Aquele
domingo estava passando tranquilo; a Zezé tinha ido para a casa da irmã, no
sábado à noite, descansar um pouco, e a Mannu saiu no domingo logo de manhã para
passear com a mãe e o pai. Só que não demorou muito o telefone do papai dela
tocou e era uma emergência; ele teve que deixar as duas no shopping passeando sozinhas e
foi correndo trabalhar.
É
claro que a Mannu começou um beicinho, mas, depois lembrou-se que tinha
prometido tentar “não reclamar” quando o papai tivesse que sair correndo,
porque ela sabia que era alguém que estava precisando muito, assim como tinha
acontecido com a mãe da Lívia.
Então, elas continuaram passeando sozinhas,
foram a um parquinho lá no shopping, viram um filme infantil no cinema e depois
foram jantar. Quando perceberam, já
estava ficando tarde; 10:00 h da noite e o sono já estava batendo na porta.
Resolveram ir para casa e esperar o papai lá.
Quando
chegaram em casa, a Mannu tomou um banho bem quentinho e relaxante; depois a
mamãe foi com ela para o quarto contar uma historinha para ela dormir, porque o
papai tinha ligado avisando que ia demorar mais uma meia hora e a a Mannu não
ia aguentar esperar. Olha só a conversa:
―
Mamãe, eu gosto tanto do domingo, porque no domingo você é mais minha mãe
ainda!
― Como
assim meu amor? “Mais” sua mãe? E nos outros dias sou “menos” sua mãe?
― Não
mamãe!... quer dizer... eu não sei explicar bem. Mas é que, no domingo, você
fica sempre junto comigo, por isso que eu sinto que você é mais minha mamãe
ainda, entendeu?
―
Huuum... sei filha... mas eu não sou menos mamãe só porque eu tenho que
trabalhar nos outros dias meu anjo!
― É...
eu sei mamãe, mas é que quando você fica perto de mim, é muito bom, e eu sinto
que eu tenho uma mamãe bem minha!!
Nesse
instante, a Dra. Laura entrou em mil considerações mentais sobre o “papel da
mulher” na família, na sociedade, na vida, enfim, quase que ela entra em
parafuso, isso sim! Como fazer, nesses tempos modernos, pra conseguir que a sua
filha sentisse que ela continuava sendo “bem mãe dela” mesmo quando tinha que
sair a semana inteira e deixar a filha com a babá, que apesar de ser uma
segunda mãe, de qualquer forma não ocupava o “primeiro lugar” no coração da sua
filha. Coisas muito complicadas que precisamos gerenciar atualmente...
― Não
meu amor!! Não é isso, é que a mamãe ficou preocupada com esse teu sentimento
de abandono nos outros dias da semana... Você não sente que tem uma mamãe “bem
sua” durante a semana? É isso?
―
Ah... é que eu fico com saudade de você quando você chega muuuuito tarde, junto
com o papai, que chega seeeeempre bem tarde. Eu queria que você chegasse um
pouco mais cedo só isso... Nem sempre vocês chegam quando eu estou acordada e
eu não gosto, porque eu queria ver vocês antes de dormir...
A Dra
Laura ajudou a filha a colocar o pijama e escovar os dentes. Nessa hora a Mannu
olhou para a mamãe bem impressionada com algo que ela percebeu.
―
MAMÃE!!! Disse ela ― acho
que o meu dente está mole!!!
― Ah
é?? Que bom!! Você queria tanto isso não? E já está na hora certa mesmo... Deixa
eu ver...
Ela
mexeu no dentinho e confirmou que realmente ele estava se movendo.
― É
verdade Mannu, logo logo ele cai...
Depois
de afastar todos os “pavores” da Mannu quanto ao dente amolecido, a Dra. Laura
acomodou a filha embaixo das cobertas e perguntou:
― E
agora, está gostosinho aí? Caminha macia, cobertorzinho cheiroso, mamãe
pertinho, que tal?
― Está
uma delícia aqui mamãe, eu queria que fosse todos os dias assim, é isso que eu
quis dizer aquela hora, sabe? Quando eu falei do domingo, entendeu mamãe?
― Sim
amorzinho entendi, mas, você sabe que hoje em dia isso é muito difícil, porque
nem sempre a mamãe consegue estar aqui antes de você dormir. Porque tem muito
trabalho lá no hospital e eu não posso simplesmente deixar tudo lá e as pessoas
precisando de mim, entende filhota?
― Eu
sei mamãe... mas ainda bem que foi você quem viu primeiro o meu dente mole né?
Viu que legal? Você estava aqui quando eu descobri essa coisa tão importante
pra minha vida né mamãe?
A Dra
Laura riu da supervalorização que a Mannu deu ao fato de trocar os dentes. Ela
não imaginava que na cabeça da filha aquilo pudesse ter tanta importância
assim, mas depois pensou: “Bem, claro, ela está entrando em uma nova fase da
sua vida” Isso é uma grande novidade para ela.
A mãe
abraçou a filha ali e disse, quase numa “oração” de agradecimento, que Deus foi
muito bom de ter permitido que “ela” visse primeiro o dentinho mole da
filhotinha dela; levando em consideração as suas chances reais, já que quem
passava a maior parte do tempo com a Mannu era a Zezé e não ela.
― Quando
ela disse isso, a Mannu ficou logo eufórica.
