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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sábado, 27 de maio de 2017

NOVA HISTÓRIA SURGINDO - CAPÍTULO 80


A “esfuziada” Mannu passou a mão no telefone e foi logo gritando nos ouvidos do pai com toda sua alegria infantil e renovada naquela manhã.

Ooooi papai!!! Eu já estou pronta pra voltar pra casa só pra te contar uma coisa muito importante que o meu irmão me falou esta noite no meu sonho, sabia?



Papai, é que o meu irmão veio de novo pra dentro do meu sonho conversar comigo sabe?

Teu irmão filha? ... é... você está falando daquele sonho que você teve com a pessoa de nome parecido com o seu?

Isso Papai! Mas só que agora eu estou falando de um outro sonho...

Ah sim... você sonhou com outra pessoa que você queria que fosse seu irmão, é isso? Como é o nome dele agora?


 Huummmm... entendi... agora eu entendi!! Respondeu o pai sorrindo e percebendo a ironia da situação. Sua filha se esforçando para esclarecer as coisas lá do outro lado. Afinal, não era tão difícil para ele entender esse pedaço né? Como é que ele tinha esquecido que ela só tinha mais um irmão? Só o Emanuel, oras bolas...

Depois que ela percebeu que o pai tinha entendido bem, ela continuou com a conversa, empolgada.

Papai, você não imagina quanta coisa bonita Ele me falou. Sobre você e sobre a mamãe. Eu não lembro direito agora, mas quero lembrar pra dizer tudinho pra você, tá?

Certo filhinha, eu quero muito ouvir tá? Até falei pra mamãe que está na hora de vocês voltarem. Não aguento mais ficar aqui só pensando em vocês, entendeu mocinha?

É mesmo papai, eu também tô muito “saudada” de você já...

“Saudosa” né filha?

Isso... com saudade, sabe papai?

Sei sim meu amor, também não vejo a hora que vocês duas cheguem. A mamãe disse que vocês vão voltar amanhã de manhã tá bom? A Lívia ligou hoje perguntando de você, disse que vocês estão demorando demais.

Aiii! Eu também to “saudad...” aliás... com saudade dela! Papai, diga pra ela vir amanhã de noite pra me ver, porque se a mamãe sair bem cedo, como ela gosta, lá pela tarde, quando o sol já for dormir eu já vou estar chegando aí né?

É isso mesmo filha, vou falar pra ela tá bom? Ela vai ligar de novo depois do almoço pra saber se eu falei com vocês.


Assim que desligou o telefone, a Mannu virou-se para a mãe e começou a falar com entusiasmo:

Mamãe, a Lívia disse que nós estamos demorando muito a voltar, e o papai disse que nós vamos embora amanhã, é verdade né? Porque eu já tô com muita saudade do meu papai...

Sim filha, é verdade sim, eu já tinha combinado isso com seu pai ontem quando liguei à noite.

Agora foi a vez da D. Lídia se manifestar e ela nem disfarçou:

Ai “genti, num diz issnão!! Ceis vão simbór ieu vô ficáqui jogadim pastraça”!


A menina ficou com cara de quem não tinha entendido bem ainda e a mãe foi logo explicando melhor, mas com simplicidade:

Mannu, essa é uma expressão que significa que a pessoa vai ficar jogada num canto, igual a uma roupa sem uso e que geralmente é roída por traças; esses insetos que “comem roupas”, como a Lídia falou...

 A menina disparou logo em seguida:

Ah... mas D. Lídia, você é muito mais importante do que roupa, então a traça não vai pegar você, porque você não é de pano... você é de carne e osso e alma...

A mulher olhou com carinho para a menina e sua expressão se transformou, como se um sol brilhasse por trás dela iluminando seu sorriso.


A Doutora Laura, de novo, ficou admirada pela frase da filha que ia além de uma outra mera expressão. Para ela, a empregada não era apenas “carne e osso”, ela fazia questão de lembrar que ela tinha uma alma. Isso fez com que a médica pensasse em quantas vezes ela havia deixado de se lembrar que dentro daquela mulher simples e serviçal existia um ser com sentimentos e necessidades emocionais.

A médica olhou para a empregada e perguntou:

Lídia, você nunca teve filhos? Não pensam nisso?
A mulher parou por uns momentos e respondeu com um pouco de cuidado.

