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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

domingo, 25 de junho de 2017

TERMINANDO UMA HISTÓRIA - CAPÍTULO 83


Ao ver a mãe se debulhando em lágrimas e o Seu Adão com os olhos transbordando também, a Mannu pensou que tinha feito tudo errado, porque não entendia por que os dois choravam daquele jeito. Ela tentou contornar a situação falando com muito cuidado e carinho aquilo que vinha na sua cabeça, sem pensar muito.


O homem nem pensou duas vezes, foi para o lado da criança e ficou ali esperando o que poderia acontecer em seguida. Sentia que devia levar muito a sério o que ela dizia e não conseguia, de maneira alguma, explicar por quê. Só sabia que no seu interior algo havia mudado e ele sentia-se diferente, embora a conversa tivesse sido até normal; levando em conta que ele não suportava falar no assunto. Na verdade, para ele, parecia que uma carga muito pesada tinha sido removida dos seus ombros.

A menina colocou os braços em volta da mãe e do empregado e pediu pra fazer uma “oraçãozinha”, só pra eles pararem de chorar... é claro que ninguém se opôs, nem tinham condições para isso.


E ela começou, do seu jeito infantil e com um tom de muita sinceridade na voz:

MEU PAPAI DO CÉU... EU ESTOU AQUI COM A MINHA MÃE E COM O SEU ADÃO QUE ESTÃO CHORANDO MUITO, PORQUE... BOM!... É... EU NÃO SEI BEM POR QUE, MAS EU SEI QUE ELES ESTÃO COM ALGUMA TRISTEZA LÁ  NO CORAÇÃO DELES.

O SEU ADÃO ESTÁ GUARDANDO UMAS COISAS MUITO TRISTES E ESCURAS LÁ NO POÇO DO PASSADO DA VIDA DELE POR CAUSA DO PAI DELE QUE ERA MUITO MALVADO PRA ELE... E ESSAS COISAS FEIAS ESTÃO SAINDO DO LUGAR DAS SOMBRAS PRA ATRAPALHAR O LUGAR DOS BRILHOS QUE ELE TEM NO POÇO DA MEMÓRIA DELE. A MINHA MAMÃE TAMBÉM TEM UNS MEDOS E UMAS SOMBRAS DENTRO DELA QUE DEIXAM ELA TRISTE... E ÀS VEZES, ELA CHORA E FICA COM MEDO DE ME PERDER, PORQUE ELA SÓ TEM EU DE FILHINHA, E ELA NÃO PODE MAIS TER BEBEZINHO, SABE PAPAI DO CÉU? E EU SEI QUE ELA PENSA QUE EU POSSO VIRAR ESTRELINHA COMO A FILHINHA DA ZEZÉ, A JULLIETE,  QUE FOI MORAR AÍ NO CÉU COM O SENHOR. MAS A MINHA MÃE PENSA QUE O CÉU É MUITO LONGE E ELA ACHA QUE SE EU FOR EMBORA DAQUI, ELA NUNCA MAIS VAI ME VER... 

EU QUERIA PEDIR QUE O SENHOR MOSTRASSE PRO SEU ADÃO E PRA MINHA MAMÃE, QUE AS COISAS SÃO MUITO “MAIS BOAS” DO QUE ELES PENSAM... QUE O CÉU É MAIS PERTO E QUE O SENHOR TAMBÉM VIVE BEM PERTINHO DA GENTE, DENTRO DO NOSSO ESPÍRITO QUE NÃO MORRE NUNCA! 

E EU QUERIA MUITO QUE O SENHOR AJUDASSE O SEU ADÃO E A MINHA MAMÃE A FAZER AS SOMBRAS DO POÇO DA MEMÓRIA DELES VIRAREM “BRILHOS,” PRA NÃO ESCURECER MAIS OS OLHOS DELES QUE EU JÁ APRENDI QUE SÃO A JANELINHA DA NOSSA ALMA NÉ? 

EU TAMBÉM QUERIA PEDIR QUE O SENHOR, POR FAVOR, MANDASSE O MEU IRMÃO AQUI UM POUQUINHO, SÓ UM POUQUINHO MESMO, E TAMBÉM O ESPÍRITO DO SENHOR, O CONSOLADOR, PORQUE ELES ESTÃO PRECISANDO DE COLO PRA TRISTEZA DELES IR EMBORA PRA SEMPRE, SABE? É BEM RAPIDINHO... PORQUE EU ME LEMBRO QUE QUANDO EU ESTAVA TRISTE E FIQUEI NO COLO DO MEU IRMÃO, A TRISTEZA FOI EMBORA MUITO RÁPIDO, ASSIM NUM “PUFFF”! 

