A
médica gostaria de dizer muitas coisas mais, como por exemplo; o quanto ela se
sentia em paz ali, o quanto ela achava maravilhoso poder conversar assim com o
Rei dos reis, o quanto era lindo o irmão mais velho da Mannu, e,
principalmente, o quanto ela se arrependia de ter desperdiçado tanto tempo
pensando apenas no conhecimento limitado do mundo em que ela vivia. Mas, ela
preferiu se calar, até porque sabia que Ele estava “ouvindo” todos os seus
sentimentos mesmo, ela nem precisava verbalizar tudo aquilo.
O
Mestre olhou pra ela com muita ternura e estendeu a mão para que ela o acompanhasse.
Eles saíram, em silêncio pelo mesmo caminho que haviam chegado. De repente, sem
que ela percebesse como, viu-se diante de um novo portal. Virou-se para o
Mestre cheia de dúvidas novamente.
―
Mestre, é por aqui que eu vou agora? Mas... eu vou sozinha?
Ele
percebeu a insegurança dela, logicamente, e perguntou se ela gostaria de voltar
acompanhada de um anjo guerreiro ou preferia voltar dormindo. Ela ficou meio
indecisa, mas por fim perguntou:
― Quem
seria esse anjo guerreiro Mestre?
Ele
mandou que ela olhasse para trás e mostrou quem a acompanharia no trajeto de
volta para o seu mundo.
Ela
virou-se e viu um anjo bem maior do que ela olhando para ela firmemente e bem
sério. Ficou assustada, pois nunca tinha visto outro ser vivo por ali, apenas o
Mestre, com Seu olhar doce e amoroso.
O
anjo parecia totalmente confiável, claro, mas ela sentiu-se intimidada e falou
baixinho para o Mestre esperando que o anjo não ouvisse.
― É...
sabe o que é Mestre? Eu... estou meio sem graça... Eu, bem, eu nem mesmo
saberia o que conversar com ele sabe? Eu acho que não teríamos muito “papo”,
ehehehe!... Será que eu posso voltar dormindo mesmo? Se ele não ficar
“bravo”... claro, pode ser, Mestre?
O
Mestre deu uma risada tão gostosa que fez com que ela mesma se sentisse bem
melhor. Como é que ela poderia imaginar que Jesus tinha esse senso de humor!!
Nunca tinha passado pela sua cabeça uma coisa dessas. Esse Mestre era mesmo
surpreendente!
―
Claro minha querida... disse Ele ainda sorrindo. Sem ofensas, certo? Aqui não
conhecemos isso.
Jesus
virou-se para o anjo e disse algo que ela não compreendeu, era uma língua
diferente. O anjo sorriu também e inclinou-se diante do Mestre dobrando as suas
asas até tocar os pés do Senhor. Depois disso, olhou para ela e fez um gesto
com a mão que ela também não entendeu, mas percebeu que era uma espécie de “cumprimento
celestial”. Ela deu um sorriso sem graça, quase um pedido de desculpas, e o
anjo sorriu abertamente para ela afastando-se rapidamente.
Em
seguida o Mestre tocou os olhos dela com a mão fechada enquanto lhe dava um
último abraço de despedida.
Ela
sentiu a mesma paz que sentia todas as vezes que ele tocava sua mão, sua cabeça
ou seu ombro. Sentiu também uma alegria sem explicação e em seguida teve a
sensação de que estava encolhendo e ficando bem pequena, diminuindo cada vez
mais... não sentia nenhum medo, apenas paz... De repente sentiu que estava
aninhada na concha da mão do Mestre, sentia um sono doce que logo a envolveu
completamente.
Adormeceu...
Em
seguida, o Mestre “soprou-a” da sua mão, com delicadeza, na entrada do portal, como se ela fosse uma
borboleta.
*********************
No
quarto da ala pediátrica do hospital, a Zezé saia do banheiro, com os olhos
vermelhos e sem palavras. Orando em pensamento o tempo todo, pois não sabia como
poderiam contar sobre a Drª Laura para a Mannu. Dr. Álvaro também estava
imóvel, na cama, agarrado à filha e sem saber o que fazer.
O dia
tinha perdido a cor e ela não conseguia mais disfarçar o que sentia por dentro.
Resolveu que a melhor coisa seria falar; com muito cuidado e o quanto antes.
