A
Mannu pulou do sofá e pegou o telefone da mão da empregada antes ainda da mãe.
E foi logo falando na sua empolgação de sempre; esquecida até que o pai não
tinha a mínima ideia da conversa que tinha acontecido ali, entre ela e a mãe.
― Oi
papai!! Eu tô com muita saudade do senhor sabia? E eu acabei de dizer para a
mamãe que o senhor nunca vai me tirar dela e nem vai deixar a gente sozinha
aqui na vida, não é isso que o senhor falou?
Do
outro lado, um ligeiro silêncio, para que as palavras começassem a fazer algum
sentido na mente do homem, que mal conseguia supor de que assunto a filha
falava naquele instante. Disse ele:
― Oi
meu amor! Papai também está com saudades de você e da mamãe... mas... o que
você quis dizer com todo esse introito elaborado aí na sua fala?
―
Hummm... primeiro, o que é “introito” papai?
―
KKKKKKKKK!! Ah, é mesmo... desculpe filha, falei sem medir as palavras... Vou
reformular a pergunta na sua língua, ok? O que foi que você quis dizer com todo
esse começo de conversa misterioso e indireto aí no que você acabou de me
dizer? Não consegui entender o que você me falou...
― Ah
papai, é que eu estava conversando com a mamãe sobre o “medão” que ela tem e eu
disse que ela não precisava nem pensar nisso, porque o senhor nunca vai
abandonar a gente como o “padastro” da Lívia fez... e o marido da Zezé
também...
As
coisas pioraram um pouco mais na cabeça do médico que tentava juntar os pedaços
de informação que recebia da filha para dar sentido à conversa.
Enfim,
a Mannu passou o telefone para a mãe e pediu que o pai “esclarecesse” as
coisas.
―
Papai, eu vou passar pra mamãe e daí você explica bem certinho pra ela tá?
― Tá
certo filha... um beijo!
― Um
beijo papai, venha logo buscar a gente tá?
―
Filha, a mamãe ficou com o carro aí, para vocês voltarem quando quiserem
lembra?
Ela nem respondeu porque já tinha passado o
telefone para a mãe que atendeu rindo da conversa truncada dos dois.
― Oi
amor, disse ela sorrindo e imaginando o que o marido estava pensando.
― Oi
querida! Não consegui decifrar a conversa da Mannu... que “medão” é esse que
ela falou? E que história é essa do
marido da Zezé, do padrasto da Lívia, nossa, minha cabeça deu um nó aqui...
―
KKKKKKK! É... eu sei... é que a Mannu continuou a conversa com você como se
você estivesse aqui, participando da nossa, e aí você ficou sem contexto...
Depois te explico direitinho... Tudo bem por aí?
― Tudo
querida, mas a Zezé me ligou ontem, à noite, pedindo se poderia ficar dois dias
a mais de folga... parece que ela vai receber uma visita lá dos parentes dela da
França na segunda feira, a irmã do ex marido, eu acho... Então, ela recomeça o
trabalho só na quarta feira. Se vocês quiserem ficar mais uns dois dias aí,
você decide.
― É
mesmo? Que interessante, estávamos falando justamente da família dela, dos
acontecimentos lá na França etc...
―
Querida, você contou tudo já pra Mannu, acha que ela vai digerir tudo aquilo
bem?
―
Não... ainda não... estou indo devagar, mas vou ter que falar, acho que já é
tempo. Ainda mais que ela está cheia de perguntas para a Zezé, sobre a filha
etc...
―
Talvez seja melhor você terminar a história aqui, com a Zezé por perto , não
acha?
― É...
talvez, quero falar com a Zezé sobre isso. Vou ligar pra ela depois.
―
Ótimo, assim você já confirma que ela pode ficar mais esses dois dias, apesar
de que eu mesmo já autorizei. Achei que você faria o mesmo, não?
―
Claro, amor... Problema nenhum. Estou é curiosíssima para saber o que essa irmã
do ex marido dela vem contando, deve haver alguma novidade né?