SÓ MAIS UMA COISINHA, EU QUERIA DIZER PRO SENHOR QUE EU FALEI PRA MINHA MÃE QUE O MEU IRMÃO, JESUS, É A LUZ DO MUNDO. MAS ELA PRECISA QUE O SENHOR MOSTRE PRA ELA QUE ISSO É VERDADE, PORQUE ELA É MUITO “MÉDICA” E POR ISSO, ÀS VEZES ELA NÃO CONSEGUE ENXERGAR ESSAS COISAS PRA ACREDITAR... ELA AINDA NÃO SABE ACREDITAR DIREITO...

PAPAI DO CÉU MUITO OBRIGADA PORQUE O SENHOR ESCUTOU TUDO ISSO QUE EU DISSE E O SENHOR SABE QUE EU, ÀS VEZES, FALO MUITO MESMO... MAS EU OREI TUDO ISSO EM NOME DE JESUS, ENTÃO EU SEI QUE O SENHOR JÁ OUVIU. AMÉM!

Depois dessa longa oração, a Mannu abriu os olhos um pouco preocupada ainda com os dois, pois enquanto ela orava, os dois choraram mais ainda e ela quase abriu os olhos pra ver o que é que estava acontecendo ali, afinal, pois eles eram “uma gente grande” e estavam chorando muito mais do que crianças...




Com muita luta, os dois se controlaram e tentaram explicar o que é que estava acontecendo. O primeiro a falar foi o Seu Adão, porque a Drª Laura ainda lutava para controlar os soluços.

“Bão minha criança... eu... é... sab, inquanto qui ocê cunversava aí cum Deus, eu, eu num consigui mi aguentá não! Purque mi subiu um ‘trem’ forti dimais da conta aqui pra cima do meu peito no rumo da guela, i eu cabei soluçando qui nem um mulequi...  mais tem mais uma coisqui eu achei foi istranhu mesm...”

Ah é Seu Adão? E o que foi que o senhor achou assim tão estranho? Além da minha oração ser beeeeem comprida... é que o meu poço de palavras começou a “ferver” uma hora e eu achei até que não ia conseguir dizer todas as palavras, porque elas subiam muito depressa pra minha boca sabe?

“Bão, criança, tevi uma hór, qui o cê tava pidino pro Fiii de Deus dá uma chegadim aqui, i eu cumecei a sinti um prefume tão bão e tão... diverdadi, sab? Assim cumu si arguém tivessi passado bem du meu ladim, aqui ó... uma pessoa muito da cherósa sab? chega a mi arripiá tudim quandmialembru...”

Nesse instante, as duas, Mannu e a mãe, fizeram uma cara de espanto misturada com alegria.


Nesse instante, a Drª Laura atropelou as palavras para dizer o mais rápido que ela conseguiu:

Seu Adão!! Mannu!! Isso não é possível não! Eu não acredito!!!

Como assim mamãe? O que não é possível?

Não!!! Não é possível mesmo, acho que agora Mannu,  você conseguiu me deixar preocupada de verdade!!


A mulher precisou até reunir as forças para poder falar...

Filha... acontece que... gente, isso não é possível mesmo!

Mamãe, fala!! O que que não é possível? Agora sou eu que to ficando “perocupada”!!!

Bom... filha, e Seu Adão, é que... acontece queeee... eu TAMBÉM senti esse tal perfume que o senhor falou... tão real que eu cheguei a abrir os olhos para ver se alguém tinha se aproximado daqui, a Lídia ... quem sabe, sei lá... Como não vi ninguém, procurei olhar ali no jardim se não eram os pés de jasmim... acontece que desse lado da varanda, não temos jasmins plantados... E a Mannu fala sempre que esse “irmão” dela é tão perfumado! Não entendo mais nada! Se fossem os jasmins do outro lado da varanda eu já teria sentido desde o início, quando sentamos aqui, tenho o olfato muito apurado...

A Mannu explodiu de alegria e batia palmas e ria e gritava como nunca!!


Mamãe!!! Que maravilha!!! Seu Adão! o senhor também sentiu!!! Isso é muito, muito, muito, muuuuuuuito lindo!!!!! Eu estava sentindo também, mas como eu sempre sinto não achei que vocês também podiam sentir!! Mamãe, você entendeu?? O meu irmão esteve mesmo aqui! Ele passou por aqui rapidinho como eu pedi!! Tá vendo mamãe? Como é verdade? Podem procurar aí dentro de vocês que vocês não vão mais achar a tristeza e as sombras, porque Ele já levou tudo embora...

