A
“esfuziada” Mannu passou a mão no telefone e foi logo gritando nos ouvidos do
pai com toda sua alegria infantil e renovada naquela manhã.
―
Ooooi papai!!! Eu já estou pronta pra voltar pra casa só pra te contar uma
coisa muito importante que o meu irmão me falou esta noite no meu sonho, sabia?
―
Papai, é que o meu irmão veio de novo pra dentro do meu sonho conversar comigo
sabe?
― Teu
irmão filha? ... é... você está falando daquele sonho que você teve com a
pessoa de nome parecido com o seu?
― Isso
Papai! Mas só que agora eu estou falando de um outro sonho...
― Ah
sim... você sonhou com outra pessoa que você queria que fosse seu irmão, é
isso? Como é o nome dele agora?
― Huummmm...
entendi... agora eu entendi!! Respondeu o pai sorrindo e percebendo a ironia da
situação. Sua filha se esforçando para esclarecer as coisas lá do outro lado.
Afinal, não era tão difícil para ele entender esse pedaço né? Como é que ele
tinha esquecido que ela só tinha mais um irmão? Só o Emanuel, oras bolas...
Depois
que ela percebeu que o pai tinha entendido bem, ela continuou com a conversa,
empolgada.
―
Papai, você não imagina quanta coisa bonita Ele me falou. Sobre você e sobre a
mamãe. Eu não lembro direito agora, mas quero lembrar pra dizer tudinho pra
você, tá?
―
Certo filhinha, eu quero muito ouvir tá? Até falei pra mamãe que está na hora
de vocês voltarem. Não aguento mais ficar aqui só pensando em vocês, entendeu
mocinha?
― É
mesmo papai, eu também tô muito “saudada” de você já...
―
“Saudosa” né filha?
―
Isso... com saudade, sabe papai?
― Sei
sim meu amor, também não vejo a hora que vocês duas cheguem. A mamãe disse que
vocês vão voltar amanhã de manhã tá bom? A Lívia ligou hoje perguntando de
você, disse que vocês estão demorando demais.
―
Aiii! Eu também to “saudad...” aliás... com saudade dela! Papai, diga pra ela
vir amanhã de noite pra me ver, porque se a mamãe sair bem cedo, como ela
gosta, lá pela tarde, quando o sol já for dormir eu já vou estar chegando aí
né?
― É
isso mesmo filha, vou falar pra ela tá bom? Ela vai ligar de novo depois do
almoço pra saber se eu falei com vocês.
Assim
que desligou o telefone, a Mannu virou-se para a mãe e começou a falar com
entusiasmo:
―
Mamãe, a Lívia disse que nós estamos demorando muito a voltar, e o papai disse
que nós vamos embora amanhã, é verdade né? Porque eu já tô com muita saudade do
meu papai...
― Sim
filha, é verdade sim, eu já tinha combinado isso com seu pai ontem quando
liguei à noite.
Agora
foi a vez da D. Lídia se manifestar e ela nem disfarçou:
― Ai
“genti, num diz issnão!! Ceis vão simbór ieu vô ficáqui jogadim pastraça”!
A
menina ficou com cara de quem não tinha entendido bem ainda e a mãe foi logo
explicando melhor, mas com simplicidade:
―
Mannu, essa é uma expressão que significa que a pessoa vai ficar jogada num
canto, igual a uma roupa sem uso e que geralmente é roída por traças; esses
insetos que “comem roupas”, como a Lídia falou...
A menina disparou logo em seguida:
―
Ah... mas D. Lídia, você é muito mais importante do que roupa, então a traça
não vai pegar você, porque você não é de pano... você é de carne e osso e
alma...
A
mulher olhou com carinho para a menina e sua expressão se transformou, como se
um sol brilhasse por trás dela iluminando seu sorriso.
A
Doutora Laura, de novo, ficou admirada pela frase da filha que ia além de uma
outra mera expressão. Para ela, a empregada não era apenas “carne e osso”, ela
fazia questão de lembrar que ela tinha uma alma. Isso fez com que a médica
pensasse em quantas vezes ela havia deixado de se lembrar que dentro daquela
mulher simples e serviçal existia um ser com sentimentos e necessidades
emocionais.
A médica
olhou para a empregada e perguntou:
―
Lídia, você nunca teve filhos? Não pensam nisso?
A
mulher parou por uns momentos e respondeu com um pouco de cuidado.
