O
homem retirou-se para o outro lado da varanda onde a sua mulher esperava com o
prato dele pronto e o dela também. Os dois comiam em uma mesa ali ao lado da
cozinha, na varanda, e se a Drª Laura e a Mannu precisassem de qualquer coisa
ela estava por perto e pronta a atender. A médica insistia em que os dois
almoçassem na mesma hora em que ela e a Mannu comiam, para que os dois pudessem
conversar aproveitando aquele tempo em família e, lógico, também para comerem
tudo bem quentinho e não com aquela sensação de “comida requentada”.
Ele
sentou-se, olhando o prato e também o vasinho de flores que não faltava na
mesinha deles, em todas as refeições. A esposa aproximou-se, um pouco
ressabiada, olhando de lado, mas logo estava tranquila ao perceber um meio
sorriso desenhado no rosto do marido que ainda não tinha começado a comer.
― “Vai
cumê não hómi? Vai ficá oiando o prato coesse risim bobo aí na cara?”
Ele
olhou pra ela e sorriu abertamente, para o alívio total da mulher que pensava
que ele estava furioso com ela por ter falado demais com a patroa e a Mannu.
Tanto
ele quanto a Mannu comeram “rapidinho,” ansiosos para continuarem a conversa. A
Drª Laura que sempre insiste para a Mannu comer e falar menos, nem precisou se
preocupar com isso. A menina comeu direitinho com a mãe segurando a euforia
dela para terminar logo.
―
Mannu, por favor, nada de engolir inteiro hein filha? Lembre-se que é preciso
mastigar bem para ajudar a digestão...
― Tá
bom, mamãe, eu estou mastigando bem, quer ver? E abriu a boca cheia de comida
na frente da mãe.
A
mulher fechou os olhos com a mão no rosto, rindo, mas depois, falou muito
seriamente.
― Não
filha!! Não quero ver não!! Feche essa boquinha por favor! Mannu!! Você sabe
que isso é horrível, não sabe?
A
menina riu muito e continuou mastigando com toda a “finesse” que conseguiu
arrumar, porém, volta e meia começava a rir da cara de horror que a mãe tinha
feito. Foi difícil fazer a menina levar a sério a advertência.
Assim
que terminaram o almoço, a Mannu pediu que a mãe fosse com ela chamar o S.
Adão, afinal, ele tinha que ouvir o que ela ainda precisava falar pra ele.
―
Filha, tem certeza? O pobre do S. Adão nem sequer vai descansar no almoço
dele...
―
Mamãe, se ele não jogar fora dele aquela lembrança ruim e a raiva que ele ainda
sente do papai dele, não vai adiantar ele descansar nem um ano inteirinho,
sabia?
A
mulher olhou espantadíssima para a filha achando aquela opinião adulta demais
para sair da boca de uma criança de quase sete anos...
―
ÉÉÉ... pois é né filha? É isso mesmo... mas porque você chegou a essa conclusão
tão... tão...
― Tão
de gente grande mamãe?
― É
filha... é isso mesmo!
― Bom,
mamãe, eu não sou muito grande ainda, mas eu me lembro que comigo era assim
também. Quando eu tinha raiva e tristeza das coisas que a Lívia e a Cássia me
faziam, eu não tinha vontade nem de fazer a tarefinha da escola. E eu não tinha
vontade nenhuma de ir pra Escola, eu ficava sempre cansada e com dor de
estômago, lembra? E eu fico pensando: Se eu, que tenho o estômago bem menor do
que o do S. Adão, sentia tudo aquilo de dor, imagine ele, com o “estomagão” que
ele deve ter... porque ele é muuuuito mais comprido do que eu.
A mãe
estava muito impressionada com o raciocínio da menina, mas não pode deixar de
rir da ideia que ela tinha de “tamanho da dor.”
―
Filhinha, você é incrível! A dor não depende do tamanho do órgão afetado,
depende do tamanho do dano causado nesse órgão, ou nem isso... da
sensibilidade... enfim... não importa mesmo, dor é dor, e tem que ser tratada
não é mesmo?
― É
isso mesmo mamãe! Quando ele aprender a colocar a lembrança ruim no lugar certo
ele vai sarar de tudo, até da raiva...
A
mulher olhou séria para a filha e achou que realmente era importante que ela
terminasse aquela conversa com o S. Adão, pois elas iriam embora no dia
seguinte e tão cedo não haveria outra oportunidade para os dois resolverem
aquele assunto tão sério.
As
duas chamaram o S. Adão que nem tinha saído da varanda, ansioso para continuar
a conversa com a criança. Dessa vez, a mãe resolveu ir junto para ouvir o que a
Mannu tinha para dizer naquele caso tão complicado. Sentaram-se em um banco em
outro canto da varanda.
A
Mannu imediatamente retomou a história de onde havia parado antes do almoço.
― Seu
Adão, o senhor lembra que eu estava falando pro senhor que Deus pode ser Pai da
gente, pode ser irmão e pode ser também “Consolador”?
― “É
sim, minha criança, eu milembro sim...”
―
Então, foi Deus mesmo que me disse isso quando Ele veio falar comigo no meu sonho
como se fosse meu irmão... aliás Ele é o meu irmão, sabe?
―
“É... pelo quiocê diz né minha criança, mais... mispliqui cumé quiocê intendeu
isso...”
