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Manô

Oi, esta é a Mannu, você vai conhecer a história dela. Todos os dias você vai ler um pouquinho sobre a vida dela, basta entrar aqui depois das cinco horas da tarde, quando você tiver tempo livre ok?? Vou contar tudo o que acontece na vida dela e das pessoas com quem ela convive. Você vai gostar muito dela, ela vai ser sua amiga de todos os dias.

sábado, 27 de maio de 2017

NOVA HISTÓRIA SURGINDO - CAPÍTULO 80


A “esfuziada” Mannu passou a mão no telefone e foi logo gritando nos ouvidos do pai com toda sua alegria infantil e renovada naquela manhã.

Ooooi papai!!! Eu já estou pronta pra voltar pra casa só pra te contar uma coisa muito importante que o meu irmão me falou esta noite no meu sonho, sabia?



Papai, é que o meu irmão veio de novo pra dentro do meu sonho conversar comigo sabe?

Teu irmão filha? ... é... você está falando daquele sonho que você teve com a pessoa de nome parecido com o seu?

Isso Papai! Mas só que agora eu estou falando de um outro sonho...

Ah sim... você sonhou com outra pessoa que você queria que fosse seu irmão, é isso? Como é o nome dele agora?


 Huummmm... entendi... agora eu entendi!! Respondeu o pai sorrindo e percebendo a ironia da situação. Sua filha se esforçando para esclarecer as coisas lá do outro lado. Afinal, não era tão difícil para ele entender esse pedaço né? Como é que ele tinha esquecido que ela só tinha mais um irmão? Só o Emanuel, oras bolas...

Depois que ela percebeu que o pai tinha entendido bem, ela continuou com a conversa, empolgada.

Papai, você não imagina quanta coisa bonita Ele me falou. Sobre você e sobre a mamãe. Eu não lembro direito agora, mas quero lembrar pra dizer tudinho pra você, tá?

Certo filhinha, eu quero muito ouvir tá? Até falei pra mamãe que está na hora de vocês voltarem. Não aguento mais ficar aqui só pensando em vocês, entendeu mocinha?

É mesmo papai, eu também tô muito “saudada” de você já...

“Saudosa” né filha?

Isso... com saudade, sabe papai?

Sei sim meu amor, também não vejo a hora que vocês duas cheguem. A mamãe disse que vocês vão voltar amanhã de manhã tá bom? A Lívia ligou hoje perguntando de você, disse que vocês estão demorando demais.

Aiii! Eu também to “saudad...” aliás... com saudade dela! Papai, diga pra ela vir amanhã de noite pra me ver, porque se a mamãe sair bem cedo, como ela gosta, lá pela tarde, quando o sol já for dormir eu já vou estar chegando aí né?

É isso mesmo filha, vou falar pra ela tá bom? Ela vai ligar de novo depois do almoço pra saber se eu falei com vocês.


Assim que desligou o telefone, a Mannu virou-se para a mãe e começou a falar com entusiasmo:

Mamãe, a Lívia disse que nós estamos demorando muito a voltar, e o papai disse que nós vamos embora amanhã, é verdade né? Porque eu já tô com muita saudade do meu papai...

Sim filha, é verdade sim, eu já tinha combinado isso com seu pai ontem quando liguei à noite.

Agora foi a vez da D. Lídia se manifestar e ela nem disfarçou:

Ai “genti, num diz issnão!! Ceis vão simbór ieu vô ficáqui jogadim pastraça”!


A menina ficou com cara de quem não tinha entendido bem ainda e a mãe foi logo explicando melhor, mas com simplicidade:

Mannu, essa é uma expressão que significa que a pessoa vai ficar jogada num canto, igual a uma roupa sem uso e que geralmente é roída por traças; esses insetos que “comem roupas”, como a Lídia falou...

 A menina disparou logo em seguida:

Ah... mas D. Lídia, você é muito mais importante do que roupa, então a traça não vai pegar você, porque você não é de pano... você é de carne e osso e alma...

