Assim que a empregada desceu para
providenciar o chá e o bolo que a Drª Laura tinha pedido, a Mannu perguntou à
sua mãe.
― Mamãe, onde a Zezé escondeu a
filha dela, e por quê?
― Calma meu amorzinho, eu já vou te
explicar, deixa a Lídia trazer nosso chá, e eu vou te colocar a par da história
inteirinha, ok? Você vai ver que a Zezé tem lá seus motivos para não ter contado
nada sobre esta filha tá? Espera um pouquinho e não fique tentando adivinhar na
sua cabecinha o que é que está acontecendo, porque pode ser pior quando você
souber a verdade, entendeu?
― Não... não entendi... ― disse
ela prontamente ― Mas,
eu vou comer primeiro o meu bolo e depois eu quero saber tudinho tá mamãe?
―
Claro, eu vou contar, não se preocupe... Só quero que você desmanche esse
beicinho e deixe pra tirar conclusões depois de saber a história toda, ok?
Principalmente conclusões sobre a Zezé, tá certo filha?
― Tá
mamãe, eu vou esperar então... Porque você mesma já me disse que esse mundo de
vocês aí, os adultos, é mesmo muito complicado e eu não sei se vou conseguir
entender, por que foi que a Zezé nunca me falou nada da filha dela...
Dizendo
isso, ela emudeceu e olhando firmemente para um ponto fixo, ela começou a pensar
que o mundo dos adultos era mesmo tão chato, com tanta coisa complicada que ela
nem sabia mais se queria virar “gente grande” ou não.
Mais do que depressa, surgiu a D.
Lídia com a bandeja de chá e o bolo.
― Já Lídia? Poxa que bom! Você é
rápida mesmo hein?
― É que eu já tinha água no fogão
fervendo para fazer um “cafézim”, mas como a senhora preferiu o chá...
― Certo minha querida, pode deixar
aqui que eu mesma sirvo, obrigada Lídia!
― “Pur nada não doutora”, qualquer
“coisim” é só me chamar...
― Obrigada! Disse a médica, já
servindo uma xícara do chá para a Mannu. Depois deu um pedaço do bolo que a
Mannu comeu num instante.
― Filha, coma devagar, não fique
ansiosa ok?
― Sei mamãe, mas é que eu quero
saber da filha da Zezé.
― Você vai saber, mas, não precisa
engolir inteiro pra isso certo? Mais bolo?
― Hum... só um pedacinho ―
disse a menina com o efeito do açúcar e principalmente do chá acalmando sua
agitação.
Depois que elas terminaram o
lanchinho e os ânimos entraram em equilíbrio, a médica recomeçou.
A Mannu estava ansiosa para saber
o resto da história, mas não parava quieta, só fazendo perguntas.
―Mamãe, você não acha que eu tenho
razão de ficar chateada com a Zezé? Afinal, ela escondeu uma coisa tão
importante de mim e eu contava tudo, tudo mesmo pra ela, todos os meus segredos
lá de dentro de mim...
― A mãe até
riu desse comentário tão ressentido. Como se a criança tivesse contado toda uma
vida cheia de coisas escondidas para a Zezé, que não correspondeu à sua
confiança, escondendo os “segredos” da vida dela.
Ela continuou.
― Pois é filha, mas você vai
entender que a Zezé tinha razão de nem querer pensar em te contar a
história.
― Tá, mas depois eu vou falar com a
Zezé de qualquer jeito...
― Você vai falar com ela sim, mas
ouça primeiro. A Zezé teve essa filha, que era um amorzinho, parecida com ela e
muito alegre também, não parava de falar, quase assim como você. Eles tinham
essa vida tranquila no pequeno paraíso deles e tudo estava indo muito bem. A
menina estudava em uma escola na cidade próxima e o que ela mais gostava era de
ajudar a colher as flores para levar para a feira.
― Aquela com nome esquisito? Aix...
não sei o quê?