― É...
creio que sim... eu até comentei isso mesmo com a Zezé, e ela respondeu que
estava tão curiosa quanto eu. A mulher não disse nada, só avisou que chega na
segunda.
― Pois
é... vamos aguardar então. Um beijo amor, se cuide!
―
Beijo querida! E olha, independente do que seja a conversa séria que vocês duas
andaram tendo por aí, quero confirmar uma coisa: Nunca vou abandonar vocês não,
não consigo nem imaginar de onde a Mannu tirou essa ideia maluca. Amo vocês, e
não tenho a mínima intenção de te dar a liberdade de viver sem mim ok? Dá um
beijo nela por mim tá?
Assim
que desligou, ela deu um beijo na filha e disse que foi o pai quem tinha
mandado. A Mannu sorriu e perguntou:
― E aí
mamãe, o papai falou pra você sobre o “amor infinito” também?
―
Falou, meu anjo, do jeito dele mas falou...
―
Então vamos continuar a história da filha da Zezé mamãe. Você falou que eles
foram passear nas férias naquela cidade lá perto de onde eles moravam, lembra?
―
Lembro, lembro sim, eles foram pra Marseille passar uns quinze dias com a
Julliete.
― E
foi legal mamãe? A Julliete gostou?
― Foi
mais ou menos filha... porque a Julliete ficou um pouco dodói de novo e não
pode aproveitar muito bem. Logo que eles voltaram das férias, a Zezé levou a
menina no médico para saber o que estava acontecendo.
― Ai
mamãe... que pena! Não é legal quando a gente fica dodói nas férias, porque a
gente não tem vontade de fazer nada e tudo perde a graça...
―
Exato, aquelas foram as férias mais sem graça da vida deles, realmente.
― E o
que foi que o médico falou que a Julliete tinha... ele não mandou ela tomar um
monte de injeções né mamãe? Eu não gosto de injeção...
―Não,
primeiro ele pediu pra Zezé levar a filha pra fazer um monte de exames porque
ele estava desconfiando que já sabia o que era o dodói da menina...
―
Então, ela teve que ver aquela “agulhona” na seringa, porque quando a gente vai
fazer exame eles tiram sangue da gente né?
―
Isso... ela fez muitos exames sim, mas sabe que a Zezé disse que ela só ficou
com medo na primeira vez que ela foi tirar sangue, depois ela já ficou sabendo
que não doía quase nada, era só como uma formiguinha dando uma mordidinha bem
pequena no braço, e ela não tinha medo nenhum mais.
― Sabe
mamãe, que eu também não tenho taaaanto medo assim... eu não gosto de tomar
injeção, mas eu sei que é bem rápido e o papai disse que a gente sara muito
mais depressa né?
― É
isso mesmo, a injeção age mais depressa.
Nesse
instante a médica parou um pouco pensando em como continuar a história. Parecia
que ela não estava com pressa nenhuma de contar as coisas. A Mannu logo
reclamou, é claro...
― Pois
é filha... agora vem a parte ruim da história sabe? Quando os exames chegaram,
a Zezé foi conversar com o médico e ele disse uma coisa que a Zezé ficou muito
preocupada. Ele disse que a Julliete não tinha só uma crise de alergia de vez
em quando não...
― Não
mamãe?? E o que é que ela tinha então?
― O
médico falou que ela tinha uma doença muito séria e que a Zezé precisaria ser
muito forte pra cuidar dela depois daquele dia, porque a Julliete teria que
fazer um tratamento muito sério.
― Mas
mamãe!! Tadinha dela, e da Zezé também, que deve ter ficado muito triste né?
Mas ela fez o tratamento, não fez?
― Ela
começou a fazer sim, e melhorou um pouco no início, mas depois parecia que o
organismo dela não respondia mais ao tratamento e ela começou a piorar...