Olhou para a menina encolhida no colo do pai e sentou-se ao lado deles sem
coragem nenhuma para falar, de novo.
A
Mannu foi quem resolveu o silêncio, como sempre.
―
Zezé, sabe que eu pensei que você tinha dormido no banheiro? Por que você
demorou tanto pra lavar a sua mão? Ela é tão pequenininha!!
Zezé
não respondeu e também não conseguiu olhar para a criança, que nem assim
percebeu o clima estranho no quarto. A Mannu olhou para o prato de bolo do pai
que permanecia intocado ali ao lado e falou:
―
Papai... e você nem provou o bolo da Zezé? Acho melhor o senhor ir procurar um
médico... o senhor deve estar bem dodói sabia? KKKKKKKKKK! Chama um médico lá Zezé!!! KKKKKKKKK!
Silêncio total...
Silêncio total...
A
Mannu percebeu, finalmente, que ninguém estava com ânimo pra rir...
Essa
era exatamente a pergunta que eles estavam esperando e se esforçando
mentalmente para estarem preparados para responder. Logo perceberam que não
estavam e nunca estariam. O silêncio caiu de novo, até que a Mannu pulou da
cama e se colocou na frente dos dois e começou a perguntar; já com cara de
choro.
O pai
se levantou enquanto a Zezé virou o rosto para o lado para conseguir segurar os
soluços. O Dr. Álvaro estava para pegar a filha no colo e explicar a situação
quando a porta do quarto se abriu repentinamente. Todos olharam para a
enfermeira que abrira a porta tão rispidamente e agora falava, tentando parecer
calma, mas, na verdade estava bem longe disso.
Quando
a Mannu ouviu isso, abriu um sorriso e perguntou:
― É a
mamãe?? A mamãe acordou né? É isso???
O
médico pegou a filha no colo e disse para ela se acalmar que ele ia ver o que estava acontecendo na UTI,
mas logo voltava. Enquanto isso, a Zezé ia ficar com ela ali mais um pouquinho,
só contando histórias bem bonitas pra ela. Depois, ele voltaria para conversar
com ela e com a Zezé sobre muitas coisas que ele estava planejando para aquele
ano. Disse isso esperando retardar um pouco mais o momento de provocar o que
ele considerava uma dor sem tamanho para o coraçãozinho meigo da filha.
A
Zezé entendeu, com alívio, que não era para contar ainda que a mãe tinha virado
estrelinha. Ela nem queria falar mesmo, estava ainda muito chocada, sem
palavras adequadas e muito menos coragem para essa tarefa.
A
Mannu insistiu mais um pouco com o pai, queria muito ir junto, mas, acabou
concordando em ficar ouvindo a “história bonita” da Zezé até o pai voltar para
dizer se ela já podia ir ver a mãe.
O
médico saiu com a enfermeira, andando como se tivesse acabado de completar 100
anos e tivesse empregado o resto das forças para soprar as velinhas do bolo. No
que fecharam a porta, a enfermeira segurou o braço dele e disse:
―
Doutor... é bom o senhor correr pra lá, nem vou acompanhar o senhor... porque a
Drª Eunice estava muito branca e muito nervosa quando falou comigo. Acho que a
coisa não está boa por lá...
Ele
ficou olhando para a moça, sem entender... "Como assim, a coisa não está boa?” Será
que aquela era a única criatura naquele hospital que ainda não sabia que a sua
esposa já tinha morrido? Não havia mais nada de “pior” para acontecer! Enfim, totalmente desanimado, nem quis explicar nada, só baixou a cabeça, murmurou um “ok, obrigado” e
saiu andando, sem pressa, deixando para trás a enfermeira imóvel no corredor,
olhando para ele com a cara de quem estava prestes a desmaiar, muito pálida
também, porém não disse nada, apenas ficou olhando o médico se afastar.
Caminhando
sem pressa nenhuma e olhando para baixo, o Dr. Álvaro nem percebeu o Dr
Salviano vindo ao encontro dele quase correndo. Só se deu conta disso quando o
colega chegou e segurou seus dois braços falando quase aos berros.
―
Álvaro!! Anda homem!! Ninguém está entendendo mais nada lá! A coisa está quase
beirando a histeria! Venha, vamos logo!!!
Dizendo
isso, o outro puxou o Dr. Álvaro pelo braço sem dar tempo para que ele
processasse mentalmente o significado daquilo tudo. Viu-se arrastado pelos
corredores correndo em direção à UTI. Ao chegarem na porta, a Drª Eunice estava
saindo.