― É, isso mesmo, Aix-en-Provence.
Que era onde eles faziam tudo, vendiam suas flores e arranjos na praça do Hôtel
de Ville, todas as terças, quintas e sábados de manhã na feira das flores. Na cidade também compravam o que
precisavam etc...
― Ok, e depois mamãe...
― Bem, a vida deles era assim,
tranquila e pacífica. A menina era uma boa aluna e nunca dava problemas aos
pais. O pai era maluco pela filha. Um dia, a Zezé recebeu um telefonema da
Escola onde a filha estudava. Era alguém falando que a criança não estava se
sentindo bem, alguém deveria ir buscá-la.
― A Zezé chamou o marido e foram os
dois ver o que estava acontecendo. Chegando lá, a menina estava na sala da
orientadora educacional da Escola e, aparentemente, nada de estranho estava
acontecendo. Estavam todos conversando e rindo, inclusive a criança.
― Então ela não estava dodói mamãe?
― Eles acharam que não. A pessoa
que telefonou explicou que encontrou a menina no banheiro, com a cabeça
inclinada sobre a pia e com o nariz sangrando muito. Foi isso que fez com que
se assustassem e chamassem os pais.
― Mas depois viram que não era nada
né? Eu também, já tive o meu nariz sangrando muitas vezes.
― É, isso pode acontecer bastante,
principalmente quando está seco demais, falta chuva e etc. Ou se a pessoa tiver
algum resfriado forte demais e ficar assoando muito o nariz, mas isso não é problema nenhum. A diretora
dispensou a menina e a Zezé e o marido levaram a Julliete para casa.
― Julliete? Gostei do nome dela
mamãe!
― É... eu também gosto desse nome...
― No caminho eles pararam em um
lugar para comprar uns docinhos que a Julliete gostava muito de comer logo que
saía da escola. Chama-se “Calissons d’Aix”, é um doce típico daquela cidade.
― Callissons... que nome estranho!!
Mas era gostoso pelo menos?
― Muito gostoso, eles são feitos de
amêndoas... Mas a Zezé estranhou porque a Julliete nem quis comer, estava sem
fome.
― Mesmo assim eles levaram um monte
de doce para casa para ela comer mais tarde. Só que chegando em casa, ela
começou a passar mal, estava com febre, parecia que tinha uma gripe bem forte.
― Ih mamãe! Ela teve que ir no
hospital tomar injeção?
― Na verdade, a Zezé e o marido não
pensaram nisso no momento porque ela sempre tinha essas crises que eles achavam
que era alergia, principalmente depois que ela ajudava a colher as flores. Não
se preocuparam muito. E, no dia seguinte ela estava bem melhor, então deixaram
que ela ficasse em casa pra descansar um pouco e se recuperar da virose, ou
alergia, ou gripe qualquer que eles acharam que ela tinha. A Zezé fez um remédio
caseiro que deixou a menina como nova, alegre e bem disposta outra vez.
― Ah, eu não gosto de faltar aula
não, acho que ela também não gostou disso, gostou?
― Não gostou mesmo, respondeu a mãe
da Mannu.
― Mas ela teve que ficar em casa
mesmo assim?
―Teve que ficar porque o pai não
deixou que ela fosse, estava preocupado com a saúde dela. Embora o remédio da Zezé tivesse feito uma diferença
grande.
― É...
eu sei... isso é que o papai também faz comigo. Ele não deixa eu ir nem que eu
melhore, por causa de mim mesma e por causa dos outros, porque ele diz que se
eu tiver gripe eu posso passar os vírus todos para as minha amigas não é mamãe?
―
Rsrsrsrs... é... não digo “os vírus todos” mas, pode passar sim. E aí elas
ficam com gripe também.
― E
depois mamãe, quando ela sarou, ela voltou pra escola né?
―
Claro, voltou sim, e terminou aquele ano muito bem, apesar de ter faltado
algumas vezes por causa dessas crises.