A mulher olhou com carinho para a menina e sua expressão se transformou, como se um sol brilhasse por trás dela iluminando seu sorriso.


A Doutora Laura, de novo, ficou admirada pela frase da filha que ia além de uma outra mera expressão. Para ela, a empregada não era apenas “carne e osso”, ela fazia questão de lembrar que ela tinha uma alma. Isso fez com que a médica pensasse em quantas vezes ela havia deixado de se lembrar que dentro daquela mulher simples e serviçal existia um ser com sentimentos e necessidades emocionais.

A médica olhou para a empregada e perguntou:

Lídia, você nunca teve filhos? Não pensam nisso?
A mulher parou por uns momentos e respondeu com um pouco de cuidado.

 "Bão dotôra, eu, 'eu mesm' nunca deixei de 'sonhá qui' um dia ia 'sigurá' no meu colo um 'bebezim' assim 'ingraçadim' qui nem a Mannu. Mas... o Adão, ele nunca 'gostô' muito dessa 'cunversa'... 'intão'... 'cotempeu'... parei né, 'di falá cum' ele sobre 'iss... parésqui ele num siagradava muito di tê um fiii..."

A médica pensou um pouco e resolveu continuar investigando.

Certo, mas... você chegou a perguntar para ele se ele não queria mesmo ter filhos?

‘Olhi dotôra”... eu até perguntei... uma "veiz" só, mas ele "ficô" tão “ disorientadibrabo qui eu resolvi num perguntá" nunca mais!!

A médica insistiu com o assunto, parecia que aquilo tinha virado algo de muita importância pra ela naquele momento.

Mas, Lídia, você já pensou que ele pode ter algum problema de saúde, talvez... não sei. Vocês já foram a algum médico? Digo, para falar disso?

Não... nunca “fomonão”... Disse a mulher, sem apresentar nenhuma justificativa.

Bom, eu sugiro que você tente conversar com seu marido de novo e diga que, se ele quiser, conhecemos bons médicos aqui, podemos encaminhar vocês. Mas, vá com cuidado, já que ele não gosta muito do assunto.

A Mannu continuava ali, quieta e prestando muita atenção àquela conversa toda. De repente, ela perguntou:

D. Lídia, o Seu Adão tinha um “papai” bonzinho aqui na terra?

A empregada olhou com estranheza para a criança e falou:

Uai, "purquê ocê tá perguntano iss” Mannu?

A menina pensou um pouquinho e deu uma resposta meio estranha para a empregada que olhava para ela sem entender bem aonde a menina queria chegar com aquilo tudo.

Eu não sei bem  por que eu perguntei D. Lídia... Foi um desses pensamentos que sobem sozinhos lá bem do fundo do meu “poço dos pensamentos”...

A mãe e a empregada ficaram pasmas, olhando para a criança e esperando algo mais; e esse algo mais veio em seguida:

Sabe, D. Lídia, eu senti aqui no meu coração e na minha cabeça, uma vontade de perguntar pro Seu Adão se ele gostava do pai dele... não sei bem por quê!

As duas mulheres ficaram mudas por alguns momentos, sem saber o que responder.


Para interromper o silêncio, uma voz masculina entrou na conversa:

Si ocê qué sabê Mannu, eu vô ti contá uma história boa...

As três olharam para a porta da cozinha onde estava parado o S. Adão, marido da Lídia, com um ar bem sério.


No mesmo instante, a menina correu pra perto do homem e foi logo falando na sua empolgação inocente.

Ebaaaa Seu Adão, eu quero saber sim!! Eu gosto muito de histórias boas. A Zezé me conta muitas também, né mamãe?

A D. Lídia virou-se para outro lado tentando disfarçar a preocupação. Sobrou para a Doutora Laura entrar na conversa e decidir o rumo das coisas. Sentia que devia ter muito cuidado naquela situação.

Bem, Seu Adão... eu não sei ao certo... se o senhor quiser falar sobre esse assunto com uma criança, o senhor deve saber que terá que “medir” bem as palavras, o senhor entende o que eu digo não?