Sem
entender nada, ele entrou e viu o alvoroço que estava aquele lugar. Todos
falando ao mesmo tempo no corredor; alguns, até exaltados demais, pareciam
estar discutindo sobre um possível erro médico, engano ou coisa parecida.
Dr. Álvaro evitou olhar na direção do quarto em que a Drª Laura estava, pois ainda não tinha visto a esposa depois que a Drª Eunice tinha declarado a sua morte. Ele sentia o coração descompassado e procurava ficar de costas para a porta fechada do quarto, sem coragem de se aproximar.
De
olhos baixos e braços cruzados, ele mal conseguia entender o que estava
acontecendo naquele lugar. Por fim se manifestou:
― Mas,
afinal de contas, que bagunça totalmente antiética é essa que está acontecendo
por aqui? Será que nem com uma morte no lugar esse pessoal não se contém?
Perguntou irritadíssimo com a algazarra que só diminuiu quando perceberam sua
presença ali. Aos poucos todos se aquietaram e o silêncio era já constrangedor
para todos.
O Dr
Salviano virou-se para ele e disse:
Antes
disso, ele virou-se para as pessoas ali e falou:
― Mais
tarde, quando eu estiver com espaço na cabeça para MAIS problemas, vamos ter
que conversar sobre essa gritaria aqui... em plena UTI! Disse isso virando-se
em direção à porta do quarto da esposa.
O Dr.
Salviano e a Drª Eunice o acompanharam fazendo gestos nervosos, atrás dele,
para que ninguém mais da enfermagem tentasse entrar no quarto. Todos
entenderam, só fizeram sinal de positivo e o silêncio continuou.
Na
porta, ele parou e quem teve que virar a maçaneta para abrir foi o Dr.
Salviano. Ele mesmo entrou primeiro e o Dr Álvaro logo atrás, com o passo
arrastado, tentando retardar aquele encontro com a realidade. Sua esposa estava
deitada no mesmo lugar, parecendo uma boneca de porcelana. Já haviam tirado o
respirador e os seus olhos estavam bem fechados.
O Dr.
Salviano e a Drª Eunice apenas olhavam para o colega e amigo. Ele aproximou-se
devagar do leito dela e a única coisa que conseguia ouvir eram as batidas do
seu próprio coração que parecia querer estourar dentro do peito. Até que o Dr.
Salviano tocou seu ombro e falou:
― Olhe
os gráficos amigo... E tente me explicar, por favor, que eu até agora não
entendi.
O
médico olhava e parecia não entender o que estava acontecendo. Só agora havia
percebido que os batimentos cardíacos apareciam normalmente na tela do monitor.
Olhou para os dois colegas e para a tela várias vezes até que perguntou num
grito que foi ouvido lá fora do quarto.
A Drª
Eunice apressou-se em explicar as coisas falando ao mesmo tempo em que o Dr Salviano
pedia para o médico se acalmar. O Dr Álvaro, por sua vez, falava cada vez mais
alto e descontroladamente.
A
médica saiu, e os dois ficaram lá, tentando controlar o tom de voz e os nervos.
Cada um falando em cima do outro.
―
Álvaro, não seja ridículo! Acha mesmo que alguém teria coragem de fazer alguma
brincadeira aqui? Já basta o que a pobre da Drª Eunice ouviu de alguns
enfermeiros lá fora! Estamos todos atônitos também, tanto quanto você!! Ninguém
consegue explicar!! Entenda isso e pare de acusar indiretamente, por favor! Os
nervos aqui estão à flor da pele homem! Se liga!! Não viu o alvoroço lá fora??
De
repente, o Dr. Álvaro pareceu perceber que o colega falava sério. Conhecia
todos ali e sabia do compromisso que cada um tinha com a ética e a seriedade no
serviço. Tentou colocar a cabeça em ordem e olhou para a esposa que continuava
inerte e de olhos fechados.
― Como
foi isso? Me conte do início, por favor...
O
outro respirou fundo e começou:
― Uma
das enfermeiras... ― O
nome! Eu quero o nome! ― interrompeu
o Dr. Álvaro ainda irritado.
― A
Célia... pra você ter uma ideia, foi a Célia. Você conhece aquela mulher. Ela
jamais inventaria algo assim, você sabe disso Álvaro!! Gritou o amigo passando
a mão nos cabelos várias vezes, com impaciência também.
