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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ANO NOVO E HISTÓRIAS NOVAS... CAPÍTULO 68


As festas do final de ano foram muito bonitas, como sempre, e todos os que faziam parte do grupo da Mannu continuaram em contato durante os feriados e festejos todos. Quase todos viajaram, alguns para perto, outros para mais distante, mas se falavam o tempo todo.

A Mannu e a Lívia viajaram com a família e só voltaram  depois do Ano Novo, pelo meio de janeiro, por isso, as reuniões vão recomeçar somente em fevereiro. Todos iam viajar e ficar um bom tempo fora.

O tio da Lívia, Fabio, levou a Lívia e a mãe dela para uma casa muito bonita que ele tem em uma praia linda do Nordeste. Foi um descanso merecido para a D. Irene e um tempo espetacular para a Lívia que se esbaldou de todas as maneiras. Para quem só tinha enfrentado tristezas e brigas até ali, foi um paraíso do qual nem ela nem a mãe tinham vontade de sair no final dos feriados. Mas, a vida continua com as suas obrigações e eles tiveram que voltar depois de quinze dias de descanso.

A Mannu foi com os pais para a fazenda que eles têm e que a Mannu sempre diz que leva uma “eternidade” para chegar. Porém, quando ela viu o portão e as palmeiras imperiais que acompanhavam todo o trajeto depois do portão até a casa principal, ela logo esqueceu o tempo que não passava na viagem e começou a gritar toda “esfuziada”:


Ebaaaa! Chegamos! Até que enfim!!! Papai, eu quero ir correndo ver o “Pinote”, e também quero andar nele, você vai comigo papai, não vai??!!! Eu não posso andar sozinha, você sabe, a mamãe não deixa. Você vai no teu cavalo e eu vou no meu, que legal!!! Papai, vai mais depressa! Eu to muito “afobiada” pra ver o Pinote!!

“ Afobada”... corrigiu a mãe rapidamente, rindo da animação da filha.

Isso... respondeu a menina sem parar de pular no banco de trás.

Assim que desceram do carro, veio o caseiro encontrar o médico e a família. A Mannu pulou de dentro do carro e foi logo dizendo:


Seu Adolfo, por favor, o senhor tem que me levar lá pra ver o Pinote porque ele está com muita saudade de mim, sabe?

O homem riu e respondeu dando um tapinha leve no alto da cabeça dela:
Sei mocinha, é ele quem está com saudades né? Entendi... Nós já vamos, vou ajudar seu pai aqui com a bagagem e depois resolvemos isso tá?

 ― Tá, mas não podemos demorar porque ele está muito ansioso pra andar comigo sabe Seu Adolfo!!?



O homem deu uma piscadinha para a menina que estava ansiosa demais e ele já conhecia o temperamento dela; sempre com o seu poço de palavras em ebulição! Ele nem esperou a menina perguntar sobre a esposa dele porque já sabia que seria a próxima questão “urgente” para ela.

A Lídia está lá na cozinha preparando tudo o que você gosta, corre lá dar um abraço nela que ela vai ficar muito alegre de te ver, mais ainda do que o Pinote.

Disse isso já sabendo que ficaria livre por alguns minutos para ajudar o patrão. Foi pegar o resto das malas no carro.




Enquanto isso, o efeito esperado surgiu: A Mannu esqueceu o Pinote por uns momentos.

EEEBAAAA! Eu vou, disse ela, disparando em direção à cozinha com o cheirinho de bolo assando cada vez mais forte. Explodiu porta adentro como se não fosse dar tempo de aproveitar tudo aquilo que ela tanto amava ali na fazenda.







Oi D. Lídia! Eu estou sentindo o cheiro do seu bolo de laranja que eu amo!!

A mulher voltou-se para a porta abrindo um grande sorriso e os braços para ganhar o abraço carinhoso que a menina sempre tinha quando chegava.



 A Mannu correu e pulou no colo dela enroscando os braços no pescoço da mulher clara e sardenta que tinha um sorriso muito acolhedor e as faces bem vermelhas pelo calor do forno e do fogão. O cabelo preso no lenço tinha uma mecha pequena escapando na lateral perto da orelha esquerda e a Mannu tratou de esconder os fios embaixo do lenço dizendo em seguida:

D. Lídia, o teu cabelo não era branco, você pintou?

Mas que memória menina!! Eu não pintei não, mas também não pensei que você fosse notar que eu estou passando de loira pra “cinzenta”, é a idade minha criança!

