As
festas do final de ano foram muito bonitas, como sempre, e todos os que faziam
parte do grupo da Mannu continuaram em contato durante os feriados e festejos
todos. Quase todos viajaram, alguns para perto, outros para mais distante, mas
se falavam o tempo todo.
A
Mannu e a Lívia viajaram com a família e só voltaram depois do Ano Novo, pelo meio de janeiro, por isso,
as reuniões vão recomeçar somente em fevereiro. Todos iam viajar e ficar um bom
tempo fora.
O tio
da Lívia, Fabio, levou a Lívia e a mãe dela para uma casa muito bonita que ele
tem em uma praia linda do Nordeste. Foi um descanso merecido para a D. Irene e
um tempo espetacular para a Lívia que se esbaldou de todas as maneiras. Para
quem só tinha enfrentado tristezas e brigas até ali, foi um paraíso do qual nem
ela nem a mãe tinham vontade de sair no final dos feriados. Mas, a vida
continua com as suas obrigações e eles tiveram que voltar depois de quinze dias
de descanso.
A
Mannu foi com os pais para a fazenda que eles têm e que a Mannu sempre diz que
leva uma “eternidade” para chegar. Porém, quando ela viu o portão e as
palmeiras imperiais que acompanhavam todo o trajeto depois do portão até a casa
principal, ela logo esqueceu o tempo que não passava na viagem e começou a
gritar toda “esfuziada”:
―
Ebaaaa! Chegamos! Até que enfim!!! Papai, eu quero ir correndo ver o “Pinote”,
e também quero andar nele, você vai comigo papai, não vai??!!! Eu não posso
andar sozinha, você sabe, a mamãe não deixa. Você vai no teu cavalo e eu vou no
meu, que legal!!! Papai, vai mais depressa! Eu to muito “afobiada” pra ver o
Pinote!!
― “
Afobada”... corrigiu a mãe rapidamente, rindo da animação da filha.
―
Isso... respondeu a menina sem parar de pular no banco de trás.
Assim
que desceram do carro, veio o caseiro encontrar o médico e a família. A Mannu
pulou de dentro do carro e foi logo dizendo:
― Seu
Adolfo, por favor, o senhor tem que me levar lá pra ver o Pinote porque ele
está com muita saudade de mim, sabe?
O
homem riu e respondeu dando um tapinha leve no alto da cabeça dela:
― Sei
mocinha, é ele quem está com saudades né? Entendi... Nós já vamos, vou ajudar
seu pai aqui com a bagagem e depois resolvemos isso tá?
― Tá, mas não podemos demorar porque ele está muito
ansioso pra andar comigo sabe Seu Adolfo!!?
O
homem deu uma piscadinha para a menina que estava ansiosa demais e ele já
conhecia o temperamento dela; sempre com o seu poço de palavras em ebulição!
Ele nem esperou a menina perguntar sobre a esposa dele porque já sabia que
seria a próxima questão “urgente” para ela.
― A
Lídia está lá na cozinha preparando tudo o que você gosta, corre lá dar um
abraço nela que ela vai ficar muito alegre de te ver, mais ainda do que o
Pinote.
Disse
isso já sabendo que ficaria livre por alguns minutos para ajudar o patrão. Foi
pegar o resto das malas no carro.
Enquanto
isso, o efeito esperado surgiu: A Mannu esqueceu o Pinote por uns momentos.
― EEEBAAAA!
Eu vou, disse ela, disparando em direção à cozinha com o cheirinho de bolo assando
cada vez mais forte. Explodiu porta adentro como se não fosse dar tempo de
aproveitar tudo aquilo que ela tanto amava ali na fazenda.
― Oi
D. Lídia! Eu estou sentindo o cheiro do seu bolo de laranja que eu amo!!
A
mulher voltou-se para a porta abrindo um grande sorriso e os braços para ganhar
o abraço carinhoso que a menina sempre tinha quando chegava.
A Mannu correu e pulou no colo dela enroscando
os braços no pescoço da mulher clara e sardenta que tinha um sorriso muito
acolhedor e as faces bem vermelhas pelo calor do forno e do fogão. O cabelo
preso no lenço tinha uma mecha pequena escapando na lateral perto da orelha
esquerda e a Mannu tratou de esconder os fios embaixo do lenço dizendo em
seguida:
― D.
Lídia, o teu cabelo não era branco, você pintou?
