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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sábado, 1 de julho de 2017

MAIS UM FINAL DE HISTÓRIA - CAPÍTULO 84


A mãe e a filha entraram e o empregado voltou para as suas obrigações na Fazenda. Quando a Mannu e a mãe passaram pela cozinha, viram a D. Lídia, de braços cruzados, olhando para fora, muito quieta. A Drª Laura perguntou:



  Que foi Lídia? Pensativa?

A mulher não se voltou de imediato, parecia estar tentando tomar coragem. A Mannu, “perocupada” como sempre, também perguntou:

Aconteceu alguma coisa D. Lídia? Você ficou triste?

A mulher voltou-se devagar e meio sem graça para falar com as duas. E os olhos... cheeeeios de lágrimas também.




As duas se aproximaram, preocupadas com a empregada que estava, a essas alturas, já soluçando também. Fizeram a mulher sentar-se e trouxeram um pouco de água para ela se acalmar para depois poderem conversar.


Depois que a mulher se acalmou e tomou um pouquinho da água, ela começou a se explicar.

“Sab quiequié dotôra? É qui... (snif)... quando eu vi a Mannuzinha falano... coessa doçura toda quiela tem, aquelas coisa bunita... (snif) e aquele marmanjão do meu marido si disaguando todo di tanto chorá, eu fiquei foi (snif) foi... muito da chorosa tamém sab?... parésqui mi subiu o mesm nó na guela qui... SNIF! SNIF...qui o Adão tava falaaaaaano... BUÁÁÁÁÁ!!!!!!!”

E logo estava soluçando alto novamente para o desespero da Drª Laura e o espanto da Mannu, que foi logo tratando de consolar a mulher do jeito que podia.

Não!! Não precisa chorar não D. Lídia, porque você também já é filha do Papai do céu, não é? Porque você já disse que acredita n’Ele também...

“É... snif... eu criditu sim Mannuzinha. É qui eu fiquei ‘mocionada’ dimais da conta di vê o Adão chorano daquele jeitu. Ele num é hómi di chorá não, sab genti? Issé sinar qui ele disimpedrô aquele coração duro qui ele tinha... Eu tô mesmé filiz qui só!!”

A Drª Laura deu um abraço na mulher e falou uma coisa que colocou um sorriso esperançoso no rosto da Mannu.


 
A Mannu ficou olhando para a mãe que percebeu imediatamente que a filha esperava algo mais; foi logo se explicando.

Filhinha... a mamãe está “começando” a considerar essas coisas e, portanto, ainda não estou pronta para fazer o que você disse para o Seu Adão fazer, certo? Aquela história de “declaração da fé” entendeu filha?Deixa eu repensar um pouquinho tudo isso... tenho algumas dúvidas ainda na minha mente... mas... vamos ver como resolvo isso.

Ah mamãe!!! Nem se “perocupe”... A Zezé vai te ajudar a resolver essas dúvidas viu? Porque o meu irmão disse no meu sonho que não pode ter dúvidas... Tem que ter fé! Ele falou que “sem fé” não dá pra agradar o Papai d’Ele... sabia mamãe?  Ele gosta muito mesmo de fé... Mais do que eu gosto de chocolate e de sorvete, e mais ainda do que o papai gosta de café, acredita?

KKKKKK! Sei meu amor... vou me lembrar disso. Mas eu preciso de algo... algo mais... mais... “convincente” do que a Zezé, talvez, sabe? Algo que eu não possa colocar em xeque... ou alguém com quem eu não possa argumentar... sei lá... é tão sério isso! Tão difícil...

Nesse momento a D. Lídia entrou na conversa, até meio assustada.

“Ai Dotôra! Num dig um negósdessi não... Criditi logodumaveiz!!
 
Purque sinão, acuntece pásinhór arguma coisistranh como mi aconteceu naquela história do Adão e do tar “amigu” qui ele trôxe pra casa quela noiti, lembra? Aquela história quieu cumecei contá lá atráis i num terminei...”