― "Bão
dotôra, eu, 'eu mesm' nunca deixei de 'sonhá qui' um dia ia 'sigurá' no meu colo um 'bebezim' assim 'ingraçadim' qui nem a Mannu. Mas... o Adão, ele nunca 'gostô' muito dessa 'cunversa'... 'intão'... 'cotempeu'... parei né, 'di falá cum' ele sobre 'iss... parésqui ele num siagradava muito di tê um fiii..."
A
médica pensou um pouco e resolveu continuar investigando.
―
Certo, mas... você chegou a perguntar para ele se ele não queria mesmo ter
filhos?
―
‘Olhi dotôra”... eu até perguntei... uma "veiz" só, mas ele "ficô" tão “
disorientadibrabo qui eu resolvi num perguntá" nunca mais!!
A
médica insistiu com o assunto, parecia que aquilo tinha virado algo de muita
importância pra ela naquele momento.
― Mas,
Lídia, você já pensou que ele pode ter algum problema de saúde, talvez... não
sei. Vocês já foram a algum médico? Digo, para falar disso?
―
Não... nunca “fomonão”... Disse a mulher, sem apresentar nenhuma justificativa.
― Bom,
eu sugiro que você tente conversar com seu marido de novo e diga que, se ele
quiser, conhecemos bons médicos aqui, podemos encaminhar vocês. Mas, vá com
cuidado, já que ele não gosta muito do assunto.
A
Mannu continuava ali, quieta e prestando muita atenção àquela conversa toda. De
repente, ela perguntou:
― D.
Lídia, o Seu Adão tinha um “papai” bonzinho aqui na terra?
A
empregada olhou com estranheza para a criança e falou:
― Uai, "purquê ocê tá perguntano iss” Mannu?
A
menina pensou um pouquinho e deu uma resposta meio estranha para a empregada
que olhava para ela sem entender bem aonde a menina queria chegar com aquilo
tudo.
― Eu
não sei bem por que eu perguntei D.
Lídia... Foi um desses pensamentos que sobem sozinhos lá bem do fundo do meu
“poço dos pensamentos”...
― A
mãe e a empregada ficaram pasmas, olhando para a criança e esperando algo mais;
e esse algo mais veio em seguida:
―
Sabe, D. Lídia, eu senti aqui no meu coração e na minha cabeça, uma vontade de
perguntar pro Seu Adão se ele gostava do pai dele... não sei bem por quê!
As
duas mulheres ficaram mudas por alguns momentos, sem saber o que responder.
Para
interromper o silêncio, uma voz masculina entrou na conversa:
― Si
ocê qué sabê Mannu, eu vô ti contá uma história boa...
As
três olharam para a porta da cozinha onde estava parado o S. Adão, marido da
Lídia, com um ar bem sério.
No
mesmo instante, a menina correu pra perto do homem e foi logo falando na sua
empolgação inocente.
―
Ebaaaa Seu Adão, eu quero saber sim!! Eu gosto muito de histórias boas. A Zezé
me conta muitas também, né mamãe?
A D.
Lídia virou-se para outro lado tentando disfarçar a preocupação. Sobrou para a
Doutora Laura entrar na conversa e decidir o rumo das coisas. Sentia que devia
ter muito cuidado naquela situação.
― Bem,
Seu Adão... eu não sei ao certo... se o senhor quiser falar sobre esse assunto
com uma criança, o senhor deve saber que terá que “medir” bem as palavras, o
senhor entende o que eu digo não?
O
homem olhou para a médica com respeito e com muita sinceridade respondeu:
― Num
si preocupe não dotôra... eu entendo sim e “vô tomá” cuidado, mas talvez já
seja hora “di falá mesm” nessa história. Já que o assunto brotô sozinho por
aqui né mesm?
Disse
isso olhando para a esposa que nem se virou, mas sentiu o olhar do marido
direto na sua nuca. Ficou muito nervosa mas disfarçou bem.
― "Nóis
vai sentá aqui mesm na varanda, pertim doceis, aliáis, si a sinhór quisé ouvi
também fique muito a vontadi dotôra. Vô contá pra minina porque foi ela qui
perguntô primeiro sobre isso, e criança merece resposta sincera, concorda
dotôra?"
A
médica se sentiu muito desconfortável; parecia que o olhar do homem estava
acusando-a de alguma coisa que ela não entendeu bem e nem procurou entender
pois estava bem preocupada com o rumo que aquela conversa tinha tomado. Decidiu
não ir junto para a varanda. Ficaria na cozinha com a Lídia esperando que ele
contasse a história para a filha. Respondeu sem perder a autoridade e o
respeito, mas com calma e com firmeza.