E de fato, tanto o homem simples quanto a “doutora” se sentiam leves, diferentes, como se tudo estivesse mais alegre em volta deles. A médica, por via das dúvidas, ainda foi analisando as coisas por mais tempo sem se pronunciar... Mas, muito impressionada com tudo aquilo.

A Mannu, que já estava bem orientada pela Zezé, foi logo falando para os dois.

Mamãe e Seu Adão, agora que vocês já sentiram Jesus passando bem pertinho aqui, e já sentiram até o perfume delicioso que Ele tem, vocês já sabem que Ele existe mesmo, só falta vocês falarem isso pra Ele, porque daí Ele vira irmão de vocês também, e Deus vira o Pai do céu de vocês.  A Zezé disse que é preciso fazer isso e que isso se chama uma "deca...ração... Não, espera... "de-CLA-ração de fé"... E é Jesus mesmo que quer que a gente faça assim, porque Ele diz lá na Bíblia d'Ele que se alguém "confessar" ou deca... DECLARAR isso diante das pessoas, Ele também ( o Jesus) vai DE...CLA...RAR essa pessoa diante do Pai d'Ele que é Deus... entenderam?

Eu intendi sim fiii... i óia, si for só priciso criditá nele pra isso queocê falô acontecê, intão pramim, já acunteceu! Purque, nusss!! O prefume era muito di verdadi sim, eu sinti bem, i era um prefume muito do bão tamém... Eu cridito sim, viu fiii?!! Eu decraro qui Ele é meu Pai, intão eu já sô fiii d'Ele, némesm?

É!!!! É sim Seu Adão!!! Yupiiii!

A menina ficou muito feliz e se levantou em cima do banco para dar um abraço no empregado que ficou todo desconcertado, se encolhendo todo, mas muito feliz também!
 

A mãe da Mannu estava tão impactada com aquela experiência estranha que não conseguia parar de sorrir, contudo, não expressou uma certeza de nada, embora no seu interior, ela soubesse que algo havia mudado.

Para encurtar a história que já se prolongava muito ela falou:

Seu Adão, que bom que o senhor está se sentindo assim, eu fico feliz pelo senhor. E não deixe mais essas historias do seu pai atrapalhar a sua vida com a Lídia que é uma pessoa muito especial para mim, certo? O senhor também, é um homem de muito valor e merece ser feliz, sabe?

O homem agradeceu,  todo tímido...

“Muitubrigadu dotôra!!! A sinhór tamém mereci tudafilicidadi dessi mundo sab? Deus qui lhi abençoi tamém!! E, olhando para a Mannu, que continuava no colo dele, agarrada no seu pescoço, ele falou com um carinho renovado pela criança.

Vam descê fiii... quieu to tudsuj do trabaio sabe Mannuzinha, i eu nun quero quiocê si suji também na minha rôpa sab? Brigadu procê tamém minha fiii... ocê nem faiz ideia di cumé qui eu to mi sintindo tão mió agór...

Isso é muito bom Seu Adão!! Agora, o senhor não precisa mais se “perocupar” quando a tristeza quiser voltar. É só o senhor lembrar que o senhor tem um irmão e um pai também que escutam o senhor, qualquer hora, de noite ou de dia ou de madrugada... Daí o senhor pede pra eles levarem a tristeza ou a “perocupação” embora. Eles sabem onde jogar essas coisas, sabe? 

O homem olhava impressionado para a menina enquanto ouvia a Drª Laura dizer.

Vamos entrar minha filha, temos que arrumar as nossas coisas para irmos embora amanhã bem cedo viu? E ainda tem uma história que a Lídia vai terminar de nos contar, tá lembrada filha?

Huuum... é mesmo mamãe! Depois vou perguntar pra ela o final daquela história esquisita.

A médica olhou para o empregado lembrando que ele fazia parte da história, e para não dar margem para mais uma conversação demorada, perguntou:

O senhor vai estar por aqui amanhã cedo não é mesmo Seu Adão?

“Vô sim dotôra! Vô tá aqui ‘renti qui nem pão quenti’ pa lhi ajudá a colocá os ‘trem’ doceis tudo nu carro”. Tá bão?

Ótimo Seu Adão, então bom restante de tarde para o senhor... Vamos Mannu!

