Enquanto
a Drª Laura reconhece suas limitações ali na dimensão espiritual e entrega
todas as suas dúvidas na mão de quem sabe o que fazer com elas, nós vamos dar
uma olhada no nosso mundo físico aqui e ver como estão correndo as coisas lá
pelo hospital e saber como está a Mannu.
Desde
o momento em que a Drª Laura teve a parada cardíaca e entrou nessa experiência
incrível que ela jamais poderia sonhar ou esperar, a impressão que se tem é que
passaram-se dias, ou pelo menos muitas horas. Ela viu tantas coisas lá,
conversou tanto com o Mestre, e ainda tinha, obviamente, muitas coisas para
perguntar, e ela vai tentar, vamos ver se ela terá resposta. Por enquanto vamos
dar uma pausa porque ela precisa chorar muito ainda.
Pois
bem, aqui na nossa Terra, desde o momento em que a Drª Eunice deixou a sala da
UTI para dar a pesada notícia para o Dr. Álvaro, passaram-se exatamente 30 minutos
apenas. Na dimensão espiritual o tempo não existe da forma como o conhecemos,
então, 30 minutos aqui podem significar muito lá, ou então nada. Mais adiante
você vai ver conversas sobre isso novamente.
Neste
momento, a Drª Eunice acabava de abrir a porta da sala em que o Dr. Álvaro
estava, jogado na cadeira, tentando não pensar no assunto enquanto o outro
médico falava pelos cotovelos na tentativa de ocupar todos os segundos e
espaços da mente do Dr. Álvaro para que ele não pensasse no que estaria
acontecendo na UTI.
Ao
ouvir a porta se abrindo, o Dr. Álvaro se levantou num pulo, com o coração
desordenado e a mente girando num ciclone gigantesco. O outro médico
levantou-se também. Ao olhar para a Drª Eunice, o Dr. Álvaro nem deixou que a
médica começasse a falar; até porque não precisava, ele estava vendo no rosto
dela que as coisas não tinham corrido bem. Não queria ouvir o seu maior medo
criando vida nas palavras da colega.
Ela
ficou calada mesmo, olhando para o lado, porque não achava palavra nenhuma que
tornasse o momento menos doloroso. O silêncio caiu bem pesado no lugar. Ninguém
se mexia, a não ser o Dr Álvaro que desabou de novo na cadeira como se
estivesse sem forças até pra respirar. Ele sentia e sabia que isso poderia
acontecer.
Passava
pela cabeça do médico um turbilhão de pensamentos: “Como dizer uma coisa dessas
para a Mannu que estava dormindo feito um anjo lá no quarto; como viver sem a
Laura dali em diante; como é que uma coisa dessas tinha acontecido; por que ele
não tinha aproveitado melhor a vida com a esposa; e principalmente: “DEUS, ONDE
É QUE O SENHOR ESTÁ?
Permaneceu
sentado por alguns segundos, com a cabeça nas mãos, a perna tremendo sem
controle. Levantou-se subitamente e encostou a cabeça na parede da sala,
lutando contra esses pensamentos e contra todos os soluços e lágrimas que se
debatiam dentro dele querendo sair. Como se isso pudesse fortalecer alguém ou
fazer a dor diminuir.
Mas a
resistência não foi muito longe, logo a dor explodiu e ele esmurrava a parede
como se quisesse demolir o hospital inteiro. Os dois colegas apenas se
aproximaram e colocaram a mão nas costas do médico que a essa altura, soluçava
desconsolado, repetindo coisas que os dois não conseguiam entender; parecia que
ele falava “entre dentes” com alguém enquanto chorava.
― E
agora? ... o que eu digo? Por que você não ouviu? Você podia, eu bem sei!!! E
soluçava, continuando em seguida: Ela pediu tanto!! Eu vi!! E é tão inocente...
ela não vai entender isso! Vai ficar com raiva de você!!! Eu também estou!!!