O homem olhou para a médica com respeito e com muita sinceridade respondeu:

Num si preocupe não dotôra... eu entendo sim e “vô tomá” cuidado, mas talvez já seja hora “di falá mesm” nessa história. Já que o assunto brotô sozinho por aqui né mesm?

Disse isso olhando para a esposa que nem se virou, mas sentiu o olhar do marido direto na sua nuca. Ficou muito nervosa mas disfarçou bem.

 "Nóis vai sentá aqui mesm na varanda, pertim doceis, aliáis, si a sinhór quisé ouvi também fique muito a vontadi dotôra. Vô contá pra minina porque foi ela qui perguntô primeiro sobre isso, e criança merece resposta sincera, concorda dotôra?"

A médica se sentiu muito desconfortável; parecia que o olhar do homem estava acusando-a de alguma coisa que ela não entendeu bem e nem procurou entender pois estava bem preocupada com o rumo que aquela conversa tinha tomado. Decidiu não ir junto para a varanda. Ficaria na cozinha com a Lídia esperando que ele contasse a história para a filha. Respondeu sem perder a autoridade e o respeito, mas com calma e com firmeza.


A Mannu correu para a varanda gritando que a rede era dela. Estava ansiosa para saber a história e contar algumas também.

Na varanda, o empregado ajudou a menina a subir e deitar-se na rede. Ele sentou-se em uma cadeira próxima.

Quem começou foi a Mannu, como não poderia deixar de ser.

Seu Adão, primeiro eu queria perguntar uma coisa pro senhor. Por que é que todo mundo chama o sr de “Seu Adão” se o seu nome é Adolfo...

O homem respondeu logo, com ar de tristeza.

Já “cumeça pur aí mesm”, minha criança. Adolfo é o meu nome “mesm...” registrado no cartório pelo meu pai. Mas “Adão” era o nome que a minha mãe tinha escolhido pra mim, tanto que ela sempre me chamou assim. Eu “acustumei sab?” E fazia “mesm” questão “qui” todo mundo “mi” chamasse pelo nome que a minha mãe “mi” deu.

Huummm... então o senhor gostava muito da sua mamãe né?

É sim criança... gostava ‘mesm”... muié di muito valô. Fazia “di um tudo” pelo único fii qui era eu... sinto a “farta dela té hoji”...

A Mannu escutava tudo atentamente, parecendo uma adulta. Quando viu que o homem “empacou” nas palavras foi logo puxando o assunto de dentro dele.

E do seu “papai”, o senhor não sente falta, Seu Adão? Eu já tô com muita saudade do meu que foi embora trabalhar...

Pois intão, minha criança, aí cumeça o “discuncerto” todo da minha vida sab?

Hum... o que é mesmo “discuncerto” Seu Adão?

Ah minha criança, “discuncerto” é uma coisa qui “distrambelha” tudim na vidagenti, sab?

A menina arregalou os olhos e não deixou passar.

Seu Adão, será que o senhor podia falar na minha língua? Como o meu pai diz?

O homem até riu do seu descuido. É claro que a menina não entenderia o seu palavreado, isso ele bem sabia. Mas como se sentia muito à vontade com a criança, seu interior se manifestou da maneira mais natural e mais original possível. Decidiu tomar cuidado com as palavras, ia tentar falar “na língua dela”.

Tá certo Mannu, ocê tá certa criança. Eu falo meio “trapaiado” mas eu “vô misforçá” daqui “pafrenti”...


E a conversa prosseguiu:

Muito obrigada Seu Adão! É que, às vezes, o meu poço de palavras mistura tudo e eu não entendo bem...o senhor ia falar do seu papai né?

É criança... o meu pai era a coisa mais “isquisita” dessi mundão véi... Ele tinha uns negócio di bebê dimais da conta e daí, o véi virava num “bicho”... num era mais “genti”. Ele tratava a minha mãe muito mal, e eu, nessas hór, tinha vontade di... O homem lembrou da promessa feita para a mãe da menina e “controlou as palavras”.