Inté, dotôra!! Tchau Mannu! Vorti logo qui a Lídia senti muita farta do cê sab? I eu tamém... i o Pinoti tamém! completou ele olhando para a Mannu que não escondia o sorriso de alegria.








sábado, 17 de junho de 2017

E A HISTÓRIA CONTINUA... – CAPÍTULO 82



O homem retirou-se para o outro lado da varanda onde a sua mulher esperava com o prato dele pronto e o dela também. Os dois comiam em uma mesa ali ao lado da cozinha, na varanda, e se a Drª Laura e a Mannu precisassem de qualquer coisa ela estava por perto e pronta a atender. A médica insistia em que os dois almoçassem na mesma hora em que ela e a Mannu comiam, para que os dois pudessem conversar aproveitando aquele tempo em família e, lógico, também para comerem tudo bem quentinho e não com aquela sensação de “comida requentada”.

Ele sentou-se, olhando o prato e também o vasinho de flores que não faltava na mesinha deles, em todas as refeições. A esposa aproximou-se, um pouco ressabiada, olhando de lado, mas logo estava tranquila ao perceber um meio sorriso desenhado no rosto do marido que ainda não tinha começado a comer.

“Vai cumê não hómi? Vai ficá oiando o prato coesse risim bobo aí na cara?”

Ele olhou pra ela e sorriu abertamente, para o alívio total da mulher que pensava que ele estava furioso com ela por ter falado demais com a patroa e a Mannu.


 Tanto ele quanto a Mannu comeram “rapidinho,” ansiosos para continuarem a conversa. A Drª Laura que sempre insiste para a Mannu comer e falar menos, nem precisou se preocupar com isso. A menina comeu direitinho com a mãe segurando a euforia dela para terminar logo.

Mannu, por favor, nada de engolir inteiro hein filha? Lembre-se que é preciso mastigar bem para ajudar a digestão...

Tá bom, mamãe, eu estou mastigando bem, quer ver? E abriu a boca cheia de comida na frente da mãe.

A mulher fechou os olhos com a mão no rosto, rindo, mas depois, falou muito seriamente.

Não filha!! Não quero ver não!! Feche essa boquinha por favor! Mannu!! Você sabe que isso é horrível, não sabe?



A menina riu muito e continuou mastigando com toda a “finesse” que conseguiu arrumar, porém, volta e meia começava a rir da cara de horror que a mãe tinha feito. Foi difícil fazer a menina levar a sério a advertência.


Assim que terminaram o almoço, a Mannu pediu que a mãe fosse com ela chamar o S. Adão, afinal, ele tinha que ouvir o que ela ainda precisava falar pra ele.

Filha, tem certeza? O pobre do S. Adão nem sequer vai descansar no almoço dele...

Mamãe, se ele não jogar fora dele aquela lembrança ruim e a raiva que ele ainda sente do papai dele, não vai adiantar ele descansar nem um ano inteirinho, sabia?

A mulher olhou espantadíssima para a filha achando aquela opinião adulta demais para sair da boca de uma criança de quase sete anos...


ÉÉÉ... pois é né filha? É isso mesmo... mas porque você chegou a essa conclusão tão... tão...

Tão de gente grande mamãe?

É filha... é isso mesmo!

Bom, mamãe, eu não sou muito grande ainda, mas eu me lembro que comigo era assim também. Quando eu tinha raiva e tristeza das coisas que a Lívia e a Cássia me faziam, eu não tinha vontade nem de fazer a tarefinha da escola. E eu não tinha vontade nenhuma de ir pra Escola, eu ficava sempre cansada e com dor de estômago, lembra? E eu fico pensando: Se eu, que tenho o estômago bem menor do que o do S. Adão, sentia tudo aquilo de dor, imagine ele, com o “estomagão” que ele deve ter... porque ele é muuuuito mais comprido do que eu.

A mãe estava muito impressionada com o raciocínio da menina, mas não pode deixar de rir da ideia que ela tinha de “tamanho da dor.”

Filhinha, você é incrível! A dor não depende do tamanho do órgão afetado, depende do tamanho do dano causado nesse órgão, ou nem isso... da sensibilidade... enfim... não importa mesmo, dor é dor, e tem que ser tratada não é mesmo?

É isso mesmo mamãe! Quando ele aprender a colocar a lembrança ruim no lugar certo ele vai sarar de tudo, até da raiva...

A mulher olhou séria para a filha e achou que realmente era importante que ela terminasse aquela conversa com o S. Adão, pois elas iriam embora no dia seguinte e tão cedo não haveria outra oportunidade para os dois resolverem aquele assunto tão sério.

