Os dias na fazenda eram assim, tranquilos e ensolarados. De manhã eles saíam passear a cavalo, depois voltavam para o almoço gostoso da D. Lídia com os produtos maravilhosos ali da fazenda, sem agrotóxicos mesmo! Tinham uma pequena granja que lhes garantia ovos até demais. Só a carne vinha de fora, pois eles tinham apenas gado leiteiro, poucas cabeças, o suficiente para servir a fazenda e também parte da região que comprava leite, ovos verduras e frutas dali da fazenda.
Os supermercados da região davam preferência aos produtos deles pois sabiam que eram de qualidade garantida. Isso mantinha a fazenda funcionando, sem que o Dr. Álvaro tivesse prejuízo, embora o lucro fosse mínimo. Havia outros funcionários, além do Seu Adolfo, lógico, e todos moravam ali e tinham direito a usar o que quisessem para sua alimentação. Ganhavam um salário acima da média para a região e, portanto, eram muito fiéis ao “Doutor”; que era considerado por todos eles um “homi bão dimais da conta”!!
Mannu andava feliz da vida, pois o telefone do pai não tinha tocado para nenhuma emergência em uma semana inteira. Isso era quase um milagre. Eles aproveitaram muito os dias ali no pequeno paraíso que o Dr. Álvaro fazia questão de manter, mais pelo prazer de estar em contato com a natureza e com a própria família, pois eram os únicos momentos em que podiam estar por mais tempo juntos em diferentes atividades. A Fazenda era muito bonita e bem cuidada, porém, a vantagem principal era essa; ali era o “seu” refúgio com a família.
Mas, no final da primeira semana, a Mannu mesma já sabia que o pai teria que voltar para o trabalho. Ela e a mãe ficariam mais um tempo no pequeno paraíso, pois o trabalho da Dra. Laura estava bem substituído por outra médica de confiança dela.
Se pudessem ficariam ali para sempre mesmo, porém, a vida não corre exatamente do jeito que a gente sonha, então, é preciso ter responsabilidade e pensar no que é necessário fazer e não somente naquilo que gostaríamos de fazer, concordam? Quem não gostaria de viver num paraíso como esse, sem nada preocupando a cabeça, mas, impossível, pelo menos para o Dr. Álvaro...
Seu Adolfo foi levar o médico e voltou com o carro para que a Dra. Laura fosse uma semana mais tarde. Nesse tempo, ela e a Mannu tiveram ótimas conversas sobre as histórias da Zezé. A Dra. Laura ficou impressionada ao perceber como a Mannu havia mudado, para melhor, em todos os sentidos, depois que a Zezé começou com essas conversas e orações no quarto da menina antes de dormir.
No começo, a mãe ficou muito preocupada, pois tinha a impressão de que a Zezé estava colocando “fábulas” na cabeça da menina como se fossem verdades capazes de mudar situações reais. Acontece que, realmente, naquele ano, com o passar dos dias, ela viu mudanças concretas acontecendo na vida da filha e das pessoas com quem ela se relacionava na Escola. Isso trouxe um pouco mais de tranquilidade para aquela mãe cuidadosa e temerosa. Ela apenas não queria que a filha passasse por nenhuma “lavagem cerebral” por meio de “contos da carochinha” que viessem a trazer confusões mentais e emocionais mais tarde. Mas, ao contrário disso, ela percebia na filha uma criança crescendo mais segura e muito mais calma e compreensiva com todos e com as diversas situações de conflito que aconteciam; das quais ninguém consegue fugir e muito menos preservar os filhos.
Na rede, à noite, as duas tinham longas conversas sobre como a Mannu se sentia antes e agora, depois das “aulas espirituais” da Zezé. Não havia como negar que aquilo estava mesmo fazendo bem para a menina, e a Dra. Laura acabou fazendo perguntas e revelações que a filha nem esperava. Uma delas tinha a ver com a maneira como a médica via essa história de fé.
― Aquele dia, que eu pensei que você estava dodói; e você disse que não estava, mas você me deu um abraço que quase machucou minha barriga quando eu estava sentada no seu colo, lembra? E depois você ainda chorou e disse que estava pensando em “umas” coisas... Naquele dia você nem foi tomar café da manhã comigo e com o papai, eu é que fui no seu quarto depois, lembra?
― Ah, sim meu amor, estou lembrando agora... mas... é... não é fácil te explicar tudo o que passava na minha cabeça naquele momento. Você é muito pequena ainda para entender certos medos dos adultos.
― Hum... sei... mas mamãe, você tem que se lembrar que eu já venci um monte de medos também... por exemplo, eu já tirei os meus dois dentes de baixo e logo vou trocar alguns de cima também. Eu fui bem corajosa na hora de tirar e doeu sim! Bom... só um pouquinho, é claro. E tem mais, quando a Lívia e a Cássia eram minhas “inimigas”, eu também tinha que vencer um medão de ir pra escola e de ficar ouvindo as coisas feias que elas me diziam...
