A semana passou tão rápido que a
Mannu nem acreditou. Quando ela estava voltando da Escola com a Zezé e a
Camila, as duas vinham conversando animadas:
― Camila, você viu como a Lívia e a
Cássia estavam “esfuziadas” para ir amanhã na sua casa ouvir as histórias do
Livrão, que a Zezé vai contar?
― É sim... elas não falavam de
outra coisa na hora do lanche. Mas a Duda
e a Ju também estavam suuuuuper querendo!
― “Super querendo”?? Pensou a Zezé.
Como fazer para essas meninas organizarem esse poço de palavras que cada uma
usa como quer?
― É, eu vi isso também... disse a
Mannu... sabe... eu não vejo a hora de dormir hoje pra chegar amanhã bem
depressa, porque daí vai ser o “sábado da história”!
― É verdade! Disse a Zezé, já
pensando no que fazer de bolos e doces, além do “pão do céu” que ela ia levar.
― Hum?? Hein meninas? Não!!! Não
dormi não, eu só estava aqui pensando no que vou fazer de gostoso para vocês
comerem amanhã.
― EBAAAAAAAA!!! Gritaram as duas lá
atrás, ao mesmo tempo.
― Pois é! Disse a Mannu ―
além das histórias temos que comer muuuuuita coisa gostosa né Camila? Esse
sábado também vai ser bem “doce”!
―
É... Zezé, você sabia que eu engordei dois quilos? A mamãe que falou, porque
ela me pesou no domingo passado. Ela até ficou feliz porque disse que eu estava
muito “magrizela” e ela queria que eu engordasse um pouquinho...
―
“Magricela” né Camila?
―
Magrizela, magricela, é isso aí Zezé, foi uma coisa assim que ela falou.
A
Zezé riu pensando no quanto a Camila se parecia com a Mannu no “uso” do poço de
palavras dela.
Chegando em casa, a Zezé ligou para a mãe da Camila
para saber se tudo estava mesmo combinado para o dia seguinte. Ela falou que
sim, que já tinha até pedido para a Mari ficar até mais tarde para ajudar a
Zezé.
As
meninas estavam empolgadas. Só a Dani (aquela que estava com virose no outro
sábado) é que não deu certeza se ia ou não. Enfim, as outras todas tinham
confirmado que estariam lá.
Assim
que amanheceu, a Mannu já pulou da cama e nem esperou a Zezé ir chamá-la como
sempre fazia.
― Oi
Zezé! Disse ela, fazendo a Zezé se voltar assustada.
A
Mannu estava parada, de pijama, na frente dela e ela nem tinha visto a menina
entrar na cozinha, a não ser quando ela falou com a Zezé.
― Hummm... sei. Então venha cá que
a Zezé vai fazer teu café da manhã para acabar com essa ansiedade toda. Nada
como umas frutas e um bom cupcake não?
― Ok Zezé, porque o meu estômago já
está reclamando bastante e ele fica muito barulhento. E eu sinto que ele está
encolhido de fome. Mas eu não estou “ansiosa” não, sabe?
― Ah não?? Ah bom, eu me enganei
então né? Achei que o teu estômago estivesse “com frio” em vez de “com fome”...
― Não Zezé, ele não está com frio
não, ele está quentinho, mas quer ficar mais quentinho ainda, com aquele copo
de leite com baunilha ou com chocolate que você faz pra mim de manhã e que é
bem quentinho, bem gostosinho!
A Zezé foi depressa preparar as
coisas todas para a Mannu, e logo em seguida apareceu a Nina para colocar a
mesa do café da manhã para a família toda que logo estaria ali, principalmente
o Dr. Álvaro que sempre saía cedo no sábado.
Enquanto a Nina colocava a mesa, a
Zezé preparava as frutas da Mannu e o leite diferente que ela gostava de tomar
com o cupcake que ela nunca dispensa. Mas ela gosta também de queijo e iogurte.
Ela não come só cupcake não viu?
Depois de tomar seu café da manhã,
dar um beijo no papai antes de ele sair para o hospital, a Mannu foi direto
para o quarto da mamãe investigar se ela ia na casa da Camila à tarde, para
ouvir as histórias.
A mamãe estava sentada no quarto,
sozinha, e a Mannu já ficou preocupada, pois a mãe nunca se isolava quando
estava em casa. Mannu abriu a porta do quarto devagarinho e colocou apenas o
rosto pra dentro.
― Oi mamãe... Você está dodói?
― Não, meu amorzinho, por que
sempre você pensa que a mamãe está “dodói” quando eu estou quieta, hein?
― Ah... não sei mamãe... eu fico
com medo que aconteça como aconteceu com a mãe da Lívia, sabe?
Ela pegou a filha no colo e fez
com que ela ficasse bem aconchegada no seu peito.
― Meu amor, a mamãe, às vezes fica
só quieta, pensando um pouco, em paz e sem correria perto, entende? É isso que
eu preciso de vez em quando. Lá no hospital já tenho agitação demais, sabe?
― Mas você hoje nem foi tomar café
junto comigo e com o papai...
― É porque eu falei para o papai
que ia dormir um pouco mais... ele não te entregou o beijo que eu mandei?
― Entregou sim, mamãe... então você
não está dodói né?
― Não, meu anjo, não estou, viu? Pode
ficar tranquila.
― E você vai na casa da tia Mel pra
ouvir as histórias que a Zezé conta? O papai disse que vai...