A
Doutora ficou meio sem jeito por perceber que não sabia o que responder diante
dessa afirmação da filha. Ficou por uns momentos pensativa, buscando uma saída “digna”
para a situação. Não queria mentir para a filha, e muito menos confirmar que não pensava assim também. Mas também não podia negar que essas histórias sobre o “Papai
do céu” que a Mannu tinha encontrado não saíam da sua cabeça ultimamente. Havia
alguma coisa misteriosa quando a Zezé falava sobre esse Deus que ela não
conseguia explicar nem para si mesma, quanto mais para a filha ou qualquer
outra pessoa.
Tratou
de desviar o assunto e começou a explicar a conversa sobre ser “bem mãe” dela
só no domingo.
― É...
pois é, meu amor, mas o que a mamãe queria muito te explicar mesmo é que eu
estou feliz por ter visto seu dentinho mole antes de todos, e que na verdade,
isso foi muito bom, pois mostra que mesmo que eu não esteja aqui a semana
inteira e o dia inteiro com você, não quer dizer que nós nunca vamos ter
momentos importantes só nossos, entende filhinha? Esse é um deles...
― É
sim mamãe! E eu fiquei “esfuziada” agora pensando que o Papai do céu foi quem
arrumou esse momento só nosso, tudo porque ele sabia que era muito importante
pra mim, viu só mamãe?
― É...
hum hum... bem... eu nem sei se foi isso mesmo meu amor, mas... se você acha
que é assim é porque você acredita que “é” assim... então “é”... não é mesmo?
― É
isso mesmo mamãe!! Você entendeu certinho! Porque a Zezé disse que a fé é
quando a gente acredita em alguma coisa que ainda não pode ver, então essa coisa não está com a gente e ela “não é” ainda, mas é só porque ainda não aconteceu. Mas, se a gente sabe com muita certeza no pensamento da gente que vai acontecer,
então as coisas de repente “são”... elas acontecem...
Essa “filosofada”
da Mannu foi demais para a Dra. Laura. Ela ficou olhando para a filha sem saber
direito se tinha entendido a coisa ou não. Ficou muito impressionada com a
maneira como ela tinha organizado o pensamento, com uma profundidade que não
condizia com a sua pouca maturidade diante da vida. Ela chegou a pensar se a
filha tinha recebido algum “dom” especial desse Papai do céu de quem ela tanto
falava ultimamente.
Ficou
um pouco preocupada com a linha que seu próprio pensamento estava seguindo e
tratou de colocar as coisas em ordem, na “sua” ordem.
― É...
é muito lindo isso que você falou meu amor...mas, eu espero que você tenha
entendido que a mamãe te ama de qualquer jeito, mesmo quando ela não pode
passar o tempo inteiro com você, entende meu anjo? Isso só acontece porque a
mamãe e o papai precisam trabalhar, mas nós não esquecemos de você nem quando
estamos trabalhando sabe?
― Sei
sim mamãe, eu acredito que você e o papai me amam, e por isso, mesmo quando eu
não estou vendo você perto de mim, nem o papai, eu posso lembrar na minha
cabeça que você é minha mãe e que o papai é o meu papai, e que vocês me amam e
vão cuidar de mim sempre, não é? Porque a Zezé falou que é assim mesmo que
acontece com o meu Papai que é lá do céu. Eu também não vejo Ele perto de mim,
mas eu sei no meu pensamento que Ele cuida de mim e me ama também. Ele até me
ajudou com o problema das “inimigas” que agora viraram minhas “amigas perpétuas”,
tá vendo mamãe?
A
médica perdeu as palavras de novo. Parecia que um turbilhão girava em sua mente
trazendo muitas perguntas para as quais ela gostaria de encontrar as respostas.
Porém, sabia que não era a hora e nem era a pessoa adequada, uma criança, que
ia lhe dar aquelas respostas, apesar de um pensamento ter passado pela sua
cabeça como um flash: “ Será que não??”
Enfim,
ela deu um beijo na testa da filha e disse que ela era o maior presente que ela
poderia ter ganhado em toda sua vida.
Nesse instante, as duas ouviram uma porta se abrir e quem era? Isso mesmo, o papai, que tinha chegado a tempo de dar um beijo na filha ainda acordada.
A
Mannu ficou alerta e já queria se levantar, mas a mãe não deixou. Disse para
ela não sair dali para o sono não fugir e afinal, ela sabia que o papai ia
direto lá no quarto dela para dar o beijinho de boa noite. Então ela se
acomodou e esperou o pai entrar no quarto. Ele abriu a porta devagar e entrou achando que ela já estava dormindo, logo viu que ela estava bem desperta.
Depois
que conversaram um pouco e a Mannu contou do dente amolecido, os pais trataram
de acalmar os ânimos da menina que já estava mais do que desperta. O sono tinha
sumido e ela estava querendo sair da cama, mas, nessa hora o papai e a mamãe
não dão chance. É hora de dormir porque senão no dia seguinte, ela não consegue
acordar.
Então
eles contaram uma historinha bem curta para ela e ajeitaram as cobertas dela. Deram
muitos beijinhos de boa noite e apagaram a luz. Ficaram uns momentos olhando a
menina quase adormecida e depois saíram. Estavam muito cansados também.
A
conversa que a Dra. Laura estava pensando em ter com o marido, sobre as
considerações da Mannu, acabou ficando para o dia seguinte, foram todos dormir
pois já era muito tarde.








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