Bem, geralmente,
as despedidas têm aquele gostinho de saudade e de lágrimas. E aqui, não foi
diferente, principalmente para a D.
Lídia que já estava se debulhando outra vez. A Mannu deu um abraço bem demorado
nela e prometeu que voltaria logo, porque o Natal já estava bem perto, outra
vez, dizia ela... Perto? É bom nós lembrarmos a nossa Mannuzinha que aqui, na
história, ainda é o meio do mês de janeiro. As aulas da Mannu nem recomeçaram
ainda e ela e a mãe estavam apenas encerrando as férias na fazenda, o pequeno
paraíso deles, para entrarem no ritmo da cidade outra vez.
Depois
de bastante choradeira de todos, muitas recomendações de cuidados na estrada, cuidados
na Fazenda e pedidos de “voltem logo”!! etc... Elas estavam instaladas no carro
acenando pela última vez.
Logo
estavam no portão maior, de saída da fazenda. A Mannu ainda olhava para trás,
de vez em quando, para registrar tudo o que ia ficando e choramingar que eles
deviam morar é na fazenda, isso sim!!! Tudo seria mais gostoso, segundo ela, e isso
seria muito “fácil”. Era só trazer as amigas todas da Escola, ( com as suas
famílias, claro), as professoras, a Orientadora e também a Diretora e montar
uma Escola nova ali na Fazenda, oras bolas... Todo mundo ia amar essa ideia,
ela tinha certeza! Principalmente o papai, que gosta tanto da Fazenda.
A Drª
Laura só “concordava” com as ideias malucas da filha e tentava mostrar como
seria a realidade; para ver se ela entendia que aquilo seria mesmo “impossível”
para eles, pelo menos naquele momento da vida. Com o passar do tempo e o carro
deslizando suavemente pela estrada, que estava muito tranquila, a Mannu foi
sentindo sono de novo, e entre um bocejo e outro, os planos de mudarem-se todos
para a Fazenda foram ficando cada vez mais distantes e a insistência no assunto
já não era tão determinada.
Enfim, a mãe viu uma oportunidade de fugir da
discussão sobre os prós e contras de montarem uma “colônia só de amigos” na
Fazenda, com Escola e tudo, incluindo um hospital para os pais trabalharem
também. Ideias nunca faltavam naquela cabecinha. Felizmente, a “cabecinha”
pensante adormeceu logo e a Doutora se concentrou na estrada e nos próprios
pensamentos.
Na
Fazenda, a vida também voltava à velha rotina. Seu Adão nos trabalhos de sempre
e a D. Lídia arrumando toda a casa, agora vazia, e pensando o tempo todo nas
duas e na falta que ela iria sentir de ouvir mais vozes por ali, principalmente
a da Mannu, uma “crianss ingraçadim dimaidaconta”!
Em
seu trabalho no hospital, o Dr. Álvaro era outro homem nesse dia. Só o fato de
lembrar que as suas “meninas” estavam voltando para casa fazia com que ele
trabalhasse com mais ânimo, mais alegria, brincando com todo mundo. Todos
sabiam que a Drª Laura e a Mannu estavam voltando da Fazenda, só pela expressão
leve e animada no rosto dele.
Na
estrada, a viagem corria tranquila, com a Mannu dormindo no banco de trás e a
Drª Laura com tempo de sobra para analisar tudo o que tinha ouvido nos últimos
dias, da boca da filha e da empregada. Ela ia pensando em tudo e tentando
enxergar as coisas de maneira clara. As últimas experiências ali na Fazenda com a Mannu e o S. Adão tinham mexido
muito com a forma que ela via as coisas espirituais. Ela havia ficado muito
impressionada com o momento em que sentiu aquele perfume enquanto a Mannu orava
na varanda. Ela sabia que sua mente não estava “sugestionada” para sentir
aquilo e portanto não conseguia explicar aquela sensação tão real pela qual ela
passou naquele momento. Ela SENTIU, sim, aquele perfume gostoso. Como explicar
isso?
Já
era fim da tarde quando elas, finalmente, entraram na cidade e a Mannu tinha acabado de adormecer novamente, depois da boa pausa que fizeram para o almoço havia umas quatro horas já. A Drª Laura já sentia uma boa disposição para um lanchinho leve de novo, mas decidiu não parar; feliz só em pensar que iam chegar a tempo de jantar com o marido.
