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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sábado, 17 de junho de 2017

E A HISTÓRIA CONTINUA... – CAPÍTULO 82



O homem retirou-se para o outro lado da varanda onde a sua mulher esperava com o prato dele pronto e o dela também. Os dois comiam em uma mesa ali ao lado da cozinha, na varanda, e se a Drª Laura e a Mannu precisassem de qualquer coisa ela estava por perto e pronta a atender. A médica insistia em que os dois almoçassem na mesma hora em que ela e a Mannu comiam, para que os dois pudessem conversar aproveitando aquele tempo em família e, lógico, também para comerem tudo bem quentinho e não com aquela sensação de “comida requentada”.

Ele sentou-se, olhando o prato e também o vasinho de flores que não faltava na mesinha deles, em todas as refeições. A esposa aproximou-se, um pouco ressabiada, olhando de lado, mas logo estava tranquila ao perceber um meio sorriso desenhado no rosto do marido que ainda não tinha começado a comer.

“Vai cumê não hómi? Vai ficá oiando o prato coesse risim bobo aí na cara?”

Ele olhou pra ela e sorriu abertamente, para o alívio total da mulher que pensava que ele estava furioso com ela por ter falado demais com a patroa e a Mannu.


 Tanto ele quanto a Mannu comeram “rapidinho,” ansiosos para continuarem a conversa. A Drª Laura que sempre insiste para a Mannu comer e falar menos, nem precisou se preocupar com isso. A menina comeu direitinho com a mãe segurando a euforia dela para terminar logo.

Mannu, por favor, nada de engolir inteiro hein filha? Lembre-se que é preciso mastigar bem para ajudar a digestão...

Tá bom, mamãe, eu estou mastigando bem, quer ver? E abriu a boca cheia de comida na frente da mãe.

A mulher fechou os olhos com a mão no rosto, rindo, mas depois, falou muito seriamente.

Não filha!! Não quero ver não!! Feche essa boquinha por favor! Mannu!! Você sabe que isso é horrível, não sabe?



A menina riu muito e continuou mastigando com toda a “finesse” que conseguiu arrumar, porém, volta e meia começava a rir da cara de horror que a mãe tinha feito. Foi difícil fazer a menina levar a sério a advertência.


Assim que terminaram o almoço, a Mannu pediu que a mãe fosse com ela chamar o S. Adão, afinal, ele tinha que ouvir o que ela ainda precisava falar pra ele.

Filha, tem certeza? O pobre do S. Adão nem sequer vai descansar no almoço dele...

Mamãe, se ele não jogar fora dele aquela lembrança ruim e a raiva que ele ainda sente do papai dele, não vai adiantar ele descansar nem um ano inteirinho, sabia?

A mulher olhou espantadíssima para a filha achando aquela opinião adulta demais para sair da boca de uma criança de quase sete anos...


ÉÉÉ... pois é né filha? É isso mesmo... mas porque você chegou a essa conclusão tão... tão...

Tão de gente grande mamãe?

É filha... é isso mesmo!

Bom, mamãe, eu não sou muito grande ainda, mas eu me lembro que comigo era assim também. Quando eu tinha raiva e tristeza das coisas que a Lívia e a Cássia me faziam, eu não tinha vontade nem de fazer a tarefinha da escola. E eu não tinha vontade nenhuma de ir pra Escola, eu ficava sempre cansada e com dor de estômago, lembra? E eu fico pensando: Se eu, que tenho o estômago bem menor do que o do S. Adão, sentia tudo aquilo de dor, imagine ele, com o “estomagão” que ele deve ter... porque ele é muuuuito mais comprido do que eu.

A mãe estava muito impressionada com o raciocínio da menina, mas não pode deixar de rir da ideia que ela tinha de “tamanho da dor.”

Filhinha, você é incrível! A dor não depende do tamanho do órgão afetado, depende do tamanho do dano causado nesse órgão, ou nem isso... da sensibilidade... enfim... não importa mesmo, dor é dor, e tem que ser tratada não é mesmo?

É isso mesmo mamãe! Quando ele aprender a colocar a lembrança ruim no lugar certo ele vai sarar de tudo, até da raiva...

A mulher olhou séria para a filha e achou que realmente era importante que ela terminasse aquela conversa com o S. Adão, pois elas iriam embora no dia seguinte e tão cedo não haveria outra oportunidade para os dois resolverem aquele assunto tão sério.

As duas chamaram o S. Adão que nem tinha saído da varanda, ansioso para continuar a conversa com a criança. Dessa vez, a mãe resolveu ir junto para ouvir o que a Mannu tinha para dizer naquele caso tão complicado. Sentaram-se em um banco em outro canto da varanda.



A Mannu imediatamente retomou a história de onde havia parado antes do almoço.

Seu Adão, o senhor lembra que eu estava falando pro senhor que Deus pode ser Pai da gente, pode ser irmão e pode ser também “Consolador”?

“É sim, minha criança, eu milembro sim...”

Então, foi Deus mesmo que me disse isso quando Ele veio falar comigo no meu sonho como se fosse meu irmão... aliás Ele é o meu irmão, sabe?

“É... pelo quiocê diz né minha criança, mais... mispliqui cumé quiocê intendeu isso...”

