Aquele dia foi o dia adequado para
as duas ficarem em casa só conversando e lendo, ou assistindo a algum filme,
jogando, etc... Choveu a tarde toda e depois da conversa na sala lá em cima, as
duas desceram para almoçar. Estavam sonolentas, porque o dia chuvoso é uma
maravilha para a gente relaxar e passar o dia inteiro de pijama, segundo a
opinião da Mannu.
Assim que terminaram de almoçar, a
Drª Laura perguntou se a Mannu gostaria de ver um filme ou jogar alguma
coisa. Como a mãe dela tinha permitido
que ela passasse aquele dia todo de pijama, para ela o dia estava perfeito, não
precisava muita coisa mais. Só um bom filme na TV com um enorme pote de pipoca
e a mãe ao lado. Subiram para escolher que filme iam ver.
O tempo lá fora continuava escuro
e triste, por isso, resolveram que iam assistir a alguma coisa bem divertida para “equilibrar”
as coisas. Encontraram, na TV mesmo, um filme que tinha um título bonito e
resolveram assistir, o nome era: Milagre
no Paraíso. Foi um filme muito lindo, mas... um pouco triste também, e no fim
do filme, a Drª Laura estava, de novo, com aquele ar de peso no rosto.
― Mamãe... você está com aquela
cara de novo, sabia?
― Filha... não é que eu não gostei,
mas, eu acabei me lembrando de algumas coisas que eu não gostaria de lembrar...
sabe?
― Ah é, mamãe? E... você pode me
contar essas coisas? Ou não é pra criança saber...
A médica riu da filha que, com
muito cuidado, investigava o seu interior, sabendo que nem tudo o que ela
queria saber, a mãe contaria. Ela já tinha aprendido que, nem sempre, as coisas
seriam discutidas com ela, pois a mãe sempre dizia que nem tudo era pra
“crianças saberem”... As crianças teriam seu tempo, quanto mais tarde
melhor, de se preocupar com as coisas
dos adultos.
Como a mãe estava “vagando” em seus
próprios pensamentos, sem responder a filha, é lógico que a Mannu deu um
jeitinho de atrair a atenção da mãe. Pulou na sua frente e perguntou sem
titubear.
― Mamãe, esse filme fez você
lembrar do seu “medão”?? Aquele que fez você chorar aquele dia? É isso?
Vendo a insistência da menina, a
Drª Laura resolveu tentar contar algumas coisas que ela sempre evitava
conversar por saber que era um assunto muito triste, muito sério e que não se
podia prever como a Mannu entenderia. Enfim, como ela sentia que, realmente, a
Mannu tinha mais segurança com toda essa
história de fé que a Zezé vinha ensinando, ela decidiu compartilhar um segredo,
que aliás, nem era dela, era da Zezé. Mas, ela tinha autorização da Zezé para
contar quando achasse conveniente. E ela pensou que não teria melhor hora do
que aquela. Começou com cuidado.
― Pois então, a mamãe vai te contar
ok? Quem sabe você para de se preocupar com a mamãe toda vez que eu fico
séria... Sente aqui comigo.
A menina pulou de volta para o
sofá e se aconchegou à mãe, feliz da vida, afinal, a sua mãe confiava nela a
ponto de contar uma coisa “séria” pra ela. Isso era muito bom, na opinião da
menina, que já manifestava, de vez em quando, aquela vontade tão natural e
“incompreensível para os adultos” de querer crescer e virar “gente grande”.
― Então filhinha... realmente você
tem razão, por causa desse filme, eu voltei a sentir aquele frio no estômago,
como eu estava sentindo aquele dia que você foi me ver lá no quarto. É mesmo um
“medão” que eu sinto.
Nesse instante ela parou um pouco
( para agonia da Mannu) para ver por onde deveria começar. A menina estava
curiosa demais pra saber que medão era esse que tanto incomodava sua mãe.
― Filha, você já ficou sabendo que
a Zezé morou um tempo na França, não é mesmo?
― É... eu sei sim mamãe, ela até me
ensinou uma coisa em francês para eu dizer para a Lívia e a Cássia quando elas
ainda eram minhas “inimigas”...
― Pois então, a Zezé foi parar na
França porque se casou com um francês que ela conheceu lá em uma praia da
Paraíba, no tempo em que ela morava lá. Ela estava fazendo um passeio com a
turma de crianças pra quem ela dava aulas e encontrou esse francês, que gostou
dela imediatamente, ao notar o jeito carinhoso dela tratar as crianças enquanto
explicava algumas coisas para o pequeno grupo de alunos que ela fazia questão
de ensinar de maneira prática, usando as experiências de vida, no dia a dia das
crianças.
― Mamãe, a Zezé é uma linda não
acha? Eu tô com saudade dela já...
― É sim filha... ela é uma pessoa
incrível! Só eu sei o quanto...
― E onde está o marido dela mamãe,
fez igual o Seu Aurélio? Ele é mau?
― Não filha... a história é bem
pior...
O francês se apaixonou mesmo pela
Zezé e ficou mais do que planejava aqui no Brasil, tudo pra convencer a Zezé a
casar com ele e ir morar na França. Ele tinha uma pequena estância em Aix-en-Provence, no sul da França, e ele tinha campos de flores. O negócio ia bem, ele
vendia as flores na feira de flores do centro da cidade e levava uma vida
paradisíaca e tranquila. Não foi muito difícil convencer a Zezé, até porque, o francês
era uma excelente pessoa e prometeu levar a Zezé, primeiro para conhecer o
lugar e sua família, depois ela poderia decidir se queria alguma coisa com ele
ou não.
