Logo
que a mãe saiu da varanda, a Mannu procurou continuar a conversa com o S. Adão
tentando incentivá-lo a contar mais sobre a sua infância complicada em Minas
Gerais.
O
homem tentou se lembrar de onde havia parado quando a mãe da Mannu apareceu com as
frutas para eles beliscarem antes do almoço ficar pronto.
― "Bão,
criança, onde é qui eu tava mesm?"
― O
senhor estava falando sobre como o seu pai virava um “bicho” quando ele bebia.
E eu disse que sei como é que isso acontece por causa de uma amiga na escola
que eu tenho e que tinha um “padastro” muito ruim que também virava “monstro”
quando bebia. Ele batia na Lívia sabe S. Adão? Batia muito e por qualquer
coisa...
― Ah
é? “Intão vai ver qui esse hómi era parenti do meu pai”! Disse o empregado com
expressão de ira no rosto.
― O
seu pai também batia no senhor Seu Adão?
― “Hãn...
se batia!! Batia dimais da conta!! Tinha veiz que eu nem sabia purque é qui eu
tava apanhano, e quanto mais eu perguntava purque qui ele tava me bateno, mais
ele batia. Parecia qui ele ficava brabo de não saber, nem ele mesm, purque é
qui tava bateno daquele jeito numa criança... Intão minha mãe entrava pelo meio
pra me defender, coitada, e aí é que ele virava na ‘peste’ mesm... E sobrava
pra ela também qui era, assim, bem franzina sab?”
O homem sabia que não poderia entrar em muitos
detalhes que na sua cabeça estavam ainda bem vivos, porque a criança ficaria
muito chocada ao perceber que existem pais que parecem movidos por ódio e não
por amor aos filhos. Então ele tratou de simplificar a história só para que ela
pudesse entender algumas coisas que ele queria explicar.
―
“Bão,” minha criança, a história é essa “mesm sab?”... Eu nem vou contar quantas
surras eu levei sem saber pur quê. Mas, o pior dos “dia” foi quando eu cheguei
em casa da escola e a minha mãe tava deitada no chão purque ele tinha tido
outro surto dele lá e tinha batido nela dinovo... Aí eu me assustei, achei qui
ela tivesse até murrido, mais, graças a Deus qui não. Ela si levantô e entrou
no quarto. Saiu logo depois com uma mala cheia das rôpa dela e das minha...”
―
Então vocês fugiram correndo de lá né S. Adão? Pra bem longe!!! Perguntou a
Mannu com os olhos arregalados e cheios de lágrimas só de ouvir a história do
homem.
― “É
iss mesm minha criança... Fugimo di lá pra casa dos parenti da minha mãe. Ele
ainda foi atrais di nóis, mais a pulicia levou ele pra cadeia purque a minha
sogra chamô os homi assim qui viu o véi si aproximano da casa. Ele já tinha
fama di violento mesm, intão os hômi levaru ele di veiz. Ficô um tempo preso
depois saiu... mais nóis, eu mais minha mãe, ficamu iscondido um tempo até ele
sumir no mundo...”
― “Poisé
criança... nunca mais vi não... i nem quero vê sab? Pur iss mesm é qui eu nem
quero tê fii... a genti fica mei medroso di não sabê dá o amô qui eles mereci
sab? Vai sabê si eu num sô mei quinem meu pai!! Sei não... essas coisa diz qui
passa di pai pra fii...as veiz...”
―
Ah... entendi Seu Adão... então é por isso que o senhor não quer ser papai né?
― É...
“é pur causo diss mesm...”
A
menina pensou um pouquinho e depois resolveu contar um pedaço do sonho que ela
tivera na noite passada, nem sabia bem o que é que ia resolver contar aquele
sonho, mas sentiu vontade de falar.
― Seu Adão,
o senhor sabe que eu sonhei com o meu irmão nessa noite passada?
― “Seu
irmão? Uai!!! I deisdi quando o cê arrumô um irmão minha minina?” Disse o homem
rindo, sabendo que ela era filha única.