― E
quantos anos ela tinha nessa época mamãe?
― Ela
tinha quase sete, seis e meio mais ou menos.
― Da
minha idade!!!
― É...
sua idade...
―
Mamãe, eu quero conhecer a filha da Zezé, posso ligar pra ela e saber onde ela
está e por que a Zezé não me contou dela e também por que a Zezé não trouxe ela
pro Brasil pra ser minha “quase-irmã”?
O
poço de palavras da Mannu, explodiu assim, de repente, e a sua mãe teve que
pedir que ela se aquietasse um pouco mais para saber o por quê das coisas. Ela
queria ligar naquele instante para a Zezé pra saber da Julliete.
― Tá,
então conta logo, porque eu quero ligar pra Zezé hoje mamãe!
―
Ótimo, você pode ligar, não tem problema não... Mas deixa eu terminar.
―
Certo mamãe, corre então!
―
Bem... no final daquele ano, eles saíram de férias e foram pra Marseille, uma
cidade perto de lá, uns trinta quilômetros mais ou menos. É um lugar muito
bonito e a Julliete gostava muito de ir pra lá.
―
Mamãe, você me leva pra conhecer Marseille também, um dia?
―
Vamos sim filha, qualquer hora dessas podemos ir, quando teu pai puder sair um
pouco.
A
Mannu, imediatamente, se pôs a imaginar o encontro dela com a Julliete e tudo o
que elas poderiam fazer se ela estivesse morando por lá ainda.
―
Mamãe, eu quero encontrar a Julliete, você tem que me levar pra lá viu? Ela
continua morando lá?
― Não
meu amor, ela não mora mais lá, por isso que a Zezé não gosta de falar no
assunto.
― Por
que mamãe? O papai dela ficou com a Julliete e não deixou a Zezé ficar com eles
lá? Eles se separaram?
― É...
uma coisa assim, só que eu preciso continuar de onde eu parei tá bom? Pra você
entender direitinho o que aconteceu. Não foi culpa da Zezé nem do marido dela,
mas eles acabaram se separando por causa de muitos problemas que vieram mais
tarde.
― Ah
mamãe, que pena!! Eu não queria que a Zezé passasse por estas coisas, ela é tão
legal!!
― Pois
é filha, mas, certas coisas a gente não consegue controlar e então a vida muda
muito. Essa é uma das razões do meu “medão” como você diz, as coisas que eu não
consigo controlar...
― Mas,
mamãe, você não precisa ter medo que o papai nunca vai me tirar de você e nem
vai se separar de você porque ele já me disse que ele ama você assim ó...
MUITÃO!!
Ela
disse isso fazendo um gesto com os braços erguidos para demonstrar o tamanho do
amor do pai dela pela mãe. Mas teve que concordar que o seu braço não
alcançaria o tamanho que ela queria mostrar.
― Ah,
mamãe! Não é bem assim não... porque eu não alcanço o tamanho, o papai disse
que é muuuuuuuito maior do que isso, ele disse que é “infinito”... Isso quer
dizer que nunca acaba, sabia?
Elas riram um pouco até que a empregada interrompeu
trazendo o telefone porque o pai da Mannu estava ligando. Acho que essa história só vai continuar no próximo capítulo minha gente. Não percam pra saber
porque a Zezé nunca falou do marido e da filha.







Oh noooooo!! Eu estou desesperada pra saber!! Dá vontade de amordaçar a Mannu com este poço de palavras que acaba ocupando todo o espaço e daí não sobra lugar pra terminar essa bendita narrativa da Dra. Laura. Quando vai sair outra história Isa?
ResponderExcluirKkkkkkkkk!! 😄 até eu tenho vontade de amordaçar a Mannu às vezes... Mas criança é assim mesmo!! Gostei dessa Raquel!! Bjo pra vc!!!
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