― Mas
que memória menina!! Eu não pintei não, mas também não pensei que você fosse
notar que eu estou passando de loira pra “cinzenta”, é a idade minha criança!
― Mas
você continua bonita com essas pintinhas no rosto sabia? Respondeu a Mannu,
sorrindo com sinceridade. Ela sempre quis ter algumas sardas e nunca conseguiu,
achava muito diferente a D. Lídia, com aquelas manchinhas douradas na pele, poucas,
mas, que na visão da menina, deixavam a mulher com cara de gente muito “amiga”!
A
mulher riu e colocou a Mannu no chão fazendo um carinho no cabelo dela e no
rosto. Ela gostava muito quando os patrões vinham porque a Mannu “enchia a casa
de alegria”, nas palavras da mulher.
Em
seguida entrou a Dra Laura, cumprimentando a mulher e puxando o ar para
aproveitar o cheirinho delicioso que vinha do forno.
― Como
vai Lídia querida! Huuuummm! Mas esse cheirinho está maravilhoso !!!
― Boa
tarde Doutora! Que bom ver a senhora! Fazia tempo “num é”? Mais de um ano eu
acho...
― Mais
de um ano sim Lídia! Estivemos aqui apenas no começo de novembro do ano
passado, já pensou?
― Pois
então, doutora! Estava na hora de voltar né?
― É
mesmo! Se eu pudesse, viria muito mais para cá me esconder da correria. Mas,
nossa profissão é meio ingrata nesse sentido, não nos permite muito descanso.
― É
verdade, né doutora? E o doutor como está?
― Está
bem, ansioso por estes dias aqui, mas, já sabe né? Ele vai ficar no máximo uns
quatro dias, se conseguir tudo isso, se não houver nenhuma emergência por lá...
você sabe como é.
― É...
eu sei sim, pessoas como vocês deviam ter um substituto certo, todos os anos,
para poderem sair por pelo menos um mês com sossego, uai! Devia ser uma lei
isso, não acha doutora? Ninguém pode viver com tanta carga o ano inteiro e ter
que descansar de pingo em pingo... não dá certo!
A
médica riu dizendo que pensava isso mesmo. Colocou umas sacolas num balcão ao
lado e avisou a empregada.
―
Esses são os seus presentes Lídia, você sabe que chegam só no fim do ano e por
isso, são vários; tem o de Natal, o do seu aniversário em agosto, e mais alguns
pra você e outros para o Adolfo, certo querida?
―
Obrigada Doutora! A senhora é sempre assim, “mesm,” nem adianta eu dizer que
não precisa porque sei que a senhora traz do mesmo jeito. Mas dou graças a
Deus, porque nunca preciso de roupas, a senhora me abastece para o ano inteiro!
A
Mannu pegou um pêssego na fruteira e, de repente lembrou-se de algo muuuuuito
importante!!
Pediu
pra Lídia lavar o pêssego pra ela, cheirou a fruta com os olhos fechados e saiu
correndo e mordendo o pêssego, avisando o mundo todo.
―
Gente, eu vou ver o Pinote tá? Mas eu já volto pra comer o seu bolo D. Lídia!!
E vou querer suco de laranja também, daquela que tem no pomar daqui tá bom D.
Lídia?
― Tá
certo minha criança, vá! Quando você voltar eu já terminei de assar o bolo e vou
fazer teu suco bem “geladim,” na hora! E o café também, pro Dr. Álvaro, "né mesm" Doutora? Ele gosta do “cafezim” daqui.
Ela
sempre deixava uma ou outra palavra no seu “mineirês” ainda. Eles tinham saído
de Minas Gerais fazia uns quinze anos já e ela amava Goiás, mas Minas era parte
integrante da sua vida, maneira de falar e costumes para sempre, lógico!
― Isso
Lídia! Coloque também aquele pãozinho de queijo que você faz porque ele veio
falando o caminho todo que não via a hora de comer frutas sem veneno e o teu pão
de queijo. Segundo ele, o melhor negócio da vida dele foi ter descoberto vocês
lá em Minas e ter conseguido trazer pra cá! Ele, com certeza, está lá admirando
o pomar e a horta que eu já vi de longe que está linda Lídia.
― E tá
mesmo doutora! O Adolfo cuida daquilo tudo com um “disvelo qui é só ele mesm”.
