As
duas resolveram fazer uma boa pausa mesmo, tomaram mais chá, comeram mais bolo,
tentaram conversar sobre outras coisas, mas, logo que a Mannu engoliu o último
pedaço de bolo foi logo falando:
―
Mamãe, não adianta, eu preciso muito saber o que aconteceu com a Julliete e nem que eu coma todos os
bolos do mundo essa coisa estranha que eu estou sentindo aqui no meu estômago
não vai passar. Conta logo o resto da história, seja qual for... eu vou querer
saber tudinho tá?
―
Certo filha... eu vou contar sim. Até porque eu quero muito saber o que você
pensa de tudo isso que aconteceu, agora que você acredita no mesmo Deus que a
Zezé acredita...
― Hum
hum... eu acredito mesmo e quero saber como é que Ele resolveu essa coisa chata
na vida da Zezé... O marido francês dela não ajudou ela a pedir pro Papai do
céu um milagre pra Julliete mamãe?
― Não,
meu amor... como eu te disse, ele não pensava assim como a Zezé... ele via as
coisas como elas são mesmo, aqui no mundo entende? Só isso...
― Sei,
mamãe... ele só via as coisas que ele enxergava com os olhos dele né? Então
mamãe, os olhos dele eram maus... não eram bons não, e o corpo dele era só
treva...
― É
que lá no “Livrão” está escrito assim: que os olhos da pessoa são a lâmpada do corpo dela, e se os olhos forem bons, a pessoa anda na luz, mas se forem maus, a pessoa anda na treva... não enxerga bem...
―
Huuummmm... disse a mãe meio atrapalhada com a ideia da filha. Depois achou que
seria uma boa hora para começar a conferir as coisas que a menina falava sobre
a Bíblia, o tal do “Livrão” que ela nunca esquecia.
―
Mannu, você trouxe a Bíblia que você ganhou da Zezé?
A
menina foi correndo pegar a Bíblia no quarto e logo estava de volta, com outras
folhas escritas também...
― O
que são essas folhas todas filha?
― São
as coisas que eu pedi pra Zezé marcar pra mim que é pra eu não esquecer onde eu
acho na Bíblia... muita coisa eu já sei aqui na minha cabeça, mas outras eu
ainda não sei...
A
médica ficou impressionada com o cuidado e interesse que a filha tinha nas
coisas espirituais. Ela realmente queria aprender e levava a sério tudo aquilo.
A mulher chegou a sentir uma espécie de “desconforto” por nunca ter pensado em
valorizar esse tipo de ensino na vida da filha, pois não conseguia esquecer o
quanto a mudança na vida dela tinha sido benéfica depois que ela aprendeu a
orar com a Zezé e a entregar os seus “medos” para o seu “Papai” lá do céu.
A
Mannu olhou uma folha e pediu pra mãe abrir a Bíblia no livro “do” Lucas. A
mulher olhou para ela sem saber o que fazer.
―
Hummm... e como é o nome do livro “do Lucas”?
― É
Lucas mesmo, mamãe... só isso...
A
mulher resolveu ir pelo método normal, conhecido dela, procurar no índice para
saber onde era o livro que a filha queria. Demorou um pouco mas encontrou o
nome do livro e a página onde estava. Abriu e perguntou:
―
Pronto, e agora? Pra onde eu vou? O que você quer me mostrar?
A
menina olhou nas folhas escritas pela Zezé e logo achou o que queria mostrar
para a mãe.
― Ah!!
Aqui mamãe, achei... Abra lá no capítulo 11 e ache o verso número 34... porque
é lá que está escrito sobre os olhos bons e os maus que eu falei agorinha.
A
médica encontrou o texto e leu em voz alta:
― Os olhos são a lâmpada do corpo. Quando os
seus olhos forem bons, igualmente todo o seu corpo estará cheio de luz. Mas
quando forem maus, igualmente o seu corpo estará cheio de trevas...
― Tá
vendo mamãe? Pode ler o 35 também pra entender bem...
Ela
leu, obedientemente:
― Portanto,
cuidado para que a luz que está em seu interior não sejam trevas...