Mas você continua bonita com essas pintinhas no rosto sabia? Respondeu a Mannu, sorrindo com sinceridade. Ela sempre quis ter algumas sardas e nunca conseguiu, achava muito diferente a D. Lídia, com aquelas manchinhas douradas na pele, poucas, mas, que na visão da menina, deixavam a mulher com cara de gente muito “amiga”!

A mulher riu e colocou a Mannu no chão fazendo um carinho no cabelo dela e no rosto. Ela gostava muito quando os patrões vinham porque a Mannu “enchia a casa de alegria”, nas palavras da mulher.
Em seguida entrou a Dra Laura, cumprimentando a mulher e puxando o ar para aproveitar o cheirinho delicioso que vinha do forno.


Como vai Lídia querida! Huuuummm! Mas esse cheirinho está maravilhoso !!!

Boa tarde Doutora! Que bom ver a senhora! Fazia tempo “num é”? Mais de um ano eu acho...

Mais de um ano sim Lídia! Estivemos aqui apenas no começo de novembro do ano passado, já pensou?

Pois então, doutora! Estava na hora de voltar né?

É mesmo! Se eu pudesse, viria muito mais para cá me esconder da correria. Mas, nossa profissão é meio ingrata nesse sentido, não nos permite muito descanso.

É verdade, né doutora? E o doutor como está?

Está bem, ansioso por estes dias aqui, mas, já sabe né? Ele vai ficar no máximo uns quatro dias, se conseguir tudo isso, se não houver nenhuma emergência por lá... você sabe como é.

É... eu sei sim, pessoas como vocês deviam ter um substituto certo, todos os anos, para poderem sair por pelo menos um mês com sossego, uai! Devia ser uma lei isso, não acha doutora? Ninguém pode viver com tanta carga o ano inteiro e ter que descansar de pingo em pingo... não dá certo!

A médica riu dizendo que pensava isso mesmo. Colocou umas sacolas num balcão ao lado e avisou a empregada.

Esses são os seus presentes Lídia, você sabe que chegam só no fim do ano e por isso, são vários; tem o de Natal, o do seu aniversário em agosto, e mais alguns pra você e outros para o Adolfo, certo querida?

Obrigada Doutora! A senhora é sempre assim, “mesm,” nem adianta eu dizer que não precisa porque sei que a senhora traz do mesmo jeito. Mas dou graças a Deus, porque nunca preciso de roupas, a senhora me abastece para o ano inteiro!

A Mannu pegou um pêssego na fruteira e, de repente lembrou-se de algo muuuuuito importante!!


Pediu pra Lídia lavar o pêssego pra ela, cheirou a fruta com os olhos fechados e saiu correndo e mordendo o pêssego, avisando o mundo todo.

Gente, eu vou ver o Pinote tá? Mas eu já volto pra comer o seu bolo D. Lídia!! E vou querer suco de laranja também, daquela que tem no pomar daqui tá bom D. Lídia?

Tá certo minha criança, vá! Quando você voltar eu já terminei de assar o bolo e vou fazer teu suco bem “geladim,” na hora! E o café também, pro Dr. Álvaro, "né mesm" Doutora? Ele gosta do “cafezim” daqui.

Ela sempre deixava uma ou outra palavra no seu “mineirês” ainda. Eles tinham saído de Minas Gerais fazia uns quinze anos já e ela amava Goiás, mas Minas era parte integrante da sua vida, maneira de falar e costumes para sempre, lógico!

Isso Lídia! Coloque também aquele pãozinho de queijo que você faz porque ele veio falando o caminho todo que não via a hora de comer frutas sem veneno e o teu pão de queijo. Segundo ele, o melhor negócio da vida dele foi ter descoberto vocês lá em Minas e ter conseguido trazer pra cá! Ele, com certeza, está lá admirando o pomar e a horta que eu já vi de longe que está linda Lídia.

