A mãe
e a filha entraram e o empregado voltou para as suas obrigações na Fazenda.
Quando a Mannu e a mãe passaram pela cozinha, viram a D. Lídia, de braços
cruzados, olhando para fora, muito quieta. A Drª Laura perguntou:
― Que
foi Lídia? Pensativa?
A
mulher não se voltou de imediato, parecia estar tentando tomar coragem. A
Mannu, “perocupada” como sempre, também perguntou:
―
Aconteceu alguma coisa D. Lídia? Você ficou triste?
A
mulher voltou-se devagar e meio sem graça para falar com as duas. E os olhos... cheeeeios de lágrimas também.
As
duas se aproximaram, preocupadas com a empregada que estava, a essas alturas,
já soluçando também. Fizeram a mulher sentar-se e trouxeram um pouco de água
para ela se acalmar para depois poderem conversar.
Depois
que a mulher se acalmou e tomou um pouquinho da água, ela começou a se
explicar.
― “Sab
quiequié dotôra? É qui... (snif)... quando eu vi a Mannuzinha falano... coessa
doçura toda quiela tem, aquelas coisa bunita... (snif) e aquele marmanjão do
meu marido si disaguando todo di tanto chorá, eu fiquei foi (snif) foi... muito
da chorosa tamém sab?... parésqui mi subiu o mesm nó na guela qui... SNIF! SNIF...qui
o Adão tava falaaaaaano... BUÁÁÁÁÁ!!!!!!!”
E
logo estava soluçando alto novamente para o desespero da Drª Laura e o espanto
da Mannu, que foi logo tratando de consolar a mulher do jeito que podia.
―
Não!! Não precisa chorar não D. Lídia, porque você também já é filha do Papai
do céu, não é? Porque você já disse que acredita n’Ele também...
―
“É... snif... eu criditu sim Mannuzinha. É qui eu fiquei ‘mocionada’ dimais da
conta di vê o Adão chorano daquele jeitu. Ele num é hómi di chorá não, sab
genti? Issé sinar qui ele disimpedrô aquele coração duro qui ele tinha... Eu tô
mesmé filiz qui só!!”
A Drª
Laura deu um abraço na mulher e falou uma coisa que colocou um sorriso esperançoso
no rosto da Mannu.
A
Mannu ficou olhando para a mãe que percebeu imediatamente que a filha esperava
algo mais; foi logo se explicando.
―
Filhinha... a mamãe está “começando” a considerar essas coisas e, portanto,
ainda não estou pronta para fazer o que você disse para o Seu Adão fazer,
certo? Aquela história de “declaração da fé”
entendeu filha?Deixa eu repensar um pouquinho tudo isso... tenho algumas dúvidas ainda
na minha mente... mas... vamos ver como resolvo isso.
― Ah
mamãe!!! Nem se “perocupe”... A Zezé vai te ajudar a resolver essas dúvidas
viu? Porque o meu irmão disse no meu sonho que não pode ter dúvidas... Tem que ter fé! Ele falou que “sem
fé” não dá pra agradar o Papai d’Ele... sabia mamãe? Ele gosta muito mesmo de fé... Mais do que eu
gosto de chocolate e de sorvete, e mais ainda do que o papai gosta de café,
acredita?
―
KKKKKK! Sei meu amor... vou me lembrar disso. Mas eu preciso de algo... algo
mais... mais... “convincente” do que a Zezé, talvez, sabe? Algo que eu não
possa colocar em xeque... ou alguém com quem eu não possa argumentar... sei
lá... é tão sério isso! Tão difícil...
Nesse
momento a D. Lídia entrou na conversa, até meio assustada.
― “Ai
Dotôra! Num dig um negósdessi não... Criditi logodumaveiz!!
Purque sinão, acuntece pásinhór arguma coisistranh como mi aconteceu naquela história do Adão e do tar “amigu” qui ele trôxe pra casa quela noiti, lembra? Aquela história quieu cumecei contá lá atráis i num terminei...”
Purque sinão, acuntece pásinhór arguma coisistranh como mi aconteceu naquela história do Adão e do tar “amigu” qui ele trôxe pra casa quela noiti, lembra? Aquela história quieu cumecei contá lá atráis i num terminei...”
