Enquanto
a Drª Laura olha para os Portões do Paraíso, maravilhada de ver apenas a
entrada do que seria o mundo da Perfeição de Deus, um pensamento surge em seu
interior e ela se apressa em colocar tudo pra fora. Afinal, qual o propósito de
tudo aquilo? Para que Deus teve o “trabalho” de trazê-la até um pedaço só dessa
outra dimensão e agora ordenava que ela voltasse para seu mundo comum e já tão
desfigurado na sua memória. A única coisa, realmente, que ainda lhe trazia
ânimo para voltar era a lembrança que permanecia mais nítida dentro dela: sua
filha, seu marido e a Zezé. Ela perguntou:
Ele
respondeu:
―
Filha, essa é uma ótima pergunta. Preste muita atenção porque você vai precisar
explicar muito bem as coisas lá embaixo. Muitos vão duvidar quando você falar
das visões que teve aqui comigo; outros vão criticar e até se exaltar dizendo
que essas coisas não são necessárias, e que na Bíblia não existe nada que dê
alguma ideia de que isso poderia, um dia, acontecer. Vão citar, inclusive, uma
parábola que Eu mesmo contei sobre um rico e um mendigo que morreram e não
voltaram... essa parábola ficou registrada lá no livro de Lucas 16.19-31... leia
depois para entender o que estou te dizendo agora.
― Ah, sim...
Então, é assim que vai ser Mestre? Aiaiai... eu não gosto de ter que
“convencer” as pessoas de que eu não estou mentindo, sabe?
― Pois
você vai ter que se acostumar a isso, Laura. Eu também não tive crédito da
maioria das pessoas quando desci ao seu mundo. Se não acreditaram em Mim,
logicamente não acreditarão em você também. Apenas se prepare para isso e não
se preocupe com o que vai ter que falar. O Espírito Santo lhe trará as respostas
necessárias na hora certa.
―
Certo, Mestre... mas... eu mesma não entendo bem... A Zezé sempre falava que o meu
tempo era lá, enquanto eu estivesse viva... não haveria outra chance para mim quando
eu viesse para cá... eu precisava crer com as informações que eu tinha recebido
em minha vida, Então, por que, afinal, eu estou recebendo essa chance?
Nesse
instante, o Mestre falou algo que ela não estava muito preparada para ouvir e
aceitar sem tentar se justificar.
―
Minha filha, você está pensando da forma mais humana e mais egoísta que existe
lá no seu mundo. Colocando-se no centro desse acontecimento como se isso fosse
algo preparado unicamente para você; por causa da sua fraqueza e para
garantir a sua entrada no Paraíso. Não é bem assim, querida...
Ela
olhou espantada e meio envergonhada para Ele sem saber o que responder, mas
buscando alguma explicação que justificasse de outra forma o que ela havia
falado.
Imediatamente,
o Mestre explicou aquele sentimento de constrangimento que se apoderou dela
naquele momento.
― Vê
minha filha? Como está o seu interior agora? Você está se sentindo até
decepcionada por não ser exatamente isso o que está acontecendo aqui, desde que
você chegou. As coisas não estão girando unicamente em torno da sua pessoa. Você
pensou que fosse só isso, mas não é.
Ela
não podia negar que era verdade o que Ele dizia. Ela pensava que tudo aquilo
era um gesto de misericórdia dirigido a ela, de uma maneira especial, por ter
sido tardia em aceitar as coisas espirituais. Achava que Deus havia lhe dado
uma “chance” para voltar e arrumar as coisas que não deu tempo de fazer depois
que ela se conscientizou de que o mundo espiritual não era nulo para ela, pouco
antes do seu acidente na volta da fazenda.
O
amor de Deus, que não se pode medir nem sujeitar a qualquer interpretação
nossa, realmente poderia fazer isso, pois Sua misericórdia se renova a cada
manhã, assim está escrito. Sua soberania também poderia muito bem Lhe permitir
essa concessão, pois apenas Ele tem o poder de estabelecer algo e em outra
situação revogar Sua própria determinação. Ele é Soberano em toda a extensão da
palavra. Tem autonomia para tanto. Porém, precisamos sempre lembrar que o amor
de Deus é muito abrangente e em vários dos Seus propósitos cobre toda a
humanidade.
O
Mestre continuou sua explicação:
―
Laura, de fato, você é única para Nós; cada filho de Deus é único e amado de
forma muito especial. Muitas vezes, fazemos coisas específicas, quando achamos
necessário, que são dirigidas a alguém, individualmente, de maneira que essa
pessoa entenda que aquilo está acontecendo unicamente por causa dela. Porém,
esse não é o caso aqui minha filha.
― Vou
explicar querida. Você faz parte de um grupo que foi escolhido para chegar até
um determinado pedaço dessa outra dimensão, desconhecida para vocês, e ver
coisas que possam incentivar a fé cada vez mais fria e negligenciada pelo ser
humano lá no seu mundo. São recursos que Meu Pai permite para que os seres
humanos endurecidos e surdos à Palavra já revelada possam perceber o toque do
Espírito Santo em seus corações. Isso só acontece porque Meu Pai tem renovado
sua misericórdia dia após dia por enquanto... Lembra -se do verso escrito no
livro de João sobre o porquê dos sinais e maravilhas que Eu fiz?
― É...
João? O João lá da Bíblia? O Senhor está falando da Bíblia não é Mestre?
― Sim
querida, da Bíblia, claro... João deixou registrado que os sinais são para que
os seres humanos creiam no Deus Triuno e Todo Poderoso... Confira depois, sem
falta, lá em João 20, versos 30 e 31...