Ele ficava muito bravo Seu Adão? Acho que eu sei, ele fazia igual o Seu Aurélio, que era “padastro” da minha amiga Lívia. Ela morria de medo dele quando ele bebia...

O homem olhou impressionado para a criança, pois, não esperava que ela já tivesse conhecimento de história semelhante. Ficou até mais animado para continuar. Sabia que seria compreendido afinal.



A mãe da Mannu apareceu para trazer umas frutas e avisar que o almoço estaria logo pronto, e, também, para sondar a situação, lógico...

O homem agradeceu e perguntou novamente se ela gostaria de ficar para ouvir também. Ela agradeceu, mas disse que talvez ele até se sentisse melhor só com a Mannu ali.

Ele sabia que ela tinha razão. Pois era a primeira vez que ele comentava sua história com alguém, não gostava de falar na infância turbulenta. Mas, aquela menina tinha alguma coisa diferente, ele pensava, e sentia vontade de contar sua experiência para alguém que inspirasse confiança. Ele nem entendia como uma criança podia despertar esse tipo de sentimento. Talvez porque ele sentisse que a inocência não acusa ninguém. Veremos logo se ele estava certo ao pensar assim. Não perca o próximo capítulo!






sábado, 20 de maio de 2017

O CERCO ESTÁ SE FECHANDO - CAPÍTULO 79





A Mannu foi dormir fazendo beiço e demorou muito a pegar no sono, pois a curiosidade sobre o que tinha acontecido com o marido da D. Lídia e o sujeito estranho que ele trouxe para casa aquela noite era demais. Ela não entendia a atitude da mãe em não permitir que a empregada terminasse a história, afinal aquilo era tão importante, poderia até mesmo ajudar sua mãe a entender  quem era Deus, o Papai que ela tanto falava ultimamente .

Drª Laura também não conseguiu pegar no sono tão cedo; estava tão preocupada com o rumo que as coisas “espirituais” iam tomando na vida da filha, que o sono desapareceu completamente. Ela não tirava da cabeça que era sua culpa o fato da menina não ter recebido nenhuma orientação segura sobre essa questão. Bem, pelo menos era o que ela achava, segundo a sua própria interpretação desses assuntos, que, na verdade, nunca foram uma prioridade para ela, no entanto, depois que percebeu que outra pessoa tinha suprido essa necessidade na vida da sua filha, ela sentia-se frustrada, como mãe e protetora da filha em todos os sentidos. Quase como se ela tivesse dormido no ponto e outra pessoa tivesse tomado uma área importante do relacionamento dela com a filha. Sentia-se, mãe “pela metade” mais ou menos.

Para ela, essa conversa de Deus já estava indo longe demais e ela não sabia como interromper o progresso da história, e, ao mesmo tempo, sentia-se meio perdida, pois, de vez em quando, passava por sua cabeça que a “desinformada” ali era ela mesma, que nem sempre conseguia responder as perguntas da filha e também ficava muito admirada com as considerações que a Mannu fazia sobre certas coisas. Parecia que a menina tinha descoberto uma sabedoria que estava acima de muita coisa que ela conseguia explicar.

O dia seguinte surgiu com um sol brilhando forte lá fora e uma Mannu mais “brilhante” ainda; ela estava radiante e mal podia esperar para a mãe acordar e ela poder contar o que tinha acontecido durante a sua noite agoniada de curiosidade.


Assim que ouviu um barulhinho mínimo na cozinha, a menina disparou para baixo sabendo que já encontraria a Lídia preparando o café da manhã delas.

Invadiu a cozinha, como era de costume, já falando alto e sem se preocupar com o tom da voz; com intenção mesmo de “acordar” todo o mundo à sua volta. Afinal, era muito importante o que ela tinha para compartilhar naquela manhã.



Huummm!!! Bom dia minha criança!! Respondeu a empregada, alegre por ver a animação da menina.

Bom dia mesmo D. Lídia! Porque eu tenho uma coisa muito “esfuziante” pra contar pra vocês hoje de manhã!!

É “mesm”? respondeu a empregada no mineirês de sempre. Mas... antes me diga o que é “esfuziante” num intendi...