Só usa os “produto natural” que aquele “agrônimo” meio esquisito ensinou ele
fazer. Desde o adubo orgânico até os “pesticida”, é tudo natural. Diz ele que
morar no paraíso antes de morrer não é pra todo mundo não, então a gente tem
que valorizar “né mesm” doutora?
― É,
minha querida! Esse “ agrô NO mo” ― disse
a médica mais pausadamente para a mulher perceber sozinha a correção da palavra
― é um “naturista” e só usa a própria natureza para
controlar as pragas e estimular a produção tanto na horta como no pomar. Ele
sabe o que faz pra ter alimentos saudáveis, e leva isso a sério, por isso o
Álvaro confia tanto nele.
― É... e ele vem sempre olhar se o Adolfo tá fazendo tudo “direitim” sabe?
― Que
bom Lídia, eu vou lá pro meu quarto, tomar uma chuveirada e descansar um pouco,
logo apareço aqui para o cafézinho tá?
― Certo,
doutora! Tá tudo “prontim” lá, tudo “limpim”e cheiroso como a senhora gosta.
Até alfazema eu consegui achar pra colocar no seu vaso de flores lá do quarto;
sei que a senhora gosta!
―
Huuuummmm!! Lídia, só você pra fazer eu me sentir nos campos de “Provence” em
pleno interior de Goiás!! Disse a médica dando uma piscada para a empregada que
não respondeu de imediato.
A
empregada acompanhou a patroa até a copa e ficou olhando até que ela sumiu na
escada que dava para os quartos lá em cima. Depois virou-se pensativa e feliz
por ter os patrões ali; gostava muito deles.
Enquanto
isso, Dr. Álvaro e a Mannu já estavam olhando os cavalos com o Seu Adolfo na
cocheira da fazenda. Ele estava se preparando para encilhar o cavalo do Dr.
Álvaro e depois iria preparar o pônei da Mannu que estava eufórica passando a
mão no Pinote e garantindo que ele estava “sorrindo” porque ela chegou. Será??
Os
dois passearam um pouco a cavalo pelos campos mais próximos da casa principal,
pois sabiam que tinham que voltar logo para o café gostoso que a Lídia estava
preparando. Esse passeio era só para matar a saudade, depois, nos dias
seguintes, teriam mais tempo para cavalgar por onde quisessem, isso era uma
coisa que a Mannu amava fazer com o pai dela, passear pela fazenda e ver o lago
com os patinhos e as flores todas, o pomar, etc... Tudo era tão lindo e verdinho!
Quando
voltaram, a Dra. Laura já estava esperando na varanda da casa, e o cheirinho de
café estava delicioso.
Eles
entraram e foram direto para a mesa aproveitar as delícias mineiras da Lídia. O
bolo de laranja com glacê feito do suco “orgânico mesmo” das laranjas colhidas
ali e açúcar de confeiteiro foi uma das coisas que a Mannu atacou primeiro. Ela
amava o azedinho do glacê com o sabor acentuado da laranja. Huuummmm! E o pão
de queijo quentinho então! Leite “de verdade” (como dizia a Mannu) e sem
conservante! Isso era bom demais!
Depois,
um bom banho e o descanso merecido na varanda, depois das 5 horas de viagem até
a fazenda. O céu já começava a mostrar as primeiras estrelas da noite. O ar
estava fresco e perfumado pelo jasmim-dos-açores plantado junto à cerca que
protegia a área da varanda. A flor espalhava um aroma intenso e delicioso
trazendo uma sensação de paz e aconchego.
A
Mannu se aninhou junto com o pai em uma das redes da varanda.
―
Vamos ficar aqui pra sempre papai?
―Hum!!
Quem me dera! Respondeu ele, sabendo que a sua vida paradisíaca ali poderia ser
interrompida a qualquer momento. A Dra. Laura sentou-se perto deles em um desses
balanços que ficam pendurados e que parecem um colo de mãe embalando um filho.
Poderiam até dormir ali, tamanha era a paz que os três sentiam.
Conversaram por
um bom tempo, coisa raríssima, riram muito e depois resolveram ir dormir para
aproveitar o dia seguinte que seria cheio de novidades para todos eles, que só
tinham acesso à natureza ali naquele refúgio, onde podiam curtir os breves
períodos de fuga do stress e da correria onde moravam.