― Ah,
é fácil Seu Adão, quando eu estava muito triste porque eu estava precisando
muito de um irmão, foi daí que eu sonhei a primeira vez com Ele... Aliás, não
foi bem assim, foi na noite que eu aprendi a orar, com a Zezé. Eu orei e falei
tudo o que eu estava precisando pra Deus... Depois disso eu tive o sonho que o
Emannuel veio falar comigo e me disse que Ele era o irmão que eu tinha e que eu
também tinha mais um “pai”, que é o Deus que mora láááá nas “altas alturas” e
que é o pai do Emannuel também... por isso que Ele é meu irmão.
― É...
isso mesmo Seu Adão, o senhor entendeu direitinho... Ele mora no céu, mas Ele
precisava descer aqui na Terra pra arrumar umas coisas que saíram errado, e
como Ele não podia descer naquela hora mesmo, Ele mandou o Filho d’Ele que é o
Emanuel, meu irmão, e que ficou mais conhecido aqui na Terra com o nome de
Jesus, sabe? Aquele Jesus bebezinho que a gente vê em tudo que é cartão de
Natal, lembra Seu Adão?
A mãe
da Mannu tentou se interessar mais pelo assunto e começou a explicar para a Mannu o que era o
“istáubulo” do Seu Adão. Ela estava procurando participar da conversa nessa altura da
situação, pois já estava calada havia muito tempo.
―
Filha, o Seu Adão quis dizer: “estábulo”, que é onde fica o gado para não
dormir na chuva, no frio, entende? Lá tinha uma manjedoura e a mãe de Jesus
colocou o bebê para dormir no feno, quentinho.
― Ah
sim, mamãe! É a casa onde as vacas e os bois dormem então?
― É...
isso... um lugar para eles se abrigarem.
― Eu
não sabia que você conhecia a história do meu irmão, você nunca me falou d’Ele
mamãe.
Novamente a médica ficou espantada com a
resposta da filha, e desta vez, o caseiro também se manifestou de uma maneira
que ela nunca esperou.
― Pois
sab, fiii... qui eu mesm sempre ouvi essas história da boca da minha mãe. I eu
até acriditava... o Natar er sempri uma festa qui ela gostav dimais da conta. I
eu também... Só qui com as bebedêra do meu pai, ele cunsiguia estragá os nosso
Natar tudim... intão, nóis paramo di comemorá a data, ficô um diii assim, iguar
quarqué otro sab?
O
homem ficou por uns minutos cabisbaixo, e em seguida disse para a menina.
― “Sab,
criança, quandocê fala, as coisa parece mi entrá lá bem no fundo da arma, eu
sinto uma coisistranha aqui no meu peito, é cumo si... si fosse preu acriditá
mesm ni tudo quiocê tá falano... faiz sintido pra mim... Ó... dotora, mi soa
como si Deus mesm tivesse falano pela boca dessa criança num sab?”
A
mulher ficou emocionada com as palavras do caseiro, tão simples e tão sinceras.
De repente, ela se sentiu envolvida por uma onda de emoção tão forte que ela
pensou que não ia aguentar, parecia que algo estava crescendo dentro do seu
coração e não tinha mais como esconder.
Mesmo assim, os olhos lacrimejaram, mas
ela, como sempre, controlou aquele sentimento esquisito que de vez em quando
batia dentro dela. Imagina se ela, a Drª Laura poderia aceitar que essas coisas
de fé são verdadeiras, nunca, a ciência falava mais alto ainda no seu interior.
Nesse
instante a Mannu falou com toda a inocência e tranquilidade que só as crianças
conseguem refletir; mesmo quando estão falando de coisas tão profundas que elas
mesmas não entendem.
― Seu
Adão, que bom que pro senhor parece Deus falando na minha boca, sabe por quê?
― Não
fiii... sei não...
― É
que o que vou dizer agora pro senhor foi Deus mesmo que me disse no meu sonho,
só que ali no meu sonho, Ele disse na boca do meu irmão, o Emanuel, quando eu
estava no colo dele embaixo da árvore na beira do lago. Eu estava muito triste,
mas nem precisei pedir um abraço porque ele ouviu o meu pensamento e a minha
tristeza e então Ele me pegou no colo pra eu chorar no ombro d’Ele... só que
daí, a minha vontade de chorar foi embora...
Ela
trouxe à memória um momento do seu último sonho com Jesus quando Ele falou algo
que ela não entendeu bem.
― Ele
falou isso e mais outras coisas que eu agora não me lembro... Ah... Ele disse
que o Espírito Santo é o Espírito Consolador e é Ele quem veio pra ficar aqui
com a gente enquanto Ele, o Jesus, tem
que ficar lá no céu com o Pai dele um pouco. Só não entendi bem por que Ele
mandou falar especialmente pra você mamãe... Acho que Ele sabe que você não
consegue acreditar muito n’Ele ainda né?
Ela
falou sem nenhuma acusação no tom de voz.
A
mulher engoliu em seco com mais lágrimas nos olhos do que poderiam caber,
resultado: Outro tanto de lágrimas e soluços...
A
Mannu ficou preocupada com a mãe que não parava de chorar e tentou arrumar um pouco as coisas.
Esse remendo da Mannu só piorou as coisas, ela
logo percebeu quando a mãe caiu de vez no choro e ela olhou para a cara do Seu
Adão que agora também já não conseguia disfarçar as lágrimas.
Vamos
ver no próximo capítulo como é que a Mannu vai se virar com esses dois...













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