―
Mas... mamãe que doença feia era essa? Ela não conseguia sarar? Nem com um
monte de injeções?
― Pois
é filha... ela tomava muitas injeções e fazia uma aplicação de remédios muito
fortes para derrotar aquilo, mas... ela não estava conseguindo. E a Zezé e o
marido levaram ela para outros médicos em muitos lugares, até em Paris para
tentar um tratamento novo que tinha sido descoberto.
― E
daí mamãe, ela conseguiu sarar com esse tratamento novo?
― Infelizmente
ainda não meu amor... ela só piorava... foi uma época muito difícil pra Zezé...
sabe? E pro marido dela também, claro, pra todos da família. Todos eles faziam
de tudo para que a Julliete vencesse a doença, mas ela continuava enfraquecendo
cada dia mais...
Nesse
momento a Mannu sentou-se no sofá, encostada na mãe, muito preocupada, com medo
de saber o final da história, que na cabecinha dela já começava a se desenhar
de forma muito triste.
Mesmo
assim, a Mannu queria saber como a Zezé resolveu o assunto da doença da filha,
e imediatamente veio na memória da menina tudo o que a Zezé já havia ensinado
sobre a fé e sobre o poder que Deus tem para curar. Então ela logo perguntou:
―
Mamãe... mas a Zezé não se lembrou de orar? Era a primeira coisa que ela devia
ter feito, antes ainda de ir pro médico...
― Não,
meu amor... quer dizer... eu não sei se ela fez isso logo no começo, mas eu sei
que a Zezé já acreditava em Deus e quando as coisas pioraram muito, ela realmente lembrou de orar sim...
ela me disse isso uma vez...
Nesse
instante a médica lembrou-se também das lições que ficaram guardadas na
memória dela nas conversas com a Zezé sobre esse assunto.
― Uma
vez a Zezé me disse que ela já tinha fé, mas não era ainda uma fé muito forte,
era como se fosse só um costume de fazer oração de vez em quando, que ela tinha
aprendido com os pais, mas, ela disse que não se lembrava sempre de Deus, só
sabia que Ele existia, lá na cabeça dela, mas nunca tinha sentido vontade de
conversar com Ele de uma maneira que fosse real... não sei se você está
entendendo filha!
―
Mas... e depois, ela começou a falar com o Papai do céu direitinho sobre a Julliete?
― Ela
disse que assim que ela percebeu o quanto a situação era grave, ela começou a
pedir pra Deus ajudar e chamou também o marido dela pra orar junto com ela,
mas...
― Mas,
o quê mamãe?
―
Bem... ele não era exatamente quem ela precisava para orar com ela naquele
momento, pois ele disse que não ia perder tempo com essas coisas... ele achava
que o que os médicos não resolvessem não seria um “homem invisível” que ninguém
sabia onde morava e que nunca aparecia pra ninguém que poderia resolver. O
problema da filha dele era muito sério para que ele perdesse tempo com orações... ele disse isso pra ela. E o pior é que o restante da família também pensava assim, então, a Zezé se viu sozinha na fé dela.
Na
cabeça da Mannu e dentro da sua fé pura e verdadeira, simplesmente não cabia
uma coisa dessas. Ela simplesmente não conseguia entender como aquele francês
teve a coragem de dizer uma coisa assim para a pobre da Zezé. Nesse momento, a Mannu ficou profundamente entristecida, imaginando o quanto a Zezé deve ter
sofrido por não poder contar com ninguém pra acreditar junto com ela e exercer essa
fé em favor da filha dela. As lágrimas logo brotaram nos olhos da menina que
pediu pra mãe para fazerem uma outra pausa... ela já não tinha mais coragem de ouvir o resto, precisava de um tempo.







Que sufoco Glu!! Que triste!!
ResponderExcluirÉ Kelzinha... Sufoco mesmo! Mas a vida real é desse jeito mesmo e infelizmente, alguns só procuram Deus nessas horas ... Outros, nem assim...
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