A Drª
Laura sabia que a Mannu não iria embora
dali sem saber o resto do “causo” da D. Lídia, então, ela ainda tentou alertar para que a empregada não exagerasse no realismo se
por acaso as coisas fossem meio “esquisitas”demais na história... E a D. Lídia respondeu com
sinceridade:
― “Ó...
eu achu bem isquisitu o qui acunteceu, sim, mais... dotôra, essas crianss dioji nem
si assusta cum mais nada, té nus desenhim delis tem umas coisa... uns bixu
feiu... qui faiz medo té nos grandão qui nem nóis. Né não dotôra?”
―
“Bão... eu vô tê qui contá proceis, purque foi um trem muitistranh mesm... Ceis
pricisa sabê cumuessas coisa aconteci... Vô tomá cuidado coas palavra e co
floreio tá dotôra?”
―
Ok... vá lá Lídia, comece, senão não vou conseguir subir pra fazer nossas
malas...
― “Si
preocupi não dotôra, vô lhi ajudá mesm...”
E a mulher retomou a história de onde tinham
parado fazia tempo...
― “Bão...
cumoceis si lembram, eu disse qui o Adão andava cumas história di saí tuda
noiti pa bebê cuns amigu. Eu ficava em casa incasquetada caquilu! I um dii, érum
sábadanoiti, i eli diss qui tava ino pa cidadi só um cadim, num ia demorá...”
―
Hummm.. resmungou a Drª Laura, preocupada com as malas por fazer e pensando no quanto poderia demorar até ela
terminar de contar aquele “causo”.
A
Mannu nem piscava, só absorvendo as palavras todas e a maneira diferente da
mulher falar. Ela percebia que desde que eles chegaram ali, para passar as férias, a D. Lídia tinha
“aperfeiçoado” o seu mineirês que já andava mais suave. Porém, quando ela se
soltava e se sentia à vontade com as pessoas, o seu vocabulário se transformava
no mais puro mineirês dos confins do município de Itajubá, sudoeste de Minas.
Ela
continuou...
― Prestenção...
eli num saiu dizeno qui vortava logu? Eu fiquei intrigada ca demór do hómi, já
ia pa mais di meianoiti bem pa mais... i essi hómi num chegava! I eu na porta
oiando a istrada isperano eli aparecê já todo mancueba di tanto bebê.
― D.
Lídia... interrompeu a Mannu com suavidade... O que é mesmo “mancué... ba”
― Ah
fiii, discurpi, misqueci quiocê nuintendi mias cunversa doidimais... Mancueba é
o messqui “pé torto”, “manco”, sab? Quanduhómi beb qui fica mancano i tontim qui só.
― Ah,
entendi, andando meio torto né? E depois?
― Bão,
já era madrugadim quandeli miapareci na porta cum sujeitim mais ‘pédicana’ qui
ele ainda...
A mãe
da Mannu notou a cara de espanto e dúvida da filha e se apressou em responder
para não demorar muito.
― Pé
de cana filha... uma pessoa que bebe muito sabe?
― Ah
sim...
―
Intão... quandeu oiei pas fuça dos dois, ahh, vi logo qui aquelanoiti eu ia minjuriá
dimaidaconta... Pa num dizê tudas coisa quieu tava quereno, eu fui logo pa
cama. Dexei os dois lá cas bobajada qui elis tavam falano. Aconteci qui nu
quarto, eu fiquei tão da injuriada qui num miguentei... cumecei choráááá quiera
uma coisdiloco. Quiria mesm era sumí dali mais pensei... proncovô?? Num tinha mesm
prondií... Intão chorei mais um tanto, até ficá pingano di sono.
Ao
notar a incerteza no olhar das duas, a D. Lídia tratou de explicar.
―
Assim, sab, com sono dimaidaconta! Quase pin-gan-do de sono, mei caíno já...
intenderu?
―
Ahhh... kkkkkkk, sim, claro, pode continuar Lídia. Disse a médica enquanto a
Mannu ria e aproveitava para aumentar o seu poço de palavras com aquelas
expressões engraçadas, ela amava escutar tudo aquilo. Ela só precisou perguntar
uma coisinha...
― D.
Lídia... só uma coisa eu não sei se eu entendi certo... o que é “proncovô”?
― Ah
fiii... é... vô falá direitim agór, na tua língua. É o mess qui “prondiquieuvô”??
― "Iss fiii... Cumeu
ia dizeno, eu tava mesm pingano de sono intão incostei um poquim no cabissero, daí...”
