Depois
de toda aquela conversa e de se sentirem bem melhor, as duas olharam pela
janela da outra sala e viram um dia clarinho e bonito outra vez. Resolveram dar uma voltinha
lá fora; porque a chuva havia passado e o sol voltou a brilhar com aquele calor
suave e gostoso como se estivesse dizendo: “eu sou lindo e não parei de
brilhar, só estava dando um tempo para a chuva fazer o papel dela”.
Elas
desceram e foram passear no jardim da casa um pouco. Depois entraram e foram
para a cozinha procurar a Lídia. A Dra. Laura pediu que ela fizesse um jantar
leve porque as duas tinham comido tanto bolo que ninguém estava com fome.
Depois de resolverem o jantar com a Lídia, foram as duas tomar um banho para
que a Mannu tivesse a chance de “trocar” de pijama, já que ela tinha ficado o
dia todo com aquele sem se preocupar com nada mais, a não ser com a história da
filhinha da Zezé.
Enquanto
a mamãe ajudava a Mannu a se vestir, a menina começou a se lembrar da história
e as perguntas e dúvidas começaram a brotar.
―
Mamãe... começou a Mannu, bem de leve, posso dizer uma coisa que está aqui
tentando pular de dentro do meu poço de palavras faz um tempão?
―
Huuum... tem certeza que você quer continuar com essa conversa hoje ainda?
Perguntou a mãe, já sabendo que o que rodava na cabeça da filha não podia ser
outra coisa mesmo.
― Eu
quero sim mamãe, senão eu não vou nem poder dormir...
―
Certo meu amor, então diga, o que é?
― Eu
queria perguntar uma coisa pra você, mas, não sei se você vai saber a
resposta... então... fico com medo de perguntar também...
Nesse
instante, a médica percebeu que a pergunta seria de ordem religiosa com
certeza, pois a filha achava que ela sabia tudo sobre tudo, menos sobre esse
assunto de fé; porque ela mesma tinha dito para a filha que ela não tinha
nenhuma experiência nesse assunto. Mesmo assim, ela incentivou a filha a
perguntar o que quisesse, pois se ela não soubesse, as duas poderiam procurar a
resposta juntas.
― Meu
amor, pode perguntar... se for sobre fé, você sabe que precisaremos da ajuda da
Zezé, porque eu tenho muito mais dúvidas sobre isso do que você. Respondeu a
mãe com inteligência – traço comum nela – e também humildade – coisa um pouco
mais incomum, porém, suficiente para que ela reconhecesse que não poderia e nem
deveria, jamais, desviar o assunto.
Foi
um alívio para a Mannu que pensou que a mãe poderia não querer falar sobre o
assunto, já que não sabia nada desta área. Respondeu animada:
―
Isso!!! Que ideia boa mamãe! Eu achei que você não ia querer perguntar nada pra
Zezé...
A mãe
sentiu-se um pouco temerosa de pisar em um terreno bem desconhecido para ela,
mas, aliviada por não fugir da conversa que, para a filha, parecia ser tão
importante.
― Fale
meu anjo, pode falar...
― Pois
então mamãe... eu fiquei pensando... você acha que o Papai do céu não curou a
Julliete porque o pai dela, o francês, não ajudou a Zezé a orar por ela?
A
médica quase engasgou, pois não esperava algo tão difícil de responder. Não
tinha a mínima ideia do que dizer para a filha. Não acreditava que existia um
“Segundo” Papai lá no céu para ninguém aqui na terra. Então, como responder a
esta pergunta da filha? Ela, simplesmente, não “achava” coisa nenhuma, pois
nunca havia pensado na possibilidade dessa conversa sobre a existência de Deus
ser mesmo verdadeira. Era um assunto com o qual ela nunca quis perder nem um
segundo do seu valioso tempo. Ficou uns minutos pensando e olhando para a
filha, muda.
Para
sua sorte, a filha continuou mais um pouquinho com as suas explicações, pois
nada do que ela perguntava era assunto vazio, sem um porquê.
― Sabe
por quê mamãe? É que quando a mãe da Lívia estava dodói e a gente sabia que era
muito grave e que ela poderia morrer, nós oramos juntas. Quer dizer, eu e a
Camila só, porque a Lívia nem sabia orar ainda e ela estava chorando muito,
então a gente orou no lugar dela porque ela só sabia chorar naquela hora, sabe?
Mas, eu tinha a Camila pra “acreditar” junto comigo e pra me ajudar a orar,
entende mamãe?