A Drª Laura sabia que a Mannu não iria embora dali sem saber o resto do “causo” da D. Lídia, então, ela ainda tentou alertar para que a empregada não exagerasse no realismo se por acaso as coisas fossem meio “esquisitas”demais na história... E a D. Lídia respondeu com sinceridade:

“Ó... eu achu bem isquisitu o qui acunteceu, sim,  mais... dotôra, essas crianss dioji nem si assusta cum mais nada, té nus desenhim delis tem umas coisa... uns bixu feiu... qui faiz medo té nos grandão qui nem nóis. Né não dotôra?”



“Bão... eu vô tê qui contá proceis, purque foi um trem muitistranh mesm... Ceis pricisa sabê cumuessas coisa aconteci... Vô tomá cuidado coas palavra e co floreio tá dotôra?”

Ok... vá lá Lídia, comece, senão não vou conseguir subir pra fazer nossas malas...

“Si preocupi não dotôra, vô lhi ajudá mesm...”

 E a mulher retomou a história de onde tinham parado fazia tempo...

“Bão... cumoceis si lembram, eu disse qui o Adão andava cumas história di saí tuda noiti pa bebê cuns amigu. Eu ficava em casa incasquetada caquilu! I um dii, érum sábadanoiti, i eli diss qui tava ino pa cidadi só um cadim, num ia demorá...”

Hummm.. resmungou a Drª Laura, preocupada com as malas por fazer e  pensando no quanto poderia demorar até ela terminar de contar aquele “causo”.

A Mannu nem piscava, só absorvendo as palavras todas e a maneira diferente da mulher falar. Ela percebia que desde que eles chegaram ali, para passar as fériasa D. Lídia tinha “aperfeiçoado” o seu mineirês que já andava mais suave. Porém, quando ela se soltava e se sentia à vontade com as pessoas, o seu vocabulário se transformava no mais puro mineirês dos confins do município de Itajubá, sudoeste de Minas.

Ela continuou...

Prestenção... eli num saiu dizeno qui vortava logu? Eu fiquei intrigada ca demór do hómi, já ia pa mais di meianoiti bem pa mais... i essi hómi num chegava! I eu na porta oiando a istrada isperano eli aparecê já todo mancueba di tanto bebê.

D. Lídia... interrompeu a Mannu com suavidade... O que é mesmo “mancué... ba”

Ah fiii, discurpi, misqueci quiocê nuintendi mias cunversa doidimais... Mancueba é o messqui “pé torto”, “manco”, sab? Quanduhómi beb qui fica mancano i tontim qui só.

Ah, entendi, andando meio torto né? E depois?

Bão, já era madrugadim quandeli miapareci na porta cum sujeitim mais ‘pédicana’ qui ele ainda...



A mãe da Mannu notou a cara de espanto e dúvida da filha e se apressou em responder para não demorar muito.

Pé de cana filha... uma pessoa que bebe muito sabe?

Ah sim...

Intão... quandeu oiei pas fuça dos dois, ahh, vi logo qui aquelanoiti eu ia minjuriá dimaidaconta... Pa num dizê tudas coisa quieu tava quereno, eu fui logo pa cama. Dexei os dois lá cas bobajada qui elis tavam falano. Aconteci qui nu quarto, eu fiquei tão da injuriada qui num miguentei... cumecei choráááá quiera uma coisdiloco. Quiria mesm era sumí dali mais pensei... proncovô?? Num tinha mesm prondií... Intão chorei mais um tanto, até ficá pingano di sono.


Ao notar a incerteza no olhar das duas, a D. Lídia tratou de explicar.

Assim, sab, com sono dimaidaconta! Quase pin-gan-do de sono, mei caíno já... intenderu?

Ahhh... kkkkkkk, sim, claro, pode continuar Lídia. Disse a médica enquanto a Mannu ria e aproveitava para aumentar o seu poço de palavras com aquelas expressões engraçadas, ela amava escutar tudo aquilo. Ela só precisou perguntar uma coisinha...

D. Lídia... só uma coisa eu não sei se eu entendi certo... o que é “proncovô”?

Ah fiii... é... vô falá direitim agór, na tua língua. É o mess qui “prondiquieuvô”??


 "Iss fiii... Cumeu ia dizeno, eu tava mesm pingano de sono intão incostei um poquim no cabissero, daí...”

