Quando a tia Mel atendeu o
interfone e avisou que as meninas precisavam descer pois os pais e responsáveis
já estavam todos lá esperando por elas, a reclamação foi geral. Ninguém queria
interromper a história naquele pedaço, mas, trato é trato, e obedecer é necessário
e é bem mais bonito do que reclamar.
― AAAHHHHHHHHHH! NÃO!!!! AGORA NÃO
ZEZÉ!!! Foi o pedido de todas ali, e, cá conosco, do Dr. Álvaro também, que, em
pensamento, só em pensamento mesmo, estava curioso para saber que argumentos a
Zezé teria para convencer uma mente altamente científica e racional como a
dele. Mal sabia ele que isso não dependia dos argumentos da Zezé.
Até a Mel se juntou aos
“protestos”...
― Eu poderia chamar os pais aqui
pra cima já que estão todos aí... disse a Mel.
A Zezé não podia fazer isso, pois
não sabia até que ponto os outros estariam interessados e nem mesmo o quanto
eles teriam que retroceder nas explicações por causa dos outros até que eles
também pudessem acompanhar as histórias. Então ela disse:
― Crianças... hoje não vai dar,
ninguém veio preparado pra ficar... mas, vamos combinar uma coisa? Cada uma de
vocês vai contar as histórias que vocês já ouviram até aqui para os pais de
vocês, ok? Se eles quiserem vir na próxima reunião podemos até ficar um pouco
mais, pode ser Dra. Laura? Perguntou a
Zezé, sabendo que a próxima seria na casa deles.
Enquanto a Dra. Laura abria a boca
pra falar alguma coisa o Dr. Álvaro atropelou as palavras dela, tão ansioso para
responder que até a Mannu estranhou.
― Bem, então, está resolvido o
dilema, disse a Zezé. Todas pra baixo comigo agora, para encontrar os pais ok?
As crianças ainda tentaram
argumentar um pouco mais, porém, a Zezé já sabia que não seria possível desta
forma. Não dá para fazer as coisas sem planejamento a não ser em caso de
emergência mesmo.
Saíram todas com a Zezé, e o Dr. Álvaro e a esposa ficaram
conversando um pouquinho mais com a mãe da Camila. A Mannu e a Camila desceram
também, com as meninas.
― O que vocês têm achado dessas
histórias todas? Perguntou a Mel para o casal.
― Olha... gaguejou a médica... é...
pra ser franca, eu não sei muita coisa sobre isso, e, portanto, tenho
participado para ver o que é que a Zezé anda ensinando para a Mannu e essas
meninas, entende Melissa? É mais por isso mesmo...
― É... eu também... complementou o
Dr. Álvaro. Na verdade, eu tenho é andado preocupado com esse misticismo todo
que a Zezé anda jogando em cima da Mannu e das outras crianças... então,
estamos meio apreensivos, por isso temos feito tanta questão de assistir às
reuniões.
― Perfeito! Isso é muito necessário
atualmente, as crianças estão expostas a tanta coisa perigosa através de
internet, amigos desconhecidos, até literaturas estranhas que trazem mensagens
subliminares etc... que é preciso acompanhá-los, sempre que for possível, mais
de perto, não é mesmo?
― Exato!! Disseram os dois ao mesmo
tempo...
― Eu não quero a minha filha com a
cabeça cheia de dúvidas e fantasias que só podem prejudicar o desenvolvimento
intelectual e emocional dela... Completou o Dr. Álvaro sentindo-se mais à
vontade para ser sincero.
― É verdade, todo cuidado é pouco,
continuou a Melissa. Mas... vocês notaram alguma coisa, digamos... “estranha”
no comportamento da Mannu por causa dessas histórias?
Eles pensaram um pouco e começaram
a falar os dois ao mesmo tempo...
― Olha! Começou ele... ―
Na verdade! Disse ela...
Olharam um para o outro,
rapidamente, e ficou entendido que a palavra estava com a mãe, que passava um
pouco mais de tempo com a filha.
― Bem... eu notei sim... mas não
posso dizer que seja uma coisa “estranha” no sentido negativo... Digo, é
estranho porque aconteceu de repente, mas ela está, na verdade, muito melhor.
Anda mais alegre, não tem mais dor de estômago como antes, nem tem me pedido
mais pra ficar com ela em casa porque não está com vontade de ir para a
Escola... isso realmente acabou.
― É... e outra coisa que eu notei
foi que ela não tem reclamado tanto quando eu preciso sair, de repente, no meio
de qualquer atividade com ela, para fazer algum atendimento de emergência.
Antes era uma reclamação só... Disse o médico quase espantado por ter percebido
isso.
― É... sem dúvida, isso é muito
bom. Porque eu acabava sempre indo trabalhar com uma espécie de “peso” por ter que
deixar a minha filha sozinha tantas vezes. Enfim...
Nesse momento, a Zezé, a Mannu e a
Camila entraram e a Melissa perguntou:
Riram todos e concordaram que era
melhor ter um pesadelo daqueles do que passar fome. Foram para a mesa e
conversaram até mais tarde, quando o telefone do Dr. Álvaro tocou. A Mannu
olhou para o pai e já sabia.
Assim que ele desligou o telefone,
deu uma piscadinha para a filha e foi dar um beijo na cabeça dela. Ela
realmente não reclamou. Ele se despediu de todos ali e foi para o hospital.
A Mannu e a mãe ficaram um pouco
mais conversando com a Melissa, enquanto a Zezé e a Mari davam um jeito na
desordem da cozinha. Depois disso, foram todas embora. A Zezé para a casa da
irmã, a Mari para a sua própria casa e a Mannu e a mamãe para o andar de cima.