Lembrou-se
da Zezé e ficou preocupada por não ter nem mesmo ligado para ela avisando que
já estavam voltando. Já fazia um bom tempo que não conversava com ela e não
sabia o que tinha acontecido com a visita do ex marido da Zezé. Por que será
que ele tinha aparecido? Depois de tanto tempo... Olhou pelo espelho retrovisor
o sono tranquilo da filha no banco de trás.
De repente, um estrondo enorme
invadiu os ouvidos dela e da Mannu que sonhava com a Lívia e as outras amigas,
e a criança acordou gritando!!
Completamente
aturdida e sem entender coisa nenhuma, a Mannu se sentiu esquisita e muito
tonta, por breves segundos apenas. De repente, quando ia gritar pela mãe, sua
mente apagou de novo e ela não viu mais nada.
Na
rua, muita gente assustada, gritando e correndo para o carro que estava quase
debaixo de um caminhão que havia desrespeitado um sinal, cortando a frente do
carro da médica. Uma das pessoas, imediatamente ligou para o resgate, enquanto
outros tentavam ver quem estava dentro do carro e se estavam em condições de
sair por si mesmos. O motorista do
caminhão, saiu logo, sem muitos ferimentos e muito assustado com o que tinha
provocado. Não sabia ainda a dimensão do acidente.
As
pessoas viam a Drª Laura caída um pouco de lado, com um dos lados da cabeça
sobre o volante, o braço esquerdo pendente ao lado da perna. Houve falha no
acionamento do airbag. Atrás, notaram a criança que parecia dormir com a cabeça
apoiada no travesseiro e com o cinto bem colocado. Muitos tentaram abrir a
porta do carro mas ninguém conseguia. Logo chegou o resgate e começaram a
trabalhar para tirar as duas dali.
No
hospital, o Dr. Álvaro seguia trabalhando, animadamente, mas com certa
ansiedade pois já estava contando os minutos para receber a ligação da mulher
avisando que já estavam em casa, já era hora.
Essa
ligação da esposa não vinha nunca e ele não sabia se era apenas empolgação ou
preocupação, mas algo tirava o sossego do seu coração. Até que ele ligou para o
celular da mulher e não teve resposta. Algo no seu interior começava a se
contrair como se ele sentisse uma mão apertando diretamente o seu coração. Por
que ela não atendia se o carro era bem equipado, tinha bluetooth etc, e eles
sempre se comunicavam quando ela estava para chegar de alguma viagem? Isso era
muito incomum.
Assim
que ele se levantou, muito inquieto, da cadeira em sua sala, ele viu a porta se
abrir rapidamente e a sua secretária, muito pálida, tentando dizer, pausadamente,
que recebera uma ligação avisando sobre um acidente na entrada da cidade e que
o número do hospital, fora encontrado na bolsa da Drª Laura. O médico ficou tão
aturdido que não conseguiu associar as coisas rapidamente.
Demorou
alguns segundos para o médico conseguir se manifestar... não antes de sentar-se
ali mesmo no chão, sem forças.
Ele
não sabia mais o que dizer; tudo se misturava em sua cabeça; a sensação
estranha que ele vinha sentindo desde que entrara na sua sala, o aperto forte
no peito... Em poucos segundos, a frieza médica, tão necessária para que o
raciocínio funcione nesses momentos, tinha evaporado. Ele só conseguia pensar na
Mannu e na mulher, com o coração aos pulos!... Como estariam elas? Que tipo de
acidente, grave, ou não? Queria perguntar, mas não tinha nem mesmo coragem pra
isso. Olhou para a secretária com olhos de quem queria que ela respondesse
mesmo sem que ele perguntasse. No entanto, em seu interior não queria saber,
realmente. Não estava preparado para aquilo de jeito nenhum!
A
secretária falou mesmo assim:
―
Doutor, o resgate já chegou lá, já tiraram a Doutora de dentro, mas... ainda
falta tirar a Mannuzinha. Eles chegaram bem rápido, sabe? O trânsito não estava
pesado...
Nesse
instante, a mulher explodiu em lágrimas e completou:
Foi a
primeira verdadeira oração que saiu da alma tão cética do médico, agora
sentindo-se totalmente impotente, com dificuldade até para respirar sozinho. Apenas
em pensamento, ele teve forças para pedir o socorro de um Deus em quem ele
nunca pensara muito bem antes. Ultimamente, talvez, depois de toda a mudança
que a Zezé provocara na vida da Mannu e na deles com aquelas reuniões de todo
sábado, ele havia considerado a hipótese de existir mesmo esse Deus que a filha
e a Zezé sentiam com tanta facilidade. Porém, isso era ainda algo muito
distante para ele, escondido atrás de montanhas de raciocínios lógicos que
invadiam a sua mente todos os dias.