Os
colegas não entenderam as palavras dele, mas, também não perguntaram nada,
acharam que ele estava simplesmente descontrolado, também, naquela situação,
era bem compreensível...
Aos
poucos ele foi se acalmando, os soluços sumiram e ele engoliu o resto das
lágrimas. Teria muito tempo para livrar-se delas mais tarde. Agora, só pensava
na sua Mannu. Virou-se e foi para a cadeira novamente, agora, parecendo mais
com o Dr. Álvaro de sempre. Mas seu rosto mostrava o tamanho da dor.
De
repente ele lembrou-se da Zezé, sim, a preciosa Zezé seria um socorro agora,
ela era uma segunda mãe da Mannu. Ele procurou seu telefone para ligar pra ela,
mas nem precisou. Uma enfermeira apareceu na porta avisando que a Zezé tinha acabado
de chegar e estava procurando por ele. Levantou-se e saiu imediatamente,
seguido pelos dois colegas.
Já no
corredor alguém lhe disse que a Zezé tinha ido para o quarto da Mannu. Ele perguntou
ansioso:
― A
Zezé ficou sabendo da Laura?
A
moça respondeu:
― Não
Doutor, ninguém falou nada não...
―
Melhor assim... disse ele disparando na direção da ala pediátrica. Os outros
dois ficaram por ali comentando os próximos passos que teriam que dar.
Chegando
no quarto da filha, o médico parou por alguns momentos antes de abrir a porta;
fez uma espécie de “oração” rápida para ter a coragem necessária de enfrentar o
que vinha pela frente. Sentia-se culpado pela explosão de poucos minutos atrás,
mas, preferia ser sincero com Deus, já que agora teria muito o que conversar
com o Todo Poderoso. Disse ele, em pensamento:
―
Bom... você... ou melhor, o Senhor... sabe bem como estou moído por dentro. Não
sei como dizer isso para a minha filha que sempre acreditou em... bem... no
Senhor... Então, se não for pedir demais, me ajude na hora de contar que o
Senhor não ouviu a oração dela... por favor...
De
alguma forma, ele tinha muita certeza, agora, que Deus estava ouvindo o que ele
dizia em pensamento.
Respirou
fundo e abriu a porta.
O que
viu tirou o seu chão e toda a coragem que ele tinha conseguido havia poucos
instantes. A Mannu sorria, muito alegre, e estava para começar a comer um
pedaço do bolo que a Zezé tinha trazido.
A
criança pareceu não perceber o aspecto abatido do pai... mas a Zezé notou na
hora e entendeu de imediato o que tinha acontecido. Ela sentiu um tremor rápido
no coração e uma tontura forte, como se o quarto tivesse sido chacoalhado. Sentou-se na cama, muito pálida, desviando os
olhos da Mannu que já começava a comer o bolo, falando e mastigando com o mesmo
entusiasmo de sempre, sem se dar conta de que todos ali estavam tentando
disfarçar o que sentiam. Para ela o mundo estava cor-de-rosa ainda... Dizia sem
dar pausa na mastigação:
― Papai,
eu PRE CI SO contar pra vocês o sonho que eu tive com a mamãe! Foi lindo!!!
Lindo mesmo! Só que eu queria terminar de comer o bolo da Zezé que está uma
delícia e eu estou com o meu estômago “pulando” de fome! Você não vai comer
papai?
Ele
se aproximou tentando responder com a naturalidade que fosse possível para o
seu coração quebrado.
―
Vou... vou sim meu amor... A Zezé vai cortar um pedacinho pra mim, né Zezé?
Pode ser Zezé?
―
Claro... claro Doutor... eu já corto, só um minutinho tá? Só vou ali no toilette
um pouquinho... lavar as mãos que eu... eu encostei na cobertura do bolo, está
“melada”... já volto...
Ele
entendeu claramente que a Zezé “precisava” sair dali por alguns instantes,
fosse pra chorar, orar, ou o que fosse... o médico notou que ela já tinha
percebido o que tinha acontecido...
