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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sábado, 7 de outubro de 2017

AGUARDANDO... CAPÍTULO 96



Enquanto a Drª Laura reconhece suas limitações ali na dimensão espiritual e entrega todas as suas dúvidas na mão de quem sabe o que fazer com elas, nós vamos dar uma olhada no nosso mundo físico aqui e ver como estão correndo as coisas lá pelo hospital e saber como está a Mannu.

Desde o momento em que a Drª Laura teve a parada cardíaca e entrou nessa experiência incrível que ela jamais poderia sonhar ou esperar, a impressão que se tem é que passaram-se dias, ou pelo menos muitas horas. Ela viu tantas coisas lá, conversou tanto com o Mestre, e ainda tinha, obviamente, muitas coisas para perguntar, e ela vai tentar, vamos ver se ela terá resposta. Por enquanto vamos dar uma pausa porque ela precisa chorar muito ainda.

Pois bem, aqui na nossa Terra, desde o momento em que a Drª Eunice deixou a sala da UTI para dar a pesada notícia para o Dr. Álvaro, passaram-se exatamente 30 minutos apenas. Na dimensão espiritual o tempo não existe da forma como o conhecemos, então, 30 minutos aqui podem significar muito lá, ou então nada. Mais adiante você vai ver conversas sobre isso novamente.

Neste momento, a Drª Eunice acabava de abrir a porta da sala em que o Dr. Álvaro estava, jogado na cadeira, tentando não pensar no assunto enquanto o outro médico falava pelos cotovelos na tentativa de ocupar todos os segundos e espaços da mente do Dr. Álvaro para que ele não pensasse no que estaria acontecendo na UTI.

Ao ouvir a porta se abrindo, o Dr. Álvaro se levantou num pulo, com o coração desordenado e a mente girando num ciclone gigantesco. O outro médico levantou-se também. Ao olhar para a Drª Eunice, o Dr. Álvaro nem deixou que a médica começasse a falar; até porque não precisava, ele estava vendo no rosto dela que as coisas não tinham corrido bem. Não queria ouvir o seu maior medo criando vida nas palavras da colega.   



Ela ficou calada mesmo, olhando para o lado, porque não achava palavra nenhuma que tornasse o momento menos doloroso. O silêncio caiu bem pesado no lugar. Ninguém se mexia, a não ser o Dr Álvaro que desabou de novo na cadeira como se estivesse sem forças até pra respirar. Ele sentia e sabia que isso poderia acontecer.

Passava pela cabeça do médico um turbilhão de pensamentos: “Como dizer uma coisa dessas para a Mannu que estava dormindo feito um anjo lá no quarto; como viver sem a Laura dali em diante; como é que uma coisa dessas tinha acontecido; por que ele não tinha aproveitado melhor a vida com a esposa; e principalmente: “DEUS, ONDE É QUE O SENHOR ESTÁ?

Permaneceu sentado por alguns segundos, com a cabeça nas mãos, a perna tremendo sem controle. Levantou-se subitamente e encostou a cabeça na parede da sala, lutando contra esses pensamentos e contra todos os soluços e lágrimas que se debatiam dentro dele querendo sair. Como se isso pudesse fortalecer alguém ou fazer a dor diminuir.


Mas a resistência não foi muito longe, logo a dor explodiu e ele esmurrava a parede como se quisesse demolir o hospital inteiro. Os dois colegas apenas se aproximaram e colocaram a mão nas costas do médico que a essa altura, soluçava desconsolado, repetindo coisas que os dois não conseguiam entender; parecia que ele falava “entre dentes” com alguém enquanto chorava.

E agora? ... o que eu digo? Por que você não ouviu? Você podia, eu bem sei!!! E soluçava, continuando em seguida: Ela pediu tanto!! Eu vi!! E é tão inocente... ela não vai entender isso! Vai ficar com raiva de você!!! Eu também estou!!!

Os colegas não entenderam as palavras dele, mas, também não perguntaram nada, acharam que ele estava simplesmente descontrolado, também, naquela situação, era bem compreensível...

Aos poucos ele foi se acalmando, os soluços sumiram e ele engoliu o resto das lágrimas. Teria muito tempo para livrar-se delas mais tarde. Agora, só pensava na sua Mannu. Virou-se e foi para a cadeira novamente, agora, parecendo mais com o Dr. Álvaro de sempre. Mas seu rosto mostrava o tamanho da dor.


De repente ele lembrou-se da Zezé, sim, a preciosa Zezé seria um socorro agora, ela era uma segunda mãe da Mannu. Ele procurou seu telefone para ligar pra ela, mas nem precisou. Uma enfermeira apareceu na porta avisando que a Zezé tinha acabado de chegar e estava procurando por ele. Levantou-se e saiu imediatamente, seguido pelos dois colegas.

Já no corredor alguém lhe disse que a Zezé tinha ido para o quarto da Mannu. Ele perguntou ansioso:

A Zezé ficou sabendo da Laura?

A moça respondeu:

Não Doutor, ninguém falou nada não...

Melhor assim... disse ele disparando na direção da ala pediátrica. Os outros dois ficaram por ali comentando os próximos passos que teriam que dar.

Chegando no quarto da filha, o médico parou por alguns momentos antes de abrir a porta; fez uma espécie de “oração” rápida para ter a coragem necessária de enfrentar o que vinha pela frente. Sentia-se culpado pela explosão de poucos minutos atrás, mas, preferia ser sincero com Deus, já que agora teria muito o que conversar com o Todo Poderoso. Disse ele, em pensamento:

Bom... você... ou melhor, o Senhor... sabe bem como estou moído por dentro. Não sei como dizer isso para a minha filha que sempre acreditou em... bem... no Senhor... Então, se não for pedir demais, me ajude na hora de contar que o Senhor não ouviu a oração dela... por favor...