Nesse instante, um redemoinho estava
girando pela cabeça da Mannu que achou aquilo tudo um perigo muito grande!
― É verdade filha, é preciso muito
cuidado e não ir logo acreditando em tudo o que as pessoas dizem sem verificar
primeiro. Acontece que a Zezé sempre foi esperta, e foi investigando a vida
dele enquanto ele esteve aqui no Brasil. Ele mostrou fotos e em uma das fotos, que era da irmã dele, a Zezé achou um número de telefone escrito atrás. Ela
anotou o número sem ele perceber e ligou pra lá, escondido dele, junto com uma
amiga que sabia falar francês, porque nessa época a Zezé não falava nada ainda.
Elas conversaram com a moça como se fossem turistas que queriam conhecer a
região, e fizeram perguntas estratégicas para descobrir se o que ele dizia era
verdade. E parecia tudo certo mesmo...
― Mamãe, só uma coisinha... o que é
mesmo pergunta “esta... trégica”?
― Ah, sim... desculpe. "EsTRAtégica"... É uma
pergunta bem planejada para conseguir um resultado, entende? Elas queriam saber se
existia o tal campo de flores que o francês falou e a moça confirmou que sim.
Ela praticamente repetiu tudo o que ele já tinha contado pra elas. Qual era o
nome dele, o que ele fazia, onde vendia suas flores e disseram também que ele
tinha viajado para o Brasil. Enfim, parecia tudo correto.
― Bem, o fato é que a Zezé foi pra
lá, com ele e a amiga que falava um pouco de francês para conhecer a família
dele. Voltaram maravilhadas e apaixonadas pela família inteira. Então, no final
daquele ano, ele veio pra cá, casou-se com a Zezé e fizeram uma festinha
simples aqui, para a família e amigos dela e outra lá, com a família dele.
― Isso parece até aqueles filmes
que você gosta de ver pra chorar... Disse a Mannu com um risinho maroto.
― Eu??? Nunca!! Acho que agora você
se enganou filha, não sou dessa época tão romântica, não tive tempo para isso,
estava preocupada estudando e tentando ser a melhor médica do planeta...
Agora o redemoinho estava na
cabeça da médica, que por uns momentos se perdeu nos pensamentos.
― Então tá mamãe... continua...
― Enfim, eles se casaram, foram pra
lá, tinham um cantinho bonito perto do campo de flores dele e também muito
próximo da cidade (Aix-en-Provence) e tudo ia muito bem no paraíso. A Zezé
aprendeu o francês e logo estava totalmente adaptada no lugar e na família.
Ela
ajudava na venda das flores e eles viviam bem, era uma vida confortável.
Com o tempo eles tiveram uma
filhinha, que nasceu muito bem , linda e parecidinha com a Zezé.
Nesse momento a Mannu arregalou os
olhos e até gaguejou.
A Mannu não se conformava
de forma
alguma... Como assim? Como é que a Zezé tinha uma filha e nunca falou nada pra
ela, logo ela que queria tanto uma irmãzinha!
A Tampa do seu poço de palavras
pulou longe e ela não conseguia mais parar nem pra pensar. Queria ligar pra
Zezé no mesmo instante para “discutir” o assunto com ela. Foi difícil a mãe
convencê-la de que isso não seria bom e que nem era hora pra fazer uma coisa
dessas. Depois as duas conversariam sobre tudo isso.
Com dificuldade, a mãe
conseguiu fazer com que a Mannu se calasse e escutasse só mais um pouco.
― Filha! Por favor, vamos nos
acalmar e pensar um pouco? Você não acha que se ela não contou isso é porque
ela tem lá seus motivos? Pense bem!! Disse a médica já achando que não tinha
feito bem em comentar isso com a menina.
― Tá mamãe... tá certo, mas é que é
muito estranho!! Ela nunca me disse nada e eu sempre falei muuuuuito pra ela que eu
queria uma irmã e a filha dela ia ser uma “quase irmã” pra mim, porque a Zezé é
minha “quase mãe”!!! Disse a menina com um olhar de profundo desapontamento.
― Bem, querida, disse a mãe, eu vou
te contar porque que ela, provavelmente, não te contou nada. Sente-se aqui do
meu lado de novo.
A Mannu sentou-se, fazendo beiço,
inconformada!
A doutora chamou a empregada e
pediu que ela subisse ali um momento.
― Chamei sim Lídia... Por favor,
prepare um chá bem forte e gostoso de erva cidreira e traga também aquele bolo
especial que você fez. A Mannu gosta muito do seu bolo seja ele qual for. Vamos
precisar fazer uma pequena pausa aqui, depois continuamos com a história porque
senão a Mannu vai começar a chorar já, já... E eu também...
A empregada ficou um pouco
espantada, mas não perguntou nada mais. Desceu rapidamente para providenciar o
que a patroa tinha pedido. Até o próximo capítulo, não percam porque vai ser bom!









Naoooo!!eu quero saber agora, por que se nao, quem fica com o poço de palavras aberto sou vizinha aqui! Como? O que aconteceu com a filhinha da Zezé? E o marido dela? Aiaiaia....vou ter mesmo que esperar até a próxima sexta?
ResponderExcluirPois é Debbie!!! O mistério da coisa é terrível, mas não posso pular as etapas... 😉 sexta já chega!!! 😘
ResponderExcluir