― Sim
Zezé... pode ir... tá tudo bem né? Perguntou ele, preocupado com a palidez
dela.
―
Tá... tá sim doutor... respondeu ela já saindo e lutando contra o turbilhão
dentro dela também.
Assim
que ela saiu, a Mannu perguntou entre uma mastigada e outra:
― Você
já viu a mamãe hoje papai?
Ele
engoliu em seco e respondeu:
―
Não... filha... ainda não...
― Ah,
que pena papai, eu queria saber se ela já acordou, porque eu estou guardando
ali na “geladeirinha” do quarto um pedaço do bolo da Zezé, porque ela vai amar!
Você não vai comer papai? Coma porque senão eu como tudo sozinha!! Disse rindo,
com a boca suja de glacê.
O pai
não soube o que responder e desviou o assunto.
―
Ah... que bom... é... Paula, corte pra mim um pedacinho desse bolo, quero
provar. Mas... pequeno, bem pequeno, por favor!
A
outra enfermeira se prontificou a fazer isso imediatamente, como se estivesse
esperando que alguém pedisse algo, pois ela estava totalmente sem palavras e
também já tinha adivinhado, pela cara do Dr. Álvaro, o que tinha acontecido com
a Drª Laura. Assim que entregou o pratinho para o médico ela perguntou,
querendo sumir dali:
―
Doutor, o senhor precisa de mim aqui? Agora? Porque... se o senhor me der
licença, gostaria de dar um pulinho lá na enfermaria...
―
Claro... claro! Pode ir sim Paula... vou ficar aqui com ela... um pouco...
Ela
saiu fazendo um carinho na cabeça da Mannu, mas sem coragem de olhar para o
rosto dela.
―
Tchau Paula... obrigada por cuidar de mim até a Zezé aparecer... eu gostei
muito!! ―
Disse ela com sinceridade ―
Agora, o meu papai vai cuidar só de mim, porque ele já cuidou de todo mundo que
precisava aqui, né papai?
O
médico sentiu o nó apertar na garganta, mas, se controlou, engolindo em seco
duas ou três vezes. Depois falou, tentando parecer normal:
―
Claro filhinha! Vou ficar aqui um tempão com você... disse ele deixando o seu
pratinho ali de lado e puxando a filha, que já tinha terminado o bolo, para o colo dele. A menina não percebeu que
ele nem tinha começado a comer o bolo. Aconchegou-se bem no colo do pai e
começou a falar tudo o que o médico gostaria de NÃO ouvir naquele momento.
Ele sentiu dor na garganta e no peito, mas
ainda não conseguiu coragem suficiente para falar que a mãe tinha “virado
estrelinha”... Começou a orar “em pensamento” de novo.
―
Deus... me ajude! Não sei como dizer isso pra ela... Não tenho coragem... Ela
vai sofrer tanto!!! Vai doer muito o coraçãozinho dela... Ela pediu tanto para
o Senhor curar a mãe dela... e...
Fechou
os olhos esperando, sinceramente, que alguma resposta surgisse, ou então, que
não fosse ele o incumbido de dizer aquilo. Mas, ele mesmo sabia que não teria
coragem de deixar outra pessoa dar uma notícia dessas pra ela. Apertou a filha
num abraço que gostaria de eternizar para não ter que fazer mais nada além de
segurar a sua princesinha perto do coração, protegida da dor.
A
menina sorriu e falou:
―
Papai, você está ficando igual a Zezé... está me apertando até me esmagar...
Por falar nisso, cadê a Zezé que não vem nunca! Zezé!!! Disse ela, sem gritar muito alto,
sabendo que a mulher ouviria pois tinha entrado no banheiro ali do quarto, bem
pertinho.
Ela
respondeu lá de dentro.
Secou
as lágrimas, não as mãos, e saiu, sabendo o que teriam que enfrentar e pedindo
forças lá do alto.








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