Nesse
momento, a Mannu nem esperou, interrompeu logo:
― E
“cabissero”, o que é D. Lídia?
― “Uai...
é ondiocê põe tua cabecim pa durmi...”
―
“É... é iss... cabissero, travissero, é isso mesm...”
E ela
continuou...
― “Bão...
dirrepenti, eu tava durminu, ou meio durminu, num sei bem, purque eu tava tão incafifada
cos dois caínu di bicudo lá na cuzim... mió... bêbadu... sinão ceis num vão
sabê o quié “bicudo” né? Pa nóis, ‘bicudo’ é o mess qui Bêbadu”... Bão, eu tava
incafifada, mais muito cansada tamém... purisso quieu digu qui num sei si eu tava
mess durminu quandissacunteceu... módi quieu nun tava ssussegadim pa durmi bem
durmidu, intenderu?”
―
Entendemos sim, D. Lídia, fale logo o
que aconteceu que o meu poço de curiosidade tá já transbordando!!! Disse a Mannu,
agoniada.
― “Intão...
eu tava assim meiusonssim, i iscutei uma vóiz muito crara dentro da minha
cabeça... Pegue o livro e leia! ... eu abri us zóio, bem abridu
mess... fiquei sustada! Purque a vóiz era muito diverdadi, paricia qui tava ali
na minha cabeça, quando eu iscutei, sab genti?”
―
“Bão... eu num tenhu livo ninhum em casa, só uma bríbia qui tava ali do lado da
minha cama i queu lia muito diveiz em quando, purque acho difíss dimais... Mais
eu peguei e abri num cantu lá, e li... dizia bem assim ó, vô mostrá proceis...
é qui a bríbia da Mannu tá ali na sala, vô pegá, um instantim...”
E ela
se afastou apressada para buscar a Bíblia na sala enquanto a Mannu e a mãe se
entreolhavam muito sérias... Voltou num instante já com a Bíblia aberta no
verso que ela sabia quase de cor.
― “Ó
só... o qui dizia... vô lê divagar purque oceis sab qui num sô muito boa na
leitura, mais vô lê certim: Os setenta
e dois voltaram alegres e disseram: "Senhor, até os demônios se submetem a
nós, em teu nome".
― “Mia
fiii... eu num intendi foi nadim!!! Daí, cumecei a pensá um poquim... quim era
qui tinha falado aquilu? I fui leno lá pa cima da história pa discubri quem
tava falano cum quem. I vi qui era us discípru falano cum Jesuis, e era no nome
d’Ele (Jesuis) qui os demônio fugia tudim!”
― Ah
sim... eu sei disso D. Lídia... a Zezé me contou que os demônios sabem que Ele
é o Filho de Deus e tremem de medo d’Ele... Tá vendo mamãe? Até os demônios
sabem que Jesus existe e que é muuuuuuito Poderoso!!
A
médica ficou sem palavras diante da observação da filha. Ela sentia-se ridícula
por pensar em crer nas histórias bíblicas mas, nesse instante, lhe parecia mais
ridículo ainda NÃO acreditar.
― E
depois D. Lídia o que a senhora fez?
― “Eu
num fiz foi NADIM!! Mincolhi di medo ali na cama enquanto iscutava as
risadaiada dus bicudo na cuzim... Acuntece, qui eu fechei di novo us zóio e falei
pa Deus assim... Ó Deus... eu num intendi bem issu, o quié qui eu faço cuisso?...
ouvi mais uma veiz uma vóiz dizeno: Faça isso mesmo! Quascomorro
di sustu sab? Purqui era a mesma vóiz di dantis, quieu tinhiscutadu.”
― “Nããããão
fiii... péra só um cadim qui ocê já vai intendê... Nu quieu iscutei dinovo a
tal da vóiz, eu miergui da cam num pulo, foi outro sustu! E cumecei
prestátenção nus bicudo na cuzim, qui tavum muito quietu!!! Quédzê! Eu iscutava
uma ispéci dum gimidu, cumu si alguém tivessi quereno gritá sem cunsigui...
Fiquei incafifada caquilu e fui oiá o qui tavacuntecenu.”
Nesse
momento a mulher parou de falar e ficou olhando para as duas como se estivesse,
tardiamente, medindo a seriedade do que ia contar.
―
Aiaiai... sei não si divia tê cumeçado essa história... Achu quioceis num vão
criditá não...