Nesse momento, a Mannu nem esperou, interrompeu logo:

E “cabissero”, o que é D. Lídia?

“Uai... é ondiocê põe tua cabecim pa durmi...”


“É... é iss... cabissero, travissero, é isso mesm...”

E ela continuou...

“Bão... dirrepenti, eu tava durminu, ou meio durminu, num sei bem, purque eu tava tão incafifada cos dois caínu di bicudo lá na cuzim... mió... bêbadu... sinão ceis num vão sabê o quié “bicudo” né? Pa nóis, ‘bicudo’ é o mess qui Bêbadu”... Bão, eu tava incafifada, mais muito cansada tamém... purisso quieu digu qui num sei si eu tava mess durminu quandissacunteceu... módi quieu nun tava ssussegadim pa durmi bem durmidu, intenderu?”

Entendemos sim, D.  Lídia, fale logo o que aconteceu que o meu poço de curiosidade tá já transbordando!!! Disse a Mannu, agoniada.

“Intão... eu tava assim meiusonssim, i iscutei uma vóiz muito crara dentro da minha cabeça... Pegue o livro e leia! ... eu abri us zóio, bem abridu mess... fiquei sustada! Purque a vóiz era muito diverdadi, paricia qui tava ali na minha cabeça, quando eu iscutei, sab genti?”


“Bão... eu num tenhu livo ninhum em casa, só uma bríbia qui tava ali do lado da minha cama i queu lia muito diveiz em quando, purque acho difíss dimais... Mais eu peguei e abri num cantu lá, e li... dizia bem assim ó, vô mostrá proceis... é qui a bríbia da Mannu tá ali na sala, vô pegá, um instantim...”

E ela se afastou apressada para buscar a Bíblia na sala enquanto a Mannu e a mãe se entreolhavam muito sérias... Voltou num instante já com a Bíblia aberta no verso que ela sabia quase de cor.

“Ó só... o qui dizia... vô lê divagar purque oceis sab qui num sô muito boa na leitura, mais vô lê certim: Os setenta e dois voltaram alegres e disseram: "Senhor, até os demônios se submetem a nós, em teu nome".



“Mia fiii... eu num intendi foi nadim!!! Daí, cumecei a pensá um poquim... quim era qui tinha falado aquilu? I fui leno lá pa cima da história pa discubri quem tava falano cum quem. I vi qui era us discípru falano cum Jesuis, e era no nome d’Ele (Jesuis) qui os demônio fugia tudim!”

Ah sim... eu sei disso D. Lídia... a Zezé me contou que os demônios sabem que Ele é o Filho de Deus e tremem de medo d’Ele... Tá vendo mamãe? Até os demônios sabem que Jesus existe e que é muuuuuuito Poderoso!!


A médica ficou sem palavras diante da observação da filha. Ela sentia-se ridícula por pensar em crer nas histórias bíblicas mas, nesse instante, lhe parecia mais ridículo ainda NÃO acreditar.


E depois D. Lídia o que a senhora fez?

“Eu num fiz foi NADIM!! Mincolhi di medo ali na cama enquanto iscutava as risadaiada dus bicudo na cuzim... Acuntece, qui eu fechei di novo us zóio e falei pa Deus assim... Ó Deus... eu num intendi bem issu, o quié qui eu faço cuisso?... ouvi mais uma veiz uma vóiz dizeno: Faça isso mesmo! Quascomorro di sustu sab? Purqui era a mesma vóiz di dantis, quieu tinhiscutadu.”



“Nããããão fiii... péra só um cadim qui ocê já vai intendê... Nu quieu iscutei dinovo a tal da vóiz, eu miergui da cam num pulo, foi outro sustu! E cumecei prestátenção nus bicudo na cuzim, qui tavum muito quietu!!! Quédzê! Eu iscutava uma ispéci dum gimidu, cumu si alguém tivessi quereno gritá sem cunsigui... Fiquei incafifada caquilu e fui oiá o qui tavacuntecenu.”

Nesse momento a mulher parou de falar e ficou olhando para as duas como se estivesse, tardiamente, medindo a seriedade do que ia contar.

Aiaiai... sei não si divia tê cumeçado essa história... Achu quioceis num vão criditá não...