 "Bão dotôra, eu, 'eu mesm' nunca deixei de 'sonhá qui' um dia ia 'sigurá' no meu colo um 'bebezim' assim 'ingraçadim' qui nem a Mannu. Mas... o Adão, ele nunca 'gostô' muito dessa 'cunversa'... 'intão'... 'cotempeu'... parei né, 'di falá cum' ele sobre 'iss... parésqui ele num siagradava muito di tê um fiii..."

A médica pensou um pouco e resolveu continuar investigando.

Certo, mas... você chegou a perguntar para ele se ele não queria mesmo ter filhos?

‘Olhi dotôra”... eu até perguntei... uma "veiz" só, mas ele "ficô" tão “ disorientadibrabo qui eu resolvi num perguntá" nunca mais!!

A médica insistiu com o assunto, parecia que aquilo tinha virado algo de muita importância pra ela naquele momento.

Mas, Lídia, você já pensou que ele pode ter algum problema de saúde, talvez... não sei. Vocês já foram a algum médico? Digo, para falar disso?

Não... nunca “fomonão”... Disse a mulher, sem apresentar nenhuma justificativa.

Bom, eu sugiro que você tente conversar com seu marido de novo e diga que, se ele quiser, conhecemos bons médicos aqui, podemos encaminhar vocês. Mas, vá com cuidado, já que ele não gosta muito do assunto.

A Mannu continuava ali, quieta e prestando muita atenção àquela conversa toda. De repente, ela perguntou:

D. Lídia, o Seu Adão tinha um “papai” bonzinho aqui na terra?

A empregada olhou com estranheza para a criança e falou:

Uai, "purquê ocê tá perguntano iss” Mannu?

A menina pensou um pouquinho e deu uma resposta meio estranha para a empregada que olhava para ela sem entender bem aonde a menina queria chegar com aquilo tudo.

Eu não sei bem  por que eu perguntei D. Lídia... Foi um desses pensamentos que sobem sozinhos lá bem do fundo do meu “poço dos pensamentos”...

A mãe e a empregada ficaram pasmas, olhando para a criança e esperando algo mais; e esse algo mais veio em seguida:

Sabe, D. Lídia, eu senti aqui no meu coração e na minha cabeça, uma vontade de perguntar pro Seu Adão se ele gostava do pai dele... não sei bem por quê!

As duas mulheres ficaram mudas por alguns momentos, sem saber o que responder.


Para interromper o silêncio, uma voz masculina entrou na conversa:

Si ocê qué sabê Mannu, eu vô ti contá uma história boa...

As três olharam para a porta da cozinha onde estava parado o S. Adão, marido da Lídia, com um ar bem sério.


No mesmo instante, a menina correu pra perto do homem e foi logo falando na sua empolgação inocente.

Ebaaaa Seu Adão, eu quero saber sim!! Eu gosto muito de histórias boas. A Zezé me conta muitas também, né mamãe?

A D. Lídia virou-se para outro lado tentando disfarçar a preocupação. Sobrou para a Doutora Laura entrar na conversa e decidir o rumo das coisas. Sentia que devia ter muito cuidado naquela situação.

Bem, Seu Adão... eu não sei ao certo... se o senhor quiser falar sobre esse assunto com uma criança, o senhor deve saber que terá que “medir” bem as palavras, o senhor entende o que eu digo não?

O homem olhou para a médica com respeito e com muita sinceridade respondeu:

Num si preocupe não dotôra... eu entendo sim e “vô tomá” cuidado, mas talvez já seja hora “di falá mesm” nessa história. Já que o assunto brotô sozinho por aqui né mesm?

Disse isso olhando para a esposa que nem se virou, mas sentiu o olhar do marido direto na sua nuca. Ficou muito nervosa mas disfarçou bem.

 "Nóis vai sentá aqui mesm na varanda, pertim doceis, aliáis, si a sinhór quisé ouvi também fique muito a vontadi dotôra. Vô contá pra minina porque foi ela qui perguntô primeiro sobre isso, e criança merece resposta sincera, concorda dotôra?"

A médica se sentiu muito desconfortável; parecia que o olhar do homem estava acusando-a de alguma coisa que ela não entendeu bem e nem procurou entender pois estava bem preocupada com o rumo que aquela conversa tinha tomado. Decidiu não ir junto para a varanda. Ficaria na cozinha com a Lídia esperando que ele contasse a história para a filha. Respondeu sem perder a autoridade e o respeito, mas com calma e com firmeza.