E tá mesmo doutora! O Adolfo cuida daquilo tudo com um “disvelo qui é só ele mesm”. Só usa os “produto natural” que aquele “agrônimo” meio esquisito ensinou ele fazer. Desde o adubo orgânico até os “pesticida”, é tudo natural. Diz ele que morar no paraíso antes de morrer não é pra todo mundo não, então a gente tem que valorizar “né mesm” doutora?

É, minha querida! Esse “ agrô NO mo” disse a médica mais pausadamente para a mulher perceber sozinha a correção da palavra é um “naturista” e só usa a própria natureza para controlar as pragas e estimular a produção tanto na horta como no pomar. Ele sabe o que faz pra ter alimentos saudáveis, e leva isso a sério, por isso o Álvaro confia tanto nele.

É... e ele vem sempre olhar se o Adolfo tá fazendo tudo “direitim” sabe?

Que bom Lídia, eu vou lá pro meu quarto, tomar uma chuveirada e descansar um pouco, logo apareço aqui para o cafézinho tá?

Certo, doutora! Tá tudo “prontim” lá, tudo “limpim”e cheiroso como a senhora gosta. Até alfazema eu consegui achar pra colocar no seu vaso de flores lá do quarto; sei que a senhora gosta!

Huuuummmm!! Lídia, só você pra fazer eu me sentir nos campos de “Provence” em pleno interior de Goiás!! Disse a médica dando uma piscada para a empregada que não respondeu de imediato.

A empregada acompanhou a patroa até a copa e ficou olhando até que ela sumiu na escada que dava para os quartos lá em cima. Depois virou-se pensativa e feliz por ter os patrões ali; gostava muito deles.


Enquanto isso, Dr. Álvaro e a Mannu já estavam olhando os cavalos com o Seu Adolfo na cocheira da fazenda. Ele estava se preparando para encilhar o cavalo do Dr. Álvaro e depois iria preparar o pônei da Mannu que estava eufórica passando a mão no Pinote e garantindo que ele estava “sorrindo” porque ela chegou. Será??



Os dois passearam um pouco a cavalo pelos campos mais próximos da casa principal, pois sabiam que tinham que voltar logo para o café gostoso que a Lídia estava preparando. Esse passeio era só para matar a saudade, depois, nos dias seguintes, teriam mais tempo para cavalgar por onde quisessem, isso era uma coisa que a Mannu amava fazer com o pai dela, passear pela fazenda e ver o lago com os patinhos e as flores todas, o pomar, etc... Tudo era tão lindo e verdinho!

Quando voltaram, a Dra. Laura já estava esperando na varanda da casa, e o cheirinho de café estava delicioso.
Eles entraram e foram direto para a mesa aproveitar as delícias mineiras da Lídia. O bolo de laranja com glacê feito do suco “orgânico mesmo” das laranjas colhidas ali e açúcar de confeiteiro foi uma das coisas que a Mannu atacou primeiro. Ela amava o azedinho do glacê com o sabor acentuado da laranja. Huuummmm! E o pão de queijo quentinho então! Leite “de verdade” (como dizia a Mannu) e sem conservante! Isso era bom demais!  

Depois, um bom banho e o descanso merecido na varanda, depois das 5 horas de viagem até a fazenda. O céu já começava a mostrar as primeiras estrelas da noite. O ar estava fresco e perfumado pelo jasmim-dos-açores plantado junto à cerca que protegia a área da varanda. A flor espalhava um aroma intenso e delicioso trazendo uma sensação de paz e aconchego.

A Mannu se aninhou junto com o pai em uma das redes da varanda.

Vamos ficar aqui pra sempre papai?


Hum!! Quem me dera! Respondeu ele, sabendo que a sua vida paradisíaca ali poderia ser interrompida a qualquer momento. A Dra. Laura sentou-se perto deles em um desses balanços que ficam pendurados e que parecem um colo de mãe embalando um filho. 
Poderiam até dormir ali, tamanha era a paz que os três sentiam. 

Conversaram por um bom tempo, coisa raríssima, riram muito e depois resolveram ir dormir para aproveitar o dia seguinte que seria cheio de novidades para todos eles, que só tinham acesso à natureza ali naquele refúgio, onde podiam curtir os breves períodos de fuga do stress e da correria onde moravam.