―
Desde quando eu sonhei com ele a primeira vez Seu Adão... Eu estava muito
triste naquela noite quando eu fui dormir e eu conversei com o meu Papai lá do céu, aquele sabe, que mora lá
em cima, não aquele que o senhor conhece, aqui na Terra...
―
Bão... disse o homem, pensativo. ― Sei
não si eu tô intendenu criança...
― É
que é assim Seu Adão. Nós todos aqui temos mais um “Papai” que mora lá no
céu... Nós não temos só esse papai aqui da terra que fica bravo demais e bate
na gente quando fica muito nervoso, sabe?
― “Ah,
ih é? I...Dondié qui ocê tirô essa cunversa minina?”
― É
que eu fiquei sabendo por causa desse sonho que eu disse pro senhor. Aquela
noite, lá bem atrás, que eu tinha ido dormir muito triste porque eu não tinha
nenhum irmão pra ir comigo pra escola e pra me defender das minhas “inimigas
perpétuas” que agora são minhas amigas, eu tive um sonho... e o meu irmão, que
também é meu Papai, veio no meu sonho falar comigo sabe?
O
homem tentou entender aquela miscelânea de informações totalmente incoerentes
para a cabeça dele e não teve outra alternativa a não ser arregalar os olhos e
dizer que não estava entendo absolutamente NADA! Lógico...
―
Olha, Seu Adão, eu vou explicar direitinho. Esse meu irmão que veio falar
comigo no meu sonho é um Deus que é três pessoas numa só, entendeu?
Ele
levantou-se dizendo que já voltava.
― “Peraí
fii... é já qui eu vórto sab? Só um minutim...”
Entrou
na cozinha e chamou a Doutora Laura para ver se ela entendia o que a “minina”
estava dizendo, porque ele “num dava conta nem di ixplicá” o que ele tinha
ouvido.
―
Certo Seu Adão, vamos lá... o almoço está quase pronto mesmo, é hora de
terminar essa conversa não acha?
― “É...
sei não viu dotôra? Milhó a sinhór iscutá o qui a minina tá dizenu... quimsab
si num é arguma coisa pirigosa sab? A sinhór é dotôra, intão devi di sabê né?
Vam lá...”
―
Vamos sim Seu Adão, Lídia, pode terminar de colocar a mesa, já voltamos...
Chegaram
os dois na varanda onde a Mannu esperava tranquilamente para terminar a sua
explicação sobre Deus que, com certeza, o Seu Adão poderia entender muito bem,
afinal, para ela era tudo muito claro, Deus era seu Pai, mas era também seu
irmão pois se Ele conseguia estar em todo lugar ao mesmo tempo, por que é que
Ele não poderia ser o que Ele precisasse ser a qualquer hora, não é mesmo?
Afinal, é por isso mesmo que Ele é Deus, para ser o que a gente não consegue
ser e também fazer o que a gente não consegue fazer, oras bolas, tão simples...
Essa gente grande complica muito as coisas!
No
mesmo instante, ela voltou para a rede e continuou a contar o seu sonho naturalmente.
―
Então, Seu Adão, como eu estava contando pro senhor, o meu irmão veio no meu
sonho falar comigo porque eu estava muito triste. E essa noite passada, Ele
veio de novo, como meu irmão outra vez, pra me pegar no colo e fazer eu ficar
alegre outra vez, entende?
O
homem olhava para a menina e para a mãe, alternadamente, esperando que alguém
continuasse a explicação. Como a médica não se manifestou de imediato, ele
perguntou:
―
“Dotôra... é... ó... acontess qui o pobrema num é bem ess... é qui a minina
diss qui o irmão dela é Pai dela também, sab? A sinhór podia ixplicá milhór...
assim... qui eu consiga intendê bem?”
A mulher olhou para ele e depois para a filha,
sem saber bem por onde começar, tentando se lembrar das explicações da Zezé sobre
Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Passaram-se alguns momentos de
silêncio, um olhando para a cara do outro.
― O
senhor não entende o quê Seu Adão? Perguntou a Mannu, com a maior cara de
inocência.
―
Bão... essa históra di sê Pai e irmão tudo ao mesm temp sab?