Bom... é uma coisa assim... muito maravilhosa que faz a gente ficar “esfuziada” sabe ?


Embora não tenha entendido o que a Mannu tentou explicar, a empregada fingiu que estava tudo bem e apenas perguntou se ela queria tomar alguma coisa ou queria esperar pela mãe. 

A menina disse que seria melhor esperar a mamãe porque ela queria contar uma coisa muito legal para as duas, ao mesmo tempo.

Quando a impaciência da Mannu já estava vencendo e ela ia dizer para a D. Lídia que seria melhor chamar a mamãe, a Drª Laura apareceu na porta da cozinha admirada pelo fato da filha já estar ali, vestida e na mais empolgada conversação com a empregada.



Oi mamãe!! Bom dia!! Eu não estava no meu quarto desde bem cedinho... quando eu vi o sol nascendo lá depois do lago, eu já desci.

É, estou vendo que você madrugou hoje. O que foi que aconteceu, você acordou antes das 6:00...

É que eu estava muito curiosa para saber o resto da história da D. Lídia que você não deixou ela contar ontem. Mas, não foi só isso; eu também estou muito "esfuziada" para contar um outro sonho que eu tive pra vocês duas. Ainda bem que você já “saiu de dentro do teu sono” porque eu já estava cansando de esperar e estava pensando em ir te acordar mamãe...

Espero que você não tenha contado ainda o restante da história pra ela Lídia!

Não “sinhór”, não contei “nadim” prela inda não... Ela disse que queria esperar a “sinhór”...

Ah, ótimo! Muito bem minha filha!

A empregada logo serviu o café da manhã para as duas, curiosa para que a Mannu começasse logo a contar o tal do sonho.


A mãe não gostou muito da ideia porque sabia que a menina ia “falar” muito mais do que comer! Mas, conhecendo a ansiedade da filha, já sabia que seria melhor permitir que ela falasse e ao mesmo tempo ajudar para que ela não esquecesse de comer empolgada com seu poço de palavras.

Certo filha, então você conta o sonho, mas não pode falar 10 minutos e comer 2 minutos ok?

Tá mamãe... eu “pometro”

Nesse instante a D. Lídia postou-se atrás das duas para que a patroa nem se lembrasse dela ali e assim não inventasse de pedir pra ela fazer alguma outra coisa quando ela estava mesmo era ansiosa pra saber o que a menina tinha sonhado.


Embora a médica fingisse que aquilo não a incomodava muito, ela já sabia que teria que ouvir coisas que não seria capaz de entender bem e muito menos de esclarecer para a filha de um ponto de vista humano e que ela considerava mais aceitável. Tentou progredir na conversa de maneira bem normal.

Ah é filha? Aquele que você chama de Emanuel?

É mamãe, eu só tenho esse irmão lembra?

Humm... respondeu a médica um tanto espantada com a aparente ironia nas palavras da filha.

Pois então, mamãe, lembra que eu fui dormir muito chateada porque eu queria saber o resto da história da D. Lídia?

Lembro filha, mas eu gostaria que você entendesse que eu só não permiti porque tudo tem um tempo certo... e talvez não fosse uma boa hora pra você ouvir aquela história que eu nem sei como termina. Aliás, é isso que eu vou perguntar para a Lídia antes de permitir que ela conte o resto da história pra você sabe?

A empregada, que estava se fazendo de invisível atrás das duas, acabou se manifestando bem depressa para explicar as coisas.

Drª Laura, a “sinhór não pricissipreocupá não”, a história acaba muito bem sim “sinhór”... só tem uns “pedacim mei istranho”, mas “nadimais não”...

A patroa virou-se e viu a empregada de braços cruzados ali atrás, quietinha, e logo entendeu que o interesse era ouvir o sonho da Mannu. Deu um sorriso e disse:

Lídia, você estava aí? não tinha percebido... Se quiser ouvir a história, sente-se aqui conosco, não tem problema não!