―
Filha... você sabe que isso não é verdade e que não adianta você tentar me
convencer de algo que eu reconheço de longe. A mentira não prevalece diante de
Mim... Eu sou a Verdade, não se lembra disso também?
Ela
baixou os olhos envergonhada, sentindo-se desamparada e completamente
descoberta aos olhos daquele Ser que emanava uma autoridade tão forte, tão real
e ao mesmo tempo tão amorosa. Sabia e sentia com todo seu ser que NUNCA
conseguiria mesmo tentar qualquer tipo de discurso ali que não fosse
estritamente ligado à verdade e à sinceridade. O próprio olhar de Jesus não lhe
permitia isso. Fechou os olhos e só conseguiu pedir perdão.
― Tudo bem querida... Eu sei que a tua intenção
não era me enganar, mas, apenas justificar-se por não ter organizado melhor seu
tempo para sobrar espaço para a leitura e o estudo da Bíblia. Você, como todo
ser humano, quando é confrontado, busca jogar a culpa em outra coisa ou pessoa,
mas, isso só aconteceu aqui porque você ainda não foi revestida pela santidade
completa, não se esqueça disso, você não chegou ao Paraíso, onde tudo é
completamente perfeito e santo, você veio apenas até uma certa distância dele.
Aliás, preciso explicar bem essas coisas a você porque você será muito questionada
quanto à possibilidade desse seu relato lá no seu mundo.
― Certo
Mestre, eu quero entender bem para saber o que responder quando me perguntarem
qualquer coisa...
―
Claro... mas, não se esqueça do que Eu mesmo falei. O Espírito Santo se
encarregará de te trazer à memória o que for necessário na hora que você
precisar, certo? Basta que você não deixe de buscar a minha Presença, sempre, a
todo instante. Vocês alimentam o corpo físico muitas vezes ao dia, mas se
esquecem de alimentar o espírito que precisa disso da mesma forma. Só assim
vocês serão fortes espiritualmente e se manterão cheios do Meu Espírito a ponto
de ouvirem a Minha voz e entenderem quando Eu estou falando.
―
Certo Mestre... eu entendo isso, agora. Tenho a Zezé lá comigo que vai ser a
minha professora nisso tudo. Mas... posso perguntar uma coisa agora, já, antes
de eu voltar ainda?
―
Claro querida, vá em frente...
Ela
olhou para Ele agradecida e ainda tentando se explicar e se justificar.
―
Entendo querida... o que você gostaria de saber?
―
Bem... eu fiquei pensando naquela parábola que o Senhor falou, sobre o rico e o
mendigo que também morreram, mas não puderam voltar. Por que eles não puderam
voltar e comigo vai ser diferente? Isso não é... digamos... contraditório?
― Não
querida, não é contraditório pelo seguinte: Na parábola que Eu contei, os dois
já haviam chegado ao seu destino final. Cada um no seu lugar determinado pelo
Supremo Juiz, segundo o coração que cada um fez questão de manter em vida. Desse
lugar determinado ninguém volta. A sentença já havia sido dada e nada mais
poderia mudar isso. O rico estava no tormento eterno e o mendigo no Paraíso.. O
mendigo já se tornara incorruptível e o rico já encontrara a degradação final
do seu espírito, não existe outra “instância” para apelação, nesse caso.
― Sim
Mestre... então... é como um tribunal mesmo?
―
Exatamente! Na Bíblia, que você quase não leu, está escrito no livro de Hebreus
capítulo 9, verso 27 que aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo
depois disso o JUÍZO. Após a morte vem imediatamente o julgamento, e essa já é a última instância, não há mais
recurso nenhum além disso.
― Mas
não foi assim no meu caso... Não me lembro de nenhum julgamento...
―
Exato, no seu caso, lembre-se que Eu vim até você no corredor de luz
para encontrá-la e mostrar -lhe algumas maravilhas. Você não continuou o seu
percurso normal após a morte e não chegou até onde deveria chegar porque Eu não
permiti que você passasse de determinado ponto na nossa caminhada, lembra-se
disso? Porque já era plano Nosso que você retornasse à vida. Mas, não fazemos isso com todos. Você é uma
das escolhidas daquele grupo especial que resolvemos mandar de volta ao seu
mundo para testemunharem novamente, como eu disse, unicamente pela Misericórdia
e Soberania de Deus Pai.
― Que
coisa incrível Mestre! Isso é mesmo maravilhoso! Mas por que eu só pude ver os
Portões do Paraíso... e ainda assim, só de longe...?
― Alguns
desses escolhidos chegam a ir até o Hall de entrada e podem até mesmo ter um
vislumbre do interior do Paraíso, ver anjos e seres celestiais, apenas porque
mantinham sua fé inabalável em Mim... Mas, esse não era o seu caso não é mesmo
minha filha? Lembre-se disso... Mas, mesmo estes não passam muito adiante
também, caso contrário se tornariam totalmente santificados e incorruptíveis fisicamente,
então, não poderiam mais retornar à degeneração progressiva de um corpo mortal,
seria contra as leis espirituais. Isso sim seria contraditório, compreende
minha filha?
― Sim
Mestre, entendo... é coerente com o que já está escrito...
O
Mestre olhou para ela com um meio sorriso e ela já sabia o que Ele ia
perguntar. Sentiu uma mistura de emoções, algumas bem humanas. Afinal, ela não
tinha sido transformada totalmente ainda. Agora ela entendia isso.
