A Mannu correu para a varanda gritando que a rede era dela. Estava ansiosa para saber a história e contar algumas também.

Na varanda, o empregado ajudou a menina a subir e deitar-se na rede. Ele sentou-se em uma cadeira próxima.

Quem começou foi a Mannu, como não poderia deixar de ser.

Seu Adão, primeiro eu queria perguntar uma coisa pro senhor. Por que é que todo mundo chama o sr de “Seu Adão” se o seu nome é Adolfo...

O homem respondeu logo, com ar de tristeza.

Já “cumeça pur aí mesm”, minha criança. Adolfo é o meu nome “mesm...” registrado no cartório pelo meu pai. Mas “Adão” era o nome que a minha mãe tinha escolhido pra mim, tanto que ela sempre me chamou assim. Eu “acustumei sab?” E fazia “mesm” questão “qui” todo mundo “mi” chamasse pelo nome que a minha mãe “mi” deu.

Huummm... então o senhor gostava muito da sua mamãe né?

É sim criança... gostava ‘mesm”... muié di muito valô. Fazia “di um tudo” pelo único fii qui era eu... sinto a “farta dela té hoji”...

A Mannu escutava tudo atentamente, parecendo uma adulta. Quando viu que o homem “empacou” nas palavras foi logo puxando o assunto de dentro dele.

E do seu “papai”, o senhor não sente falta, Seu Adão? Eu já tô com muita saudade do meu que foi embora trabalhar...

Pois intão, minha criança, aí cumeça o “discuncerto” todo da minha vida sab?

Hum... o que é mesmo “discuncerto” Seu Adão?

Ah minha criança, “discuncerto” é uma coisa qui “distrambelha” tudim na vidagenti, sab?

A menina arregalou os olhos e não deixou passar.

Seu Adão, será que o senhor podia falar na minha língua? Como o meu pai diz?

O homem até riu do seu descuido. É claro que a menina não entenderia o seu palavreado, isso ele bem sabia. Mas como se sentia muito à vontade com a criança, seu interior se manifestou da maneira mais natural e mais original possível. Decidiu tomar cuidado com as palavras, ia tentar falar “na língua dela”.

Tá certo Mannu, ocê tá certa criança. Eu falo meio “trapaiado” mas eu “vô misforçá” daqui “pafrenti”...


E a conversa prosseguiu:

Muito obrigada Seu Adão! É que, às vezes, o meu poço de palavras mistura tudo e eu não entendo bem...o senhor ia falar do seu papai né?

É criança... o meu pai era a coisa mais “isquisita” dessi mundão véi... Ele tinha uns negócio di bebê dimais da conta e daí, o véi virava num “bicho”... num era mais “genti”. Ele tratava a minha mãe muito mal, e eu, nessas hór, tinha vontade di... O homem lembrou da promessa feita para a mãe da menina e “controlou as palavras”.

Ele ficava muito bravo Seu Adão? Acho que eu sei, ele fazia igual o Seu Aurélio, que era “padastro” da minha amiga Lívia. Ela morria de medo dele quando ele bebia...

O homem olhou impressionado para a criança, pois, não esperava que ela já tivesse conhecimento de história semelhante. Ficou até mais animado para continuar. Sabia que seria compreendido afinal.



A mãe da Mannu apareceu para trazer umas frutas e avisar que o almoço estaria logo pronto, e, também, para sondar a situação, lógico...

O homem agradeceu e perguntou novamente se ela gostaria de ficar para ouvir também. Ela agradeceu, mas disse que talvez ele até se sentisse melhor só com a Mannu ali.

Ele sabia que ela tinha razão. Pois era a primeira vez que ele comentava sua história com alguém, não gostava de falar na infância turbulenta. Mas, aquela menina tinha alguma coisa diferente, ele pensava, e sentia vontade de contar sua experiência para alguém que inspirasse confiança. Ele nem entendia como uma criança podia despertar esse tipo de sentimento. Talvez porque ele sentisse que a inocência não acusa ninguém. Veremos logo se ele estava certo ao pensar assim. Não perca o próximo capítulo!






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