― Viu
só mamãe? Por isso que eu falei que os olhos dele eram maus, ele não tomou
cuidado pra enxergar as coisas lá de dentro da gente, aquelas coisas que moram
no espírito das pessoas, sabe? Então ele não enxergava nada, porque dentro dele
só tinha treva...
A
menina disse aquilo com tamanha certeza e até pureza de sentimento que espantou
a sua mãe. Não havia na voz dela nenhum tom de censura, mas sim, de piedade
até, como se ela sentisse tristeza pelo fato daquele homem não conseguir
enxergar nada mais além do que via com os olhos naturais em seu mundo físico.
A
médica, intrigada, perguntou:
― E...
como é que você entendeu que esse texto fala de ver com outros olhos que não
sejam esses aqui, com os quais a gente enxerga todas as coisas no mundo?
A
menina pensou mais um pouco e voltou para as suas folhas de anotações. Lá
encontrou o que procurava.
― Quer
ver mamãe, é por causa disso aqui ó... que a Zezé me mostrou no mesmo dia que
ela me ensinou sobre os olhos da gente... Procure agora o livro “Pov”... aliás, “Provérbios”. Fica quase no
meio do Livrão, depois do livro Salmos...
A
mulher olhava de lado, disfarçadamente, para a sua filha tão “professora”
naquele momento.
―
Hum... Provérbios né? Tá... pronto achei...
―
Agora procure o capítulo 20 e o verso 27 mamãe...
Ela
encontrou e leu:
― O
espírito do homem é a lâmpada do Senhor, e vasculha cada parte do seu ser...
―
Entendeu mamãe? O francês da Zezé estava com o espírito dele “sem pilha”... porque
não clareava nada pra ele... Dizendo isso, ela parou uns segundos com ar de
quem media algo.
―
Huuummm... quer dizer, “sem pilha” não mamãe... porque a lâmpada não usa pilha
né? O Senhor, que é o Papai lá do céu, deu essa lâmpada, o espírito, para o
francês da Zezé usar, mas ele não cuidava dela... Ela estava queimada faz um
tempão e ele nunca trocava a lâmpada de dentro dele. Por isso que ele não
enxergava as coisas que a Zezé enxergava.
A
mulher ficou pasma! Olhava para a filha como se estivesse diante de um ET.
― Que
foi mamãe? Você não concorda com isso?
―
HÃ??? Eu?... é... Imagine! Concordo sim, quer dizer! Filha, isso é algo muito
profundo e nem consigo perceber como é que você alcançou esse entendimento...
Por isso fiquei meio... assustada, digamos...
― Pois
é, mamãe, eu gosto muito de ler esse Livrão porque eu aprendo muita coisa que
eu nem sonhava que existia... A Zezé sabe muito de tudo isso sabe mamãe? Ela é
que me explicou tudo isso...
― Hum,
hum, é ... pois é filha, como a Zezé me surpreende a cada dia sabe?
― Mas,
mamãe, eu quero saber o que foi que aconteceu depois que o francês não quis
falar com o Papai do céu pra Ele curar a filha dele. O que a Zezé fez?
― Bem
filha, ela não desistiu não, continuou ela mesma orando sozinha e levando a
menina pra fazer todos os tratamentos que eles encontraram por lá.
― E
ela teve que ficar no hospital muito tempo?
― Ela
ficava e saía, depois voltava e ficava mais um tempo e assim foi...
― A
Zezé ficava com ela o tempo todo mamãe?
― O
tempo todo, ela quase esquecia de comer, só pra cuidar da filha dela. O pai
também ficava muito tempo junto com ela no hospital, o campo de flores deles
estava ficando abandonado por causa disso.
― Que
dó da Julliete mamãe... E da Zezé também... e até do francês, porque ele vivia
no escuro né?...
A
médica não sabia como continuar a história, queria poupar a filha de ter
qualquer decepção com a fé tão pura que ela tinha. Por isso, lá no seu
interior, a Doutora Laura fez o primeiro “projeto” de oração que ela conseguiu
para ver se recebia alguma luz, alguma indicação de como dizer o que precisava
dizer para a filha.