Ah, é fácil Seu Adão, quando eu estava muito triste porque eu estava precisando muito de um irmão, foi daí que eu sonhei a primeira vez com Ele... Aliás, não foi bem assim, foi na noite que eu aprendi a orar, com a Zezé. Eu orei e falei tudo o que eu estava precisando pra Deus... Depois disso eu tive o sonho que o Emannuel veio falar comigo e me disse que Ele era o irmão que eu tinha e que eu também tinha mais um “pai”, que é o Deus que mora láááá nas “altas alturas” e que é o pai do Emannuel também... por isso que Ele é meu irmão.


É... isso mesmo Seu Adão, o senhor entendeu direitinho... Ele mora no céu, mas Ele precisava descer aqui na Terra pra arrumar umas coisas que saíram errado, e como Ele não podia descer naquela hora mesmo, Ele mandou o Filho d’Ele que é o Emanuel, meu irmão, e que ficou mais conhecido aqui na Terra com o nome de Jesus, sabe? Aquele Jesus bebezinho que a gente vê em tudo que é cartão de Natal, lembra Seu Adão?


A mãe da Mannu tentou se interessar mais pelo assunto e começou a explicar para a Mannu o que era o “istáubulo” do Seu Adão. Ela estava procurando participar da conversa nessa altura da situação, pois já estava calada havia muito tempo.

Filha, o Seu Adão quis dizer: “estábulo”, que é onde fica o gado para não dormir na chuva, no frio, entende? Lá tinha uma manjedoura e a mãe de Jesus colocou o bebê para dormir no feno, quentinho.

Ah sim, mamãe! É a casa onde as vacas e os bois dormem então?

É... isso... um lugar para eles se abrigarem.

Eu não sabia que você conhecia a história do meu irmão, você nunca me falou d’Ele mamãe.


 Novamente a médica ficou espantada com a resposta da filha, e desta vez, o caseiro também se manifestou de uma maneira que ela nunca esperou.

Pois sab, fiii... qui eu mesm sempre ouvi essas história da boca da minha mãe. I eu até acriditava... o Natar er sempri uma festa qui ela gostav dimais da conta. I eu também... Só qui com as bebedêra do meu pai, ele cunsiguia estragá os nosso Natar tudim... intão, nóis paramo di comemorá a data, ficô um diii assim, iguar quarqué otro sab?


O homem ficou por uns minutos cabisbaixo, e em seguida disse para a menina.

“Sab, criança, quandocê fala, as coisa parece mi entrá lá bem no fundo da arma, eu sinto uma coisistranha aqui no meu peito, é cumo si... si fosse preu acriditá mesm ni tudo quiocê tá falano... faiz sintido pra mim... Ó... dotora, mi soa como si Deus mesm tivesse falano pela boca dessa criança num sab?”

A mulher ficou emocionada com as palavras do caseiro, tão simples e tão sinceras. De repente, ela se sentiu envolvida por uma onda de emoção tão forte que ela pensou que não ia aguentar, parecia que algo estava crescendo dentro do seu coração e não tinha mais como esconder.

 Mesmo assim, os olhos lacrimejaram, mas ela, como sempre, controlou aquele sentimento esquisito que de vez em quando batia dentro dela. Imagina se ela, a Drª Laura poderia aceitar que essas coisas de fé são verdadeiras, nunca, a ciência falava mais alto ainda no seu interior.

Nesse instante a Mannu falou com toda a inocência e tranquilidade que só as crianças conseguem refletir; mesmo quando estão falando de coisas tão profundas que elas mesmas não entendem.

Seu Adão, que bom que pro senhor parece Deus falando na minha boca, sabe por quê?

Não fiii... sei não...

É que o que vou dizer agora pro senhor foi Deus mesmo que me disse no meu sonho, só que ali no meu sonho, Ele disse na boca do meu irmão, o Emanuel, quando eu estava no colo dele embaixo da árvore na beira do lago. Eu estava muito triste, mas nem precisei pedir um abraço porque ele ouviu o meu pensamento e a minha tristeza e então Ele me pegou no colo pra eu chorar no ombro d’Ele... só que daí, a minha vontade de chorar foi embora...

Ela trouxe à memória um momento do seu último sonho com Jesus quando Ele falou algo que ela não entendeu bem.


Ele falou isso e mais outras coisas que eu agora não me lembro... Ah... Ele disse que o Espírito Santo é o Espírito Consolador e é Ele quem veio pra ficar aqui com a gente enquanto Ele, o Jesus,  tem que ficar lá no céu com o Pai dele um pouco. Só não entendi bem por que Ele mandou falar especialmente pra você mamãe... Acho que Ele sabe que você não consegue acreditar muito n’Ele ainda né?

Ela falou sem nenhuma acusação no tom de voz.

A mulher engoliu em seco com mais lágrimas nos olhos do que poderiam caber, resultado: Outro tanto de lágrimas e soluços...

A Mannu ficou preocupada com a mãe que não parava de chorar e tentou arrumar um pouco as coisas.


 Esse remendo da Mannu só piorou as coisas, ela logo percebeu quando a mãe caiu de vez no choro e ela olhou para a cara do Seu Adão que agora também já não conseguia disfarçar as lágrimas.






Vamos ver no próximo capítulo como é que a Mannu vai se virar com esses dois...

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