“Bão... gór quieu já cumecei né? Vamlá! Criditi ou não, foi issmesmquieu vi quancheguei na cuzim... o Adão tava isticado nu chão, cas mão na garganta i aquela coisincima deli, apertano o pescoço deli... o Adão tava té bateno as perna como si tevessi já sufocano...”


“Aí é quitá dotôra!!! O qui chegô cum ele, quieu já num tinha gostado quanoiei pa cara deli, tinha um zóio istranhdimai... Bão... a cois fica pióinda... eu num via o mesmómi qui chegô co Adão... eu só via uma sombra escura, meio sem forma, assim... cumo si tivessi frutuano pur cima do Adão... mais eu cunsiguia vê bem umas mãozona apertano o pescoss deli... tuduera sombra!”


Desta vez, nem a Mannu conseguiu dizer alguma coisa, só mesmo arregalou os olhos como a mãe. E a D. Lídia continuou olhando firmemente para as duas garantindo que tinha certeza do que tinha visto. Ela não pestanejou em nenhum momento.


A primeira a recuperar a fala foi a Mannu.

E daí D. Lídia, o que foi que você fez?

“Bão! Nu quieu vi aquilo, eu inda tava ca bríbia na mão, e mais ainda cas palavra qui eu tinha lido e ouvido na mia cabess. Eu gritei na mesma hór! ‘Crendiospai!!! Largumeu marido agór mezz, sua coisa feia!!!” A coiz nem si mexeu... quédzê, meio qui si virô pa mim, e eu co coração nus pulo gritei dinovo: Largumeumaridu, coisa feia, em nomi di Jesuis! Iss mezz! O Jesuis fii di Deus qui morreu na cruiz i ti derrotô!!”


“Ah mia fii!! Na mesm hór!!! Sissumiu interim!!”

Como assim Lídia? Sumiu inteirinho? Largou o seu marido e saiu correndo?

“Não, dotôra!! Sumiussi mezzz!! Assim no ar, qui nem candagenti disliga uma televisão, intendi? A sombra disapareceu mezzz”!

Claro mamãe! A Zezé já disse que as “sombras” fogem de Jesus, porque Ele é a Luz do mundo, lembra que eu já falei isso pra você? E foi o Emanuel mesmo que me pediu pra dizer pra você, especialmente, naquele último sonho que eu contei lembra mamãe? 

Isso foi demais para a Drª Laura. Ela olhou para baixo, pensando no que dizer, mas não encontrou palavras, Não queria entrar em nenhuma argumentação com aquela mulher simples e nem com a filha, que acreditava totalmente no que estava dizendo.

A D. Lídia não deixou passar... depois que a Doutora disse que era hora de parar... porque já tinham ouvido o final da história e  tinham que subir para fazer as malas porque  havia muita coisa para arrumar, ela imediatamente pediu licença e falou:

 "Cumlicensss... só uma coisim dotôra, só mezz parrematá a prosa. Nu qui aquela cois sumiu, o Adão abriu o zóio e si levantô, perguntano o quié qui ele tava fazeno ali nu chão. Paricia qui num tinha uma gotim di arco no corpo, cumu si num tivessi bibidu coiz ninhuma. Falava do mess jeitim di sempri, e eu tive qui contá a história toda prele qui num si lembrava di nadim! Foi daí quieu resorvi, sozim mezz, prucurá uma igreja i tentá intendê essas coiz!! I hoji, eu intendu tudim o qui a Mannuzinha fala, né mezz fiii? I tem mais! Eu tava é pidino muito pa Deus fazê o meu maridintendê essas coiz tamém. E pareci qui Eli usô a boquim dessa crianss, a nossa Mannuzim, pra rancá tudu qui tindiruim di dentro deli, puriss qui eli chorô tantu i eu tamém!! Graças ao Deus du céu!"

A Mannu ficou muito feliz e abriu um sorriso, enquanto a mãe ficava mais preocupada ainda, com tudo aquilo que não fazia sentido nenhum pra ela, mas, não era hora de discutir o assunto, não daria tempo, precisavam fazer as malas.



E elas subiram... a Mannu dançando, e a mãe pensando...

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