― Sim,
filha, mas... por que você acha que é preciso mais de uma pessoa para orar? A
gente não pode orar sozinha mesmo? A Zezé me disse que ela ora toda noite,
sozinha, no quarto dela, sabia?
― É...
eu sei disso mamãe. Mas é que quando é uma coisa muuuito séria, eu acho que a
gente precisa de mais gente junto pra orar com um “montão” de fé...
― Sei
filha... mas, sabe? Se eu entendi direito aquelas coisas que a Zezé falou nas
reuniões, uma pessoa pode sim orar sozinha... Afinal, se Deus é esse "segundo" Pai das pessoas ele vai ouvir, porque quem tem que ter um
“montão” de fé pra isso é justamente quem está orando, não é assim?
― É
mamãe... é isso mesmo, mas, só uma coisa; Deus não é o Segundo Pai da gente. Ele é o Primeiro, foi Ele quem criou todos os outros papais depois pra serem parecidos com Ele.
― Huuum.... mas parecidos com Deus eu não vi muitos não... disse a médica com ironia.
― É verdade mamãe, mas isso é porque os papais todos do mundo se afastaram de Deus e não quiseram fazer o que Ele disse pra fazer, desde o começo foi assim...
A médica sentia que não devia aprofundar essa parte e respondeu concordando.
― Ah sim... eu tinha esquecido esse pedaço.
― Pois é mamãe, eu falei do pai da Julliete porque eu fiquei pensando que a Zezé podia
estar tão triste e “perocupada” com a Julliete que ela não conseguia sentir
direito a fé que estava guardada lá no coração dela. Porque a “perocupação” e a
tristeza atrapalham a fé de sair lá do espírito onde ela mora para subir pra
cabeça dela pra ela orar direito entende? Então, ela precisava de alguém pra orar junto com ela...
A
mulher emudeceu de novo. Achava um pouco de lógica no que a filha dizia, mas
não sabia se do ponto de vista espiritual isso era correto. Ficou tão
atrapalhada que disse a primeira coisa que passou pela cabeça dela.
― Bem
filha, esta história de falar com Deus, ou seja, orar, eu não entendo muito.
Mas, acho que toda oração deve ser feita lá no interior da pessoa só, pra poder
funcionar... não é assim? Por que precisaria de outra pessoa para ajudar a orar? Se Deus vai ouvir, Ele vai ouvir um de cada vez. Ele deve ser organizado não
acha?
A
médica olhou para a filha esperando a explicação “poderosamente infantil” que
viria e da qual ela, pelo jeito, precisava muito.
―
Mamãe, lembra de uma vez quando a gente estava lá na rede e eu disse que eu ia
ensinar você a ser “criança” de novo?
―
Hummm... lembro, foi esses dias atrás...
―
Isso... então mamãe, é que se você não for como criança você não “consegue”
entender as coisas de Deus, sabia? Eu já disse isso pra você, e quem falou isso
foi o meu “irmão mais velho”, aquele do sonho. A Zezé me mostrou na Bíblia
quando foi que Ele falou isso. Ele deu uma bronca, bom... uma “bronquinha” só,
nos discípulos por causa disso sabia?
A Mannu não perdeu tempo. Correu pegar a Bíblia que tinha ficado lá na outra sala e em
segundos estava de volta, com todas aquelas anotações e o “Livrão”. Procurou
rapidamente nas anotações onde estava marcado o lugar em que ficava a história e logo
encontrou.
― Aqui
mamãe... a Zezé marcou pra mim... está lá no livro “do” Lucas, abra aí...
―
Hummm, o livro “do” Lucas... que tem esse mesmo nome, não é mesmo?
― Isso...
é lá no capítulo 18, só três versos; do 15 até o 17. Leia pra você ver mamãe.
E
então ela leu assim:
“O povo também estava trazendo criancinhas
para que Jesus tocasse nelas. Ao verem isto, os discípulos repreendiam os que
as tinham trazido.
Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.
Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".
Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.
Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".
― Viu
só mamãe? Jesus disse que as crianças sabem como entrar no Reino onde Ele mora,
e sabe por quê? É porque a gente que é criança não fica só se “perocupando” com
coisas que a gente não sabe explicar... entendeu mamãe? Você vai ter que
desaprender algumas coisas “desimportantes” pra aprender as de lá do céu que
são muito mais importantes do que as daqui da Terra. Viu como é fácil mamãe? É
só desaprender pra aprender.
― Pois
é! Só isso mesmo...
Espantada
com tanta simplicidade e “credulidade” da filha, a médica disse o que menos
traria problemas para ela mesma naquele momento.