E continuou, sem ter certeza nenhuma de como falar e dos resultados que teria depois dessa conversa.
― É...
então, filha... eu também fiquei com muita pena da Julliete por tudo o que ela
enfrentou. Mas a Zezé disse que aprendeu tanta coisa com ela, enquanto ela
ficava no hospital, lendo historinhas para a filha se distrair um pouco.
― Eu
gosto tanto quando a Zezé lê histórias pra mim... o que ela lia pra Julliete, a
Bíblia?
― Eu
não sei se ela lia a Bíblia, mas com certeza sim... Sei que ela lia muito a
história do “Pequeno Príncipe” porque a Julliete gostava muito! Como você
também gosta...
Nesse
instante a Mannu fez uma carinha triste de novo e entendeu algumas coisas que
ela já tinha perguntado antes para a Zezé mas não tinha conseguido dela nenhuma
resposta clara.
―
Entendeu o que, filha?
― É
que sempre que eu pedia pra Zezé ler pra mim o livro do Pequeno Príncipe, ela
nunca queria. Ela dizia que esse era o livro que só você podia ler pra mim...
Eu achei que ela não gostava da história...
―
Ah... pois é filha. Mas não era isso não. Claro que ela não queria ler para não
lembrar da filha né?
― É...
e eu insistia tanto pra ela ler, agora estou triste por isso mamãe... Eu fazia
ela ficar triste e nem sabia disso...
― Meu
amor, você não tem culpa! Não podia imaginar que existia essa história toda na
vida da Zezé. Nem pense nisso filhinha!
Dizendo
isso, a médica pegou a filha no colo e abraçou com força e com vontade de nunca
mais soltar. Ao mesmo tempo, esperava a pergunta que ela nem queria ouvir.
A
Mannu aproveitou o aconchego e o colo da mãe pra fazer a pergunta que estava
provocando aquele frio estranho no seu estômago.
Mamãe...
disse ela com cuidado... quanto tempo a Julliete ficou no hospital? E quando foi
que ela saiu?
―
Bem... ela ficou um bom tempo no hospital naquele ano, e ela só saiu de lá pra
ir morar nesse outro lugar, lindo, que você sabe que existe, lá junto com o
“Papai do céu” como você costuma dizer...
A
menina ficou quieta e encolhida no colo da mãe. Depois de alguns segundos,
perguntou; cheia de soluços que ela tentava segurar e não conseguia...
―
Mamãe, então ela virou estrelinha também?
― É,
meu amor, ela virou estrelinha... foi brilhar lá no céu...
Ficaram
as duas abraçadas e chorando por um bom tempo, sem vontade nenhuma de se
separarem ou de dizerem qualquer coisa além do que as lágrimas podiam
expressar.
Depois
de algum tempo, uma atmosfera de calma e de alívio entrou no ambiente e as duas
enxugaram todas as lágrimas e a primeira a falar foi a Mannu.
―
Mamãe... sabe agora, enquanto eu estava tentando não chorar, mas não consegui e estava chorando mesmo, eu estava também orando no meu
pensamento e dizendo pro Papai do céu que eu estava com muita peninha da
Julliete pelo que ela sofreu... e sabe o que aconteceu?
― Não... o que aconteceu filha?
― Foi como se lá dentro, no
meu pensamento, uma voz dissesse bem assim: “ Você não precisa mais chorar,
porque a Julliete está muito feliz aqui comigo, ela não sente dor nenhuma, está
linda e completamente bem, e ela vive
sempre rindo correndo pelo campo de flores que ela mais gosta aqui. Ela ganhou
um “poço de alegria” que não tem fim!”
A mulher olhou espantada para a filha, sem
saber se ela estava falando sério ou não. Por fim, abraçou de novo a filha e se
sentiu muito aliviada com o resultado do final da história, embora soubesse que
o assunto não estava, nem de longe, esgotado. Ainda falariam muito sobre isso,
com certeza!






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