As
duas fizeram as malas rapidamente, entretanto, a mãe em silêncio, analisando
tudo, e a Mannu, lógico, falando mais que um papagaio, com o poço de palavras
em plena ebulição. Quando terminaram tudo, desceram para a cozinha onde a Lídia
já esperava com um café cheiroso, leite quentinho, um prato de pãozinho de queijo,
goiabada feita ali mesmo na fazenda, e um bolo
de laranja que a Mannu gosta muito... e, claro, uma expressão triste
nada disfarçada no rosto.
As
duas sentaram-se à mesa, em silêncio, já com aquela conhecida sensação de despedida
no ar. De repente, de maneira muito diferente de todas as outras vezes, a doutora convidou
a empregada para tomar o lanche com elas. A mulher passou de triste a espantada
e respondeu toda sem graça:
― Sim,
você mesma Lídia. Sente-se aqui conosco para conversarmos mais um pouco e
tomarmos o lanche juntas hoje. Afinal, amanhã cedinho nós duas vamos embora.
―
Isso!! Disse a Mannu animadíssima com a ideia ― Sente
mesmo!!! Sente bem aqui do meu ladinho D. Lídia!!
―
“Quiéiss Mannuzim? Eu num vô minxerí di sentá na mesa cocêis... magine minina???
Nunca! Nunquinha mezz!!
― E
por que não Lídia? Se sou eu mesma que estou convidando você... Vamos, coloque
mais um lugar pra você nessa mesa e sente-se logo aí... disse a Drª Laura para encorajar a
empregada.
A
mulher ficou muito sem graça e se aproximou, colocando timidamente as coisas, bem
devagar, mesmo com a Mannu puxando a cadeira estrondosamente para ela e batendo
no assento quase gritando de tão alto que falava:
― Isso!!!
Isso mamãe! Eu achei essa ideia sua muito legal! Esfuziante mesmo!!! Sente
aqui, D. Lídia, sente, sente, sente!!!
A
empregada não teve outra alternativa a não ser sentar-se ao lado da Mannu,
muito encabulada e olhando para a mesa, sem saber bem o que fazer e nem onde
pôr as mãos.
Logo
a Mannu conseguiu colocar a D. Lídia bem à vontade. Tomaram o lanche e conversaram
animadamente, com a Mannu falando sempre e puxando todos os assuntos possíveis,
numa empolgação que a mãe nem entendia. Mas, sentia-se muito bem vendo a
alegria da filha e da empregada; as duas rindo e falando mais do que comiam.
― “A
sinhór já terminô tudas mala dotôra?” Perguntou a empregada pensando que ainda
teria que ajudar a patroa lá em cima.
―
Já... já terminei sim Lídia. A Mannu me ajudou muito, foi juntando todas as
coisas que eram dela e que estavam espalhadas lá por cima e aqui por baixo.
Tudo em ordem já.
― “Ah
qui bão! Quédzê... bão coisaninhuma!! Fico só matutano como vai sê os meus dia
daqui pa frenti sem oceis puraqui... coisa mais ‘disinxavida’!!!”
A
mãe, mais do que depressa, tratou de responder corrigindo já a fala da mulher,
pois, sabia que ali ia mais um vocábulo pro poço das palavras da Mannu, então,
era melhor que fosse da forma correta.
―
Filha, coisa DESENXABIDA é uma coisa sem graça, aborrecida... entende?
―
“Isss!!! Iss mezz Mannu! É o qui a tua mãe falô, tudo cinzentim e sem gostu!
Sab? Sem graça qui só...”
― Ah
sim! Entendi... é porque você vai ficar sozinha aqui né D. Lídia... E nem vai
ter mais Mannu pra você fazer bolo de laranja né?
Ao
ver os olhos marejados da mulher, a Mannu pulou da cadeira e deu um abraço na
empregada tentando consolar e fazer com que a empregada não chorasse, porque
senão, o poço de lágrimas dela poderia secar, dizia a Mannu.
― É,
fiii... cê tá bem certim... num vô chorá mais não, afinal, oceis ainda vão
durmí mais uma noiti aqui né? I eu num quero estragá a úrtima noiti doceis pur
aqui cum choradêra ninhuma, né verdadi?
A Drª Laura também se manifestou tentando
animar a Lídia que lutava pra não cair no choro de verdade.
