ela tinha engolido a língua. E foi assim que ela mesma deu
margem para a continuação daquela conversa que, para ela, não devia nem ter começado.
― Como
assim Lídia? Aposto que você nem sabe como explicar isso que você respondeu
aí... sem pensar muito né?
― Não
Doutora? Eu sei explicar sim... quando a gente encontra Deus, a gente nunca
mais “isquece” e a gente sabe muito bem a diferença que isso faz na “vidagente”, nóóó!!! Só Deus “mesm” pra "mudá" a gente assim desse “jeitim” sabe?
A
médica tentou fugir do assunto mas não teve como. A Mannu e a empregada estavam
empolgadas pra continuar a conversa.
―
Conta pra gente D. Lídia, como é que você conheceu o Papai do céu!! Pediu a
Mannu com sincero desejo de conhecer a história.
A mãe não teve outra
alternativa a não ser aceitar ouvir o “causo” porque não queria ser rude com a
empregada.
― Pois então... eu posso contar Drª Laura? Perguntou a empregada meio incerta.
E a Lídia começou... misturando pelo meio da
conversa os sotaques e as expressões mineiras que ela ainda mantinha.
― Pois
então... tudo começou quando nós viemos morar aqui, na sua fazenda. A gente
tinha saído lá de Minas tão “disajustadim” eu e meu marido... “Nóis num sintendia”
de jeito “ninhum”. Eu só topei de vir pra cá pra vê se alguma coisa, alguma
“coisim qui” fosse mudava, sab? Mas, o
Adão cumeçou cuma história “di saí” toda noite, lá pra cidade, pra bebê cos
amigo dele, amigo daqui “mesm, sab?” E então, eu percebi “qui nada ia mudá
mesm!” Cumecei a ficá muito atravessada cum ele! Eu sempre dizia pra ele:
―
Olha, Adão, si o cê num simendá direitim, ocê vai perdê o emprego aqui na
fazenda, que é um lugar tão bom di vivê!! Vê si acorda homi! Num si deixe levá
pelas cunversa de quem bebe, purque num dá em boa coisa!!
Quanto
mais ela avançava na história, mais ela voltava ao jeito antigo de falar e de
demonstrar as emoções. D. Lídia era uma mineira decidida e ao mesmo tempo,
muito paciente, mas longe, bem longe, de ser boba e inocente. Não era todo
mundo que caía nas graças da D. Lídia;
ela tinha um instinto de preservação muito forte.
―
Tábão, minha criança! Ocê pergunta intão, casnumintenda!
―
Certo,D. Lídia!!
―
Intão... como eu ia “dizeno”, o Adão deu pra “sumidicasa,” toda noiti! E num
prestava atenção nus “consei” quieu dava. Té qui um dia, ele “mi cheguimcasa”,
“tardanoiti” cum camarada “isquisitdimaisdaconta.” Eu abri a porta e
“quáscocaio” quano vi o sujeito. Era um “tipim” assim meio “vacaiado” e tinha
um “jeitistrandioiá”.
Nesse
instante, a Drª Laura olhou assustada para a empregada e falou sem pestanejar:
―
Lídia, isso é uma coisa que você nunca nos contou... E é algo que você não
poderia ter escondido. A gente sempre deixou claro que a gente queria saber
tudo de diferente que acontecesse aqui na fazenda , não é assim?
A
empregada pareceu cair na realidade e percebeu que tinha falado “demais”, pois
não tinham realmente contado nada disso para os patrões.
― Bão,
doutora, a sinhora “tá cubérdirazão”, mas...
E a
Mannu interrompeu também:
―
Mamãe, deixa ela continuar, depois você briga com ela por isso tá? E... D.
Lídia, o que é mesmo “cubérdirazão”?
Nem a
médica, nem a empregada conseguiram evitar a gargalhada com essa intervenção da
Mannu. Ela estava muito interessada na história e ligada no vocabulário da
empregada.
Ao
ver a seriedade da filha, a doutora ficou mais preocupada ainda. Não sabia o
desfecho da história e pensou que, talvez, a empregada não soubesse bem os
limites para contar o que tinha acontecido para uma criança. Tentou intervir
para o bem da filha.
― Bem
Lídia, explique para ela o que significa “cubérdirazão” e vamos deixar essa
história para amanhã certo?
― Ahhh
não mamãe!!! Reclamou imediatamente a Mannu ― como
você acha que eu vou conseguir dormir mamãe? Sem saber o resto da história o meu poço de
curiosidade vai ferver a noite inteira e não vai me deixar dormir!!
― Sem
teimosia Mannu! Eu já decidi, amanhã você fica sabendo o resto da história...
Disse a médica, determinada a não deixar a coisa progredir sem saber o que
vinha pela frente. No dia seguinte, pretendia falar com a empregada e saber o
final da história para definir se seria bom a Mannu tomar conhecimento do
restante.
Como
a empregada conhecia bem a patroa, tratou de não insistir com a conversa, foi
logo acalmando a Mannu.
― É,
minha criança, ó... “préstenção” , sua mãe tem razão, amanhã eu conto tudim o
resto da cunversa, tábão? Hoje é ‘meitardi” já e a prosa é
“cumpridimaisdaconta” pra gente terminar. Mas, amanhã, ocê fica sabendurestu!
Prometo procê!
A
Mannu fez todos os beiços possíveis mas de nada adiantou, então se conformou em
saber apenas o que significava “cubérdirazão”.
― “Cubérdirazão”
é o que eu digo quando acho que a pessoa está certa, cheia de razão, ou
“coberta de razão”, entendeu fii??
ENTÃO,
QUE SEJA! ATÉ A PRÓXIMA!!!









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