As duas chamaram o S. Adão que nem tinha saído da varanda, ansioso para continuar a conversa com a criança. Dessa vez, a mãe resolveu ir junto para ouvir o que a Mannu tinha para dizer naquele caso tão complicado. Sentaram-se em um banco em outro canto da varanda.



A Mannu imediatamente retomou a história de onde havia parado antes do almoço.

Seu Adão, o senhor lembra que eu estava falando pro senhor que Deus pode ser Pai da gente, pode ser irmão e pode ser também “Consolador”?

“É sim, minha criança, eu milembro sim...”

Então, foi Deus mesmo que me disse isso quando Ele veio falar comigo no meu sonho como se fosse meu irmão... aliás Ele é o meu irmão, sabe?

“É... pelo quiocê diz né minha criança, mais... mispliqui cumé quiocê intendeu isso...”

Ah, é fácil Seu Adão, quando eu estava muito triste porque eu estava precisando muito de um irmão, foi daí que eu sonhei a primeira vez com Ele... Aliás, não foi bem assim, foi na noite que eu aprendi a orar, com a Zezé. Eu orei e falei tudo o que eu estava precisando pra Deus... Depois disso eu tive o sonho que o Emannuel veio falar comigo e me disse que Ele era o irmão que eu tinha e que eu também tinha mais um “pai”, que é o Deus que mora láááá nas “altas alturas” e que é o pai do Emannuel também... por isso que Ele é meu irmão.


É... isso mesmo Seu Adão, o senhor entendeu direitinho... Ele mora no céu, mas Ele precisava descer aqui na Terra pra arrumar umas coisas que saíram errado, e como Ele não podia descer naquela hora mesmo, Ele mandou o Filho d’Ele que é o Emanuel, meu irmão, e que ficou mais conhecido aqui na Terra com o nome de Jesus, sabe? Aquele Jesus bebezinho que a gente vê em tudo que é cartão de Natal, lembra Seu Adão?


A mãe da Mannu tentou se interessar mais pelo assunto e começou a explicar para a Mannu o que era o “istáubulo” do Seu Adão. Ela estava procurando participar da conversa nessa altura da situação, pois já estava calada havia muito tempo.

Filha, o Seu Adão quis dizer: “estábulo”, que é onde fica o gado para não dormir na chuva, no frio, entende? Lá tinha uma manjedoura e a mãe de Jesus colocou o bebê para dormir no feno, quentinho.

Ah sim, mamãe! É a casa onde as vacas e os bois dormem então?

É... isso... um lugar para eles se abrigarem.

Eu não sabia que você conhecia a história do meu irmão, você nunca me falou d’Ele mamãe.


 Novamente a médica ficou espantada com a resposta da filha, e desta vez, o caseiro também se manifestou de uma maneira que ela nunca esperou.

Pois sab, fiii... qui eu mesm sempre ouvi essas história da boca da minha mãe. I eu até acriditava... o Natar er sempri uma festa qui ela gostav dimais da conta. I eu também... Só qui com as bebedêra do meu pai, ele cunsiguia estragá os nosso Natar tudim... intão, nóis paramo di comemorá a data, ficô um diii assim, iguar quarqué otro sab?


O homem ficou por uns minutos cabisbaixo, e em seguida disse para a menina.

“Sab, criança, quandocê fala, as coisa parece mi entrá lá bem no fundo da arma, eu sinto uma coisistranha aqui no meu peito, é cumo si... si fosse preu acriditá mesm ni tudo quiocê tá falano... faiz sintido pra mim... Ó... dotora, mi soa como si Deus mesm tivesse falano pela boca dessa criança num sab?”

A mulher ficou emocionada com as palavras do caseiro, tão simples e tão sinceras. De repente, ela se sentiu envolvida por uma onda de emoção tão forte que ela pensou que não ia aguentar, parecia que algo estava crescendo dentro do seu coração e não tinha mais como esconder.

 Mesmo assim, os olhos lacrimejaram, mas ela, como sempre, controlou aquele sentimento esquisito que de vez em quando batia dentro dela. Imagina se ela, a Drª Laura poderia aceitar que essas coisas de fé são verdadeiras, nunca, a ciência falava mais alto ainda no seu interior.

Nesse instante a Mannu falou com toda a inocência e tranquilidade que só as crianças conseguem refletir; mesmo quando estão falando de coisas tão profundas que elas mesmas não entendem.

Seu Adão, que bom que pro senhor parece Deus falando na minha boca, sabe por quê?