“Quiéiss dotôra”!! Num pricisa não! Eu escuto daqui mesm!! “Podi cunversá como sieu nem tivesspuraqui...”

A médica olhou para a filha e deu uma piscadinha para a menina sorrindo abertamente e incentivando a filha a continuar o sonho. A Mannu, muito empolgada, foi logo dizendo:

Mamãe! Que coisa mais incrível! Você sabe que você acabou de me dizer uma coisa que o meu irmão também me disse neste sonho??


A médica mal podia esperar para ouvir o que tinha acontecido nesse sonho. Ao invés de incentivar a filha a comer, ela também parou com o seu café e começou a fazer perguntas insistindo para que a Mannu andasse logo com aquela história.

Pois é mamãe... quando eu entrei dentro do sono... que demorou bastante, eu comecei logo a sonhar. E no meu sonho, eu estava sentada lá na beira do lago, sozinha e muuuuito triste, porque no meu pensamento estava passando uma coisa assim: A minha mãe nunca vai entender essas coisas de Deus e do céu. Ela nem gosta de ouvir falar sobre essas histórias, e eu acho tão importante e o meu coração bate muito mais feliz quando eu converso sobre essas coisas... mas ela não gosta disso, eu já percebi...

 Neste momento, o coração da médica se contraiu de uma forma tão forte, como ela nunca havia sentido antes. Ela ficou até preocupada e começou a analisar, do seu ponto de vista, médico, é lógico, se não estaria perto de ter uma síncope qualquer. Mas, logo se controlou e tentou dizer algo para amenizar o que parecia ser um grande sofrimento para a filha que ela amava tanto.



 E sem perder tempo, a Mannu continuou com o sonho:

Aí mamãe, quando eu estava bem triste assim, no meu sonho, o meu irmão Emanuel veio andando na água do lago e me disse uma coisa muito legal...

Espera um pouco filha, andando “na água do lago”? Você quis dizer na “beira” do lago né filha? Porque ninguém anda em cima da água...

Não mamãe, eu quis dizer em cima da água mesmo! Ninguém aqui dos “humanos” faz isso, mas o meu irmão é bem acostumado a fazer essas coisas... ele sabe como fazer isso, é só você ler na Bíblia que Ele já tinha feito isso uma vez, sabia?

A médica olhou para trás para ver a reação da empregada que estava com um ar completamente calmo, como se aquilo fosse uma coisa muito natural. Por via das dúvidas, a doutora resolveu nem perguntar nada mais sobre esse assunto. Afinal, aquilo era um sonho de uma criança, apenas...

Sim, filha, e daí... o que foi que o teu irmão falou então?

Bem mamãe. Ele primeiro saiu de cima da água e sentou bem pertinho de mim no gramado. E, sabe mamãe? Eu já disse uma vez que Ele tem um cheirinho muito gostoso, é um perfume muito bom, e eu fiquei com vontade de deitar no colo dele pra descansar do meu pensamento chato que não ia embora nunca... E aí foi que eu achei muito legal, porque eu não precisei usar o meu poço de palavras pra falar isso pra Ele, eu só estava pensando aquilo dentro da minha cabeça e Ele já respondeu: “Pode vir pro meu colo Mannu, estou aqui pra isso”.

Nesse instante, a empregada já estava grudada na cadeira atrás das duas, prestando muita atenção e sem nenhuma preocupação de não incomodar.

A médica, estava com o olhar fixo no prato e a mente voando também, e a menina continuou como se tudo fosse muito normal e assim devesse ser sempre.

Então ele me pegou no colo, bem como o papai faz quando eu estou triste ou dodói. E só porque eu estava ali abraçada com Ele, eu já não sentia mais nenhuma tristeza sabia mamãe. É um colo tão macio e “conforchegante”...

Hummm... você quer dizer confortável e aconchegante né? Corrigiu a mãe, só para ter o que dizer...

É mamãe, é isso mesmo, é que o meu pensamento foi muito rápido e eu pensei as duas palavras ao mesmo tempo mas só falei um pouco de cada, entende?