― Isso
mesmo Lídia! Acalme-se porque logo, logo, é Natal de novo e estaremos por aqui.
O tempo anda voando tanto que quando chega julho já é hora de ir pensando em
comprar coisas para o fim de ano. No final desse ano gostaríamos de passar mais
de quinze dias aqui com vocês, vamos ver...
A
empregada colocou um sorriso meio amarelinho no rosto e foi tratando de tirar a
mesa para finalizar o seu dia na cozinha. A Drª Laura agradeceu pelo café
gostoso e chamou a Mannu para subirem, ver algumas coisinhas mais e tentarem
dormir mais cedo, pois ela planejava sair antes das 6:00 no dia seguinte, para
pegar uma boa parte da estrada mais tranquila ainda.
Enquanto ela se levantava
para sair, a Mannu pulou no colo da D. Lídia e encheu o rosto sardento da
mulher de beijinhos agradecendo muito pelo bolo maravilhoso de laranja que ela
tinha feito.
Ainda
na porta da cozinha a menina voltou-se para a empregada para dar o tchauzinho
de sempre, com as duas mãos!
Elas
subiram e logo a casa caiu no silêncio. A D. Lídia terminou o serviço na
cozinha e também foi para sua casa para descansar, ansiosa para comentar o dia
com o marido e saber o que ele tinha achado de tudo aquilo.
O dia seguinte surgiu nublado, para fazer jus
a um dia de despedida. Ainda não eram 5:30 e a mesa do café já estava posta,
aguardando a Mannu e a mãe. A fiel D. Lídia estava de plantão ali em volta da mesa,
bocejando de vez em quando, esperando que elas descessem.
Em
poucos minutos, elas surgiram na porta da cozinha, meio sonolentas também, e a
Mannu resmungou um “bom dia” baixinho, sentando-se imediatamente, como se a
cadeira pudesse substituir a cama.
― Bom
dia Lídia! Disse médica com cara de
sono.
― Djiiaa
dotôra! Djiiaa Mannuzim!!
― Bom
dia, D. Lídia... resmungou a menina mais uma vez, deitada nos braços cruzados em cima da
mesa.
― “Cê tá
inda ‘pingano di sonu né criansss?”
― É...
isso... eu precisava dormir mais duas horas e mais uma hora e meia...
―KKKKKKK...
riu a mãe. Não era mais fácil você dizer que precisava dormir mais umas três
horas e meia?
― É...
mas acontece que eu quis dizer assim mesmo... respondeu uma Mannu sonolenta e
quase mal-humorada.
―
“Tadim dess bixim... Tia Lídi vai fazê um chocolatim quentim procê acordá, tá
bão fii?”
―
Ebaa! ― Disse ela, sem muita força e sem
conseguir ainda levantar o rosto dos braços ― Ai
D. Lídia... hoje acho que eu é que estou “disinxa...” espera... “desinxa...- vi
-... epa, “vi” não... BI... hummm... ah!!! Como é mesmo essa palavra?
―
Hein? Perguntou a médica meio desligada também...
― “
Oquieudissionti... di noitchi dotôra... a palavra nóvim da Mannu...
―
Ah... sim... DESENXABIDA... aborrecida, que é como está a Mannu hoje, não é
mesmo filhinha?
― É...
respondeu ela, sem nenhuma intenção de continuar a frase.
―
“Bão, táqui teu chocolatim quentim, tomi logu procê acordá... I proveiti o bolu
di laranjquinda tem sab? I dotôra, fiz uns pãodiqueju pa sinhór levá po dotô i
tamém tem um sacdifruta fresquim qui o Adão já jeitô lá no carrducêis.”
―
Ótimo Lídia! Que bom, ele vai amar quando vir tudo isso!
Depois
do chocolate quentinho, dois pãezinhos de queijo com goiabada e um pedaço do bolo
de laranja, a Mannu já estava falante e totalmente desperta. Pra completar, um
pouco de iogurte, que a própria Lídia tinha feito com o leite maravilhoso ali
da fazenda, acompanhado de morangos em calda, também da fazenda. Pronto,
ressurgiu a Mannu de sempre.
―
Ebaaaa!!! Morango em calda que eu ajudei você a colher antes de ontem não é D.
Lídia?
― “Iss
mess fii... agora coma tudim quissaí tá bão dimaidaconta!”










Tomara que não demore para o próximo capítulo!!
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