Não fiii... sei não...

É que o que vou dizer agora pro senhor foi Deus mesmo que me disse no meu sonho, só que ali no meu sonho, Ele disse na boca do meu irmão, o Emanuel, quando eu estava no colo dele embaixo da árvore na beira do lago. Eu estava muito triste, mas nem precisei pedir um abraço porque ele ouviu o meu pensamento e a minha tristeza e então Ele me pegou no colo pra eu chorar no ombro d’Ele... só que daí, a minha vontade de chorar foi embora...

Ela trouxe à memória um momento do seu último sonho com Jesus quando Ele falou algo que ela não entendeu bem.


Ele falou isso e mais outras coisas que eu agora não me lembro... Ah... Ele disse que o Espírito Santo é o Espírito Consolador e é Ele quem veio pra ficar aqui com a gente enquanto Ele, o Jesus,  tem que ficar lá no céu com o Pai dele um pouco. Só não entendi bem por que Ele mandou falar especialmente pra você mamãe... Acho que Ele sabe que você não consegue acreditar muito n’Ele ainda né?

Ela falou sem nenhuma acusação no tom de voz.

A mulher engoliu em seco com mais lágrimas nos olhos do que poderiam caber, resultado: Outro tanto de lágrimas e soluços...

A Mannu ficou preocupada com a mãe que não parava de chorar e tentou arrumar um pouco as coisas.


 Esse remendo da Mannu só piorou as coisas, ela logo percebeu quando a mãe caiu de vez no choro e ela olhou para a cara do Seu Adão que agora também já não conseguia disfarçar as lágrimas.






Vamos ver no próximo capítulo como é que a Mannu vai se virar com esses dois...

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A VIDA É ASSIM MESMO... CAPÍTULO 81


Logo que a mãe saiu da varanda, a Mannu procurou continuar a conversa com o S. Adão tentando incentivá-lo a contar mais sobre a sua infância complicada em Minas Gerais.

O homem tentou se lembrar de onde havia parado quando a mãe da Mannu apareceu com as frutas para eles beliscarem antes do almoço ficar pronto.

 "Bão, criança, onde é qui eu tava mesm?"

O senhor estava falando sobre como o seu pai virava um “bicho” quando ele bebia. E eu disse que sei como é que isso acontece por causa de uma amiga na escola que eu tenho e que tinha um “padastro” muito ruim que também virava “monstro” quando bebia. Ele batia na Lívia sabe S. Adão? Batia muito e por qualquer coisa...

Ah é? “Intão vai ver qui esse hómi era parenti do meu pai”! Disse o empregado com expressão de ira no rosto.

O seu pai também batia no senhor Seu Adão?

“Hãn... se batia!! Batia dimais da conta!! Tinha veiz que eu nem sabia purque é qui eu tava apanhano, e quanto mais eu perguntava purque qui ele tava me bateno, mais ele batia. Parecia qui ele ficava brabo de não saber, nem ele mesm, purque é qui tava bateno daquele jeito numa criança... Intão minha mãe entrava pelo meio pra me defender, coitada, e aí é que ele virava na ‘peste’ mesm... E sobrava pra ela também qui era, assim, bem franzina sab?”


 O homem sabia que não poderia entrar em muitos detalhes que na sua cabeça estavam ainda bem vivos, porque a criança ficaria muito chocada ao perceber que existem pais que parecem movidos por ódio e não por amor aos filhos. Então ele tratou de simplificar a história só para que ela pudesse entender algumas coisas que ele queria explicar.

“Bão,” minha criança, a história é essa “mesm sab?”... Eu nem vou contar quantas surras eu levei sem saber pur quê. Mas, o pior dos “dia” foi quando eu cheguei em casa da escola e a minha mãe tava deitada no chão purque ele tinha tido outro surto dele lá e tinha batido nela dinovo... Aí eu me assustei, achei qui ela tivesse até murrido, mais, graças a Deus qui não. Ela si levantô e entrou no quarto. Saiu logo depois com uma mala cheia das rôpa dela e das minha...”

Então vocês fugiram correndo de lá né S. Adão? Pra bem longe!!! Perguntou a Mannu com os olhos arregalados e cheios de lágrimas só de ouvir a história do homem.

“É iss mesm minha criança... Fugimo di lá pra casa dos parenti da minha mãe. Ele ainda foi atrais di nóis, mais a pulicia levou ele pra cadeia purque a minha sogra chamô os homi assim qui viu o véi si aproximano da casa. Ele já tinha fama di violento mesm, intão os hômi levaru ele di veiz. Ficô um tempo preso depois saiu... mais nóis, eu mais minha mãe, ficamu iscondido um tempo até ele sumir no mundo...”