― Ah,
sei... disse ela com tranquilidade e olhando para a mãe que permanecia muda.
― Bom,
Seu Adão, essa história é mesmo bem difícil. Eu também, no começo, não
conseguia entender dentro da minha cabeça quando a Zezé me explicou. Então,
sabe o que eu fiz?
― “Sei
não fii... que foi qui o cê feiz?”
― Eu
pedi pra Deus mesmo me ensinar essas coisas difíceis de entender, e, de
repente, eu não sei como, eu “sabia” que era assim mesmo, Deus pode ser o que a
gente precisar que Ele seja sabe? Se o senhor precisar de um Pai, Ele é um Pai
muuuuuito melhor que o seu que batia no senhor. E se você precisar de um irmão,
Ele também manda o Seu filho pra ser o seu irmão assim como Ele mandou pra mim.
Aliás, Ele mandou pra todos nós, porque o Emanuel não é só meu irmão, Ele pode
ser seu irmão também, se o senhor quiser, e ainda continua sendo o seu Pai,
entendeu?
Nessa
hora, a mãe resolveu dizer alguma coisa, nem que fosse para preencher o vazio
que se formou com o espanto do homem.
― Bom,
Seu Adão, é que essa história precisa ser muito bem explicada, tem a ver com a
“Trindade Santa”, e a maneira como Deus trabalha na nossa vida. É... acho que a
Zezé saberia explicar melhor... tem uma história que ela conta sobre o sol, que
é um astro que se manifesta de três formas diferentes mas sem deixar de ser sol
sabe? Tem a luz, o calor e a forma dele que a gente vê no céu, Ele é um astro
só, que trabalha de três formas diferentes... é... é mais ou menos isso... entende?
― É
isso mesmo Seu Adão, disse a Mannu já se empolgando. ― Mas como a Zezé disse, nem pense em comparar Deus com
o sol, porque Deus é muuuuito, mas MUUUUUUUITO MAIS importante do que o sol.
Foi Ele quem criou o sol e o sol não é deus, mas Deus é bem Deus!! Só que esse
Deus é UM só... Ele faz o papel de Pai, de Filho e de Espírito Santo que a
gente pode também chamar de Consolador, porque Ele pega a gente no colo pra
consolar, como Ele fez comigo no meu sonho. Ele faz tudo isso porque Ele é Deus
e Ele ama a gente demais... Só isso...
O
homem nem conseguia explicar, mas de repente, tudo aquilo parecia bem possível
na cabeça dele, e além disso, aquela criança falava de um jeito que ele sentia
uma coisa estranha no peito, um nó na garganta que parecia até que ele ia cair
no choro, pensava consigo mesmo.
A Drª
Laura percebeu os olhos meio marejados do empregado e tentou falar com
naturalidade sobre um assunto que ela não sabia bem por que, mas também estava
mexendo muito com o seu interior naquele exato momento. Que seria isso? “Essa
Mannu me arranja cada uma!!” pensou ela antes de convidar os dois para entrarem
para o almoço.
― É...
pois é! Essa história é inexplicável não Seu Adão? A gente fica até meio...é...
eu mesma fico abobada com tanta simplicidade e tanta profundidade ao mesmo
tempo nas histórias dessa menina! Vamos lá! O almoço já está pronto Mannu,
depois vocês podem até continuar essa conversa tá bom? Agora você precisa
comer...
Dizendo
isso, ela foi pegando a filha no colo para nem dar a chance de ser convencida a
continuar aquela conversa. Por que será que ela estava se sentindo assim... tão
estranha... Alguma coisa estava esquisita naquele dia, pensou ela enquanto
entrava com a Mannu que não deixou de se queixar um pouco, como sempre.
― Mas
mamãe, agora que o Seu Adão estava começando a entender o meu sonho...Eu queria
continuar mais um pouquinho!
― Não
faz mal, ele vai continuar entendendo depois do almoço tá? Ele também está com
fome.
― “É
minha criança! Nem si preocupi, qui eu vô mesm querê continuá nossa prosa
depois. Vá comê sua comidinha qui eu espero tá bão?”











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