A
Mannu correu para a varanda gritando que a rede era dela. Estava ansiosa para
saber a história e contar algumas também.
Na
varanda, o empregado ajudou a menina a subir e deitar-se na rede. Ele sentou-se
em uma cadeira próxima.
Quem começou foi a Mannu, como não poderia deixar de
ser.
― Seu
Adão, primeiro eu queria perguntar uma coisa pro senhor. Por que é que todo
mundo chama o sr de “Seu Adão” se o seu nome é Adolfo...
O
homem respondeu logo, com ar de tristeza.
― Já “cumeça
pur aí mesm”, minha criança. Adolfo é o meu nome “mesm...” registrado no
cartório pelo meu pai. Mas “Adão” era o nome que a minha mãe tinha escolhido
pra mim, tanto que ela sempre me chamou assim. Eu “acustumei sab?” E fazia “mesm”
questão “qui” todo mundo “mi” chamasse pelo nome que a minha mãe “mi” deu.
―
Huummm... então o senhor gostava muito da sua mamãe né?
― É
sim criança... gostava ‘mesm”... muié di muito valô. Fazia “di um tudo” pelo
único fii qui era eu... sinto a “farta dela té hoji”...
A
Mannu escutava tudo atentamente, parecendo uma adulta. Quando viu que o homem
“empacou” nas palavras foi logo puxando o assunto de dentro dele.
― E do
seu “papai”, o senhor não sente falta, Seu Adão? Eu já tô com muita saudade do
meu que foi embora trabalhar...
― Pois
intão, minha criança, aí cumeça o “discuncerto” todo da minha vida sab?
―
Hum... o que é mesmo “discuncerto” Seu Adão?
― Ah
minha criança, “discuncerto” é uma coisa qui “distrambelha” tudim na vidagenti,
sab?
A
menina arregalou os olhos e não deixou passar.
― Seu
Adão, será que o senhor podia falar na minha língua? Como o meu pai diz?
O
homem até riu do seu descuido. É claro que a menina não entenderia o seu
palavreado, isso ele bem sabia. Mas como se sentia muito à vontade com a
criança, seu interior se manifestou da maneira mais natural e mais original
possível. Decidiu tomar cuidado com as palavras, ia tentar falar “na língua
dela”.
― Tá
certo Mannu, ocê tá certa criança. Eu falo meio “trapaiado” mas eu “vô
misforçá” daqui “pafrenti”...
E a
conversa prosseguiu:
―
Muito obrigada Seu Adão! É que, às vezes, o meu poço de palavras mistura tudo e
eu não entendo bem...o senhor ia falar do seu papai né?
― É
criança... o meu pai era a coisa mais “isquisita” dessi mundão véi... Ele tinha
uns negócio di bebê dimais da conta e daí, o véi virava num “bicho”... num era
mais “genti”. Ele tratava a minha mãe muito mal, e eu, nessas hór, tinha
vontade di... O homem lembrou da promessa feita para a mãe da menina e
“controlou as palavras”.
― Ele
ficava muito bravo Seu Adão? Acho que eu sei, ele fazia igual o Seu Aurélio,
que era “padastro” da minha amiga Lívia. Ela morria de medo dele quando ele
bebia...
O
homem olhou impressionado para a criança, pois, não esperava que ela já tivesse
conhecimento de história semelhante. Ficou até mais animado para continuar.
Sabia que seria compreendido afinal.
A mãe
da Mannu apareceu para trazer umas frutas e avisar que o almoço estaria logo
pronto, e, também, para sondar a situação, lógico...
O
homem agradeceu e perguntou novamente se ela gostaria de ficar para ouvir
também. Ela agradeceu, mas disse que talvez ele até se sentisse melhor só com
a Mannu ali.
Ele
sabia que ela tinha razão. Pois era a primeira vez que ele comentava sua
história com alguém, não gostava de falar na infância turbulenta. Mas, aquela
menina tinha alguma coisa diferente, ele pensava, e sentia vontade de contar sua
experiência para alguém que inspirasse confiança. Ele nem entendia como uma
criança podia despertar esse tipo de sentimento. Talvez porque ele sentisse que
a inocência não acusa ninguém. Veremos logo se ele estava certo ao pensar
assim. Não perca o próximo capítulo!




