“Poisé criança... nunca mais vi não... i nem quero vê sab? Pur iss mesm é qui eu nem quero tê fii... a genti fica mei medroso di não sabê dá o amô qui eles mereci sab? Vai sabê si eu num sô mei quinem meu pai!! Sei não... essas coisa diz qui passa di pai pra fii...as veiz...”

Ah... entendi Seu Adão... então é por isso que o senhor não quer ser papai né?

É... “é pur causo diss mesm...”

A menina pensou um pouquinho e depois resolveu contar um pedaço do sonho que ela tivera na noite passada, nem sabia bem o que é que ia resolver contar aquele sonho, mas sentiu vontade de falar.

Seu Adão, o senhor sabe que eu sonhei com o meu irmão nessa noite passada?

“Seu irmão? Uai!!! I deisdi quando o cê arrumô um irmão minha minina?” Disse o homem rindo, sabendo que ela era filha única.

Desde quando eu sonhei com ele a primeira vez Seu Adão... Eu estava muito triste naquela noite quando eu fui dormir e eu conversei com o  meu Papai lá do céu, aquele sabe, que mora lá em cima, não aquele que o senhor conhece, aqui na Terra...


Bão... disse o homem, pensativo. Sei não si eu tô intendenu criança...

É que é assim Seu Adão. Nós todos aqui temos mais um “Papai” que mora lá no céu... Nós não temos só esse papai aqui da terra que fica bravo demais e bate na gente quando fica muito nervoso, sabe?

“Ah, ih é? I...Dondié qui ocê tirô essa cunversa minina?”

É que eu fiquei sabendo por causa desse sonho que eu disse pro senhor. Aquela noite, lá bem atrás, que eu tinha ido dormir muito triste porque eu não tinha nenhum irmão pra ir comigo pra escola e pra me defender das minhas “inimigas perpétuas” que agora são minhas amigas, eu tive um sonho... e o meu irmão, que também é meu Papai, veio no meu sonho falar comigo sabe?

O homem tentou entender aquela miscelânea de informações totalmente incoerentes para a cabeça dele e não teve outra alternativa a não ser arregalar os olhos e dizer que não estava entendo absolutamente NADA! Lógico...


Olha, Seu Adão, eu vou explicar direitinho. Esse meu irmão que veio falar comigo no meu sonho é um Deus que é três pessoas numa só, entendeu?
 

Ele levantou-se dizendo que já voltava.

“Peraí fii... é já qui eu vórto sab? Só um minutim...”

Entrou na cozinha e chamou a Doutora Laura para ver se ela entendia o que a “minina” estava dizendo, porque ele “num dava conta nem di ixplicá” o que ele tinha ouvido.

Certo Seu Adão, vamos lá... o almoço está quase pronto mesmo, é hora de terminar essa conversa não acha?

“É... sei não viu dotôra? Milhó a sinhór iscutá o qui a minina tá dizenu... quimsab si num é arguma coisa pirigosa sab? A sinhór é dotôra, intão devi di sabê né? Vam lá...”

Vamos sim Seu Adão, Lídia, pode terminar de colocar a mesa, já voltamos...

Chegaram os dois na varanda onde a Mannu esperava tranquilamente para terminar a sua explicação sobre Deus que, com certeza, o Seu Adão poderia entender muito bem, afinal, para ela era tudo muito claro, Deus era seu Pai, mas era também seu irmão pois se Ele conseguia estar em todo lugar ao mesmo tempo, por que é que Ele não poderia ser o que Ele precisasse ser a qualquer hora, não é mesmo? Afinal, é por isso mesmo que Ele é Deus, para ser o que a gente não consegue ser e também fazer o que a gente não consegue fazer, oras bolas, tão simples... Essa gente grande complica muito as coisas!


No mesmo instante, ela voltou para a rede e continuou a contar o seu sonho naturalmente.

Então, Seu Adão, como eu estava contando pro senhor, o meu irmão veio no meu sonho falar comigo porque eu estava muito triste. E essa noite passada, Ele veio de novo, como meu irmão outra vez, pra me pegar no colo e fazer eu ficar alegre outra vez, entende?