A Dra. Laura lembrou-se deste tempo que, felizmente, estava completamente diferente agora. Todas eram amigas e as reuniões que aconteciam na casa dela e da Camila, eram sempre uma festa para as crianças.
Em seguida, a Mannu lembrou a sua mãe de outro episódio que provava “definitivamente” que ela sabia entender o medo das crianças e então, saberia entender também o medo dos adultos, segundo o pensamento dela mesma.
― E mamãe, você se lembra também quando fomos ver a mãe da Lívia pela primeira vez no hospital e a Lívia ficou muuuuuito assustada porque a mãe dela estava no meio de todos aqueles fios pra respirar e tinha a cabeça enrolada naquele lenço branco lá do hospital?
A Dra. Laura lembrou-se de imediato da cena, pois ela mesma tinha ficado sem palavras ao ver o susto e a tristeza da Lívia quando viu a mãe naquele estado.
― Sim filha, estou me lembrando desse momento sim...
― Então mamãe, no começo, eu também fiquei assustada quando eu vi tudo aquilo, parecia que a mãe da Lívia tinha virado um robô cheio de fios... mas, quando eu vi a Lívia chorando, eu esqueci na hora do meu medo e fui buscar as palavras que eu precisava lá no meu “poço de palavras” para poder tirar o medo de cima da Lívia, sabe? Porque a Lívia não ia conseguir nem achar o poço de palavras dela, porque ela estava muito assustada.
A médica ficou em silêncio ao lembrar-se do momento e da cena seguinte em que a Mannu tentava encorajar a amiguinha diante daquele quadro que para ela era mesmo muito impressionante.
A médica decidiu acreditar na capacidade que a filha poderia ter para entender o que ela estava prestes a dizer.
― É filhinha, a mamãe ficou muito orgulhosa de você naquele dia. Você foi mais corajosa do que todas nós e ainda ajudou a sua amiguinha a vencer o medo dela de perder a mãe. Você é a minha joia de maior valor sabia minha filha?
― É mamãe? Mais até do que aquele anel lindo de diamante “faiscante” que o papai te deu no teu aniversário?
― Muuuuuito mais!!! Nem posso comparar! Eu daria tudo o que é meu e todas as joias que eu tenho, se precisasse, só para ver você sorrindo!
Mannu, espertinha como sempre, não deixou o assunto fugir, nem com todos aqueles elogios que para ela fizeram muito bem.
― Então mamãe... Se é assim você pode me contar qual era o “medão” que estava guardado no seu poço de memória aquele dia que você estava tão triste e “pensantiva” lá no seu quarto...
― “PenSAtiva, né meu amor?
― É... isso... me conta vai...
― Então, ― disse a médica sabendo que não poderia fugir mais do assunto mesmo ― É que... bem, eu estava me comparando com a Zezé, e percebi que eu não sou capaz de enfrentar certas coisas. Além disso, não sou capaz de “sentir” certas coisas que a Zezé, por exemplo, sente, sabe filha?
― Como assim mamãe? O que a Zezé sente e que você não sabe sentir... Não entendi...
― Bem... essa história que a Zezé te ensinou por exemplo. A história de acreditar num “Papai” que mora lá no céu... eu... seu pai e eu, na verdade, não conseguimos achar que seja mesmo verdadeira essa coisa toda sabe?
Ela disse isso, com muito medo de decepcionar demais a filha, ou mesmo de “minar” o campo fértil de fé que ela sabia que já estava preparado no coração da menina. Não achava que tinha esse direito e também sabia o quanto a fé que brotava ali, naquele terreno limpinho, vinha fazendo bem, tanto para a Mannu como para toda a família e amigos dela.
― É mesmo mamãe? Você não consegue acreditar que Deus é um “Papai” que mora lá no céu? Perguntou a menina, verdadeiramente espantada, com toda a pureza da sua fé que não conseguia nem “imaginar” o contrário disso. Para ela, o “Papai” lá do céu, que cuidava dela também aqui na terra, era muito real, ela simplesmente não sabia como sentir o “contrário” disso. Não entrava na cabeça dela.
― Bem... ― respondeu a mãe, cada vez mais temerosa e até incerta do que dizia ― não é que eu não acredite nem um pouquinho entende? Eu só acho que não é bem assim como a Zezé fala, quero dizer, a Zezé não mente, não é isso! É que ela interpreta de um jeito diferente, sabe?