De alguma forma, ele tinha muita certeza, agora, que Deus estava ouvindo o que ele dizia em pensamento.



Respirou fundo e abriu a porta.

O que viu tirou o seu chão e toda a coragem que ele tinha conseguido havia poucos instantes. A Mannu sorria, muito alegre, e estava para começar a comer um pedaço do bolo que a Zezé tinha trazido.


A criança pareceu não perceber o aspecto abatido do pai... mas a Zezé notou na hora e entendeu de imediato o que tinha acontecido. Ela sentiu um tremor rápido no coração e uma tontura forte, como se o quarto tivesse sido chacoalhado.  Sentou-se na cama, muito pálida, desviando os olhos da Mannu que já começava a comer o bolo, falando e mastigando com o mesmo entusiasmo de sempre, sem se dar conta de que todos ali estavam tentando disfarçar o que sentiam. Para ela o mundo estava cor-de-rosa ainda... Dizia sem dar pausa na mastigação:

Papai, eu PRE CI SO contar pra vocês o sonho que eu tive com a mamãe! Foi lindo!!! Lindo mesmo! Só que eu queria terminar de comer o bolo da Zezé que está uma delícia e eu estou com o meu estômago “pulando” de fome! Você não vai comer papai?

Ele se aproximou tentando responder com a naturalidade que fosse possível para o seu coração quebrado.

Vou... vou sim meu amor... A Zezé vai cortar um pedacinho pra mim, né Zezé? Pode ser Zezé?

Claro... claro Doutor... eu já corto, só um minutinho tá? Só vou ali no toilette um pouquinho... lavar as mãos que eu... eu encostei na cobertura do bolo, está “melada”... já volto...

Ele entendeu claramente que a Zezé “precisava” sair dali por alguns instantes, fosse pra chorar, orar, ou o que fosse... o médico notou que ela já tinha percebido o que tinha acontecido...

Sim Zezé... pode ir... tá tudo bem né? Perguntou ele, preocupado com a palidez dela.

Tá... tá sim doutor... respondeu ela já saindo e lutando contra o turbilhão dentro dela também.


Assim que ela saiu, a Mannu perguntou entre uma mastigada e outra:

Você já viu a mamãe hoje papai?

Ele engoliu em seco e respondeu:

Não... filha... ainda não...

Ah, que pena papai, eu queria saber se ela já acordou, porque eu estou guardando ali na “geladeirinha” do quarto um pedaço do bolo da Zezé, porque ela vai amar! Você não vai comer papai? Coma porque senão eu como tudo sozinha!! Disse rindo, com a boca suja de glacê.

O pai não soube o que responder e desviou o assunto.

Ah... que bom... é... Paula, corte pra mim um pedacinho desse bolo, quero provar. Mas... pequeno, bem pequeno, por favor!

A outra enfermeira se prontificou a fazer isso imediatamente, como se estivesse esperando que alguém pedisse algo, pois ela estava totalmente sem palavras e também já tinha adivinhado, pela cara do Dr. Álvaro, o que tinha acontecido com a Drª Laura. Assim que entregou o pratinho para o médico ela perguntou, querendo sumir dali:

Doutor, o senhor precisa de mim aqui? Agora? Porque... se o senhor me der licença, gostaria de dar um pulinho lá na enfermaria...

Claro... claro! Pode ir sim Paula... vou ficar aqui com ela... um pouco...

Ela saiu fazendo um carinho na cabeça da Mannu, mas sem coragem de olhar para o rosto dela.

Tchau Paula... obrigada por cuidar de mim até a Zezé aparecer... eu gostei muito!! Disse ela com sinceridade Agora, o meu papai vai cuidar só de mim, porque ele já cuidou de todo mundo que precisava aqui, né papai?

O médico sentiu o nó apertar na garganta, mas, se controlou, engolindo em seco duas ou três vezes. Depois falou, tentando parecer normal:

Claro filhinha! Vou ficar aqui um tempão com você... disse ele deixando o seu pratinho ali de lado e puxando a filha, que já tinha terminado o bolo,  para o colo dele. A menina não percebeu que ele nem tinha começado a comer o bolo. Aconchegou-se bem no colo do pai e começou a falar tudo o que o médico gostaria de NÃO ouvir naquele momento.


 Ele sentiu dor na garganta e no peito, mas ainda não conseguiu coragem suficiente para falar que a mãe tinha “virado estrelinha”... Começou a orar “em pensamento” de novo.

Deus... me ajude! Não sei como dizer isso pra ela... Não tenho coragem... Ela vai sofrer tanto!!! Vai doer muito o coraçãozinho dela... Ela pediu tanto para o Senhor curar a mãe dela... e...

Fechou os olhos esperando, sinceramente, que alguma resposta surgisse, ou então, que não fosse ele o incumbido de dizer aquilo. Mas, ele mesmo sabia que não teria coragem de deixar outra pessoa dar uma notícia dessas pra ela. Apertou a filha num abraço que gostaria de eternizar para não ter que fazer mais nada além de segurar a sua princesinha perto do coração, protegida da dor.
A menina sorriu e falou:

Papai, você está ficando igual a Zezé... está me apertando até me esmagar... Por falar nisso, cadê a Zezé que não vem nunca! Zezé!!! Disse ela, sem gritar muito alto, sabendo que a mulher ouviria pois tinha entrado no banheiro ali do quarto, bem pertinho.
Ela respondeu lá de dentro.



Secou as lágrimas, não as mãos, e saiu, sabendo o que teriam que enfrentar e pedindo forças lá do alto.

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