Juntou
as forças dele, pedindo as da secretária também, para poder se levantar de onde
estava e fazer alguma coisa, afinal ele sempre fora um homem de “ação”, e ação
rápida.
No
local do acidente, as coisas caminhavam rapidamente, todos trabalhando com
muita eficiência. A Drª Laura já estava acomodada em uma maca, inconsciente,
mas já tinha recebido os primeiros socorros. Estavam terminando de resgatar a
Mannu, depois de terem que abrir, com uma furadeira, a porta emperrada para a
passagem dela. Cortaram o cinto e puxaram a menina com todo cuidado.
No
hospital, assim que o Dr. Álvaro pegou o endereço deixado pela pessoa que
telefonou, ele se preparou para sair, pegando tudo o que podia lembrar que seria
necessário nesses casos, sem nem mesmo levar em conta que não ia precisar de
nada pois o resgate já estava lá bem antes dele. Sabia, ele mesmo, que não
estava pensando direito, mas, sentia necessidade de fazer alguma coisa.
Quando
ia pegar as coisas da mão da sua secretária, outra médica entrou avisando:
Apenas
alguns segundos se passaram; e na mente do médico parecia um momento em câmera
lenta, alguns anos saltaram do seu inconsciente para a sua memória como um
relâmpago. Ele relembrou anos de convivência em milésimos de segundos. Com o
coração desordenado, perguntou, com muito medo da resposta:
Ele
largou tudo ali e disparou para o elevador do hospital, agradecendo a um Deus
que ele, agora, esperava que existisse mesmo e que, realmente, cuidasse da vida de todo mundo. Pela primeira
vez, sentiu bem fortemente que a medicina era, sim, limitada. Sentia pavor de
pensar em que estado poderia estar sua esposa, já que a filha, aparentemente,
estava bem, mas sabia que a esposa tinha sido levada diretamente para o centro
cirúrgico, o que não indicava pouca coisa. Preferia ir ver com os próprios
olhos e esperava, principalmente, que fosse um caso em que a medicina tivesse
domínio total.
A
médica indicou, primeiro, o quarto em que estava a sua filha, na ala
pediátrica, e ele entrou correndo, ansioso pra pegá-la no colo e abraçar bem
forte. Depois teria que correr para o centro cirúrgico. Só queria acalmar a
Mannu o quanto antes. A cena que viu, foi muito reconfortante! Ela estava
chorando sim, mas, com apenas um pequeno curativo na testa e rodeada de
enfermeiras, brinquedos e muito carinho.
Ele
correu para abraçar a filha e não enxergou mais ninguém por ali... nem mesmo a
boneca que estava ao lado da Mannu, na cama; sentou-se em cima dela sem nem
notar.
Só
depois de algum tempo é que ele teve consciência para agradecer às meninas que
estavam fazendo companhia pra sua filha, tentando distraí-la enquanto ele não
chegava. Pediu que elas continuassem ali com a Mannu, enquanto ele ia ver a
esposa. Obviamente a Mannu recomeçou, de imediato, a choradeira.
―
Papai!!! Eu não vou ficar aqui com elas, eu preciso ir ver a minha mamãe.
Quando tiraram ela do carro, ela estava de olho fechado, igualzinho como estava
a mãe da Lívia! Ela nem falou comigo!! Eu acordei logo, mas ela não papai!! Ela
deve estar muito dodói, eu sei disso!!! Eu quero ir junto com você!!!
BUÁÁÁÁÁÁ´!!!
Ele
pegou a filha no colo novamente e explicou, com muita calma, quais eram os
procedimentos no hospital e lembrou que a mãe tinha sido levada para o centro
cirúrgico, porque, provavelmente, eles iam deixar ela dormir um pouco enquanto
viam se estava tudo em ordem com ela. E, afinal de contas, ela era uma menina
que sabia que não poderia entrar com ele na sala de cirurgia, porque precisava
muito cuidado, etc... etc... Depois de algum tempo, ela se acalmou e concordou.
Antes
de passar pela porta, ainda voltou-se para dar um tchauzinho para a filha,
tentando garantir que a situação estava sob controle. Mas, por dentro, ele
estava se sentindo como uma torre de areia, muito mal construída, que logo
desabaria, por qualquer vento ou qualquer movimento mais forte.
Saiu,
com o coração pesado e o passo apressado para descobrir se o seu mundo ainda teria
as mesmas cores dali em diante.















