Antes de se levantarem do momento preguiça, a Mannu saiu com uma que o pai dela não esperava, não era costume deles.

Papai, eu posso falar com o meu “outro “Papai”, aquele que mora lá no céu? ... Eu só quero agradecer por esta noite tão bonita , cheia de estrelinhas, que eu acho tão lindas, algumas ficam piscando pra mim, sabia?

O homem ficou meio desconcertado, olhou o céu maravilhoso e sentiu que jamais poderia cortar o encanto daquele momento mesmo que a sua incredulidade se esforçasse para isso. Depois de notar bem o céu, ele disse:


Claro, filhinha! Pode agradecer, e diga também que o seu pai “aqui da terra” manda lembranças pra Ele e... bem ... pode dizer que eu também estou feliz por este momento de paz aqui... na nossa terra... ok?

A menina não perdeu tempo, foi logo falando com um ar de muita reverência, e com uma convicção sincera de que Ele estava ali, bem pertinho escutando. Essa convicção era tão forte que até os pais dela sentiram uma sensação estranha, sobrenatural, quase como um arrepio que não era de frio, parecia que a brisa soprava mais morna e aconchegante ainda.

Senhor Papai do céu, eu amo muito o meu pai e a minha mãe aqui da terra, mas eu preciso dizer que eu amo demais o Senhor também, porque o Senhor me deu eles pra cuidarem de mim aqui, e este céu cheio de estrelinhas que piscam pra mim. O Senhor sabe como eu gosto de tudo isso. Além de tudo tem o Pinote que “sorriu” quando eu cheguei pra ver ele... Eu gosto muito de tudo o que tem aqui na fazenda, é tudo muito gostoso: a casa, as frutas, o leite, o bolo da D. Lídia e o alface tão gostoso que o Seu Adolfo planta aqui e que é diferente lá da cidade. O tomate também, é muito mais gostoso, eu acho! Eu só quero agradecer tudo isso, e a única coisa que eu vou pedir hoje, é que o papai (aqui da terra) não seja chamado pra nenhuma “ermegência” lá no hospital. Assim ele vai poder ficar sossegado aqui comigo e com a mamãe pelo menos cinco dias tá? Eu sei que o Senhor sabe que ele precisa descansar também né? Porque o Senhor mesmo sempre vê como ele trabalha muuuuuito pra curar aquelas pessoas doentes lá... E o Senhor mesmo ouviu que ele mandou eu dizer que ele está feliz de estar aqui... Então, é isso, Papai do céu, muito obrigada e boa noite pro Senhor também! A nossa noite eu sei que vai ser maravilhosa! E faz um favorzinho pra mim, Papai do céu? Mande um beijo pro meu irmão mais velho, o Emanuel...Eu estou com saudade d’Ele.  Nunca mais eu sonhei com Ele... Só isso... Amém. Aliás, é no nome dele mesmo, aquele outro nome dele, sabe? “Jesus,” é no nome dele que eu fiz essa oração, tá certo? Agora sim, amém!!

Depois dessa longa oração, dita em palavras sonolentas, tão naturais e simples, os três se levantaram dos seus lugares, em silêncio. O Dr. Álvaro pegou a Mannu no colo, passou o braço em volta do ombro da mulher e entraram, com medo de falar qualquer coisa que quebrasse a pureza daquele instante. Foram para a cama, os pais com lágrimas disfarçadas nos olhos, e a Mannu, quase dormindo já no colo do pai. A sensação era muito forte, de uma Presença Amorosa e Protetora.




2 comentários:

  1. Que lindo Isa!! Vc escreve tão bem e descreve de uma maneira tão viva que me imaginei nesta fazenda. Que saudades me deu do Brasil!! A oração da Mannu tão linda e singela. Eu amava o jeito que vc contava as "Imaginações Perpétuas" da nossa infância e adolescência!! Continue sempre assim amiga, vc é uma escritora nata!! Bjos carinhosos!!

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  2. Obrigada pelo incentivo Kelzinha querida! Sinto sdds daquele tempo das "imaginações perpétuas" tb!! Mas não era só eu que tinha mente fértil pra contar histórias... Eu amava ouvir a de vcs tb, (Gisele e Joyce e vc!!) bons tempos não??? ��

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