Os
dois respiraram fundo novamente e tentaram se acalmar para que a conversa
continuasse em tom normal.
― Pois
bem... a Célia estava aqui, junto com a Elaine. As duas iam começar a preparar
a Drª Laura para... bem... pra você poder vê-la sem esses tubos todos em volta
dela antes do pessoal vir buscá-la para... bem você sabe...
― Sei,
sei sim... pode pular tudo isso. E depois?
― A
Célia falou que quando ia retirar o respirador ouviu o beep no monitor. Quando
olhou para lá estava tudo voltando ao normal... pode olhar você mesmo. Ninguém
mais mexeu no monitor depois que elas saíram gritando que o coração dela tinha
voltado a bater... sozinho...
―
Sim... mas alguém tirou o respirador...
―
Sim... e os gráficos continuaram ótimos, mesmo assim... Você está vendo todos
os números ali... Foi isso... Só. Depois disso, foi um alvoroço! Ninguém queria te
chamar, acabaram me chamando. Saí da cama para vir aqui examinar sua esposa.
Ela está ótima, tudo normal, mas não acordou, não sei por quê.
― Que
é isso?? Não entendo!! Dizia o Dr. Álvaro balançando a cabeça.
― Eu
também não... só sei que chegaram a dizer que a Drª Eunice declarou o óbito sem
checar direito etc e tal... Tentaram explicar de todas as maneiras, mas, a
Doutora é muito consciente, você sabe... Ela jura que verificou muito bem TUDO!
E os que estavam com ela dizem a mesma coisa!
Ao
olhar para a esposa de novo, pareceu ver seus olhos se moverem como se fossem
se abrir. Se aproximou rapidamente e ficou olhando fixamente para o rosto
totalmente imóvel dela. Se ajoelhou ao lado da cama e começou a chorar e falar
com ela.
―
Querida! Minha querida, se você está mesmo aí, abra esses olhos, por favor!!
Fale comigo!!
O
amigo só apertava seu ombro, sem saber o que dizer ou fazer. Queria consolar o
amigo, mas não sabia como! De repente, no meio dos soluços do Dr. Álvaro,
ouviu-se uma voz bem fraca, mas perfeitamente compreensível:
― Oi
amor! Estou aqui sim...
Os
dois olharam pasmos para o rosto da Drª Laura que acabava de abrir os olhos.
Desta
vez até o Dr. Salviano encheu os olhos de lágrimas. Olhou para o amigo que, a esta altura, chorava descontroladamente ao mesmo tempo em que beijava a mão da mulher, a
testa, e os olhos, sem saber o que fazer. As únicas palavras que ele dizia, o
Dr. Salviano entendeu muito bem...
― Meu
Deus, meu Pai!! Obrigado!!! Não sei o que dizer! Não tenho palavras!!! Obrigado
Deus!!! Obrigado!!! Muito obrigado!!! Obrigado Deus Poderoso!!! E chorava,
beijando o rosto, os olhos e as duas mãos da mulher que só conseguia chorar
também.
O Dr.
Salviano ficou tão emocionado com a cena que até colaborou com um AMÉM meio sem
jeito no meio da oração do amigo. Depois, enxugou os olhos, deu um pulo e um
soco no ar dizendo ISSO AÍ!!! E saiu
correndo dali, avisando o mundo inteiro.
O
hospital virou uma festa e todos corriam para avisar uns aos outros, tentando
não fazer muito barulho, para não incomodar os outros pacientes e os demais que
não tinham nada a ver com a história. As discussões acaloradas continuaram,
cada um tentando dar a sua própria opinião sobre o assunto.
No quarto
da pediatria, a Zezé arrematava uma história para a Mannu quando o próprio Dr
Álvaro entrou, ofegante, tinha corrido o trajeto todo para dar a notícia mais
linda da vida dele para sua filha e a Zezé.
Foram
os três correndo para a UTI... A Mannu gargalhando no colo do pai que corria
desajeitado, e a Zezé atrás, correndo com passos miúdos e chorando de novo. O
pessoal todo olhando, rindo e aplaudindo! Era só o que conseguiam fazer afinal...
NA UTI, A CENA NÃO PODERIA SER OUTRA...
FIM...



