Mas, o mais legal ainda foi quando Ele me disse que eu não precisava ficar “perocupada” com a mamãe, porque tudo tem um tempo “derteminado”, e que, por enquanto ela estava só ouvindo as coisas, mas, logo ela ia começar a entender direito. Lembra mamãe, que agora há pouco você me disse isso também, que tudo tem um tempo certo, porque eu queria saber logo o final da história da D.  Lídia?

Nesse instante a médica lembrou-se que havia falado isso mesmo para a filha há poucos minutos, quando ela estava ansiosa pra saber o resto da história da noite anterior. A mulher não pode deixar de sentir algo diferente, como se alguém mais estivesse por ali, de olho em toda aquela situação, mas não respondeu nada. E a Mannu continuou empolgada.

Eu queria saber contar pra vocês como fica diferente o ar em volta da gente quando o meu irmão está por perto. É muito lindo mamãe, porque a gente fica se sentindo tão bem, e nada parece difícil, tudo é muito gostoso, o ar fica iluminado e bem morninho... Ele me disse muita coisa bonita sobre o céu e eu nem consigo lembrar tudo, mas uma coisa eu lembro: Ele disse pra eu não ficar triste porque você mamãe, e o papai também, são dele. E logo vocês vão descobrir isso. Ele falou isso porque Ele sabia que eu estava muito “perocupada” e queria muito que você virasse criança logo, pra acreditar em Deus... Mas, Ele disse que você não vai virar criança assim como eu penso, mas você vai “nascer de novo”. Essa parte eu não entendi, mas eu nem quis perguntar porque se Ele falou é porque vai ser bem assim mesmo...

A empregada mal se aguentava de tanta alegria e só faltava pular e agarrar a médica que, com certeza, ficaria muito assustada com esta reação, aliás, ela já estava bem assustada com tudo o que tinha ouvido até ali e estava muito séria, analisando como deveria entender essa história de nascer de novo, que, logicamente, só poderia ser uma espécie de figura de linguagem.

Na cabeça das três, rolavam sentimentos bem fortes!


A médica, curiosa, perguntou se Ele, o irmão, tinha falado mais alguma coisa, e a menina respondeu alegre:

Mamãe, Ele falou muita coisa, coisas importantes, e eu não estou conseguindo lembrar tudo agora. Mas eu vou lembrando aos poucos e vou contando para vocês tá certo? Por enquanto eu só lembro dessa parte e de como estava bom ficar no colo do meu irmão conversando com Ele. Eu sentia uma alegria muito esfuziante dentro de mim, eu nem sei como explicar isso mamãe! Só me lembro bem da cena quando Ele veio andando pela água e de como eu levei um susto! Mas logo passou o medo quando Ele chegou perto de mim porque eu reconheci Ele do meu outro sonho lembra? Eu comecei a me sentir tão alegre e lembro bem que eu nem queria acordar, pra não sair do meu sonho, porque estava muito bom ali...


Então você já teve outro sonho assim Mannu? Perguntou a D. Lídia curiosíssima!

Já sim, e eu já falei disso aqui também, logo que eu cheguei de férias...

A médica continuava muda e a empregada com a língua bem solta.

E daí minha criança, “miconti”, a voz dele é qui nem trovão mesm??

Ah... eu não achei não D. Lídia... porque se fosse que nem trovão, talvez eu ficasse com medo. Ele falou comigo com uma voz bem bonita, parecida com a do papai, e era a mesma voz que eu ouvi no meu primeiro sonho com Ele.

Ela parecia ter esquecido da história não terminada da D. Lídia. Mas, lembrou-se em seguida e pediu para a mãe para saber o final. A mãe, ainda incerta, preferiu pedir que ela continuasse a tentar lembrar o restante do sonho dela. Depois do almoço elas poderiam continuar com a história da Lídia.


Neste momento, o telefone da mãe tocou e era o papai da Mannu. Conversaram um pouco e depois ela passou para a Mannu que estava ansiosa para conversar com o pai também. O restante do sonho e o final da história da D. Lídia vão ficar para o próximo capítulo também, já viu né?