Essa semana demoraria um bocado a passar; para
todos. A curiosidade estaria rodopiando na mente de todos ali. Que será que
viria na outra parte da história? Será que iriam todos os outros na reunião
também? E qual seria a continuação da história?
O Dr. Álvaro passou a semana se
preparando mentalmente para inquirir a Zezé, com cuidado para não “massacrar” a
empregada por quem tinha muito respeito. Mas, dessa vez ele queria tirar
algumas explicações mais objetivas da Zezé, pensou ele.
Enfim, chegou o sábado seguinte.
No mesmo horário, lá estavam todas as meninas na casa da Mannu. Somente a Lívia
conseguiu trazer o tio e a mãe para o encontro, as outras não conseguiram convencer os pais a virem também.
Então a grupo estava maior desta vez.
Assim que terminou a sessão
“doçura”, passaram para o local onde teriam a sessão “nutrição espiritual”.
Acomodaram-se todos e a Zezé começou:
― Bem, hoje temos mais dois novos
participantes do nosso grupo, a mãe da Lívia e o tio dela. Bem vindos D. Irene
e Sr. Fábio, queremos que vocês se sintam bem à vontade com a gente. Qualquer
coisa que ficar meio atrapalhada na cabeça de vocês podem fazer as perguntas
que quiserem ok?
Eles agradeceram e disseram que
estavam muito felizes por também tomarem conhecimento dessa história que ficava
cada dia mais interessante. Já sabiam
tudo até ali, pois a Lívia havia passado o “relatório” completo de tudo.
O Dr. Álvaro sorriu e disse que
estava feliz de vê-los ali, e também de ver a aparência da D. Irene; mais
corada, com um lencinho bem arranjado na cabeça, bem diferente da última vez
que eles se encontraram.
A Zezé recomeçou:
― Bem, vamos lá; a gente estava
falando sobre o quê mesmo, quem lembra?
Imediatamente várias mãos infantis
se levantaram.
A Zezé sorriu para as
interessadíssimas e foi logo falando, ela mesma:
― Ótimo!! Todo mundo lembrando né?
Nós estávamos falando sobre o quanto a nossa vida é apenas uma passagem rápida
por este mundo não é mesmo? Vocês falaram dos avós que já foram embora e etc,
não foi isso?
― É isso sim Zezé! Falou a Lívia
que estava muito ansiosa para comentar esse tipo de coisa.
― Sabe Zezé, eu tinha muito medo de
falar sobre morte, porque quando a minha mamãe ficou doente, eu pensei que ela
ia morrer. Mas, a Mannu me ensinou que quando eu tiver medo é só eu me lembrar
que Deus existe mesmo! E que eu posso falar com Ele... Daí, quando a gente
lembra disso, o medo se assusta e vai embora!
A Zezé abriu o livro e leu assim:
No amor não há medo; pelo
contrário o perfeito amor expulsa o medo, porque o medo supõe castigo.
Aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor. Isso
está escrito lá em 1 João 4:18.
E sabe quem é o “perfeito amor”? Que tem essa força toda de espantar o medo maior
do mundo? É exatamente Deus... porque Deus é AMOR, e amor perfeito. Vou ler pra
vocês verem como isto também está escrito na Bíblia: Está lá em I João 4:8 que
diz assim:
Quem não ama não conhece a Deus,
porque DEUS É AMOR.
― Por isso, Lívia, quando você
falou com Deus, você reconheceu que Ele existe e demonstrou que você confia
n’Ele, então, o amor d’Ele entrou no teu coraçãozinho, e expulsou o medo de lá,
entendeu? Porque medo e confiança não se dão bem quando estão juntos. E quer
saber mais? Mesmo que Ele tivesse levado a sua mamãe embora, Ele nunca deixaria
você sozinha. Ele sempre iria providenciar alguém pra cuidar de você e amar
você muito também, porque você confia n’Ele e depende d’Ele.
― É... eu sei Zezé, mas eu não queria
ficar sem a minha mamãe não!!
― Claro, querida! Ninguém quer
perder ninguém. Mas, quando isso é preciso acontecer, e só Deus sabe por que, é
o próprio Deus que toma conta da situação de quem fica aqui. Aliás, de quem
fica e de quem vai... Ele cuida de tudo. Portanto, se a gente acredita e ama
mesmo a Deus, a gente nunca fica abandonado, ou abandonada, na solidão...
entenderam?
Os adultos estavam num silêncio
total. Pareciam todos sem palavras; até gostariam de discordar, mas não parecia
correto e nem oportuno. Afinal, se a coisa funcionasse assim mesmo, e as
pessoas conseguissem enxergar isso, seria um grande consolo para quem tem que
se separar de alguém que ama para sempre.
O Dr. Álvaro limpou a garganta e
achou que “devia” dizer alguma coisa.
― É, seria muito bom se todos
acreditassem assim, pois seria mais fácil lidar com a morte... mas... o
problema é que isso depende muito do ser humano, a gente vê que nem todos
ajudam ou se preocupam o suficiente com quem perde os entes queridos. Caso
contrário, não teria tanta criança abandonada, sofrendo sozinha por aí...
― Exato, Doutor! E sabe por quê?
Justamente por culpa de nós mesmos! Para entendermos isso precisamos voltar lá
na história do jardim, no momento em que os seres humanos resolveram que seria
“bom” conhecer o “bem’ e o “mal” ― Disse a Zezé aproveitando para
retomar o assunto que havia sido desviado na última reunião.
― Ah... e você acha que isso pode
ser explicado com aquela “lenda” do jardim perfeito? Perguntou o médico quase
com ironia.
Essa parte vai ficar para o outro
capítulo, veja se não perde ok? Vai ser emocionante...










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