― “Bão...
gór quieu já cumecei né? Vamlá! Criditi ou não, foi issmesmquieu vi quancheguei
na cuzim... o Adão tava isticado nu chão, cas mão na garganta i aquela coisincima
deli, apertano o pescoço deli... o Adão tava té bateno as perna como si tevessi
já sufocano...”
― “Aí
é quitá dotôra!!! O qui chegô cum ele, quieu já num tinha gostado quanoiei pa
cara deli, tinha um zóio istranhdimai... Bão... a cois fica pióinda... eu num
via o mesmómi qui chegô co Adão... eu só via uma sombra escura, meio sem forma,
assim... cumo si tivessi frutuano pur cima do Adão... mais eu cunsiguia vê bem
umas mãozona apertano o pescoss deli... tuduera sombra!”
Desta
vez, nem a Mannu conseguiu dizer alguma coisa, só mesmo arregalou os olhos como
a mãe. E a D. Lídia continuou olhando firmemente para as duas garantindo que
tinha certeza do que tinha visto. Ela não pestanejou em nenhum momento.
A
primeira a recuperar a fala foi a Mannu.
― E
daí D. Lídia, o que foi que você fez?
―
“Bão! Nu quieu vi aquilo, eu inda tava ca bríbia na mão, e mais ainda cas
palavra qui eu tinha lido e ouvido na mia cabess. Eu gritei na mesma hór!
‘Crendiospai!!! Largumeu marido agór mezz, sua coisa feia!!!” A coiz nem si
mexeu... quédzê, meio qui si virô pa mim, e eu co coração nus pulo gritei
dinovo: Largumeumaridu, coisa feia, em nomi di Jesuis! Iss mezz! O Jesuis fii
di Deus qui morreu na cruiz i ti derrotô!!”
― “Ah
mia fii!! Na mesm hór!!! Sissumiu interim!!”
― Como
assim Lídia? Sumiu inteirinho? Largou o seu marido e saiu correndo?
―
“Não, dotôra!! Sumiussi mezzz!! Assim no ar, qui nem candagenti disliga uma
televisão, intendi? A sombra disapareceu mezzz”!
―
Claro mamãe! A Zezé já disse que as “sombras” fogem de Jesus, porque Ele é a
Luz do mundo, lembra que eu já falei isso pra você? E foi o Emanuel mesmo
que me pediu pra dizer pra você, especialmente, naquele último sonho que eu contei lembra mamãe?
Isso
foi demais para a Drª Laura. Ela olhou para baixo, pensando no que dizer, mas
não encontrou palavras, Não queria entrar em nenhuma argumentação com aquela
mulher simples e nem com a filha, que acreditava totalmente no que estava
dizendo.
A D. Lídia não deixou passar... depois que a Doutora disse que era hora de
parar... porque já tinham ouvido o final da história e tinham que subir para fazer as malas
porque havia muita coisa para arrumar,
ela imediatamente pediu licença e falou:
― "Cumlicensss... só uma coisim dotôra, só mezz parrematá a prosa. Nu qui aquela cois sumiu, o Adão abriu o zóio e si levantô, perguntano o quié qui ele tava fazeno ali nu chão. Paricia qui num tinha uma gotim di arco no corpo, cumu si num tivessi bibidu coiz ninhuma. Falava do mess jeitim di sempri, e eu tive qui contá a história toda prele qui num si lembrava di nadim! Foi daí quieu resorvi, sozim mezz, prucurá uma igreja i tentá intendê essas coiz!! I hoji, eu intendu tudim o qui a Mannuzinha fala, né mezz fiii? I tem mais! Eu tava é pidino muito pa Deus fazê o meu maridintendê essas coiz tamém. E pareci qui Eli usô a boquim dessa crianss, a nossa Mannuzim, pra rancá tudu qui tindiruim di dentro deli, puriss qui eli chorô tantu i eu tamém!! Graças ao Deus du céu!"
A
Mannu ficou muito feliz e abriu um sorriso, enquanto a mãe ficava mais
preocupada ainda, com tudo aquilo que não fazia sentido nenhum pra ela, mas,
não era hora de discutir o assunto, não daria tempo, precisavam fazer as malas.
E
elas subiram... a Mannu dançando, e a mãe pensando...





















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