―
Então, quem sabe eu consiga né?
―
Claro que consegue mamãe! Você sempre foi muito inteligente pra aprender TUDO!
Então, pra desaprender vai ser mais fácil ainda, porque você vai ter que
desaprender só algumas coisas tá? Não é tudo...
― Ah
sim! Disse a mãe fazendo uma cara bem falsa de “muito alívio” para a filha, que
nem se importou e prosseguiu com o assunto da oração que a mãe já tinha até
esquecido.
― Por
exemplo mamãe: você tem que aprender que Deus é muuuuuito, mas,
muuuuuuuuuuuuito mais organizado do que você pensa. Ele é tão organizado que
Ele ouve as orações de todo mundo ao mesmo tempo, sabia mamãe?
De
repente, a mãe ficou séria e começou a tentar mudar um pouco a direção da
conversa porque já estava achando demais aquilo.
― Tá
certo, filha, tá certo... deixa eu te dizer uma coisa: você falou uma ou duas
palavrinhas erradas e eu nem pude te corrigir porque não queria interromper o
que você estava falando tá?
― Ah é
mamãe? E qual foi a palavra?
― Uma
era “desimportante” e a outra foi “perocupada”... Você pode dizer: sem
importância, ou insignificante, qualquer coisa assim, mas não “desimportante”
tá bom filhinha? Essa não se usa... e é PREocupada, e não “perocupada” tá certo
meu amor?
― Tá
bom mamãe!! Obrigada por me ajudar com o meu poço de palavras... mas eu preciso
dizer só mais uma coisinha tá?
― Hum,
hum... o que é?
― É que
o Papai – lá do céu – Ele ouve mesmo todo mundo ao mesmo tempo, porque Ele tem
um “atibru...” não! Deixa eu falar bem devagar: Ele tem um A – TRI – BU – TO,
que é muito importante... e que só quem é Deus é que tem...
―
Olha!! Você falou certinho ATRIBUTO... Parabéns filha! E que atributo é esse
que você fala?
― É um
bem legal! E eu nem vou errar essa palavra também... Ele tem uma coisa que
ninguém mais tem que é ONISCIÊNCIA...
Essa palavra a Mannu falou de uma vez só, sem tropeçar e sem gaguejar, para o completo
espanto da mãe dela!
― É
por isso que Ele pode ouvir todo mundo ao mesmo tempo e ficar sabendo de tudo
ao mesmo tempo e Ele nem se atrapalha, sabe?
―
Jesus!!! E não é que você sabe mesmo o que significa isso!!
―
Mamãe! Você falou “Jesus”, isso é porque você sabe que Ele existe mesmo!
―
Imagine filha! Essa é só uma expressão que todo mundo usa por aí...
― É
mamãe, mas sabe que nem é certo ficar usando o nome dele pra qualquer coisa? E
principalmente sem “acreditar” nele de verdade... É porque Ele não é só uma
grande “autoridade”... Ele é também “SAGRADO”... E além disso, Ele é a maior
autoridade do universo inteiro... Ele é muito mais importante do que um Rei de
um país aqui da Terra.
Dizendo
isso, ela pegou novamente a Bíblia e a mãe pensou que ela viria com algum texto
qualquer falando sobre isso, mas não... ela simplesmente voltou ao assunto que
ela tinha levantado lá atrás, o da oração em conjunto.
― Olha
esse outro texto que a Zezé marcou pra mim aqui mamãe. Leia você porque eu leio
um pouco devagar.
E a
mãe leu:
“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos
em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Mateus 18.20.
―
Então, mamãe, eu perguntei aquilo do pai da Julliete porque eu lembrei desse
versículo. Eu sei que Deus ouve quando a gente ora sozinha também... porque Ele
me ouviu quando eu falei com Ele sozinha no meu quarto a primeira vez, e eu nem
sabia se Ele estava me escutando porque eu falei bem baixinho. Mas é que eu
acho que Ele gosta quando as pessoas oram juntas também, porque Ele disse que
Ele vem pro meio delas quando elas se reúnem no nome dele... e a gente sempre
ora no nome dele...
A
médica não tinha mais o que dizer e a alegria dela foi quando, neste exato
momento, a querida Lídia apareceu na sala chamando para jantarem.
― Pois
é filha! Essa história é muito complicada... vamos jantar e a gente termina
outra hora, certo?
― Tá
bom mamãe... eu to mesmo com fome agora.
E desceram, as três em silêncio, cada uma com
seus pensamentos profundos.









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