O homem olhava para a menina e para a mãe, alternadamente, esperando que alguém continuasse a explicação. Como a médica não se manifestou de imediato, ele perguntou:

“Dotôra... é... ó... acontess qui o pobrema num é bem ess... é qui a minina diss qui o irmão dela é Pai dela também, sab? A sinhór podia ixplicá milhór... assim... qui eu consiga intendê bem?”

 A mulher olhou para ele e depois para a filha, sem saber bem por onde começar, tentando se lembrar das explicações da Zezé sobre Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Passaram-se alguns momentos de silêncio, um olhando para a cara do outro.


O senhor não entende o quê Seu Adão? Perguntou a Mannu, com a maior cara de inocência.

Bão... essa históra di sê Pai e irmão tudo ao mesm temp sab?

Ah, sei... disse ela com tranquilidade e olhando para a mãe que permanecia muda.

Bom, Seu Adão, essa história é mesmo bem difícil. Eu também, no começo, não conseguia entender dentro da minha cabeça quando a Zezé me explicou. Então, sabe o que eu fiz?

“Sei não fii... que foi qui o cê feiz?”

Eu pedi pra Deus mesmo me ensinar essas coisas difíceis de entender, e, de repente, eu não sei como, eu “sabia” que era assim mesmo, Deus pode ser o que a gente precisar que Ele seja sabe? Se o senhor precisar de um Pai, Ele é um Pai muuuuuito melhor que o seu que batia no senhor. E se você precisar de um irmão, Ele também manda o Seu filho pra ser o seu irmão assim como Ele mandou pra mim. Aliás, Ele mandou pra todos nós, porque o Emanuel não é só meu irmão, Ele pode ser seu irmão também, se o senhor quiser, e ainda continua sendo o seu Pai, entendeu?


Nessa hora, a mãe resolveu dizer alguma coisa, nem que fosse para preencher o vazio que se formou com o espanto do homem.

Bom, Seu Adão, é que essa história precisa ser muito bem explicada, tem a ver com a “Trindade Santa”, e a maneira como Deus trabalha na nossa vida. É... acho que a Zezé saberia explicar melhor... tem uma história que ela conta sobre o sol, que é um astro que se manifesta de três formas diferentes mas sem deixar de ser sol sabe? Tem a luz, o calor e a forma dele que a gente vê no céu, Ele é um astro só, que trabalha de três formas diferentes... é... é mais ou menos isso... entende?


É isso mesmo Seu Adão, disse a Mannu já se empolgando. Mas como a Zezé disse, nem pense em comparar Deus com o sol, porque Deus é muuuuito, mas MUUUUUUUITO MAIS importante do que o sol. Foi Ele quem criou o sol e o sol não é deus, mas Deus é bem Deus!! Só que esse Deus é UM só... Ele faz o papel de Pai, de Filho e de Espírito Santo que a gente pode também chamar de Consolador, porque Ele pega a gente no colo pra consolar, como Ele fez comigo no meu sonho. Ele faz tudo isso porque Ele é Deus e Ele ama a gente demais... Só isso...

O homem nem conseguia explicar, mas de repente, tudo aquilo parecia bem possível na cabeça dele, e além disso, aquela criança falava de um jeito que ele sentia uma coisa estranha no peito, um nó na garganta que parecia até que ele ia cair no choro, pensava consigo mesmo.


A Drª Laura percebeu os olhos meio marejados do empregado e tentou falar com naturalidade sobre um assunto que ela não sabia bem por que, mas também estava mexendo muito com o seu interior naquele exato momento. Que seria isso? “Essa Mannu me arranja cada uma!!” pensou ela antes de convidar os dois para entrarem para o almoço.

É... pois é! Essa história é inexplicável não Seu Adão? A gente fica até meio...é... eu mesma fico abobada com tanta simplicidade e tanta profundidade ao mesmo tempo nas histórias dessa menina! Vamos lá! O almoço já está pronto Mannu, depois vocês podem até continuar essa conversa tá bom? Agora você precisa comer...

Dizendo isso, ela foi pegando a filha no colo para nem dar a chance de ser convencida a continuar aquela conversa. Por que será que ela estava se sentindo assim... tão estranha... Alguma coisa estava esquisita naquele dia, pensou ela enquanto entrava com a Mannu que não deixou de se queixar um pouco, como sempre.

Mas mamãe, agora que o Seu Adão estava começando a entender o meu sonho...Eu queria continuar mais um pouquinho!

Não faz mal, ele vai continuar entendendo depois do almoço tá? Ele também está com fome.

“É minha criança! Nem si preocupi, qui eu vô mesm querê continuá nossa prosa depois. Vá comê sua comidinha qui eu espero tá bão?”