― Vou sim, já combinei com o papai
que lá pelas cinco horas encontro ele lá, tá? Pra vocês terem um tempinho entre
vocês lá, comendo e brincando, depois nós chegamos, só para o final ok?
― Tá certo mamãe! Eu vou com a
Zezé, daqui a pouco. Porque a Camila disse que eu posso ficar brincando com ela
enquanto a Mari e a Zezé fazem as coisas gostosas que elas sabem fazer.
Huuummmm!!! Que bom que você não está mesmo dodói mamãe! Você precisa comer
mais bolo da Zezé, é muito bom pra saúde viu?
― Mamãe!! Você tem medo de virar
uma baleia, e a Zezé disse que não quer virar um “hipo...tó...tamo”, e daí
vocês não comem... Mas vivem falando pra gente comer. E eu vou virar o quê? Um “ridoceronte”??
― KKKKKKKKK! Meu amor, é hipoPÓtamo
ok? E também não é “ridoceronte”, é riNOceronte, certo? E você não vai virar
nem uma coisa nem outra, você vai virar “gente grande” se comer direitinho tá?
― Hummm... e eu sou criança e tenho
que acreditar né? Como diz o papai, porque eu sou pequena e vocês são grandes
já... humpf!! Pois eu vou comer bastante mesmo pra ficar grande logo também...
― Isso mesmo! É assim que você
cresce forte e inteligente! E saiba que não é porque você é criança que tem que
acreditar na mamãe e no papai. É porque a mamãe e o papai NUNCA vão mentir pra
você, é por isso entende?
― É mamãe, mas a Cássia disse que o
pai dela mente pra ela e pra mãe dela também sabia? E o Seu Aurélio então! Ele
mentia sempre pra mãe da Lívia e dizia pra Lívia não falar nada pra mãe dela
senão ele ia bater nela tanto que ela não ia mais escutar e nem ver, já pensou
mamãe?
A Dra. Laura ficou chocada por
ouvir isso da boca da filha. É claro que ela sabia que essas e outras coisas ainda
piores aconteciam em todo canto. Mas a sua filha ter que ouvir e se
preocupar com uma coisa dessas era algo bem diferente. Ela gostaria de poupar a
filha até de ouvir sobre essas coisas, mas percebeu que era totalmente
impossível.
Sua filha era um ser humano que fazia parte de um grupo social e teria
que ouvir e aprender muitas coisas boas e ruins.
Então, sentiu uma espécie de
angústia, uma necessidade de saber como ensinar a filha a ser capaz de
enfrentar a vida com todas as boas e más surpresas que ela carrega. E ela não sabia como fazer isso. De repente
pensou na Zezé e em tudo o que ela havia passado. Abraçou a Mannu com tanta
força que a menina começou a rir e a dizer:
― KKKKKKK!!! Ai, ai ai, mamãe, você
está virando a Zezé agora!! Está me esmagando também! Rsrsrsrs!!
Ela soltou a filha mas não
conseguiu disfarçar a expressão de angústia no rosto. A Mannu, que percebe tudo sempre,
falou imediatamente:
― Mamãe, porque você está com cara
de medo e de quem vai chorar? Você está dodói sim, não está? Eu vou chamar o
papai...
― Não, não... não precisa não meu
amor, a mamãe só lembrou de uma coisa muito triste, foi isso... Mas já passou
tá? Me dá um abraço aqui e vamos lá para o seu quarto. Eu vou trocar sua roupa
porque você não vai assim lá pra casa da Camila tá?
― Tá mamãe... mas você “sarou” do
medo mesmo né?
― “Sarei” sim amorzinho... é... não
era medo, acho... era só uma lembrança ruim tá?
― Tá mamãe. Então vou dizer uma
coisa pra senhora que eu aprendi com a Zezé e funcionou, e você pode fazer
também se você quiser.
― É filha? Então me diga!
― Quando eu estava com frio no meu
estômago de medo de ter que brigar com a Lívia e a Cássia, ela me ensinou que
eu podia contar que eu estava com medo pro Papai do céu! Mamãe... Ele ouviu, de
verdade!! Porque no outro dia eu já não estava mais com muito medo e nem com
frio no estômago pra ir pra Escola sabe mamãe? Eu sabia que Deus estava
cuidando de mim, e que Ele ia me ajudar a ganhar a briga com elas. E eu ganhei
mesmo, de um jeito bem legal, sem precisar brigar mais, e elas são minhas
amigas de verdade agora!
A Dra. Laura olhou para a filha
sem palavras e com um tremendo nó na garganta. Estava ficando difícil de
disfarçar. A Mannu continuou, empolgada.
― Mamãe, porque você não tenta contar
esse “medo ruim” que você lembrou pro Papai do céu... eu tenho certeza que Ele
vai escutar e vai fazer alguma coisa pra ajudar você também.
A médica nem tentou disfarçar
mais, deixou que todas as lágrimas que estavam sendo represadas ali corressem
livremente. Era tanta inocência e sinceridade que ela via no rosto da filha que
não deu pra segurar. Aquilo tinha que ter algum fundo de verdade!
Abraçou de novo a filha e prometeu
que ia mesmo tentar fazer isso, só pra ver se funcionava. Teve que prometer
também que ia contar, depois, qual era o “medo ruim” que ela tinha guardado na
memória que fez ela ficar assustada naquele momento. A Mannu queria muito
saber...









Que emocionante!! Saiu lágrimas dos meu olhos também!!
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