― Sei mamãe... ela interpreta igual eu e as minhas amigas, porque nós somos crianças... Mas, sabe mamãe? O Emanuel, aquele que é Jesus e que é o meu irmão mais velho também e que falou comigo naquele sonho que eu tive , lembra? Ele falou que as “gentes” que são grandes, precisam acreditar nas coisas que Ele veio ensinar aqui na terra, “bem igual como” as crianças acreditam, sabia? Senão essas “gentes grandes” não vão saber nunca o que é fé... Está tudo escrito lá no “Livrão”, só não lembro aonde... Talvez seja por isso que você não consegue acreditar... porque você é uma “gente” bem grande já e esqueceu como é ser criança...
A mulher ficou uns instantes pensativa.
― Pois é filha, mas imagine se todos os adultos, as “gentes grandes” que você fala, forem pensar como crianças, não haveria ninguém capaz de cuidar de vocês que ainda não sabem todas as coisas que precisam saber, entende?
― Mamãe, é que você não sabe, porque você ainda não acredita, mas o Papai do céu, que é Deus, é Deus justamente pra isso, pra cuidar das crianças e dos adultos que pensam como crianças. Ele é quem cuida de todo mundo entende? Porque Ele prometeu que se uma “gente grande” tiver fé, como uma criança, Ele cuida dessa pessoa, porque essa pessoa “confia” n’Ele. Eu vou correndo lá no meu quarto e já volto, quero mostrar um verso do “Livrão” que a Zezé escreveu pra mim...
Dizendo isso, disparou para o seu quarto e encontrou rapidamente nas suas coisas uma pasta cheia de anotações sobre a Bíblia e sobre as dúvidas que ela tinha perguntado para a Zezé. Logo encontrou o papelzinho com o versículo. Voltou correndo para baixo e deitou-se na rede para a mãe ler o verso ela mesma.
― Aqui mamãe, leia o que está escrito aí... Só que a Zezé escreveu meio como criança pra eu entender direito tá?
A médica leu com calma e tentando com sinceridade entender e principalmente “aceitar” aquilo como uma coisa possível e principalmente, importante, algo que fizesse diferença para a vida de qualquer ser humano aqui no planeta Terra. Para ela tudo parecia simplesmente uma “lenda”. Estava escrito assim:
Tu, Senhor, (que é o Papai do céu) guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito está firme, porque essa pessoa confia em Ti.
(Um propósito firme quer dizer que a pessoa tem uma fé firme, essa pessoa entrega o seu plano para Deus e não tem mais medo do que pode acontecer porque essa pessoa “confia” que Deus vai cuidar das coisas da melhor maneira possível.
Esse verso está escrito no livro de Isaías, no capítulo 26, verso número 3, tá certo Mannu? Só pra você lembrar que o Papai do céu prometeu cuidar de quem confia n’Ele, tá bom? Não esqueça disso...
Um beijo da Zezé!
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A médica leu aquilo e achou muito bonito, mas ainda não sentia as coisas como a filha sentia, então disse:
― Filhinha, é lindo isso que a Zezé escreveu aí pra você, mas, por que razão você sente que isso é verdade?
― Bom mamãe, é porque quando eu fiz isso com o problema das minhas “inimigas” que agora são minhas “amigas perpétuas”, Deus arrumou tudo direitinho... E também quando nós, a Camila eu e a Lívia fizemos isso com o problema da saúde da mãe da Lívia, também o Papai do céu arrumou tudo e ainda tirou o medo que a Lívia estava sentindo de noite, que ela não conseguia dormir e começou a chorar. Daí, a Camila e eu oramos com ela, porque ela ainda não sabia orar, e funcionou... Ela dormiu bem e não teve mais medo... Tem mais uma coisa que eu nem falei pra Lívia; eu também pedi pro Papai do céu fazer o Seu Aurélio parar de encher a paciência da Lívia e da mãe dela. E pedi também para o tio dela visitar a mãe dela e isso tudo aconteceu. Eu só não tenho certeza se o Seu Aurélio foi embora porque Deus mandou ou porque ele era muito ruim mesmo e não se preocupava com as duas...
― KKKKKKKKK! ― Riu a médica daquela observação da Mannu ― provavelmente é a segunda opção filha, ele foi porque era covarde e não queria problemas na vida dele para tomar conta.
― Pois é mamãe, mas você viu como Deus cuidou de um monte de medo que eu tinha e que foram todos embora?!
― Hum... como eu queria ter uma fé dessas que levasse embora todos os meus medos assim, nessa facilidade! Disse a adulta Dra. Laura...
― Não se preocupe mamãe! Eu vou ensinar você a ser criança de novo e você vai acreditar no Papai do céu e todos os seus medos vão correndo embora! Mas você tem que me contar qual é o pior medo que você tem guardado no seu coração, porque você estava muito triste aquele dia...
― Sim, filha, eu vou contar... Mas não vai ser agora certo? Já está tarde e precisamos ir dormir, ok mocinha? Amanhã conversamos mais sobre isso.
Entraram e foram dormir porque já estavam mesmo cansadas depois de uma tarde inteira bagunçando na piscina. O sono chegou logo.







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