Antes
de se levantarem do momento preguiça, a Mannu saiu com uma que o pai dela não
esperava, não era costume deles.
―Papai,
eu posso falar com o meu “outro “Papai”, aquele que mora lá no céu? ... Eu só
quero agradecer por esta noite tão bonita , cheia de estrelinhas, que eu acho
tão lindas, algumas ficam piscando pra mim, sabia?
O
homem ficou meio desconcertado, olhou o céu maravilhoso e sentiu que jamais poderia
cortar o encanto daquele momento mesmo que a sua incredulidade se esforçasse
para isso. Depois de notar bem o céu, ele disse:
―
Claro, filhinha! Pode agradecer, e diga também que o seu pai “aqui da terra”
manda lembranças pra Ele e... bem ... pode dizer que eu também estou feliz por
este momento de paz aqui... na nossa terra... ok?
A
menina não perdeu tempo, foi logo falando com um ar de muita reverência, e com
uma convicção sincera de que Ele estava ali, bem pertinho escutando. Essa
convicção era tão forte que até os pais dela sentiram uma sensação estranha,
sobrenatural, quase como um arrepio que não era de frio, parecia que a brisa
soprava mais morna e aconchegante ainda.
― Senhor Papai do céu, eu amo muito o meu pai
e a minha mãe aqui da terra, mas eu preciso dizer que eu amo demais o Senhor
também, porque o Senhor me deu eles pra cuidarem de mim aqui, e este céu cheio
de estrelinhas que piscam pra mim. O Senhor sabe como eu gosto de tudo isso.
Além de tudo tem o Pinote que “sorriu” quando eu cheguei pra ver ele... Eu
gosto muito de tudo o que tem aqui na fazenda, é tudo muito gostoso: a casa, as
frutas, o leite, o bolo da D. Lídia e o alface tão gostoso que o Seu Adolfo
planta aqui e que é diferente lá da cidade. O tomate também, é muito mais gostoso,
eu acho! Eu só quero agradecer tudo isso, e a única coisa que eu vou pedir
hoje, é que o papai (aqui da terra) não seja chamado pra nenhuma “ermegência”
lá no hospital. Assim ele vai poder ficar sossegado aqui comigo e com a mamãe
pelo menos cinco dias tá? Eu sei que o Senhor sabe que ele precisa descansar
também né? Porque o Senhor mesmo sempre vê como ele trabalha muuuuuito pra
curar aquelas pessoas doentes lá... E o Senhor mesmo ouviu que ele mandou eu
dizer que ele está feliz de estar aqui... Então, é isso, Papai do céu, muito
obrigada e boa noite pro Senhor também! A nossa noite eu sei que vai ser
maravilhosa! E faz um favorzinho pra mim, Papai do céu? Mande um beijo pro meu
irmão mais velho, o Emanuel...Eu estou com saudade d’Ele. Nunca mais eu sonhei com Ele... Só isso...
Amém. Aliás, é no nome dele mesmo, aquele outro nome dele, sabe? “Jesus,” é no
nome dele que eu fiz essa oração, tá certo? Agora sim, amém!!
Depois
dessa longa oração, dita em palavras sonolentas, tão naturais e simples, os três se
levantaram dos seus lugares, em silêncio. O Dr. Álvaro pegou a Mannu no colo,
passou o braço em volta do ombro da mulher e entraram, com medo de falar
qualquer coisa que quebrasse a pureza daquele instante. Foram para a cama, os
pais com lágrimas disfarçadas nos olhos, e a Mannu, quase dormindo já no colo
do pai. A sensação era muito forte, de uma Presença Amorosa e Protetora.












Que lindo Isa!! Vc escreve tão bem e descreve de uma maneira tão viva que me imaginei nesta fazenda. Que saudades me deu do Brasil!! A oração da Mannu tão linda e singela. Eu amava o jeito que vc contava as "Imaginações Perpétuas" da nossa infância e adolescência!! Continue sempre assim amiga, vc é uma escritora nata!! Bjos carinhosos!!
ResponderExcluirObrigada pelo incentivo Kelzinha querida! Sinto sdds daquele tempo das "imaginações perpétuas" tb!! Mas não era só eu que tinha mente fértil pra contar histórias... Eu amava ouvir a de vcs tb, (Gisele e Joyce e vc!!) bons tempos não??? ��
ResponderExcluir